— No palácio real…?
Como alguém que trabalhava no palácio acabou numa vila de pobreza como esta…?
— Discordei de uma opinião e acabei contrariando uma pessoa importante. Ele ficou furioso e… me tiraram a visão. Depois disso, me mandaram pra cá — explicou ele.
— Que… tipo de discordância foi essa? — perguntei, sentindo minha voz tremer.
— Qual é o seu nome?
— Alicia.
— Alicia… Um nome bonito. Eu sou Will. Só Will mesmo.
Ele disse isso e acariciou levemente minha cabeça.
Como ele soube que expressão eu estava fazendo? Fiquei mais calma.
— Alicia, talvez você ainda não consiga entender, mas nem tudo que é antigo é bom. Sabe por que olhamos para a história?
Sabia que precisava responder, mas as palavras não saíam.
— Não é pra confirmar que o passado era melhor. Olhamos para a história pra aprender com os erros antigos e criar algo melhor, um desenvolvimento novo.
Sem perceber, lágrimas escorriam pelo meu rosto.
Will-san secou minhas lágrimas com gentileza.
— Você é uma criança muito inteligente. Acumular conhecimento pra gerar sabedoria é importante, mas se não souber transformar esse conhecimento em sabedoria, não serve de nada.
— Will-san… você odeia os nobres? Odeia o palácio? — perguntei.
Notei que a expressão dele endureceu.
— Se eu disser que não odeio, seria mentira. Até hoje, procuro nos sonhos o reflexo do meu antigo eu. Quando tento tocar o mundo colorido nas minhas memórias, ele desaparece num instante. Isso ainda me machuca às vezes. Mas eu acredito que não fiz nada errado. E acredito que um dia alguém vai entender isso. Quando penso assim, consigo viver com orgulho do que fiz.
Fiquei envergonhada de mim mesma. Aos oito anos, pela primeira vez entendi o quanto sou privilegiada.
As lágrimas não paravam. Chorei com soluços. Sabia que estava feia, mas não conseguia parar.
Raiva contra nobres na mesma posição que eu, a grandeza do pensamento de Will-san que perdeu a visão, a pequenez do meu desejo de ser vilã… Todos os sentimentos se misturaram e eu perdi o controle.
Will-san me abraçou com carinho. Nunca vou esquecer esse calor na vida.
Contei tudo pra ele sem esconder nada: que quero ser uma vilã.
E que vim aqui por causa disso.
Will-san ouviu tudo em silêncio até o fim.
Quando terminei, ele sorriu com gentileza e acariciou minha cabeça de novo.
— Você é uma criança muito sábia.
Chorei baixinho.
Com certeza minha cara está horrenda agora. Amanhã de manhã meus olhos nem vão abrir de tão inchados.
— Quer ser vilã, então treina espada e lê montes de livros todo dia…
Assenti com força.
Ele riu, franzindo os cantos dos olhos.
— Continue com essa determinação, por favor.
Pra minha surpresa, ele incentivou que eu me tornasse vilã. Por quê…?
Vilã é uma mulher má. Uma mulher que só pensa no próprio bem…
— Volte pra casa hoje.
— Eu vou voltar outra vez.
Will-san fez uma expressão preocupada com minha resposta.
— É melhor não vir.
— Não. Quero conversar mais com Will-san.
Ele ficou parado um instante, depois abriu um sorriso e disse:
— Obrigado.
Será que ele percebeu que sou teimosa e, quando decido algo, vou até o fim?
Saí da cabana de Will-san e caminhei em direção à névoa.
O cheiro ainda era insuportável. Tampei o nariz com a mão.
Atravessei a névoa e voltei pra floresta. Corri com a lanterna apagada.
O medo da ida desapareceu completamente na volta. Enquanto corria, só pensava na vila de pobreza.
Se eu tivesse que descrever a vila de pobreza em uma palavra: região em decomposição.
Normalmente eu nunca mais colocaria os pés lá, mas… quero falar mais com Will-san.
Ele é a pessoa mais sábia que já conheci na vida.