Kuma Kuma Kuma Bear Volume 4 – Capitulo 94

A Ursa Acorda

Acordei abraçada por dois ursinhos muito fofos, dormindo profundamente ao meu lado. Que horas eram, afinal? Saí da cama e abri a cortina, depois a janela. O sol estava nascendo sobre o oceano. Se eu tinha ido dormir à tarde… quanto tempo eu tinha apagado?

De qualquer forma, toda a fadiga tinha ido embora, e meus status de estamina e mana estavam completamente restaurados. Ainda era um pouco cedo, mas vesti minha roupa de urso preto e agradeci aos meus ursinhos por terem sido meus guarda-costas antes de dispensá-los.

Desci as escadas, e Deigha saiu correndo do quarto nos fundos.

– Senhorita, você acordou! Está tudo bem?!

Ele parecia realmente preocupado. Esfreguei os olhos.

– Tô bem. Só estava morta de cansada de usar tanta magia.

– Estava? Então não tinha nada de errado?

Dava para ver o alívio em seu rosto.

– Para uma garotinha tão pequenininha e fofa, você acabou se revelando uma aventureira incrível.

Ele deu alguns tapinhas leves na minha cabeça. Eu deixei.

– Você sabe sobre o que aconteceu com o kraken? – perguntei.

– Atola me contou quando você voltou para a pousada.

Fazia sentido ela ter contado, considerando o estado em que eu voltei.

– Então, você ainda está com fome? Não comeu nada, certo?

Toquei meu estômago. Estava completamente vazio.

– Parece que sim.

– Então vou preparar algo na hora, só espere um pouquinho.

Deigha flexionou o braço para mim e foi até a cozinha.

– Pode fazer com calma – gritei para ele.

Enquanto esperava, ainda meio sonolenta pelo café da manhã que ele preparava, Atola entrou na pousada.

– Yuna, você acordou?!

– Por pouco.

– Não tem nada de errado com você?

Ela começou a apalpar minhas mãos e meu corpo, completamente invasiva. Horrível invasão de espaço pessoal.

– Tô bem. Dormi bastante, então minha mana recarregou e estou de volta ao normal.

– Eu estava preocupada, já que você não acordou nem à noite.

Ela realmente estava preocupada, assim como Deigha.

– Mas estou feliz que esteja bem.

Enquanto conversávamos, Deigha trouxe o café da manhã. Olhei para o prato e fiquei chocada.

– Arroz? Pensei que vocês não tinham…

– O pessoal da cidade trouxe.

– Por quê?

– Yuna – disse Deigha devagar –, você matou o kraken. O kraken.

Atola confirmou com um aceno.

– Foi realmente uma luta e tanto, não foi? Assim que você voltou, a notícia espalhou pela cidade. Quando descobriram que tinha sido você e que estava hospedada aqui, todo mundo apareceu correndo.

Quantas pessoas vieram? E tudo por minha causa?

– Mas você estava cansada e dormindo – continuou Atola –, e não tinha como eu te acordar. Convenci todos a fazer silêncio e voltar para casa. Mas eram MUITOS. Cada um deles queria te agradecer. Todos mesmo.

Ela balançou a cabeça.

– Foi uma avalanche de gente.

Nossa… muita coisa aconteceu enquanto eu dormia, hein?

– Quando eu disse que você ama arroz – ela continuou –, eles juntaram tudo o que tinham e trouxeram para cá. No fim das contas, era bastante.

Uau. Eu nem acreditava. Mesmo derrotando o kraken, eu não fazia ideia de onde ficava a Terra de Wa, muito menos quando chegaria outro carregamento. Achei que ficaria sem arroz por um bom tempo.

– Isso me deixa muito feliz de ouvir. Mas tem certeza que eu posso comer isso? São suprimentos preciosos, né?

– O que você tá falando? Você derrotou o kraken. Nossa falta de comida acabou! O oceano é um tesouro de alimentos; temos toneladas para comer.

Arroz sem culpa. Eu aceitaria.

Embora… agora que pensei, pedi ao Blitz e aos outros para comprarem suprimentos na vila vizinha à toa. Bom, não iam comprar só comida, suponho.

– Se todos estão vindo me agradecer, acho que a notícia do kraken já se espalhou, né?

