Graças ao “ato assassino” do Kumayuru, conseguimos a localização do esconderijo pelos dois vigias. Agora, o que fazer com eles? Enquanto eu pensava nisso, Blitz e os outros apareceram. Pareciam ter bastante dificuldade para subir a encosta íngreme. Glimos era a pior, carregando aquela espada enorme. Quando me viram, deixaram escapar um suspiro de alívio.
– Yuna, você está bem? – perguntou Rosa.
– Tô bem.
– E então?!
– Eles eram bandidos.
O grupo olhou para os homens presos sob o Kumayuru.
– Consegui a localização do esconderijo com eles, então estava pensando em ir para lá agora. O que fazemos com esses dois?
– Não podemos levá-los junto – ponderou Rosa –, mas também não podemos deixá-los aqui.
– Nesse caso, que tal cavarmos um buraco e enterrarmos eles? Depois a gente cava de volta.
– Q-q-quê?! Pelo amor, não!
– A-a gente contou o e-e-esconderijo, não contou?!
– Ehh, vocês vão ficar bem. A gente deixa a cabeça de fora e tudo.
Embora… se esquecêssemos deles, ficariam ali até o fim de suas vidas incrivelmente curtas.
– Eu fico para trás – disse Glimos, finalmente recobrando o fôlego. – Com essa espada, sou só peso morto. Vou cuidar dos dois e esperar lá embaixo.
Ela tirou uma corda da bolsa dimensional e começou a amarrar os ladrões. Assenti.
– Certo. Se estiverem mentindo, teremos que interrogá-los de novo mesmo.
– Nesse caso – disse Rosa –, contamos com você, Glimos. Se não voltarmos, por favor avise o guild.
Glimos assentiu obedientemente, e eu me perguntei quando foi a última vez que Blitz realmente deu uma ordem sozinho.
Deixamos os dois prisioneiros aos cuidados de Glimos e seguimos para o esconderijo dos bandidos. Parecia que eles usavam bastante aquela trilha; já parecia quase um caminho de animais. Depois de seguir na direção indicada, eu poderia usar o meu Detector e o Kumayuru para localizar com precisão.
– Mesmo assim – disse Rosa –, fiquei surpresa que realmente tinha alguém lá.
– Tudo graças ao meu urso!
Não ia contar sobre meu Detector, afinal. Mas Kumayuru ajudou mesmo, então não era mentira.
– Eu queria um urso também… – Ran abraçou Kumayuru com inveja.
Hm. Boa sorte com isso.
Depois de mais algum tempo de caminhada, vários sinais humanos apareceram, inesperadamente perto. Era ali.
– Estamos indo às cegas – disse Blitz, nervoso. – Tem certeza de que é aqui?
– Relaxa. A gente tem meu urso. Só precisamos chegar perto.
Eu já tinha localizado eles.
– Mas há uma chance daqueles bandidos terem mentido – insistiu Blitz.
Que saco. Então, Kumayuru, por favor… Como se tivesse ouvido meus pensamentos, Kumayuru reagiu.
– Parece que meu urso encontrou eles.
– Sério?
– Aham. E estão perto. Querem descansar?
Eu não – estava montada no Kumayuru o tempo todo.
– Estou bem.
– Eu também.
– Eu consigo continuar.
Ótimo. Seguimos em frente. Kumayuru abria caminho esmagando a vegetação, e os três vinham atrás. Os sinais estavam cada vez mais próximos.
– Acho que estamos quase. Façam silêncio.
Eles assentiram. Empurramos a vegetação e vimos um espaço aberto e, mais à frente, a entrada de uma caverna. Uns dez homens estavam espalhados em frente à caverna, sendo servidos por várias mulheres no meio do dia. Exatamente como os prisioneiros haviam dito. Provavelmente reféns.
“Ugh.”
Pelo Detector, havia sinais dentro da caverna também. Queria saber magicamente se era mais reféns ou mais problemas.
– Então realmente era aqui.
– Parece que têm reféns.
– O que vamos fazer?
– Eu posso cuidar de todos – declarei.
– Yuna, não é hora de brincar – Rosa sussurrou.
– Com reféns, é complicado – disse Ran.
– A única opção é atacarmos de surpresa – opinou Blitz.
A maior preocupação eram as mulheres capturadas, além dos sinais na caverna. E mais cedo ou mais tarde perceberiam que os vigias não voltaram. Não tínhamos muito tempo.
– Chamamos a Glimos?
– Ela vai demorar.
– Então o que fazemos?
Isso era inútil. Quanto mais os três conversassem, menos iam resolver.
