Capítulo 481
…Voltamos pro meu quarto.
Fazia tempo que eu não usava magia de teletransporte. …Senti uma leve tontura, como se estivesse enjoada.
— Essa magia é realmente incrível, viu.
— Se a imagem mental se desfizer um pouco só que seja, a gente pode acabar sendo teletransportado pra um lugar completamente diferente. Isso é bem complicado.
— Até magia dá trabalho, então. O Duke e a Alicia fazem isso parecer tão fácil… bem, eu já sei que vocês dois são anormais mesmo.
Isso é um elogio, não é…?
Não, deixa isso de lado por agora. Quero saber mais sobre a Julie-sama.
…Não, espera, também quero saber como vai ficar a situação da Mel e do Curtis-sama, e ainda fico curiosa com a vida amorosa do Finn-sama!
O assunto amoroso do Finn-sama pode ficar pra depois, bem depois…
Vou esquecer o reino de Lavarre por um instante. …Mesmo assim, minha cabeça já está prestes a explodir.
— Aaaaah!!
Soltei um grito bem forte, vindo direto da barriga.
O Jill fez uma cara de espanto diante do meu grito repentino, arregalando os olhos pra mim.
— Ai, meu Deus… a Alicia está soltando gritos estranhos, ela finalmente quebrou. Achei que ela estava trabalhando demais, mas…
— Eu não quebrei!
Me virei pro Jill. Ele estremeceu com minha voz e murmurou: "que susto".
Este mundo devia ser bem mais simples e alegre, como um otome game normal… Mas, pra mim, esta é a minha realidade agora, então não posso simplesmente ficar tranquila demais… ainda assim, quero viver de um jeito mais leve.
— …É isso mesmo, não precisa pensar tão fundo assim.
— O que foi isso… agora você chegou a essa conclusão sozinha?
— Vai dar o que tiver que dar. Por agora, vou parar de pensar em tudo!
Falei isso com força, e o Jill deu um tapinha leve no meu ombro, com uma voz gentil: "Alicia".
— Não seria melhor se preocupar um pouco mais?
Nunca esperei que o Jill fosse recomendar que eu me preocupasse mais…
— Não, uma vilã não se preocupa!
— Lá vem você de novo, com essa teoria misteriosa!
— Ficar pensando "o que eu faço, o que eu faço" pra sempre não traz resposta nenhuma, não é?
— Mas, se você parar de pensar por causa disso, a humanidade em você vai acabar se deteriorando!
— Meus pensamentos estão sempre girando, viu!
— Então por que você está dizendo que não vai pensar fundo!?
— Porque, se você pensa fundo demais, os pensamentos ficam complicados demais. É melhor pensar de um jeito mais leve e simples.
Era raro eu e o Jill entrarmos numa discussão desse jeito.
Normalmente ele acaba desistindo, resignado, mas dessa vez ele estava revidando bastante.
Será que ele achou que eu tinha ficado preguiçosa, depois de tanto tempo sem nos vermos…?
— No final das contas, isso é assunto de outras pessoas. …O que acontece com o Harris e a Merry daqui pra frente depende só deles mesmos. Se a companhia comercial Ojes vai à falência, não é problema meu. E o fato de a Julie-sama ter armado contra o tio Will e os três sábios de Dulkis também não é algo que eu tenha o direito de me vingar — eu não sofri dano direto dela. Fico curiosa sobre que tipo de pessoa ela é, mas não vou sair por aí destruindo o mandante escondido por trás do rei. Sobre a Mel e o Curtis-sama, eu só me meti por pura curiosidade. Não acho que consigo fazer alguma coisa pra juntar os dois. …É o mesmo sentimento que todo mundo tem, só fiquei curiosa mesmo sobre o romance dos dois. Eu não sou nenhuma heroína da justiça.
Falei isso encarando o cartão de visitas do Gordon, que eu tinha recebido.
……………Eu não sou Deus. Posso ajudar, mas quem decide e quem age, no fim, é sempre a própria pessoa.
— Eu não sei bem o que é a justiça do mundo, mas, pra mim, a Alicia é uma heroína.
O Jill disse isso com calma.
— …Isso é uma honra.
Diante das palavras dele, meu rosto se abriu num sorriso, sem querer.
— Confessar um sentimento transforma a outra pessoa em cúmplice, né. É por isso que eu apoio a Mel. …Bem, mais do que "apoiar o romance" propriamente, talvez seja mais "apoiar a confissão".
— …Como assim?
— Dá pra deixar gravado no coração da outra pessoa que você a amou de verdade. Uma vez que você diz "esse sentimento foi real", isso não pode mais ser apagado. Romance só existe de verdade quando existe outra pessoa envolvida também, não é? Você não quer que isso fique só dentro de você, não é?
E, além disso, ninguém sabe quando vai morrer. Não é só como o tio Will, definhando aos poucos por doença — às vezes a morte chega de repente, sem aviso.
Ninguém tem garantia nenhuma sobre o amanhã. Por isso, acho que é importante dizer o que sente enquanto ainda dá tempo.
O Jill ficou quieto por um instante e então abriu a boca.
— A Alicia, com nível zero de inteligência amorosa, disse algo bem certeiro.
— Ei! Que grosseria!
— Aposto que foi assim também com a Kate Liz. …Depois de confessar, ela ficou tão liberada, tão em paz consigo mesma, que, sei lá, eu meio que não gosto, mas também não deixo de gostar disso.
— Não entendi nada, mas de alguma forma entendi.
— Não devolve minha contradição com outra contradição.
O Jill riu de leve.
Eu, sinceramente, acho a Liz-san admirável. Mesmo sabendo que não havia esperança nenhuma, ela continuou amando uma única pessoa por tanto tempo.
Tenho certeza de que, até agora, ela ainda gosta do Duke-sama.