Capítulo 384
…Só falta pouco pra Madi se soltar de vez. Demorou um pouco, mas consegui, de algum jeito, separá-la da parede do penhasco.
O problema agora é como sair daqui carregando a Madi.
Pensei em virar pássaro e sair carregando a Madi com segurança, mas, desse jeito, corria o risco de machucar a flor. Não posso me dar ao luxo de errar bem aqui, não teria como encarar o Victor e o Leon depois.
Já que confiam tanto em mim, preciso garantir o sucesso…
Lancei magia mais uma vez sobre as plantas venenosas ao redor. Só precisava que abrissem um caminho, o suficiente pra eu nem encostar nos espinhos.
Mesmo canalizando bastante poder mágico, elas não se mexiam nem um pouco. …Será que elas têm algum tipo de poder que anula magia?
Agora entendo bem por que dizem que a doença das manchas só leva à morte. A Madi é importante, mas, pelo contrário, agora fiquei curiosa também sobre essa planta venenosa.
Eu queria me livrar logo desse cheiro que deixa a mente enevoada. …Sinto como se meu poder mágico estivesse sendo sugado.
A planta venenosa anula minha magia, e a própria flor que serve de remédio suga meu poder mágico. Situação absolutamente desesperadora.
— Ei, olha aquilo.
Ouvi a voz do Victor, agitada, vindo de cima.
— Será que é um parente daquele urso de antes?
— O bufar dele está mais forte que o de antes.
— Será que ele ficou excitado ao ver o Príncipe Victor?
— Para com isso.
Não sei o que estava acontecendo lá em cima, mas o Victor e o Leon mantinham, surpreendentemente, uma conversa calma.
Bom, sendo aqueles dois, não preciso me preocupar. Pelo contrário, comecei a sentir pena de quem quer que estivesse enfrentando os dois.
Por enquanto, preciso focar em mim mesma. Do jeito que está, vou acabar passando o resto da minha vida presa nesse espaço apertado.
Se ao menos eu conseguisse extrair só os componentes da Madi…
No mesmo instante em que pensei isso, percebi que as plantas venenosas ao redor da Madi começaram a se mover devagar. Iam se fechando em volta de mim, como se quisessem me prender ali dentro.
…Não pode ser sério. Em vez de se fechar pra dentro, deviam se abrir pra fora!
O mundo realmente não é tão fácil assim.
Perder a saída seria péssimo. Os espinhos estavam quase encostando na minha pele…
Já não tenho mais tempo pra ficar pensando em alternativas. Respirei fundo e me concentrei com toda a força.
Lancei magia sobre a flor da Madi e extraí os componentes num único instante. Um líquido laranja intenso ficou flutuando no ar. Fiz o líquido passar pela fresta entre as plantas, saindo pra fora. Voltei à forma de pássaro e consegui escapar dali por pouco.
Antes de relaxar, solidifiquei o líquido da Madi em forma de cubo. O que, até pouco antes, era uma flor linda, virou um cubo alaranjado.
…Magia é mesmo incrível. Acho que posso me gabar um pouco disso.
Mas o alívio durou pouco: a magia se desfez, e voltei da forma de pássaro pro meu corpo humano de novo. Usei tanta magia seguida que minha respiração ficou rasa.
Ah, droga. Vou cair.
Os braços que, até pouco antes, batiam desesperadamente como asas, voltaram a ser os braços comuns que eu conhecia. Pra não desperdiçar todo o esforço até aqui, peguei o cubo endurecido de Madi e o guardei no bolso.
Isso, eu preciso proteger a todo custo!
— Mestra!
— Alicia!
As vozes do Leon e do Victor ecoaram nos meus ouvidos, e voltei o olhar pro topo do penhasco. Enquanto os dois me encaravam, desesperados, ao lado deles jazia um javali gigantesco, derrubado.
…O que é aquilo, nunca vi um javali tão grande assim. Era disso que estavam falando, "parente do urso"? …Aliás, eles conseguiram derrubar um javali desse tamanho absurdo, só os dois?
Mesmo prestes a morrer, fiquei distraidamente impressionada com aquilo.
Eu sempre tive a convicção de que jamais ia morrer, mas parece que as pessoas morrem facilmente mesmo. Talvez eu estivesse confiando demais na minha própria força.
Já não tenho mais poder mágico nem energia física pra usar agora. Normalmente eu sempre penso "com certeza vou dar um jeito", mas, com esse cansaço tão avassalador, não consigo pensar em nada. Só consigo continuar caindo.
Se a Madi não tivesse sugado meu poder mágico, talvez eu conseguisse reverter essa situação…
O mundo parecia em câmera lenta. Só pra mim, o tempo passava devagar.
Já ouvi dizer que, quando alguém se prepara pra morrer, pensa na pessoa mais importante pra si.
……………Duke-sama.
Pensei nele. Nunca mais poder revê-lo — isso me deixa tão triste. Meu peito se aperta com força.
Foi graças ao Duke-sama que eu consegui ser tão livre assim. Talvez eu tenha sido apoiada por ele muito mais do que eu mesma imaginava. Só agora percebo o tamanho do amor dele.
Eu queria vê-lo, nem que fosse só mais uma vez, antes do fim.
Ouvi algum grito vindo do topo do penhasco. Não conseguia entender o que diziam, mas parecia que estava havendo algum tipo de discussão.
Será que é o Victor gritando de novo? Será que ele está irritado porque, apesar de todo esse perigo, não conseguimos a Madi?
Fica tranquilo, eu vou proteger ela até o fim.
Enquanto observava tudo distraidamente, alguém começou a cair na minha direção, vindo do penhasco, numa velocidade absurda. Contra o céu completamente limpo, um cabelo azul balançava ao vento.
Diante daquela cena inacreditável, arregalei os olhos.
…Duke-sama!? Uma alucinação!?
Será que, sem perceber, eu já tinha morrido? Não faz sentido nenhum o Duke-sama estar num lugar como este!
Nunca tinha visto aquela expressão tão desesperada nele. Uma expressão de quem não se importava nem um pouco com a própria vida, contanto que conseguisse me salvar.
Sem eu perceber quando, um braço grande me envolveu. Quentinho, e com um cheiro maravilhoso. Era o cheiro do Duke-sama.
Sem conseguir entender a situação, fomos caindo direto pra dentro da floresta.