– Se for demais para vocês, eu entro sozinha. Não era brincadeira.
Queria ir logo embora. Não tinha uma refeição me esperando?
Ordenei Kumayuru a avançar…
– Espere, Yuna! Vamos conversar!
Não. Kumayuru e eu saltamos para a clareira.
Foi então que percebi que talvez esse tipo de coisa fosse mesmo o motivo de eu ser péssima em jogar em grupo. Muito a refletir.
– O que foi aquilo?!
– Um urso!
– É um urso!
Pontos pela precisão, pelo menos.
Saltei do Kumayuru e, assim que meus pés tocaram o chão, criei um buraco profundo sob quatro bandidos que estavam afastados das mulheres. Eles caíram. Provavelmente se machucaram, mas tiveram sorte de eu não matar eles.
– Kumayuru! Não deixe ninguém fugir!
Queria que ele protegesse as mulheres, mas não queria assustá-las.
– Quem diabos é você?!
Os homens cambalearam enquanto se levantavam, lentos pela bebedeira idiota. Assim que se afastaram das mulheres, disparei tiros de ar neles, derrubando-os e abrindo mais buracos sob seus pés.
– Yuna, atrás de você!
Virei. Uma bola de fogo vinha na minha direção. Levantei a mão esquerda – a pata branca – e… o fogo sumiu.
Três homens estavam à minha frente, cajados em mãos. Tentaram lançar magia de novo, mas desviei para o lado e lancei um tiro de ar contra suas cabeças. Não era difícil, já que eu tinha correção de alvo e o ataque era invisível. Impossível desviar.
– Kumayuru, pode cuidar desses?
Se usavam magia, provavelmente conseguiriam subir do buraco.
Restavam três homens.
– Quem é você, afinal?!
Eles se agruparam e seguraram uma refém.
Melhor agir logo. Se deixasse eles falarem, os outros poderiam se recuperar. E ainda havia a caverna…
Eu devia me preocupar com a caverna.
Não respondi nada. Apenas lancei tiros de ar nos dois homens com espadas, derrubando-os.
Sobrou um.
– Q-quê…?
O homem com a espada encostada no pescoço da mulher… piscou. Só isso.
Hora de magia de fortalecimento!
Avancei e agarrei a espada dele com a pata branca. Eu poderia simplesmente socá-lo, mas não queria arriscar ferir a mulher.
– Solta!
Ele tentou puxar, mas a espada não se mexeu.
– Monstro!
Sem piadinhas. Dei um soco bem na cara dele com a pata preta agora que tinha a espada firme. Ele voou.
– Você está bem? – perguntei à mulher.
Ela apenas assentiu, tremendo, lágrimas nos olhos. Pelos bandidos, né? Não que fizesse diferença.
Acabou. Eu era a única ainda de pé. As mulheres estavam bem, e Blitz e os outros correram para acalmá-las.
– Yuna, você não se machucou?! – Rosa veio até mim.
– Tô bem.
– Mas parecia que você foi atingida pela magia!
– Pfff. Isso não me machuca. Agora… dá para vocês cuidarem dos bandidos e das mulheres?
Foi nesse momento que eles apareceram da caverna. Vários guerreiros enormes. O homem no centro emanava uma aura estranha. Tinha uma espada gigante e uma cicatriz em teia de aranha no rosto.
– O que está acontecendo aqui?! – rugiu ele ao analisar a cena. – Foi você quem fez isso?!
Ele não olhava para mim, mas para Blitz e os outros.
– Omos? É você? – perguntou Blitz. – O que está fazendo aqui, seu canalha?!
– Tô trabalhando.
– Trabalhando?!
– Eu ataco viajantes, roubo o dinheiro e pego as mulheres. Trabalho fácil.
– Quem é? – sussurrei para Rosa.
– Um aventureiro que conhecemos em outra cidade. Forte, mas machista, egoísta e intragável. Ninguém aguentava trabalhar com ele, então desapareceu. Nunca pensei que viraria bandido.
– Bandido? – ele rosnou. – Isso é trabalho de aventureiro! O mestre do guild de comércio me contratou.
– Do guild de comércio?! – eu soltei.
– Vai mesmo dizer isso? – Blitz se adiantou.
– E o que importa? Você vai morrer, garoto. E suas mulheres vão servir bebida para mim. – Ele gargalhou.
– Seu monstro repugnante! – Rosa gritou.
– Você, garotinha… – Omos sorriu torto. – Que sorte a minha reencontrar você. – Ele lambeu os lábios.
Blitz desembainhou a espada…
E Omos voou.
