Capítulo 303
Diante das palavras do Henry, o Alan ficou em silêncio.
…Mesmo que tenha sido salvo pela Alicia, existe a possibilidade de que isso tenha sido apagado pelas palavras da Liz.
Aposto que a Alicia não disse aquilo porque tem um coração generoso e gentil ao ponto de nunca odiar o Alan.
Mesmo ela não estando aqui, consigo imaginar facilmente. Consigo até visualizar a expressão radiante de felicidade dela.
Quanto mais odiada pelos irmãos, quanto mais perto de ser morta por eles, mais feliz ela deve ficar. Provavelmente pensou algo tipo "receber tanto ódio assim do meu próprio irmão, olha só como eu cresci!".
No começo, eu não entendia nada do que ela dizia, mas agora já entendo mais ou menos como ela pensa.
Achei que fosse uma masoquista e tanto, mas não é isso. Ela só está desesperadamente tentando se tornar a vilã que idealiza.
Hã? Pensando assim, sinto que estamos fazendo algo terrivelmente desnecessário…
Desfazer o "controle mental" seria, pra Alicia, o equivalente a todo o esforço dela indo por água abaixo. E, ainda por cima, eu sou cúmplice nisso. Não tem como fugir dessa.
…O que eu faço!!
Não só o Albert, mas se até o Alan virar do lado da Alicia, isso seria ruim… Não, mas já é tarde demais agora, né.
— A Alicia…
Dava pra perceber a voz do Alan tremendo.
— Não importa o quanto eu tentasse evitá-la, morando na mesma casa, era impossível não perceber o esforço incansável dela, todo santo dia… Mesmo quando ela ficou dois anos naquele casebre, eu via as criadas levando livros pra lá. E também, de vez em quando, sentia aquele poder mágico absurdo vindo de dentro daquele casebre. …Eu não queria admitir. Não queria admitir que a Alicia, que estava em conflito com a Liz, fosse alguém tão esforçado assim.
Henry ouvia em silêncio a fala do Alan. Alan continuou falando, como quem finalmente colocava tudo pra fora.
— Não queria acreditar naquela imagem dela acordando mais cedo que qualquer um todas as manhãs pra praticar esgrima, ou estudando até tarde da noite na biblioteca. Sei que sou um irmão péssimo. …Mas, talvez, ver ela daquele jeito só me fizesse sentir ainda mais vergonha de mim mesmo, e por isso acabei dependendo ainda mais da Liz.
— Eu entendo bem esse sentimento. Eu também me sinto miserável quando vejo a Alicia.
Henry disse isso, sentindo alguma compaixão pelo Alan.
Eu também entendo esse ponto. Perto da Alicia, a gente sente na pele o quanto é insignificante.
— Uma vez, por acaso, cruzei com a Ari no corredor de casa, e ela me perguntou uma coisa.
— O quê?
— Perguntou se eu sabia o que tinha acontecido num dia em que o reino de Lavarre teve uma queda repentina de temperatura e todas as colheitas foram destruídas. Achei que era mentira dela, e nem dei atenção. Nunca imaginei que a Alicia estivesse pesquisando sobre o reino de Lavarre, e, como aquele dia coincidia com o aniversário da Liz, achei que fosse algum tipo de sarcasmo dela, mas…
Por que, justamente, a Alicia perguntou isso ao Alan?
Não, bom, se tem algo que não se sabe, é normal perguntar ao próprio irmão. É um assunto que fica martelando na cabeça, mas mudanças climáticas anormais não são assim tão raras.
A própria Alicia provavelmente também não deu tanta importância a isso na época.
Mas, pelo que estou ouvindo agora, parece que existe algo bem interessante escondido nesse assunto.
Concentrei toda minha atenção na conversa deles.