Capítulo 189 – A Agulha do Domínio e o Dragão Azul
— Falando franCAmente, iSSo aqui não é obra da doutora Babylon.
— Quer dizer que não é algo que caiu do "Depósito"?
— SIm.
O Wyvern que derrotei em Riflet. Ao mostrar pra Shesca o espeto que estava cravado nele, ela afirmou isso com convicção. A Rosetta também pegou o espeto colocado na mesa e ficou observando por um tempo, até que abriu a boca.
— Isto aqui é a "Agulha do Domínio Sonoro", saibam. Obra da doutora Erukusu.
— Erukusu?
— Doutora Debora Erukusu. Era chamada de artesã mágica de primeira linha em Parteno, saibam. Bom, muito abaixo da doutora Babylon, é claro.
Então existia uma pessoa assim. Fiquei aliviado por não ser coisa do "Depósito". Não que eu precise me sentir responsável por isso, mas, sei lá, dá um certo alívio. No fim das contas, um instrumento é o que o coração de quem usa faz dele — se alguém é o maior culpado, é quem usou sabendo do risco.
Tanto com a "Joia da Imortalidade" quanto com a "Pulseira de Absorção de Magia" e a "Pulseira de Barreira", as pessoas se afundaram na própria ambição e se destruíram. Mas também existe gente, como o rei fundador de Lestia, que dominou a espada sagrada e se tornou rei amado pelo povo.
Bom, isso não quer dizer que não vou cobrar a responsabilidade de gerenciar melhor o "Depósito", claro.
— A doutora Erukusu, como direi, nutria uma forte rivalidade contra a doutora Babylon, saibam. As obras dela, na visão da doutora Babylon, eram descritas assim: "poderosas, mas com problema de segurança", "versáteis, mas impõem carga excessiva ao usuário", "sem originalidade nenhuma, sem graça", esse tipo de coisa.
— Como a doutora Babylon criava, com facilidade, coisas melhores do que as da doutora Erukusu, isso só piorava a rivalidade, saibam.
Bem a cara daquela doutora. Deve ter provocado bastante, sem sombra de dúvida.
Assim como Oda Nobunaga e Akechi Mitsuhide, será que gênio e talentoso simplesmente não combinam? Provavelmente, a doutora Babylon nem levava a sério aquilo. Coitada da outra.
— E então, essa "Agulha do Domínio Sonoro", o que é exatamente?
— É um artefato pra dominar feras mágicas, saibam. Ao carregar energia mágica e cravar na cabeça, dá pra controlar essa fera mágica livremente, mas isso força o poder dela ao limite máximo em troca de consumir a vida da criatura, e conecta à força a mente do usuário com a da fera mágica — descobriram que isso pode causar dano mental ao usuário, então foi descartado, saibam.
Entendi. Poderoso, mas com problema de segurança, impõe carga ao usuário. Bem a cara disso mesmo. Só que, bom, a doutora Babylon também criou coisa como a "Joia da Imortalidade", então também não tem muito moral pra falar dos outros.
Será que quem usou aquele Wyvern não sabia dos riscos disso?
Mas dragão, hein. Sendo chamado de "criatura mais forte", reunir vários deles em número deve ser bem problemático. Se o dragão vermelho que vive no santuário de Mismede fosse atacado desse jeito, ia virar um problemão. Ainda que eu não consiga imaginar um dragão com inteligência tão alta assim sendo controlado à força facilmente.
《Amo. Permite uma palavra?》
— Hm? Kōgyoku? O que foi?
A Kōgyoku entrou pela janela. Descendo suavemente na mesa, virou aqueles olhos vermelho-rubi na minha direção.
《Se é sobre dragões, acho que seria bom chamar o "Imperador Azul" e perguntar a ele.》
"Imperador Azul", hein — quer dizer, um companheiro do Kohaku e das outras. Um dos Quatro Deuses Guardiões. Dragão Azul do Leste… se não me engano. De fato, o Kohaku é fera, a Sango e o Kokuyō são da linhagem escamosa, e a Kōgyoku é besta divina que governa as aves. Mas dragão não seria fora dessa categoria?
