Capítulo 121
As escadas estavam livres pra qualquer um subir.
Será que tudo bem conseguir subir tão facilmente assim?
Subi devagar, degrau por degrau, com cuidado.
Com que expressão será que todos estão me esperando?
Terminei de subir o último degrau.
— Quanto tempo, pessoal.
Disse isso com um sorriso radiante no rosto.
— Ali-chan, o que houve com seu olho?
Curtis-sama disse isso com um tom animado, talvez fingindo de propósito não perceber o clima.
Isso… eu posso ignorar, né?
— O que você quer, afinal?
Albert-nii-sama disse isso franzindo a testa, com uma expressão totalmente oposta à do Curtis-sama.
Ah, essa não é uma atitude muito adequada pra receber a irmã depois de tanto tempo, não é?
Isso aqui devia ser um abraço de reencontro!
Que tipo de figura será que eu virei na cabeça deles?
Provavelmente, pelo clima da academia hoje, eu já virei uma vilã e tanto.
Graças a Deus, tem circulado vários boatos maldosos… isso é ótimo, mas de onde será que eles vêm, afinal?
Mas, como são diferentes da realidade, boatos falsos são chatos mesmo. Eu preciso fazer coisas más de verdade.
…Mesmo assim, todos eles têm mesmo um charme, uma sedução impressionante, afinal são alvos de conquista de otome game. Ficam mais bonitos a cada dia. Será que vão virar esculturas que ficam pra história?
— Soube que você socou a Jane e a deixou desmaiada?
— A Jane é minha amiga.
Liz-san abriu a boca, como quem embarca na deixa das palavras do Albert-nii-sama.
Que voz bonita e cristalina, pensei comigo mesma.
Parece bem brava. Bem, é natural ficar brava se uma amiga apanha.
— Amiga, é?
Disse isso com escárnio.
Sinto mesmo que perdi um pouco de humanidade comparada a antes.
— É minha amiga sim!
Liz-san disse isso, levantando a voz.
— Eu não sou amiga dela.
— Do que você está falando?
— Isso é uma relação entre você e a Jane-san, e eu gostaria que a Liz-san não se metesse na minha relação com a Jane-san.
— Você parou de usar tratamento formal com alguém mais velho, viu.
Ouvi o Jill me dizer isso baixinho.
…Esqueci de como usar tratamento formal, mas isso é só desculpa.
Sinceramente, sinto que já não preciso mais falar com formalidade com a Liz-san.
E, além disso, o comentário do Jill agora soou como um jeito de zombar da Liz-san.
Olhei pro Jill. Ele tinha um sorriso maroto no rosto.
Parece um demônio. Ao lado de uma vilã, tem que ter mesmo uma criança que parece um demônio.
— Mesmo assim, ela é minha amiga. Eu não posso ficar calada!
— …Eu entenderia se ela quisesse revidar. Por isso, mesmo que a Jane-san viesse me atacar do nada, eu não pensaria nada de especial. Mas ficar sendo atacada pela Liz-san é bem irritante.
— Do que você está falando?
— Estou dizendo pra você parar de se meter em coisas que não têm nada a ver com você.
Liz-san arregalou os olhos com minhas palavras.
Me olhava com uma cara de quem não acreditava no que eu estava dizendo.
— Que jeito de falar sujo.
Gale-sama disse isso me encarando com uma cara terrível.
— Que mulher louca.
Eric-sama disse isso, cuspindo as palavras com desprezo.
— Ora, que falta de educação com uma dama.
— Que dama, o quê.
— Vocês mudaram bastante desde a época em que a gente ia à cidade juntos.
— Quem mudou foi o seu cérebro.
— Será mesmo?
Ladeei a cabeça de leve, sem desfazer o sorriso.
Bem propositalmente artificial e digno de vilã. Isso são pontos extras de vilania.
— Mais do que isso, eu tenho um assunto com o Duke-sama.
Fui direto na direção do Duke-sama.
Senti uma pressão tremenda vindo do Duke-sama, sentado sozinho no sofá.
— O que foi?
— Achei que você estaria machucado e choramingando pelas minhas palavras.
Duke-sama franziu o rosto com minhas palavras.
— Conhece a expressão "ajuda indesejada"? Eu não pedi pra você me observar.
Disse isso encarando fixamente o Duke-sama.
O Jill provavelmente achava que eu tinha vindo pedir desculpas ao Duke-sama, e ergueu o olhar surpreso com minhas palavras.
Mais do que desprezo, todos me olhavam com uma expressão de surpresa. Isso sim é o que se chama de ficar sem palavras.
— Mas fiquei feliz que você tenha se preocupado comigo. Muito obrigada.
