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Isekai wa Smartphone to Tomo ni – Capítulo 1

Morte e Ressurreição

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Capítulo 1 – Morte e Ressurreição

— Então é isso: você acabou morrendo. Sinto muito de verdade.

— Hã.

Um senhor de idade curva a cabeça bem fundo. Atrás dele se estende um mar de nuvens reluzentes. Um tapete de nuvens que vai até onde a vista alcança, sem fim à vista. E, mesmo assim, nós estamos sentados sobre tatames. Um quarto simples de quatro tatames e meio — embora "quarto" seja força de expressão, já que não há paredes nem teto — flutua sobre as nuvens. Uma mesinha baixa, um armário de chá, uma TV de modelo antigo e um telefone preto de disco. Móveis envelhecidos, mas com um certo charme, enfileirados ali.

E, bem na minha frente, está Deus. Pelo menos é o que ele mesmo diz. Segundo Deus, ele me matou por engano — mas eu não tenho lá muita sensação de ter morrido.

Se bem me lembro, eu voltava da escola e me apressava pra casa por causa de uma chuva que começou do nada. Bem na hora em que decidi cortar caminho atravessando um parque ali perto, o que me atingiu foi um clarão ofuscante e um estrondo.

— Eu não conferi se havia alguém no ponto onde o raio ia cair. Sinto muito mesmo. Morre bastante gente atingida por raio, mas este caso aqui não estava nos planos.

— Então um raio me acertou em cheio e eu morri… Entendi. Quer dizer que aqui é o paraíso?

— Não, é mais alto que o paraíso, o mundo onde vivem os deuses… é, digamos assim, o reino dos deuses, sei lá. Humano não devia conseguir vir pra cá. Você foi um convidado especial, que eu mesmo trouxe — é… Mo… Mochi…

— Touya. Mochizuki Touya.

— Isso, isso, Mochizuki Touya-kun.

Enquanto fala, Deus despeja a água quente da chaleira ao lado no bule e me serve um chá na xícara. Ah — tem um talinho de chá boiando em pé. Sinal de sorte.

— Mas… você não está calmo demais, rapaz? Pensei que alguém que acabou de morrer fosse se desesperar mais, sei lá.

— Deve ser porque não parece muito real. Tudo isto tem um quê de sonho. E não adianta nada ficar reclamando do que já aconteceu.

— Que sujeito desapegado…

Claro que eu não esperava morrer aos quinze. Tomo um gole de chá, sorvendo. Bom demais.

— E então, o que vai ser de mim agora? Paraíso ou inferno, um dos dois?

— Que nada, que nada. Você morreu por uma falha minha, então dá pra te trazer de volta num instante. Só que… é o seguinte…

Deus enrola pra falar. O que será? Tem algum problema?

— Não dá pra te ressuscitar no mundo de onde você veio. Foi mal, mas é uma regra dessas. Por uma conveniência nossa — sinto muito mesmo. E aí, bom…

— Sim.

— Eu queria que você renascesse num outro mundo. Pra começar lá uma segunda vida, é essa a ideia. Entendo se você não se conformar, mas…

— Por mim, tudo bem.

— …Tudo bem mesmo?

Quando cortei a fala dele respondendo na lata, Deus ficou me olhando de boca aberta.

— Já entendi a situação do senhor, e não tenho intenção de bancar o difícil. Só de poder voltar à vida já é motivo de gratidão. Por mim, está ótimo.

— …Você tem mesmo um caráter e tanto, rapaz. Se tivesse vivido naquele mundo, teria virado um grande homem… sinto muito de verdade.

Deus fica cabisbaixo. Como eu era do tipo grudado no avô, aquilo me deu um aperto no peito. Não precisava se abalar tanto assim.

— Deixa eu ao menos fazer alguma coisa pra me redimir. Dentro de certos limites, posso realizar o que você quiser.

— Hmm, mesmo que o senhor diga isso…

O ideal seria ressuscitar no meu mundo de origem, mas isso é impossível. Sendo assim, o melhor seria alguma coisa que fosse útil no mundo pra onde eu vou…

— O mundo pra onde eu vou agora, como é que ele é?

— Comparado ao mundo de onde você veio, é um lugar ainda em pleno desenvolvimento. Olha, mais ou menos metade dele lembra o que vocês chamam de Idade Média. Bom, nem tudo está nesse nível, claro.

Hmm, parece que o padrão de vida vai cair bastante. Fico inseguro se vou conseguir me virar num lugar desses. Será que alguém sem conhecimento nenhum como eu vai ficar bem caindo num mundo assim? …Ah.

— Ã, eu tenho um pedido.

— Ô, o que é, o que é? Realizo qualquer coisa, viu?

— Será que dá pra deixar isto aqui funcionando no outro mundo também?

Foi o que tirei do bolso interno do uniforme ao dizer isso: um celular faz-tudo parecido com uma plaquinha de metal. O tal do smartphone.

— Isso aí? Bom, é possível… mas vai ter algumas restrições. Se ainda assim você topar…

— Por exemplo?

— Interferência direta sua vai ser quase impossível. Ligações, e-mails, postar em sites, essas coisas. Só ver e ler não tem problema. Deixa eu ver… vou deixar que pelo menos dê pra me ligar.

— Pra mim é suficiente.

Se eu conseguir puxar informação do meu mundo de origem, isso vira uma baita arma. Seja lá o que eu for fazer, com certeza vai ser útil.

— A bateria eu deixo de um jeito que dê pra carregar com a sua energia mágica. Assim você não precisa se preocupar com ela acabar.

— Energia mágica? No outro mundo existe um poder desses? Então magia e tal também…?

— Existe. Que nada, alguém como você logo vai estar usando.

Então eu vou conseguir usar magia. Isso parece divertido. Já tenho um motivo pra ficar animado com a ida pro outro mundo.

— Bom, está quase na hora de te ressuscitar.

— Obrigado por tudo.

— Que isso, no fim das contas o culpado aqui sou eu. Opa — mais uma última coisa.

Deus ergue a mão de leve e uma luz morna me envolve.

— Não adianta nada você ressuscitar e morrer logo de novo. Vou dar uma reforçada nas suas capacidades básicas, no físico e num monte de outras coisas. Com isso, a não ser que aconteça algo muito fora do comum, você não morre. Contanto que nenhum deus tapado deixe cair um raio, claro.

Deus riu, debochando de si mesmo. Acabei rindo junto.

— Depois que eu te mandar de vez, não vou mais poder interferir. É o meu último presente.

— Muito obrigado.

— Não posso meter a mão, mas dar um conselho eu posso. Sempre que estiver em apuros, é só me chamar por isso aí.

Deus disse isso apontando pro smartphone na minha mão. Ligar pra Deus assim, de boa, não é algo que dê pra fazer toda hora — mas, se a coisa apertar de verdade, vou recorrer à ajuda dele.

— Então, até mais.

No instante seguinte ao sorriso de Deus, minha consciência se apagou de uma vez.


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