No instante em que atravessei a névoa, um cheiro horrível me acertou em cheio.
O que… é esse fedor…?
Um mau cheiro que queimava até o fundo do nariz. Quase desmaiei.
Olhei ao redor.
Fiquei sem palavras. Era a primeira vez na vida que via uma miséria tão grande.
Pessoas jogadas no chão, gemendo de dor, com corpos imundos cobertos por trapos esfarrapados.
Puxei o capuz do manto bem fundo e apaguei a lanterna.
Se descobrissem que sou nobre, com certeza me atacariam. Meu corpo tremia de medo.
Eu já sabia mais ou menos como era pelas descrições dos livros, mas… nunca imaginei que fosse tão horrível assim.
É várias vezes pior do que qualquer coisa que li.
No jogo, o que a heroína fazia com esse lugar mesmo?
O fedor insuportável interrompia meus pensamentos.
Pra ser sincera, não quero ficar aqui nem mais um minuto. Eu sou uma vilã, não tenho compaixão nenhuma. Não me passa pela cabeça querer melhorar essa situação.
Se eu estiver bem, tá ótimo. Isso é ser vilã.
Mas… meus pés começaram a andar para a frente.
Tinha crianças deitadas no chão também. Magras demais…
Cheguei a uma praça, acho. No centro havia uma fonte, mas sem água jorrando.
Só um poço de água suja acumulada. Na praça, dezenas de pessoas dormiam espalhadas.
Tanta gente sem casa? As construções ao redor pareciam prestes a desabar. Rachaduras por todo lado, buracos nas paredes.
E a única luz da vila à noite eram velas. Nada de postes, nem lua no céu.
Nuvens grossas cobriam tudo, e o ar estava pesado, estagnado.
— Moça.
Uma voz repentina fez minha espinha gelar.
Estaria falando comigo? Será que descobriram que sou de fora?
Meu manejo de espada está bem afiado, mas… não trouxe espada nenhuma.
Se eu correr com tudo, será que consigo escapar? Não quero morrer num lugar desses.
Ainda nem infernizei a heroína!
— Moça — repetiu a voz, e uma mão pousou de leve no meu ombro.
Uma vilã não choraria, mas… nessa situação, até que é compreensível, né?
Com os olhos marejados, olhei para a mão no meu ombro.
Uma mão grande, com algumas rugas… Virei devagar.
Era um senhor de cabelos brancos. Parecia idoso por causa do cabelo, mas provavelmente é mais jovem do que imagino. Parece até que ele faz de propósito pra parecer mais velho.
Lábios finos, nariz alto, traços bem harmoniosos… Por que ele está de olhos fechados?
Será que… é cego?
Todo o medo que eu sentia desapareceu num instante.
Não foi só porque ele é cego, mas uma intuição forte me disse que esse homem é bom.
A aura calorosa que ele emanava me transmitiu isso.
Mesmo sendo mais velho, dava pra ver que ele tem um rosto bonito.
As pessoas desse reino são todas assim tão bem-apessoadas?
— Você não é daqui, né? — disse ele, com uma voz gentil.
Como ele soube, se não enxerga?
Respondi com um fio de voz:
— Não…
— Esse lugar é perigoso. É melhor voltar pra casa logo.
— Mas eu… é que…
— Venha comigo — interrompeu ele, começando a andar devagar.
Meu pai sempre disse pra nunca seguir estranhos, mas… com esse senhor, sinto que não tem perigo.
Embora, né, essa sensação de “parece boa gente” seja exatamente a mais perigosa. Pessoas que parecem inofensivas é que são as piores.
Mesmo assim, algo me diz que ele é confiável. Eu tenho um bom olho pra julgar pessoas.
Como é mesmo que chama? Farol? Não… visão aguçada? Isso! Acho que tenho uma percepção especial. Posso até estar me achando, mas meus olhos veem as coisas de um jeito diferente.
Tipo a leitura ultrarrápida… e, nos treinos de espada com meus irmãos, os movimentos deles parecem em câmera lenta.
Quando parti a maçã ao meio, a queda dela também pareceu em slow motion.
Nem percebi, mas o senhor já estava bem à frente. Mesmo sem enxergar, ele desviava perfeitamente das pessoas deitadas no chão, avançando sem tropeçar. Será que ele enxerga, afinal?
Hesitei um pouco, mas decidi segui-lo.