Capítulo 209
As presas do leão são bem maiores do que eu imaginava. Se aquilo cravar no braço de alguém, deve deixar a pessoa incapacitada pra sempre.
Juba impressionante, presença intimidadora, presas grandes e afiadas — é isso mesmo, o rei dos animais.
…Aliás, li num livro antigo que, entre leões, quem realmente caça são as fêmeas.
— Então você é um vagabundo mantido, hein.
Zombei baixinho, encarando o leão. Ele continuava me atacando sem trégua.
Será que ele não se cansa nunca?
No instante em que finalmente ganhei um passo de vantagem, cravei a espadinha com toda a força na pata dianteira dele. Naquele exato momento, o leão desabou no chão, sem forças.
Por um instante, todos ficaram em silêncio, mas logo depois soltaram um grito de empolgação.
— O pirralho conseguiu!
— Não acredito no que estou vendo. Isso não é sonho, é?
— Nunca imaginei que uma criança tão pequena assim conseguisse lutar desse jeito…
Mas a luta ainda não acabou. Agora eu preciso matar esse leão.
Me aproximei devagar do leão imóvel, sem fôlego.
Podia arrastar a pata e tentar fugir mesmo assim, mas por que ele fazia aquela expressão de resignação total? Isso é mesmo um animal selvagem?
Eu também estou bem cansada, mas parece que o leão também estava exausto.
— Foi o efeito da droga passando.
Ouvi alguém sussurrar isso, do lado de dentro da grade da arena.
…Droga?
O que será que injetaram nele, afinal? Será que aquela fúria toda, ao tentar me atacar, foi por causa de alguma droga?
Estiquei a mão devagar pra tocar no leão. Naquele instante, nossos olhos se cruzaram.
Os sons ao redor foram como que cortados, e tive a sensação de que o tempo tinha parado só entre nós dois.
Não eram mais olhos de fera — pareciam olhos implorando por ajuda. Da mão que tocava nele, as memórias dele começaram a fluir dentro da minha mente.
Ainda muito pequeno, recém-nascido, teve os pais mortos por seres humanos, e foi trazido pra cá pra virar espetáculo. Depois disso, injetaram nele drogas contra a própria vontade, criando-o pra ficar cada vez mais violento.
…O que é isso? Os sentimentos que fluíam dele eram dolorosos e tristes demais.
Um leão que deveria estar correndo livre pela floresta, preso numa jaula pequena, amarrado, e ainda por cima submetido a tanta violência humana… Seres humanos são criaturas capazes de fazer coisas realmente cruéis e sem piedade só por diversão.
— Por que você está parado aí igual bobo!? Dá logo o golpe final!
— Mata ele logo!
Que mundo mais sufocante. Você também é digno de pena, transformado em brinquedo dos humanos. Todo destroçado, e mesmo assim continuando a lutar, sem que ninguém o elogie por isso. Sem ninguém pra te ajudar.
— Mata logo!
— Você não está vendo, não!?
Que barulheira… …Hã?
De repente, o local ficou em silêncio absoluto. Desviei o olhar na direção do rei.
…Que impressionante. Só de o rei erguer a mão, fazendo sinal pra que todos se calassem, o local inteiro se calou por completo. Ou seja, é esse o tamanho do poder que o rei tem.
— Então esse é o rei do reino de Lavarre.
Murmurei baixinho, olhando pro rei, que me observava com um olhar de quem estava me testando.