《Estritamente falando, dragão não é fera mágica. É uma espécie por si só, súdito do Imperador Azul. Além dele, tem também lagarto e crocodilo. Isso se sobrepõe um pouco com o domínio do Kokuyō e da Sango. De qualquer forma, se for lidar com dragão, vale a pena chamá-lo. Eu também sinto vontade de rever o rosto dele, faz tempo.》
《Amo! Eu sou contra!》
BAM! A porta se abriu com um baque, e o Kohaku, ainda na forma de tigre grande, invadiu o quarto correndo. Ei! Já não te falei pra não ficar grande dentro do castelo!?
《Não precisa chamar aquele tipo de sarcástico! O Amo consegue resolver o problema sozinho! Reconsidere, por favor!》
O que é isso, o que é isso!? Aliás, para de avançar assim, ainda grande! Que medo! Parece que vou ser comido.
《Se é sarcástico ou não, deixando de lado, o Imperador Azul não seria o mais indicado?》
《O Kohaku-chan não se dá bem com o Azulzinho, sabe? Então tá desesperado assim. Pu-pu-pu.》
A Sango e o Kokuyō vieram nadando pelo ar também. Ahá, então é isso.
《Ugh, de fato é assim, mas… Vocês não entendem o trabalho que dá quando aquele cara entra na nossa turma!? É um sujeito rabugento cheio de sofismas! Aah, só de lembrar já fico com raiva!》
O Kohaku, que tinha ficado pequeno de repente, começou a se debater no tapete, tipo criança fazendo birra. Isso já virou puro capricho pessoal, viu.
《O Kohaku, impulsivo, e o Imperador Azul, racional, são como água e óleo. Mais do que má relação, é falta de sintonia mesmo, digamos. Acho que os dois reconhecem os pontos bons um do outro, mas os dois são teimosos demais.》
《Quem reconhece!? Se tem algo que reconheço nele, é só aquela boca afiada e aquela insensibilidade de não ler o clima!》
O Kohaku subiu na mesa e gritou pra Kōgyoku. Ah, sério. Assim a conversa não anda.
— Entendi o argumento do Kohaku, mas, por ora, vou invocar ele.
《Aaah não…》
— Bom, não vou pedir pra fazerem amizade forçada. Ah, mas discussão verbal tudo bem, se for briga de verdade, castigo os dois, viu.
Levei o Kohaku, meio a contragosto, e saímos em direção ao jardim interno. Por sorte, não tinha ninguém no jardim, então aproveitamos pra fazer a invocação logo.
Desenhei o círculo de invocação no jardim com giz de pedra mágica, e canalizei energia mágica de atributo Trevas nele.
Confirmando que a névoa negra que surgia dentro do círculo de invocação ia ficando cada vez mais densa, misturei aos poucos a energia mágica do Kohaku e das outras. Com isso, preparação concluída.
— Guardião da primavera e das árvores, do Leste e do grande rio, responda à minha voz. Atenda ao meu chamado, e manifeste sua forma aqui.
A energia mágica dentro do círculo de invocação se expandiu de uma vez, e, de dentro da névoa negra, surgiu um enorme dragão azul. Escamas parecidas com safira, olhos azuis límpidos. As asas grandes traziam um porte de rei, e, diferente do Wyvern, tinha patas dianteiras de verdade. Não é o "Ryū" oriental. Sem dúvida nenhuma, é um dragão de verdade.
《…Hmm. Sinto uma energia familiar — então são vocês. Encontrar vocês justamente aqui, que surpresa. O que é isso, afinal?》
Uma voz serena veio do dragão azul. De certa forma, dá impressão de ser voz feminina. Tipo professora ou mulher executiva, algo por aí.
《Faz tempo, Imperador Azul.》
《Azulzinho, quanto tempo~》
《Que bom ver você bem, Imperador Azul.》
Enquanto a Sango, o Kokuyō e a Kōgyoku cumprimentavam, só o Kohaku virou o rosto e fez um estalo de língua. Ei, ei, essa atitude não é muito legal, viu.
