Capítulo 192
O guarda, sem olhar pra mim, me entregou pela porta da carruagem a roupa que tinha conseguido, além de dois potes, um com lama e outro com carvão.
Nunca imaginei que ele conseguisse tudo isso tão rápido, logo depois de parar a carruagem… e, ainda por cima, uma roupa maravilhosamente surrada e imunda! Exatamente a roupa que eu tinha imaginado.
Os súditos do Duke-sama são realmente competentes. Pra ser sincera, ainda não entendo bem qual é a real intenção do Duke-sama…
Vendo o comportamento dele, chego até a pensar que ele está tentando, de propósito, destruir o próprio reino.
— Alicia-sama. Está tudo bem se eu continuar movendo a carruagem?
— Está tudo bem.
Respondi imediatamente à pergunta do guarda.
Trocar de roupa dentro de uma carruagem em movimento é moleza pra mim. Como meu tronco é bem treinado, não vou perder o equilíbrio por causa de um simples balanço da carruagem.
Bom, claro, se ele freasse bruscamente enquanto estivéssemos em movimento, talvez eu caísse pra frente.
Enquanto pensava nisso, terminei de me trocar num piscar de olhos.
Não tenho espelho, então não consigo ver minha própria aparência, mas acho que devo estar com um visual bem terrível. Ninguém acharia que sou nobre.
Por cima disso, passei ainda mais lama e carvão dos potes. Espalhei bastante carvão também no pano enfaixado nos olhos. E, claro, no rosto e nos braços também. Meus braços, antes brancos e bonitos, foram ficando cada vez mais ásperos e sujos.
Derramei um pouco de carvão sem querer no banco, mas, bom, tudo bem. O rei é rico, deve trocar o estofado fácil, fácil.
Ao ver meu próprio reflexo, levemente refletido na janela da carruagem, não consegui evitar soltar um "oh" de surpresa.
Acho que consegui interpretar perfeitamente um órfão pobre.
…Falta só uma coisa: o cabelo! Se o resto está sujo, esse cabelo negro e brilhante vai parecer estranho, destoante.
Rapidamente, espalhei carvão na cabeça e bagunçei o cabelo com força. Ficou lindamente todo emaranhado.
O efeito do carvão é impressionante mesmo. Recomendo bastante pra quem quiser deixar o cabelo todo desgrenhado.
— Chegamos.
Ao mesmo tempo que ouvi isso, senti a carruagem parar.
Depois de sair do castelo, já se passaram várias horas… finalmente chegamos à fronteira. Só de pensar que agora ainda vou ter que viajar por dentro do reino de Lavarre, já sinto uma vertigem.
Não sei bem se essa distância é longa ou curta. Sinto muito a falta da praticidade de aviões e trens.
Pensando bem agora, os meios de transporte que eu usava na minha vida passada eram realmente maravilhosos. Só depois de perder é que a gente percebe o valor das coisas. Os inventores realmente são gênios admiráveis.
Abrindo a porta da carruagem, agradeci mentalmente aos grandes gênios da minha vida passada.
— Ahn, Alicia-sama…?
O guarda arregalou os olhos diante do meu visual e ficou paralisado. Mesmo sabendo que eu ia vestir roupas surradas, com certeza ele nunca imaginou uma transformação tão radical assim.
O guarda ficou sem palavras, me encarando fixamente.
Perfeito! Essa reação! A reação de surpresa das pessoas é sempre a parte mais divertida.
— A senhorita é mesmo a Alicia-sama, não é?
— Se não fosse eu, ia dar um problemão, não é mesmo?
Bom, existe sim a possibilidade de colocar alguém no meu lugar pra ir pro reino de Lavarre no meu lugar… …Uma vilã provavelmente faria isso.
Mas, no meu caso, eu escolhi ser exilada de propósito. De jeito nenhum eu arranjaria uma substituta.
Mesmo surpreso, o guarda me algemou e começou a andar em direção ao grande prédio na linha da fronteira.