– Sim. Alguns até viram.

Tinha gente lá? Eu nem percebi. De qualquer forma, eu nem queria que isso virasse um evento gigantesco… mas já era tarde demais. Não ia dar para usar a desculpa da “aventureira A-rank de passagem” de novo.

– Ei, eu já falei para todo mundo não te incomodar. Por que você tá preocupada? – Atola perguntou.

– Vai ser um saco se a notícia se espalhar que eu derrotei o kraken. Vai ter ainda mais gente na minha cola o tempo todo…

Atola e Deigha olharam para mim. Sabia exatamente o que queriam dizer.

– Eu sei que estou falando isso agora – acrescentei –, mas queria ter mantido isso entre nós, se fosse possível.

– A notícia já se espalhou bastante – disse Atola.

Deigha balançou a cabeça.

– Depois do que você fez ontem, não tem como esconder.

– Dá para, pelo menos, pedir para o pessoal daqui não espalhar para fora?

– Não se preocupe. Esse porto vive mais isolado. E mesmo que dissessem que uma garota-urso derrotou o kraken, ninguém acreditaria. Uma ursinha badass? Fala sério – disse Deigha.

Eles tinham razão. Praticamente, será que existia alguém capaz de derrotar um kraken sozinho? Nunca conheci alguém assim, então não sei.

Bom… o que estava feito estava feito. Eu só ia rezar para os rumores não crescerem demais.

Depois de comer arroz até ficar satisfeita, saí da pousada com Atola para dar uma caminhada.

Mesmo de manhã cedo, tinha gente por toda parte. Todos sorrindo, conversando, animados. Algumas senhoras me viram e correram até mim.

– Atola, é essa a garota-urso que derrotou o kraken?

– Sim, foi ela!

– Mas ela é tão fofinha!

– Muito obrigada, mocinha! Nunca vi meu marido ir trabalhar tão feliz. É tudo graças a você.

– O meu também! Ele estava tão deprimido, mas depois que viu o kraken derrotado, voltou para casa chorando de alegria!

Sorrisos, lágrimas de gratidão, alegria por toda parte. O que eram arroz, shoyu ou missô comparados a isso?

– Em comemoração à derrota do kraken, estamos servindo peixe para todos! Por favor, venha também!

– Querida, estou preparando uma refeição deliciosa! Venha comer!

As vovós falaram o que tinham a dizer e foram embora, mas não acabou. A cada passo, mais agradecimentos, mais risadas, mais emoção.

– Todo mundo quer te agradecer, Yuna – disse Atola. – Na verdade, acho que estão se segurando.

Parecia que ficaríamos presas ali para sempre, então escapamos e seguimos juntas para o penhasco onde eu havia derrotado o kraken.

Ao nos aproximarmos montadas no Kumayuru e no Kumakyu, vi vapor subindo do oceano.

– Hmm. Parece que os efeitos da sua magia ainda estão lá, Yuna.

Uau. Os ursos de fogo fizeram tudo isso?

Quando chegamos ao penhasco, encontramos um velho olhando para o mar.

– Senhor Kuro?!

– É você, Srta. Atola?

– Claro que sou. O que faz aqui?

– Achei que se esperasse por aqui, poderia ver a pessoa que derrotou o monstro.

– Não vai pescar com os outros?

– Deixo isso para os jovens. Eu preciso agradecer a pessoa que derrotou esse monstro. Você, garota – disse ele olhando para mim –, com a roupa de urso… foi você que fez isso?

– Sim, fui eu.

O velho assentiu devagar e caminhou até mim.

– Ouvi falar, mas nunca imaginei que fosse tão pequena. Bom… eu sou o responsável por cuidar do mar aqui. Você salvou nosso porto e o próprio oceano. Serei grato pelo resto da minha vida.

O velho fez uma reverência profunda. Depois se virou para o mar e apontou para um navio distante.

– Está vendo aquele navio lá? – disse suavemente. – Olhe bem. Imponente, não é? Você fez isso, menina. Você abriu o oceano para nós novamente.

Lágrimas discretas surgiram nos olhos dele.