《Hmm. Parece que tem um ser pequeno que nem consegue cumprimentar direito, mas vou perdoar. Meu coração é generoso, afinal.》
《Fala sério, seu lagarto azul! Coração generoso, uma ova!? Você que fala coisas venenosas cheias de má vontade, tem coragem de dizer isso!?》
《Eu, má vontade? Então você não seria mais torto ainda, a ponto de formar um círculo?》
《COMO É QUE É!?》
— Certo, certo, já chega.
Peguei o Kohaku pela nuca, prestes a saltar pra cima do dragão azul, e ergui os olhos pro dragão. O dragão azul me olhava com desconfiança, mas, por fim, abriu a boca.
《Pelo jeito, você é quem me invocou. Qual é o seu nome?》
— Mochizuki Touya. Sou o rei deste país.
《Ora, ora. O Imperador das Chamas eu até entendo, mas fico curioso em saber como conseguiu a cooperação do Imperador Branco e do Imperador Negro também.》
《Cooperação, nada disso. Ele é o nosso Senhor, sabia?》
《……………O quê?》
Com a voz do Kokuyō, o movimento do dragão azul parou. Ele me olhava com olhos que pareciam não acreditar no que via.
De repente, uma pressão avassaladora emanou do dragão azul. Mas não teve grande efeito em mim. Ah, é verdade, foi mais ou menos assim também quando invoquei o Kohaku pela primeira vez. Por fim, o dragão azul parou de emitir aquela pressão e soltou um suspiro leve.
《…De fato, sinto uma presença estranha, mas… quem é você?》
Diante dessa pergunta do dragão azul, quem respondeu não fui eu, mas o Kohaku, que ainda estava sendo segurado pela nuca.
《Se tem dúvida, por que não confirma você mesmo, Imperador Azul? Nosso Senhor pretende fazer um pacto com você também. Não quer testar esse poder que nos domina?》
《Hmm… Detesto entrar no jogo dele, mas… de fato, fico curioso. Muito bem. Vou testar a capacidade desse indivíduo.》
Nesse instante, não deixei passar o sorriso maldoso que se formou no rosto do Kohaku. Já sei mais ou menos o que ele tá pensando…
O jardim era estreito demais, então desenhei um círculo de invocação bem maior na planície a oeste e chamei o dragão azul de novo.
Naquela planície, eu e o dragão azul ficamos frente a frente, um contra um. Aqui não incomoda ninguém ao redor. Afinal, a plateia é só as outras bestas divinas mesmo.
— Então, como fazemos? É só lutar?
《Hmm. Bom, isso mesmo. Só preciso ver sua capacidade. Ah, fique tranquilo, não vou matar.》
Assim que ouviram essa fala, todas as bestas divinas engasgaram de rir ao mesmo tempo. Tavam tremendo. Será que tavam rindo?
— Bom, tanto faz. Então vamos lá. Tá pronto?
《Sem problema. Pode vir quando quiser.》
— Então, sem cerimônia. [Accel Boost]
Chutei o chão com força de uma vez e avancei em direção ao dragão azul na velocidade máxima. Se ele voar, vira problema. Melhor terminar antes disso.
《O quê…!?》
— [Gravity]
《Guhuu!?》
Toquei no corpo do dragão azul e ativei a magia de peso. Num piscar de olhos, o dragão azul foi pregado no chão, ficando prostrado ali mesmo. Golpear antes que voe. Isso é básico.
《Gh…! O… o que é essa magia…! Usar uma magia tão poderosa assim e ficar tão tranquilo…!》
《Ku ha ha ha ha! Imperador Azul, você subestimou a capacidade do nosso Senhor! Não achou estranho que nós, que deveríamos estar apenas invocados, estejamos manifestados normalmente assim?》
《!》
O dragão azul arregalou os olhos, surpreso. Correndo ao redor do dragão azul imobilizado, o Kohaku falava com ele, todo animado. Você tá se divertindo demais, hein.
