QUAL ERA O significado disso? Nenhum dos aventureiros que eu mandei para atacar aquela garotinha pirralha na estalagem tinha voltado. Trazer a garota para garantir a bolsa de itens — era só isso! Quão difícil isso podia ser? Se ela realmente podia guardar uma tonelada de lobos, eu seria capaz de arrancar ainda mais lucro deste lugar e talvez — se os destinos permitissem — deixar esse buraco imundo.
Acordei cedinho, ansioso, e… nada! Mesmo depois de eu ter pagado adiantado! Será que deram no pé?
Um dos meus capangas foi verificar a estalagem. Talvez ele descobrisse algo.
– Mestre da guilda! – ele choramingou quando voltou, e eu quase joguei algo nele.
“Mestre da guilda” pra cá, “mestre da guilda” pra lá. Respira fundo. Tudo bem. Tudo bem.
– O que houve?
– Eles foram pegos! Pegaram os caras que foram atacar a garota urso na estalagem ontem!
– Como é?
– Vi vários deles, todos amarrados, sendo levados para a guilda dos aventureiros.
– Para a guilda dos aventureiros?
Isso era ruim. Se tivessem sido entregues aos guardas, eu poderia resolver de algum jeito. Mas para a guilda dos aventureiros, logo eles? E como foram pegos? Os aventureiros de Rank C do outro dia não deviam estar na estalagem. Será que aquele velhote bombado da estalagem os pegou?
Tudo que eu sentia era fúria. Perfeitos imbecis! Completos inúteis! As coisas tinham dado tão desastrosamente errado.
Se os capturados dessem meu nome, descobririam facilmente que era ordem minha.
– E o que fazemos? – meu capanga perguntou.
– Deixa eles lá.
– Tem certeza?
– Mesmo que digam que fui eu, não têm provas. Posso simplesmente dizer que é infundado.
Eu não iria mais tentar atacar a Senhorita Carne de Lobo. Talvez fosse melhor abandonar esse empreendimento e cair fora da cidade.
Knock knock.
Alguém bateu na porta.
– Estamos ocupados, seu idiota desmiolado!
Um funcionário entrou.
– Mas, ahm, senhor… a mestre da guilda dos aventureiros está aqui.
Claro que estava.
Mandei meus capangas saírem da sala.
– Então traga ela, homem!
A mulher das roupas… digamos, exuberantes, entrou na sala. A mestre da guilda dos aventureiros, Atola.
– Há quanto tempo, Zallad.
– E que continue assim. Diga logo o que quer e caia fora.
– Uma garota foi atacada na estalagem ontem à noite. Sabe de algo?
Ontem à noite? Mas ouvi dizer que eles foram pegos nesta manhã.
– Que terrível. Não sei de nada.
– Os que atacaram eram aventureiros. Vimos eles entrando e saindo da sua guilda comercial.
– Uma pena. Evitarei me associar a tais canalhas no futuro.
– Os aventureiros disseram estar agindo sob suas ordens.
– Disseram? Qual razão eu teria para atacar uma garota que nem conheço?
Malditos traidores chorões!
– Para roubar os lobos, é claro.
– Quer dizer que aquela garota tem algo a ver com as toneladas de lobos sendo distribuídas pela guilda dos aventureiros?
Soltei um suspiro convincente, se me permitem dizer.
– Sim. Ela é uma garota encantadora e generosa, e estou furiosa que alguém tenha atacado alguém como ela.
– De fato. Que situação terrível. Eu executaria tais monstros, todos eles.
Afinal, homens mortos não contam histórias.
– Então insiste que não teve envolvimento?
– É claro que não. E quanto mais esses — esses canalhas — viverem, maior a chance de escaparem e virem atrás de mim. Execute-os. Pela justiça, e para manter todos seguros.
– Certo. Voltarei depois.
Ah, eu esperava que não.
Atola foi embora, mas duvidava que tivesse acabado. Não tinha ideia do que aquela mestre estava tramando. Talvez fosse a hora ideal para fugir? Eu pensava que precisaria de mais um mês, mas… paciência.
Capangas idiotas. Garota urso intrometida!
