Capítulo 620
— Sou muito grata à Alicia. …Mas isso aqui eu não posso ceder.
Dizendo isso, a Kushana afastou a foice de mim e avançou em direção ao Rigal.
…Rápida demais!
Diante daquele movimento, usei magia de teletransporte de novo pra me adiantar.
Mesmo com minha resistência física já no fundo do poço, lutar contra a Kushana era a última coisa que eu queria.
— Sai da frente, Alicia.
— Não quero.
Ergui a adaga e bloqueei o ataque da Kushana. Sem piedade, ela continuou balançando a foice. Diante dos movimentos ágeis, eu me esquivava desesperadamente com a adaga.
Que força absurda é essa, capaz de desferir golpes tão pesados desse jeito toda vez!
— Rigal, fuja!
Gritei em direção ao Rigal. Reagindo à minha voz, ele se levantou e saiu correndo.
…Que bom.
— Isso não era necessário.
— Kushana, o que deu em você!
Enquanto lutava contra a Kushana, falei com ela. Se houvesse algum motivo, eu queria ouvir.
Eu não queria prolongar essa luta mais do que isso.
Minha adaga ia se rachando aos poucos diante dos ataques dela. …Se continuasse recebendo esse tipo de impacto toda vez, a adaga não aguentaria.
Pouco a pouco, notei algo estranho no jeito da Kushana de balançar a foice, que começava a vacilar. Fiquei encarando-a fixamente.
…………Kushana, por que você está chorando?
Diante de uma única lágrima escorrendo dos olhos dela, parei de me mover. Talvez surpresa por eu ter parado, a Kushana desviou a trajetória da foice, que estava prestes a me atingir, e cravou a ponta dela no chão.
— O que aconteceu?
Os olhos firmes da Kushana estavam cobertos de solidão.
— …Eu matei a Riri-baa. Por isso, preciso tratar o Rigal da mesma forma.
— Por… por quê…
— É questão de responsabilidade. Dessa vez, houve várias mortes. Entre elas, até crianças.
Dava pra perceber a voz da Kushana tremendo um pouco. Mesmo tendo ateado fogo no lugar que a Kushana sempre protegeu com tanto empenho, aquela velhinha ainda devia ser um ser precioso pra ela.
Ela mesma puniu, com as próprias mãos, a mãe que a criou.
— Ela mesma pediu pra morrer, não foi?
Não importa o quão grande tenha sido o crime cometido pela velhinha, a Kushana com certeza deve ter querido protegê-la.
A Kushana não respondeu nada.
— …A culpa de tudo é do Charles, não é?
— Aquele lá vai sofrer muito mais antes de morrer.
A Kushana sabe que os dois foram apenas enganados pelo Charles.
Mas, já que matou a velhinha, ela devia estar pensando que precisava ser coerente e fazer o mesmo com o Rigal.
Eu entendia os sentimentos da Kushana ao ponto de doer. Mas…
— Da última vez também houve mortes.
Talvez percebendo minha expressão se turvar, ela disse aquilo calmamente.
Em terra de índio, siga o costume local. Eu não podia fazer nada. …………Falando nisso, cadê o Rainel?
Lembrei-me dele de repente e olhei ao redor.
Ele não estava em lugar nenhum!!
— O Rainel sumiu!
Diante das minhas palavras, a Kushana também virou a cabeça, checando ao redor.
— …Ele deve ter ido atrás do Rigal.
Isso é ruim, do jeito que está o Rigal vai ser morto pelo Rainel.
Se, hipoteticamente, o Rigal precisasse ser morto, isso só faria sentido se fosse pelas mãos da própria Kushana.
Pensei em usar magia de teletransporte de novo, mas, sem saber onde estava o Rigal, não tinha como ir.
…………O que eu deveria fazer?
— Alicia, o que eu deveria fazer?
As palavras que saíram da boca da Kushana eram a mesma dúvida que eu tinha, mas com certeza tinham um significado diferente.
Os olhos dela mostravam alguém que tinha perdido o próprio caminho a seguir.
Fiquei sem palavras diante daquele lado dela que eu via pela primeira vez. Eu só conhecia a figura sempre tranquila e perfeita de uma rainha.
…Eu queria abraçar a Kushana. Queria dizer que estava tudo bem e incentivá-la.
Mas eu não sei consolar as pessoas desse jeito. Afinal, sou uma vilã. Não vou mimar ninguém.
Puxei o ar fundo e falei em voz alta.
— Se recompõe! Você ainda é a rainha daqui!
Dei um tapa estalado na bochecha da Kushana. Diante daquele acontecimento repentino, ela arregalou os olhos.
Eu queria dar a ela um lugar pra fugir. Queria dizer que só na minha frente ela podia chorar.
Mas isso não podia ser assim.
Eu queria que a Kushana, que logo deixaria de ser rainha, continuasse brilhando como rainha até o fim. Era só o meu próprio egoísmo, mas eu queria que ela mantivesse o orgulho de ser a rainha que reina sobre essa floresta.
Eu entendia bem o sentimento de perder alguém importante. No caso da Kushana, ela mesma tirou a vida dessa pessoa com as próprias mãos.
Devia haver ali uma dor impossível de imaginar. …Mas eu não vou permitir que ela fuja disso.
Mesmo que pareça cruel, quero que a Kushana proteja sua dignidade até o fim.
— O que fazer? Você nem sabe uma coisa dessas? Proteja com todas as suas forças aquilo que você quer proteger!
Minha voz ecoou com força por aquele lugar.
— Se você quiser matar o Rigal, pode matar. …Remexer o passado é decisão sua. Mas o que é mais doloroso pro Rigal é justamente "continuar vivo". Aliás, talvez tenha sido até bom pra velhinha ter deixado esse mundo, livrando-se de uma vida cercada de olhares frios. E, pra mim, os sentimentos do Rigal não importam nem um pouco. Não tem nada a ver com a minha vida se ele sofrer ou não. Mas quanto à Kushana… …………a rainha que amou e protegeu essa floresta, os moradores, mais que qualquer um, eu não quero que ela julgue ninguém num estado de ter perdido a si mesma.
Falei tudo o que eu tinha vontade de dizer.
A Kushana arregalou os olhos, encarando-me. Continuei falando alto, no mesmo impulso.
Não tinha tempo. Precisava me apressar!
— Rigal!! Grite!!
Foi um volume de voz capaz de alcançar qualquer lugar. Talvez fosse a primeira vez que eu gritava tão alto assim.
"Alicia, venha aqui."
A língua antiga do Reino de Dulkis ecoou dentro da minha mente.