Capítulo 508
— Exatamente isso.
Diante das palavras do Gilbert, pensei na Julie-sama.
Nunca imaginei que a pessoa que compartilha o mesmo pensamento comigo seria justamente a Julie-sama… Talvez eu tenha conseguido entender, aos poucos, um pouco mais sobre quem ela realmente é — uma pessoa cuja imagem eu não conseguia captar de jeito nenhum.
— Fiquei um pouco interessado em você.
— Então, o senhor conta as informações sobre a Julie-sama?
Perguntei isso com um sorriso alegre.
Esse era o objetivo de hoje. Depois de chegar até aqui, não quero voltar de mãos vazias. Se o Gilbert desenvolveu interesse por mim, não tem por que eu não aproveitar essa oportunidade.
— O que exatamente você quer saber?
— Quero saber tudo sobre ela.
— Tipo, que ela ama demais o rei?
— Não estou atrás de uma informação tão óbvia assim. Agora, não consigo ler nenhum movimento dela, de jeito nenhum. Isso é o que mais me incomoda.
— A Julie-sama costuma ser vista como uma mulher astuta e calculista, mas eu nunca vi ninguém tão desajeitada quanto ela.
O senhor Gordon interrompeu minha conversa com o Gilbert.
Relembrei a Julie-sama que aparecia no diário do tio Will. …Se ela realmente odiasse tanto o tio Will, não faria sentido ela ir visitá-lo de propósito.
— O que a senhorita Alicia quer saber, na verdade, é qual era o sentimento que a Julie-sama tinha pelo Will-sama, não é?
O senhor Gordon já tinha me lido por completo. Não neguei nada, e esperei pelas próximas palavras dele.
— Sem sombra de dúvida, a Julie-sama sentia repulsa pelo Will-sama. Mas, ao mesmo tempo, é fato que também havia amor. …Afinal, dizem que ódio e amor são as duas faces da mesma moeda, não é?
— Eu não consigo acreditar que existisse amor nisso, de jeito nenhum.
Se ela tivesse ao menos um pouco de amor pelo tio Will, ela nunca teria arrancado os olhos dele, nem o teria rebaixado ao exílio no vilarejo de Roana.
O tio Will era um príncipe… e ela simplesmente destruiu os direitos humanos dele, com toda a facilidade.
Ela devia querer, de verdade, que o tio Will desaparecesse. Mesmo assim, as atitudes da Julie-sama são cheias de contradição.
Eu quero entender qual era a real intenção por trás daquela última frase que ela disse ao tio Will: "que bom que você está vivo".
Poderia interpretar aquilo como ironia, mas senti que não era algo tão simples de resumir assim.
— Ela deve ter desejado a morte do Will-sama.
Sim, eu também acho isso.
Mesmo sem conseguir falar em voz alta, respondi mentalmente, concordando com as palavras do senhor Gordon.
— Mas, mais do que a morte do Will-sama, ela desejava, ainda mais, a própria morte. Um desprezo por si mesma tão profundo que sempre a assombrou.
— Isso não me pareceu nada assim.
Olhando pra trajetória que a Julie-sama percorreu, tenho a impressão de que ela deve amar profundamente a si mesma.
Não que o egoísmo seja algo ruim. É só que eu não consigo, de forma nenhuma, imaginar a Julie-sama caindo num profundo desprezo por si própria.
— É possível julgar alguém baseado apenas em "não me pareceu assim"? Ninguém consegue ver o interior de outra pessoa. Todo mundo carrega alguma coisa pesada dentro de si, vivendo com isso.
Fiquei sem conseguir retrucar nada diante das palavras do senhor Gordon, e fechei a boca.