Chamei os três capangas que sabiam que eu tinha ligação com os bandidos. Não havia muitos com essa informação — era preciso controlar vazamentos.
Um pouco antes do previsto, contei aos três que eu deixaria a cidade. Partiríamos hoje à noite e nos encontraríamos com Omos.
O plano real, claro, era roubar todo o dinheiro da guilda comercial e incriminar os três pelo roubo. Depois, Omos e seus bandidos matariam os três e deixariam os corpos na estrada, fazendo todos pensarem que o dinheiro tinha sido roubado pelos bandidos.
Tudo calculado, por assim dizer.
– Vou passar na minha casa – falei. – Já volto. Partam logo.
Fui para casa e coloquei tudo que poderia ser útil numa bolsa de itens. Tinha até coisas que roubei de moradores que tentaram fugir do porto. Omos, aquele brutamontes idiota, só se importava com dinheiro e mulheres, e eu dava tudo que ele queria. O tolo sequer sabia vender suas pilhagens corretamente, e dizer quanto uma joia valia era inútil.
Minhas coisas valiosas e suprimentos estavam empacotados. Faltava apenas minha parte do dinheiro da guilda comercial.
Mas quando voltei, havia uma comoção.
E por que os funcionários estavam sorrindo?
– O que aconteceu aqui? – perguntei a um deles, especialmente animado.
– Os bandidos da estrada foram capturados!
O quê?
A única coisa em que Omos era bom era ser forte. Ele falhou até nisso?
O homem continuou falando:
– Agora poderemos usar as estradas. Se conseguirmos isso, poderemos trazer comida também. Estamos salvos!
Não. Não, não, não, NÃO!
Os bandidos? Capturados? Então como eu lidaria com aqueles três capangas? E o que aconteceu com Omos e os outros?
– Todos os bandidos morreram? – perguntei.
– Parece que foram capturados. E, veja só: aparentemente, a maioria dos bandidos eram aventureiros da cidade. A mestre da guilda está interrogando eles nesse momento.
Vivos?
VIVOS?
Como eu deveria lidar com esses imbecis vivos? E claro que todos iam começar a choramingar “só estávamos seguindo ordens do Zallad”.
– E — isso é loucura — quem derrotou eles foi uma garota vestida de urso! Uma garotinha fofa e minúscula!
Ursos, de novo? O que estava acontecendo? Que tipo de urso carregava toneladas de carne de lobo, tinha uma bolsa de itens que guardava tudo isso, capturava aventureiros e derrotava uma horda de bandidos?
– Mestre da guilda, finalmente poderemos realizar todos os seus planos!
Ah. Meus… “planos”.
Todos falsos, é claro — perfeitamente elaborados só para manter aqueles tolos na linha enquanto meu plano real tomava forma.
Ah, estávamos vendendo comida a preços altos? Era apenas para juntar capital para restocar suprimentos quando os bandidos fossem derrotados. E o resto do dinheiro iria — naturalmente! — para uma missão para matar o kraken.
O pessoal da guilda comercial acreditava em cada palavra. Eles seguiram minhas instruções e focaram em vender comida para os ricos para juntar dinheiro.
Claro, precisávamos evitar rebeliões, então eu só dava rações reduzidas para manter as coisas calmas.
– Mestre da guilda? – disse o funcionário, me olhando estranho.
– Nada, meu rapaz. Enfim, estamos de prontidão por mais informações da guilda dos aventureiros. Ainda pode haver bandidos por aí.
Ainda havia chance de Omos ter escapado.
– Tem razão. Não devemos arriscar as estradas ainda – e ele saiu.
Fui para meu escritório. Pense, pense! Argh!
No mínimo, mesmo que Omos não tivesse sido capturado, eu teria de ir ao ponto de encontro. Talvez tivesse que matar meus três capangas eu mesmo.
Que irritante.
Eu não tinha informação suficiente para agir. Quanto mais tempo passasse, menos rotas de fuga teria. Talvez eu devesse desistir do dinheiro e simplesmente fugir?
Alguém bateu.
– O que é agora?
– A mestre da guilda dos aventureiros está aqui.
Ela já tinha chegado?
– Então traga-a.
– Ela disse que quer que você saia.
