Capítulo 683
Pela janela, dava pra ver de leve o nascer do sol, e a luz da manhã entrava no quarto.
No quarto luxuoso, estantes que iam até o teto se alinhavam por toda a parede, abarrotadas de livros.
Eu estava sentada num sofá, de frente pra rainha, enquanto a criada dela e a Mia ficavam em pé perto de suas respectivas senhoras.
Ao lado da rainha havia uma cadeira de rodas, e assim entendi o motivo de ela não ter participado do jantar de ontem.
Já tinha cumprimentado ao entrar no quarto, mas fiz o cumprimento de novo, incluindo minha apresentação.
— Muito obrigada por essa oportunidade tão honrosa. Sou a Alicia, vim do Reino de Dulkis.
A rainha mantinha um sorriso suave direcionado a mim o tempo todo.
…É, de alguma forma, fui recebida com muita cordialidade. Imaginei que fosse uma atitude bem mais intimidadora, então fiquei surpresa.
Pensei "tudo bem sentar assim, em formato de conversa, com a rainha!?", mas já que a própria rainha disse que estava tudo bem, tudo bem então.
— Eu me chamo Irina. Prazer, Alicia.
Dava pra sentir inteligência no timbre da voz. Pra uma mulher, era uma voz grave e calma.
— Ontem você foi impressionante contra a Rosa.
…………Ela estava assistindo!?
Levei alguns segundos de atraso pra entender, mentalmente, as palavras da rainha.
— Nunca imaginei que a senhora estivesse presente naquele lugar…
Diante de mim curvando levemente a cabeça, a rainha riu. Era uma pessoa que ria como uma garotinha.
— Não parece nem um pouco a garota que dominou o clima daquele lugar. Fique mais à vontade. Eu estava ansiosa pra te encontrar. Não imagina o quanto esperei por este dia.
— …Esperou? Como assim?
— Desde o dia em que Amelia foi morta, e Rubia foi morta, o palácio anexo viveu por um bom tempo como um inferno. Envolto numa sensação de sufoco, cada dia era pesado. Como você pode ver, eu já não consigo mais me mover. Quem sabe disso são só a criada Maria, a Mia, e o próprio Owen. …A hostilidade de todos contra o Reino de Dulkis não é só por causa da ação de Duke. O que aconteceu depois que a Rubia desapareceu foi terrível. Este palácio anexo caiu no caos, e houve uma revolta. Não só o palácio anexo — o próprio palácio real também viveu uma tragédia. Não tem como ser diferente, já que uma princesa e uma esposa do rei foram mortas. …E, além disso, até o Owen, que sempre preza tanto pela disciplina, disse "vou queimar o quarto daquela mulher" e tentou invadir o palácio anexo, proibido a homens.
Dizendo isso, a rainha riu, mas com uma expressão de alguma forma melancólica.
A cena que se desenrolou devia ter sido muito mais dolorosa do que qualquer coisa que eu pudesse imaginar.
Nunca imaginei que o caso da mãe do Duke-sama fosse algo tão pesado assim…………
— A morte de Amelia deve ter abalado ele profundamente. …Bem, eu também. Carrego uma ferida funda no coração que nunca vai desaparecer pra o resto da vida. E, sendo arrastada por aquela revolta, fiquei paraplégica.
As palavras não saíam de mim.
Não sabia o que dizer. Só conseguia ouvir as palavras da rainha.
— Não faça essa cara. Já é coisa do passado. Teve gente que perdeu a vida naquela revolta. Já é bom eu ter conseguido continuar viva.
O sorriso da rainha apertou meu peito ainda mais.
Depois de passar por uma experiência tão dolorosa assim, como ela consegue manter uma expressão tão tranquila e gentil?
— …Hã, antes disso, posso fazer uma pergunta?
Finalmente consegui soltar a voz.
— Pode perguntar.
— Por que a senhora Rubia virou criada?
Finalmente consegui perguntar aquilo que sempre me intrigou.