Porque eu dei um soco nele.
Aquele homem tinha uma cara tão socável. E ele não parava de falar. Pisei em cima dele e continuei socando. E socando. E socando. Parei antes de deixá-lo inconsciente, claro.
– Seu desgraçado!
Soco de urso, soco de urso, soco de urso, soco de urso!
– P-para…!
Ele levantou a mão. Considerando o pedido dele…
Soco de urso, soco de urso, soco de urso, soco de urso!
– Ch-chega…!
Não.
Soco de urso, soco de urso, soco de urso, soco de urso!
O rosto dele parecia uma peça de cerâmica feita por um amador e rejeitada. Ele tentou levantar a mão de novo… Eu a desviei e continuei socando. A mão dele caiu mole no chão.
– Ahh, isso foi bom – falei, estalando os dedos.
Huh.
Blitz, os bandidos da caverna e as mulheres estavam me olhando.
– O que foi?
– O-o que foi? – alguém gaguejou.
– Querem bater nele também? A cara já era, mas tem outras partes. Mandem ver. Não matem, mas podem bater. Vamos precisar interrogar ele depois.
– Você se conteve… – Rosa murmurou, horrorizada com a massa de carne que era o rosto do homem.
Algo no que ele disse ficou na minha cabeça: o mestre do guild de comércio. Os aventureiros que me atacaram na pousada também disseram isso. Já estava começando a achar que o sujeito também tinha inventado a história do kraken.
– E vocês? – perguntei aos outros bandidos. – Querem vir quietos ou querem acabar como ele?
Eles olharam para Omos.
Olharam para mim.
Olharam para o chão… e jogaram as armas.
– A caverna – perguntei. – Tem mais alguém?
– N-não. Só mais mulheres.
Resgatamos as mulheres e recuperamos vários objetos roubados. Eles tinham cavalos e carroças no pé da montanha, então aproveitamos. Amarramos todos os bandidos, jogamos na carroça e voltamos à cidade portuária.
– A gente não fez nada – disse Ran.
– Sim, e não acredito que Omos caiu tão fácil – disse Rosa.
Omos estava consciente, mas sem se mover. Tentou fazer escândalo uma vez, então eu usei magia de vento para lançar ele para o céu e deixá-lo cair dezenas de vezes – com uma almofada de vento no chão, claro. Quando desmaiava, eu jogava água para acordar. Ele implorou pela morte uma hora, o que foi divertido, mas não ia dar essa moleza.
Havia muitas coisas que eu precisava saber dele ainda. E, depois, ele teria que responder por seus crimes… mas não para mim. Para as mulheres que ele sequestrou, para as famílias das pessoas que ele matou, para os moradores passando fome.
Pegamos Glimos no caminho e, ao chegarmos à cidade, o guarda correu até nós.
– Isso é…
Ele parecia chocado – com a gente, com as mulheres resgatadas, com os bandidos.
– Pegamos todos os bandidos – disse Blitz. – Queremos reportar ao mestre do guild dos aventureiros.
Ele voltou a agir como líder. Tanto faz.
– Vou avisar imediatamente! – O guarda correu ao guild.
Enquanto isso, ajudamos as mulheres a descer. Elas choraram, abraçaram-se. Eu podia imaginar o que haviam passado, mas não sabia o que dizer. Além do abuso dos bandidos, havia as pessoas que partiram com elas – maridos, pais, filhos. E já não estavam ali. Nunca mais.
Então fiquei em silêncio, mesmo quando me agradeciam.
Isso não era o Japão. Nem um jogo. Era um mundo. Um mundo real. Não podia esquecer.
Depois de um tempo, Atola e um funcionário do guild vieram.
– Yuna! Você realmente os capturou?!
– Com a ajuda da Rosa e dos outros.
– A gente não fez nada – Rosa insistiu.
Mas não era verdade – eles amarraram os bandidos, cuidaram das mulheres, dirigiram a carroça. Eu não podia fazer tudo sozinha.
– Você está brincando. Esses são os bandidos? – Atola olhou para eles.
– Você reconhece?
– São aventureiros daqui da cidade portuária. Achei que fugiram por causa do kraken, mas… – ela cuspiu no chão. – Bandidos. Vergonhoso.
Os ex-aventureiros desviaram o olhar, envergonhados.
– Descobrimos algo interessante com eles – falei.
– Algo interessante?
Contei a ela sobre o mestre do guild de comércio.
– Isso é realmente interessante. Eu descobri algumas coisas também – Atola sorriu. Um sorriso afiado e furioso.
