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Rekiaku – Capítulo 22

— No palácio real…?

Como alguém que trabalhava no palácio acabou numa vila de pobreza como esta…?

— Discordei de uma opinião e acabei contrariando uma pessoa importante. Ele ficou furioso e… me tiraram a visão. Depois disso, me mandaram pra cá — explicou ele.

— Que… tipo de discordância foi essa? — perguntei, sentindo minha voz tremer.

— Qual é o seu nome?

— Alicia.

— Alicia… Um nome bonito. Eu sou Will. Só Will mesmo.

Ele disse isso e acariciou levemente minha cabeça.

Como ele soube que expressão eu estava fazendo? Fiquei mais calma.

— Alicia, talvez você ainda não consiga entender, mas nem tudo que é antigo é bom. Sabe por que olhamos para a história?

Sabia que precisava responder, mas as palavras não saíam.

— Não é pra confirmar que o passado era melhor. Olhamos para a história pra aprender com os erros antigos e criar algo melhor, um desenvolvimento novo.

Sem perceber, lágrimas escorriam pelo meu rosto.

Will-san secou minhas lágrimas com gentileza.

— Você é uma criança muito inteligente. Acumular conhecimento pra gerar sabedoria é importante, mas se não souber transformar esse conhecimento em sabedoria, não serve de nada.

— Will-san… você odeia os nobres? Odeia o palácio? — perguntei.

Notei que a expressão dele endureceu.

— Se eu disser que não odeio, seria mentira. Até hoje, procuro nos sonhos o reflexo do meu antigo eu. Quando tento tocar o mundo colorido nas minhas memórias, ele desaparece num instante. Isso ainda me machuca às vezes. Mas eu acredito que não fiz nada errado. E acredito que um dia alguém vai entender isso. Quando penso assim, consigo viver com orgulho do que fiz.

Fiquei envergonhada de mim mesma. Aos oito anos, pela primeira vez entendi o quanto sou privilegiada.

As lágrimas não paravam. Chorei com soluços. Sabia que estava feia, mas não conseguia parar.

Raiva contra nobres na mesma posição que eu, a grandeza do pensamento de Will-san que perdeu a visão, a pequenez do meu desejo de ser vilã… Todos os sentimentos se misturaram e eu perdi o controle.

Will-san me abraçou com carinho. Nunca vou esquecer esse calor na vida.

Contei tudo pra ele sem esconder nada: que quero ser uma vilã.

E que vim aqui por causa disso.

Will-san ouviu tudo em silêncio até o fim.

Quando terminei, ele sorriu com gentileza e acariciou minha cabeça de novo.

— Você é uma criança muito sábia.

Chorei baixinho.

Com certeza minha cara está horrenda agora. Amanhã de manhã meus olhos nem vão abrir de tão inchados.

— Quer ser vilã, então treina espada e lê montes de livros todo dia…

Assenti com força.

Ele riu, franzindo os cantos dos olhos.

— Continue com essa determinação, por favor.

Pra minha surpresa, ele incentivou que eu me tornasse vilã. Por quê…?

Vilã é uma mulher má. Uma mulher que só pensa no próprio bem…

— Volte pra casa hoje.

— Eu vou voltar outra vez.

Will-san fez uma expressão preocupada com minha resposta.

— É melhor não vir.

— Não. Quero conversar mais com Will-san.

Ele ficou parado um instante, depois abriu um sorriso e disse:

— Obrigado.

Será que ele percebeu que sou teimosa e, quando decido algo, vou até o fim?

Saí da cabana de Will-san e caminhei em direção à névoa.

O cheiro ainda era insuportável. Tampei o nariz com a mão.

Atravessei a névoa e voltei pra floresta. Corri com a lanterna apagada.

O medo da ida desapareceu completamente na volta. Enquanto corria, só pensava na vila de pobreza.

Se eu tivesse que descrever a vila de pobreza em uma palavra: região em decomposição.

Normalmente eu nunca mais colocaria os pés lá, mas… quero falar mais com Will-san.

Ele é a pessoa mais sábia que já conheci na vida.

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