Disse isso antes que o Duke-sama pudesse falar algo, e curvei a cabeça devagar.
Eu reconheço que falar daquele jeito com alguém que se preocupou comigo foi errado da minha parte.
Espero que esse sentimento chegue até ele.
Não sei que expressão o Duke-sama está fazendo agora.
Mas dava pra sentir que o clima ali estava envolto em tensão e surpresa.
Vi a sombra da mão do Duke-sama se estendendo em direção à minha cabeça.
— E mais uma coisa.
Murmurei isso numa voz baixa, olhando pro chão.
Antes que a mão do Duke-sama tocasse na minha cabeça, agarrei a gola dele com força, com uma das mãos.
Consegui! Peguei direitinho, sem errar.
…O corpo de um homem é bem firme mesmo, hein.
Duke-sama me olhava com os olhos arregalados.
Parecia não entender o que estava acontecendo com ele mesmo.
— Observar, é? Se você quer me observar, por que não diz isso diretamente pra mim? Eu gostaria que você não achasse que ficar calado é legal. Se você não colocar em palavras, eu não vou entender. O Duke-sama fica me observando por conta própria, e eu não sei de nada disso.
Duke-sama continuava paralisado, me olhando.
Ergui só um dos lados da boca.
— Se fosse eu, em vez de só observar o Duke-sama, eu o protegeria de perto, sabia?
Disse isso e soltei devagar a mão da gola do Duke-sama.
Duke-sama continuava me olhando, atônito.
Todos naquele lugar estavam paralisados, olhando pra mim. Nunca imaginei que todos os alunos ficariam paralisados olhando pra mim assim…
Sentindo no corpo aquela quantidade enorme de olhares, comecei a andar em direção às escadas.
Depois de terminar de descer as escadas, quando fui voltar pelo caminho por onde tinha vindo, de repente uma risada caiu de cima.
Uma risada como uma chuva forte. Foi a primeira vez que ouvi o Duke-sama rir assim.
Ergui o olhar devagar.
Ele apoiava os cotovelos na grade, olhando pra mim de cima.
Aqueles olhos que me observavam pareciam transbordar de alegria e felicidade.
— De agora em diante, vou dizer em voz alta tudo que eu pensar, sem parar.
Duke-sama sorriu com um ar maroto.
Uns olhos como os de uma fera que encontrou uma presa.
— Nunca vi o Duke assim.
Finn-sama murmurava isso, olhando pro Duke-sama.
De fato, eu também nunca tinha visto o Duke-sama assim.
— Nossa~, a Ali-chan é demais mesmo.
Curtis-sama disse isso com os ombros tremendo de rir. Até lágrimas se acumulavam nos olhos dele.
…Não precisava rir tanto assim.
Com certeza um galanteador como o Curtis-sama já disse isso pra várias pessoas diferentes.
Encarei ele com um olhar afiado.
— Uma garota das mais fortes vai me proteger de perto. Isso é bem reconfortante.
— Eu também queria ser protegido pela Ali-chan.
— Alicia, você está sendo provocada, viu.
Jill disse isso ao meu lado, rindo um pouco.
Ia dizer "você também está me provocando, né", mas guardei essa frase pra mim.
Pensei em olhar pra cima de novo e encarar todo mundo, mas desisti.
Tenho medo de ver a expressão da Liz-san agora. Seria um problema se nossos olhares se cruzassem.
Virei as costas pro Duke-sama e os outros e fui apressada em direção à saída do refeitório.
Duke-sama não disse mais nada depois disso.
Por um instante, tudo ficou agitado, mas eu não sei que expressão o Duke tinha nesse momento.
Sinto que, se eu me virasse, seria uma derrota. Aqui é hora de aguentar firme.
Aliás, eu disse aquilo de "proteger" no calor do momento, mas eu não consigo usar magia agora!
Será que vou conseguir esconder do Duke-sama, por uma semana inteira, que não consigo usar magia?
Parece que estou correndo cada vez mais direto pra uma bomba. Uma autodestruição seria o pior desenrolar possível.
Vou perder pontos de vilania com isso.
…E, além disso, esqueci de perguntar sobre o vovô Will.
Lembrei disso um tempo depois de sair do refeitório.
Parei de andar, cobri a testa com a mão e soltei um suspiro enorme.
—
(Trecho narrado fora do ponto de vista de Alicia:)
O olhar do Duke, cheio de carinho e amor pela Alicia, cativou todos os alunos que estavam no refeitório.
Não importava se era homem ou mulher, todos ficaram hipnotizados com aquele olhar. Até o Jill ficou paralisado no lugar, olhando pra ele.
Só Alicia não sabia do olhar gentil e cheio de amor que o Duke tinha voltado pra ela.