《Falando nisso…! Impossível… vocês, todos invocados, mantidos manifestados assim… quanta energia mágica isso consome!?》
《Ku ku ku. Vou te contar uma coisa boa. Mesmo nos invocando e nos deixando existir livremente assim, a energia mágica do nosso Senhor não diminui nem um pouco. Pelo contrário, mesmo controlando outras centenas de bestas invocadas, não sente diferença nenhuma.》
《I-impossível…!》
《Fu ha ha ha ha! Não tem mais volta! Ficou sabendo agora! Esse é o poder do nosso Senhor, o grande Mochizuki Touya-sama!! "Não vou matar", foi você quem disse isso, né!? De que boca!?》
De fato, é verdade, mas… não precisa você falar isso, viu… Isso aí já tá cheirando a personagem secundário demais. Tipo raposa se aproveitando do poder do tigre — bom, você que é o tigre, né.
《Parece feliz, hein, Kohaku-chan.》
《Bom, dá pra entender, mas…》
《Isso aí me deixa meio incomodada, viu…》
Falei, olha só. Vejam, até elas tão incomodadas.
Sem se importar nem um pouco com isso, o Kohaku continuava provocando, e o dragão azul, forçando o corpo, tentou se levantar de qualquer jeito. Apoiando o corpo com as pernas tremendo e a cauda, conseguiu ficar de pé. Ora, se esforçou, hein.
Mas, quando aumentei ainda mais o peso, o dragão azul voltou a se prostrar no chão.
《Gh, guhuu…!》
— Será que já dá pra se render?
《…V-vencido, es-estou. Fiz o pacto, com vo-você.》
Assim que ouvi isso, removi [Gravity] na hora. A magia de peso se dissipou, e o dragão azul se levantou em silêncio.
《Peço desculpas pela minha falta de percepção quanto ao seu poder, Mochizuki Touya-sama. Por favor, faça um pacto de senhor e súdito comigo, e me conceda um novo nome.》
— Nome, é. Deixa eu ver… Já usei Kohaku, Sango, Kokuyō, então… acho que "Ruri" combina.
《"Ruri"… é?》
— É. Também se chama lápis-lazúli. É um nome de pedra azul, na língua do meu país, "Ruri".
Pensei em usar safira, já que a Kōgyoku é rubi, mas, safira, se não me engano, também se chama "gyoku azulado" ou algo assim. Ia ficar parecido com rubi, então melhor ir de Ruri mesmo.
《Entendido. De agora em diante, me chame de "Ruri".》
— Certo. Conto contigo. Ah, e tenta não brigar tanto com o Kohaku, tá? Culpa dos dois, castigo pros dois.
《Vou me controlar o máximo possível.》
《Quem tem que se controlar sou eu!》
Na hora, o Kohaku já retrucou mordendo. Aah, sério, esses dois.
A Ruri se transformou, igual ao Kohaku e as outras, num pequeno dragãozinho filhote. Suspirei ao ver os dois se encarando naquele estado.
— Por que será que vocês dois se dão tão mal assim…
《É rusga entre mulheres, sabia? Nem o Amo devia se meter demais nisso, viu.》
— Puxa… até entre bestas invocadas, mulher assusta, hein.
Concordei com a fala do Kokuyō, que ria "kera kera", e, de repente, percebendo uma coisa, parei de me mexer. …Espera, o que ele disse mesmo?
— …Hã? Ué? Entre mulheres? Pera aí, qual é o sexo de vocês?
《Todo mundo é fêmea, viu.》
《Não minta. Você é macho, ué.》
Diante da fala do Kokuyō, a parceira dele, a Sango, corrigiu na hora. Bom, o Kokuyō, de certa forma, eu já meio que sabia que era desse jeito. Não tem mais nenhum macho, além dele?
…Ops. Eu, do Kohaku, sempre presumi que fosse macho… Pensando bem, a voz dele é meio aguda…
Por ora, vou ficar quieto sobre isso. Será que a Yumina e as outras já sabiam disso? Depois vou perguntar… Se fosse leão em vez de tigre, eu teria conseguido diferenciar, pelo menos…