– Por quê?
– É que…
O homem começou a gaguejar.
– Certo, chega. Vou lá!
Saí, e lá estavam eles: os bandidos que eu contratei, alinhados, com braços e pernas amarrados, bocas tampadas.
Chamaram-me só para mostrar isso?
Observei um por um e… aquele era Omos?
Não. Mas… era?
A constituição, o corpo, tudo gritava Omos, mas o rosto estava irreconhecível.
O mosntro arrogante e egoísta sentado obedientemente no chão como o cachorro que era, no fundo. O Omos que eu conhecia estaria se debatendo, quase arrancando as mãos de quem o segurasse. Era o tipo que preferiria morrer a passar por isso.
Uma cena inacreditável.
Atola estava diante do grupo e… hã? Atrás dela havia algo pequeno, preto e… ursino?
Uma garotinha de roupa de urso.
Era possível que essa fosse a urso dos rumores?
Omos foi derrotado por uma pirralha?
Tudo que pude fazer foi rir internamente.
Minha estratégia inteira, meses de planejamento… destruídos por uma menina de fantasia de urso?
Engoli o riso e fingi surpresa.
– Esses são os bandidos? – perguntei.
– Exatamente. E todos disseram que você os contratou.
– Não tenho memória de tal transação.
– Ainda vai bancar ignorância?
– Não posso saber do que não sei.
Os bandidos me lançavam olhares assassinos. Não só tinham sido pegos, como nenhum deles teve a decência de morrer por mim. Para homens que valorizavam tão pouco a vida, estavam bem relutantes em perdê-la.
– Nesse caso – disse Atola –, acho que podemos cortar suas cordas.
Ela puxou uma faca, sugerindo cortar as amarras deles.
Os homens já estavam me fuzilando com os olhos. Eu conseguia imaginar o que aconteceria se ela os libertasse.
– Certamente você não está sugerindo soltar esses bandidos por aí.
– Claro que não. Eu só estava curiosa sobre o que aconteceria. Com você. Hipoteticamente.
Todos desconfiavam de mim. Já estavam convencidos, hein?
Eu precisava de uma rota de fuga. Qualquer uma.
– Pergunto-me – disse Atola –, se você conseguirá falar bonito depois disso.
Os funcionários puxaram três homens do grupo… aqueles três. Meus capangas. Os mesmos que eu pretendia incriminar e abandonar esta noite.
– Eles pareciam estar fazendo algo suspeito, então mandei segui-los. Já que estavam tentando deixar o porto, eu gentilmente ouvi suas histórias. E parece que tinham muitas, muitas histórias para contar.
Os três gemeram através das mordaças. Patético.
– Eles devem estar tentando colocar a culpa em mim por algo que fizeram – falei. – Não faço ideia de quem sejam.
– Certo, então. Poderia nos deixar ver essa bolsa de itens que está segurando com tanto carinho?
Ah. Hahaha.
Eu estava segurando a bolsa esse tempo todo, não estava? Apertando-a bem forte…
– Isto é… – comecei. – Digo, é…
Tentei escondê-la atrás de mim, mas era tarde demais.
Eles veriam tudo. Todo o dinheiro roubado, joias e o resto.
– Nada importante. Não precisam se preocupar com isso.
– Poderia deixar-me ver o que tem dentro? Esses três ficaram tão felizes em mostrar as deles.
Os três começaram a gemer e balançar as cabeças.
– Terei de recusar, querida Atola. Por que eu teria de mostrar algo?
Ela sabia. E se ela visse o conteúdo, seria meu fim. Não teria mais como falar bonito.
Segurei a bolsa atrás de mim com força.
– Eu irei assumir – ela rugiu – total responsabilidade! Verifiquem o conteúdo da bolsa de itens do Zallad!
E os funcionários avançaram.
Tentei fugir, mas foi inútil. Os funcionários da guilda dos aventureiros eram todos ex-aventureiros. Me agarraram e arrancaram a bolsa da minha mão num piscar de olhos.
– Parem!
– Que bolsa de itens bonita – disse Atola. – Será que o conteúdo é tão bonito quanto o lado de fora?
E ela virou tudo de cabeça para baixo.
