Capítulo 3 – Troca de Roupas e Dez Moedas de Ouro
Três horas desde que conheci Zanack-san. Sacolejo daqui, sacolejo dali, e a carruagem enfim chegou à cidade de Reflet.
Um soldado, que parecia o guarda do portão, me cumprimentou e fez umas perguntinhas, e logo nos deixaram entrar. Pela atitude dos soldados, Zanack-san parece ser bem conhecido.
A carruagem avança pela cidade aos trancos. A cada trecho do velho calçamento de pedra, a carroceria em formato de caixa balançava em solavancos curtos. Logo entramos numa avenida movimentada, ladeada de lojas, e a carruagem parou em frente a um estabelecimento.
— Pronto, pode descer. É aqui que vamos arrumar suas roupas.
Obedecendo ao que Zanack-san dizia, desço da carruagem. A loja tinha uma placa com um logotipo de linha e agulha, mas, ao olhar as letras embaixo, percebi um probleminha.
— Não consigo ler…
Não consigo ler as letras da placa. Isso não é meio grave? Falar eu falo, mas não ler nada do que está escrito… Bom, como dá pra conversar, alguém pode acabar me ensinando, mas… vou ter que estudar.
Levado por Zanack-san, entro na loja e alguns atendentes nos recebem.
— Bem-vindo de volta, patrão.
As palavras dos atendentes me pegam de surpresa.
— Patrão?
— Esta loja é minha, rapaz. Mas deixa isso pra lá, vá se trocar. Ei, alguém aí, escolha umas roupas que fiquem bem nele!
Apressado, Zanack-san me empurrou pra dentro do provador (não uma cabine de cortina, mas um quartinho de verdade). E trouxe várias peças. Pra me trocar, tiro o paletó do blazer, solto a gravata, tiro a camisa social. Por baixo, eu usava uma camiseta preta — e, ao vê-la, os olhos de Zanack-san mudaram de cor de novo.
— !? V-você não me venderia essa roupa de baixo também?!
Isto é assalto à mão armada.
No fim, acabei vendendo a Zanack-san literalmente tudo que eu vestia. Das meias aos sapatos, tudo. Quando ele pediu pra eu vender até a cueca, confesso que me bateu um desânimo. Não que eu não entenda o lado dele, mas eu queria que ele entendesse o meu também…
As roupas e os sapatos que arrumaram pra mim em troca eram confortáveis e pareciam resistentes; pra mim, não havia do que reclamar. Nem chamativos nem espalhafatosos, num estilo discreto bem agradável. Assim eu não vou dar na vista.
— E então, por quanto você me vende suas roupas? Dinheiro não é problema, claro, mas tem algum valor em mente?
— Mesmo que o senhor pergunte… Não sei a tabela de preços, então não saberia dizer. Óbvio que, quanto mais alto, melhor, mas… na real, eu estou sem um tostão.
— É mesmo…? Que pena… Pronto, então que tal dez moedas de ouro?
Como eu não fazia a menor ideia de quanto valiam dez moedas de ouro, só me restava concordar.
— Então, fechado.
— Ótimo! Pois aqui está.
Recebo dez moedas de ouro num tilintar. Do tamanho de uma moeda de quinhentos ienes, com um relevo gravado que parecia um leão. Esta é toda a minha fortuna. Vou usar com cuidado.
— Aliás, não existe alguma pousada nesta cidade? Queria garantir um lugar pra dormir antes do anoitecer.
— Pousada tem uma só seguir reto pela rua da frente e virar à direita. Tem uma placa escrita "Lua de Prata", você acha fácil.
Mesmo com placa eu não sei ler, né… Mas, perguntando às pessoas, eu chego lá. Afinal, dá pra conversar.
— Entendi. Então fico por aqui.
— Sim. Se arrumar outra roupa exótica, traga aqui pra mim.
Me despeço de Zanack-san e saio. O sol ainda está alto. Tiro o smartphone do bolso interno, ligo, e eram quase duas da tarde.
— Pensei nisso ainda na carruagem… será que esse horário está certo?
Bom, pela posição do sol, acho que não está muito longe do certo.
De repente, me dá vontade e abro o aplicativo de mapa. Aparece o mapa da cidade, mostrando até a minha posição e os nomes das lojas e tudo. Assim não tem como me perder. A pousada "Lua de Prata" também aparece direitinho. Mas, falando nisso……
Olho pra trás, pra loja de Zanack-san.
— Naquela placa… estava escrito "Fashion King Zanack"…?
Achando o senso pra dar nome do Zanack-san um tanto sofrível, comecei a caminhar rumo à pousada.