Capítulo 422
Um grito de dor ecoou com força nos meus ouvidos, por um único instante.
Acho que essa voz jovem do tio Will, que eu nunca tinha ouvido antes, vai ficar marcada na minha memória pelo resto da vida. Com certeza, aquele grito era o momento em que arrancaram os olhos dele.
Forcei a vista, desesperada, tentando gravar cada detalhe daquela memória do tio Will.
No canto escuro de uma cela, um jovem estava encolhido, sozinho.
Diante daquele clima coberto de desespero, só consegui ficar parada ali, olhando.
Na verdade, mesmo se eu estivesse ali de verdade, provavelmente eu não conseguiria dizer nada ao tio Will.
Acho que vou continuar sentindo minha própria impotência pra sempre, não importa quanto tempo passe. Foi assim na primeira vez que fui ao vilarejo da pobreza também. Senti vergonha da minha própria impotência por não conseguir ajudar o Jill.
As pessoas falam "vou ajudar" com tanta facilidade, mas muitas não entendem o quanto isso é difícil de verdade.
Deveriam ter mais consciência da responsabilidade que essas palavras carregam.
…Se tivessem essa consciência, não conseguiriam dizer "vou ajudar" com tanta leveza assim.
Me aproximei devagar do tio Will, encolhido.
Mesmo sabendo que era passado, mesmo sabendo que era só uma memória, eu queria estar ao lado dele.
Se essa é a memória mais dolorosa do tio Will, eu quero ficar perto dele, acompanhando isso junto.
É só um sentimento egoísta meu, mas é porque o tio Will é uma pessoa importante demais pra mim…
— Senhor Will.
Ouvi a voz do vovô vindo da cela ao lado.
Deve ser antes de os vovôs serem exilados. A Senhorita Kate e o Senhor Mark provavelmente também estavam ali.
O tio Will provavelmente ouvia a voz do vovô, mas não respondia nada. Eu queria abraçar aquele garoto, mais ou menos da minha idade, que parecia completamente esvaziado.
— Senhor Will, o senhor está bem?
A voz preocupada do vovô ecoou pela cela. Com certeza, os vovôs também estavam sofrendo um castigo severo.
Não teria como sair exilado sem nenhum ferimento.
— Por favor… por favor, não morra.
Senti uma raiva enorme diante daquela situação toda. Por que eles precisavam passar por algo assim?
Que crueldade… Uma cela é lugar pra bandido, não é?
Tentando conter a raiva com todas as forças, olhei pro tio Will.
— ……………Que pessoa cruel, dizer isso numa situação dessas.
Uma voz fraca e baixa saiu da boca do tio Will.
Ele tinha perdido tudo que era importante pra ele, e, além de tudo, teve os dois olhos arrancados e foi jogado numa cela.
Dizer "por favor, não morra" pra ele, nesse estado, era cruel demais.
— Por favor, viva — a voz firme do vovô ecoou pela cela.
Nunca imaginei que, numa situação como essa, só o vovô conseguiria dizer isso a ele.
— …Pra quê?
— Pelo futuro deste reino, algum dia.
O vovô respondeu na hora.
…Vovô, isso não é meio sem coração?
Até quando você vai fazer o tio Will carregar esse fardo? …Não seria melhor libertá-lo dessa responsabilidade?
Ou será que sou eu quem está sendo ingênua, pensando assim?
— Você está me pedindo pra continuar trabalhando por um reino que me traiu?
Ele tem toda razão.
Por que ele precisaria continuar pensando num reino que destruiu sua própria vida daquele jeito?
Senti empatia genuína pelo tio Will. Recebi de frente toda a raiva que ele sentia pelo reino de Dulkis.
— Um dia, virá o dia em que o senhor vai entender. Que essa é a maior vingança possível contra este reino.
— …Eu não entendo isso agora.
— Tudo bem assim. Com o tempo, com certeza virá o dia em que o senhor vai compreender minhas palavras.
O vovô talvez tenha a capacidade de analisar as coisas com calma, não importa a situação.
A situação em que estavam era do tipo que justificaria enlouquecer completamente. Se eu estivesse numa situação parecida, não sei se conseguiria manter a calma assim.
— Não importa quanto tempo passe, eu jamais vou agir em favor deste reino.
O vovô não respondeu nada àquelas palavras do tio Will.
Depois de um silêncio prolongado, o tio Will continuou, devagar: "se".
— …Se, algum dia, eu conseguir enxergar de novo, então, naquele momento… não, isso é um milagre que jamais vai acontecer. Melhor parar de pensar nisso.
— …E se existisse alguém capaz de realizar esse milagre?
— Nesse caso, eu dedicaria minha vida inteira a essa pessoa. Prometo que seguiria a vontade dela, com corpo e alma.
O tio Will ergueu um pouco o rosto e disse isso com uma voz firme.
Fiquei paralisada ali mesmo, olhando fixamente pro tio Will.
…Não pode ser sério.
Então, será que, naquele dia, quando eu dei um dos meus olhos ao tio Will, ele dedicou a própria vida a mim?
Você apostou sua vida inteira no meu sonho, tio Will?
— Eu gostaria que essa pessoa fosse do reino de Dulkis.
Assim que o vovô disse isso, a memória se cortou de repente.