Switch Mode

Rekiaku – Capítulo 21

Como ele consegue andar sem esbarrar em nada, nem virar nas curvas, mesmo de olhos fechados?

Uma pessoa assim não apareceu no jogo, né? Só mencionavam a existência da vila de pobreza.

… Isso! Agora lembrei!

A vila de pobreza é considerada uma zona tão perigosa que dizem que quem entra não sai vivo, por isso a heroína nunca veio aqui.

Eu, que coloquei os pés num lugar desses… Será que vou conseguir voltar viva? Pode até acabar sendo devorada.

Mas o senhor me aconselhou a voltar pra casa logo… Então deve estar tudo bem, né?

Mesmo assim, nunca imaginei que existisse um lugar tão horrível… Um lugar onde se ouve gemidos o tempo todo.

Meu corpo tremia. Tem dezenas de milhares de pessoas aqui. E muitas vão morrer sem nem conhecer a luz da lua.

Talvez nem a luz do sol…

Mas acho que a heroína propôs alguma coisa no jogo. Ah, droga. Esse fedor é poderoso mesmo. Não consigo lembrar nada.

— Chegamos — disse o senhor, entrando numa cabana que parecia prestes a ruir.

Hesitei por um instante, mas entrei também.

O interior era mais normal do que eu esperava. Normal no sentido de ter uma cama caindo aos pedaços, uma mesinha de madeira pequena com duas cadeiras e uma lareira que parecia não funcionar.

— É apertado, mas seja bem-vinda — disse ele, puxando levemente a cadeira pra mim.

Todos os gestos desse senhor eram de um verdadeiro cavalheiro.

Ele sentou na cadeira em frente. Eu também me sentei.

— Desculpe não ter chá decente pra oferecer.

— Não se preocupe, por favor.

— Então, moça, por que veio a um lugar perigoso como este? Pelo jeito, você é de uma família de alta posição, não é?

Fiquei assustada. Como ele sabe que sou de família nobre se está de olhos fechados?

E eu ainda estou de capuz… Entrar na casa de alguém e continuar com o capuz é falta de educação. Tirei-o depressa.

… Espera aí, antes mesmo de ser nobre, como ele soube que eu sou uma garota?

— O senhor enxerga? — perguntei, antes de responder à pergunta dele.

Que falta de educação da minha parte. E eu nem me apresentei ainda.

O senhor sorriu com gentileza.

— Não enxergo.

— Então, como…

— Mesmo sem enxergar, consigo sentir as coisas. Perdi só a visão, mas os outros sentidos continuam aqui.

Mesmo assim, a quantidade de informação que vem pela visão é imensa.

Não tem como saber pelo cheiro ou ouvido que sou uma nobre.

— Mesmo com a visão toda escura, dá pra sentir o ar ao redor. A respiração, o som dos passos, o número de passos, o farfalhar da roupa, o perfume… Tudo era diferente do que tem nesse lugar — explicou ele, como se lesse minha mente.

— O senhor nasceu sem visão? — perguntei.

Ao ouvir isso, o rosto dele se toldou.

— Não. Perdi a visão quando tinha vinte e poucos anos.

Perdi a visão…? O que isso significa…?

— Eu trabalhava no palácio real antigamente — disse ele, com um sorriso sereno, mas com uma expressão meio melancólica.

Comentários

error: Content is protected !!

Opções

não funciona no modo escuro
Redefinir