Como ele consegue andar sem esbarrar em nada, nem virar nas curvas, mesmo de olhos fechados?
Uma pessoa assim não apareceu no jogo, né? Só mencionavam a existência da vila de pobreza.
… Isso! Agora lembrei!
A vila de pobreza é considerada uma zona tão perigosa que dizem que quem entra não sai vivo, por isso a heroína nunca veio aqui.
Eu, que coloquei os pés num lugar desses… Será que vou conseguir voltar viva? Pode até acabar sendo devorada.
Mas o senhor me aconselhou a voltar pra casa logo… Então deve estar tudo bem, né?
Mesmo assim, nunca imaginei que existisse um lugar tão horrível… Um lugar onde se ouve gemidos o tempo todo.
Meu corpo tremia. Tem dezenas de milhares de pessoas aqui. E muitas vão morrer sem nem conhecer a luz da lua.
Talvez nem a luz do sol…
Mas acho que a heroína propôs alguma coisa no jogo. Ah, droga. Esse fedor é poderoso mesmo. Não consigo lembrar nada.
— Chegamos — disse o senhor, entrando numa cabana que parecia prestes a ruir.
Hesitei por um instante, mas entrei também.
O interior era mais normal do que eu esperava. Normal no sentido de ter uma cama caindo aos pedaços, uma mesinha de madeira pequena com duas cadeiras e uma lareira que parecia não funcionar.
— É apertado, mas seja bem-vinda — disse ele, puxando levemente a cadeira pra mim.
Todos os gestos desse senhor eram de um verdadeiro cavalheiro.
Ele sentou na cadeira em frente. Eu também me sentei.
— Desculpe não ter chá decente pra oferecer.
— Não se preocupe, por favor.
— Então, moça, por que veio a um lugar perigoso como este? Pelo jeito, você é de uma família de alta posição, não é?
Fiquei assustada. Como ele sabe que sou de família nobre se está de olhos fechados?
E eu ainda estou de capuz… Entrar na casa de alguém e continuar com o capuz é falta de educação. Tirei-o depressa.
… Espera aí, antes mesmo de ser nobre, como ele soube que eu sou uma garota?
— O senhor enxerga? — perguntei, antes de responder à pergunta dele.
Que falta de educação da minha parte. E eu nem me apresentei ainda.
O senhor sorriu com gentileza.
— Não enxergo.
— Então, como…
— Mesmo sem enxergar, consigo sentir as coisas. Perdi só a visão, mas os outros sentidos continuam aqui.
Mesmo assim, a quantidade de informação que vem pela visão é imensa.
Não tem como saber pelo cheiro ou ouvido que sou uma nobre.
— Mesmo com a visão toda escura, dá pra sentir o ar ao redor. A respiração, o som dos passos, o número de passos, o farfalhar da roupa, o perfume… Tudo era diferente do que tem nesse lugar — explicou ele, como se lesse minha mente.
— O senhor nasceu sem visão? — perguntei.
Ao ouvir isso, o rosto dele se toldou.
— Não. Perdi a visão quando tinha vinte e poucos anos.
Perdi a visão…? O que isso significa…?
— Eu trabalhava no palácio real antigamente — disse ele, com um sorriso sereno, mas com uma expressão meio melancólica.