Ele estava chorando… por algo que eu fiz… por arroz, missô e shoyu. Ai…

– Achei que ninguém seria capaz de derrotar um monstro desses. Não sei se existe algum aventureiro, algum exército, em qualquer lugar, que poderia vencê-lo. As pessoas da cidade não entendem isso. Elas não sabem o quão incrível você é, menina.

– Não se preocupe com isso. Eu só descobri um jeitinho de derrotá-lo. Eu só não quero que o pessoal faça um escândalo… então só…

Ergui os ombros, desanimada.

– Não se preocupe.

O que mais eu poderia dizer?

– Hm. Bem, se tiver qualquer problema neste porto, basta me chamar. Prometo que ajudarei você com tudo que puder.

Agradeci. Parecia mais natural eu agradecer do que o contrário.

– Então, Yuna, o que você vai fazer com o kraken? – perguntou Atola, olhando para o cadáver cozido balançando no mar.

– Posso vender?

– Claro! É uma iguaria caríssima, e a pele e os materiais são muito úteis. Como é raro, você vai conseguir vender por muito dinheiro.

– Legal. É de vocês. Da cidade inteira, digo.

– Tem certeza?! Você poderia fazer uma fortuna!

– E a cidade também. Aposto que tem gente que perdeu navios por causa do kraken.

– Você tem certeza mesmo? Isso ajudaria muito.

– Se quiserem me retribuir, me mostrem só um bom pedaço de terra aqui no porto. É tudo o que quero.

Eu queria instalar um portal de transporte ursino.

– Oh, vai morar aqui?

Balancei a cabeça.

– Só vou fazer uma casa de férias. Quando esquentar, vou trazer meus amigos para passear.

Eu traria Fina e as outras, e íamos nadar. Pensando bem… o que será que esse mundo usava para nadar? Tinham maiôs? Não iam entrar pelados, né? Espero que tenham roupas de banho.

– Nesse caso, por que não fica na pousada? Deigha ia adorar te receber sempre – disse Atola.

Não. Se eu fizesse isso, não poderia instalar o portal de transporte. Subir aquela montanha era um saco.

– Enfim, estou feliz por você dar o kraken, mas…

O corpo enorme do kraken boiava.

– …não podemos fazer nada com ele agora. Mesmo que quiséssemos, seria impossível puxá-lo até a terra.

Hmm, é. Mesmo levar para a praia seria um trabalho enorme.

– Me dá um segundo.

Usei magia de terra e criei uma escadaria do penhasco até o kraken. Desci e toquei uma parte do kraken que estava fora da água.

Pronto. Ele sumiu: guardado no meu Armazém do Urso.

Fiz o mesmo com o wyrm cozido e voltei para onde os dois estavam.

– Yuna – disse Atola, sem fôlego –, eu não acredito nisso.

– Eu preferia que ninguém soubesse muito sobre esse item bag, então agradeceria se guardassem segredo.

– Tudo bem, tudo bem. Mas ver aquele muro de ursos que você deixou para trás é um espetáculo – disse ela.

As estátuas de urso feitas de terra ainda estavam lá, imensas, saindo da água.

– Vou destruir agora.

– Por favor, espere – disse o velho de repente.
– Você poderia deixar assim?

– Por quê?

– Para que nunca esqueçamos o que aconteceu. Com o tempo, a memória das pessoas desaparece. Elas esquecem. Quero deixar assim. Você nos salvou e derrotou o kraken, mas também perdemos muito. Precisamos lembrar de tudo – a coragem e a tragédia.

Eu realmente não queria deixar aquilo lá… mas como dizer não depois de um discurso desses?

– Onde devemos fazer o corte da carne? – perguntou Atola.

– Bem – disse o velho –, acho que a praia perto do porto é o melhor lugar. Podemos chamar o pessoal para ajudar e facilitar a tarefa.

– Verdade. E se perguntarem como carregamos, vamos dizer que você usou magia, Yuna.

As pessoas realmente acreditariam nisso? Bem… talvez fosse o melhor jeito.

– Entendi. Vou reunir os pescadores que puder e nos encontramos lá.

O velho Kuro e Atola foram de barco até o porto.

Eu subi no Kumayuru e fui para a praia onde iríamos fazer o processamento.

Ali, tirei o kraken e o wyrm do Armazém do Urso e coloquei seus corpos gigantescos na areia.

Ambos cheiravam deliciosos.

 

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