Capítulo 1
Neste mundo existe magia. Só que só nobres conseguem usá-la. Bom, mais tarde vai aparecer uma heroína plebeia capaz de usar magia também… mas isso a gente deixa de lado por enquanto. E eu — Alicia — claro que também consigo usar magia.
A família Williams é uma grande casa nobre especializada em magia das trevas. Trevas, luz, água, vento, fogo. Esses são os cinco elementos que sustentam este mundo como base. Mesmo falando em "especialidade", na prática, o quanto cada um consegue usar essa magia depende da capacidade de cada pessoa.
Claro que eu vou mostrar que sei usar a magia das trevas com perfeição. Afinal, vou me tornar a maior vilã deste mundo — não posso deixar de saber usar nem magia direito. A partir de amanhã, vou acordar cedo e me trancar na biblioteca pra estudar como usá-la.
— Bom dia, Roze!
Assim que eu disse isso e saí correndo do quarto, Rosetta, a criada que me serve, arregalou os olhos. Reação de quem viu um fantasma, quase. É verdade que, pra Alicia de antes — que nunca tinha dado bom dia nem acordado cedo — isso era inimaginável. Eu era tão arrogante, egoísta, e só abria a boca pra reclamar, que a família inteira já tinha desistido de mim.
Pensando bem agora, a Alicia foi criada excessivamente mimada. Por isso foi ficando cada vez mais relaxada consigo mesma. …Mas isso já é passado. A partir de hoje, vou viver sendo rigorosa comigo mesma. Adeus, eu de antes. Nunca mais vou voltar a ser quem eu era.
Vi meus irmãos treinando esgrima no jardim. Será que fazem isso todo santo dia, desde cedo assim? Eu também preciso seguir o exemplo deles.
Fiquei observando enquanto pensava nisso. O mais velho, Albert-nii-sama, tem atualmente doze anos. E os gêmeos, atualmente com dez anos, Alan-nii-sama e Henry-nii-sama. Os três são incrivelmente talentosos, diferente de mim. Bom, é natural, já que recebem educação especializada do Otou-sama desde pequenos.
Meus irmãos são todos alvos de conquista da heroína, então são todos extremamente bonitos. A Alicia, achando que a heroína estava "roubando" seus irmãos dela, implicava com a heroína e, no final, acabava odiada e abandonada pelos próprios irmãos. Ah, que vilã maravilhosa. Mas eu não consigo me lembrar direito de como, no jogo, a Alicia implicava com a heroína… …Tudo bem, então vou ter que implicar do meu próprio jeito.
Vendo meus irmãos treinando esgrima, deu vontade de fazer também. Na vida passada, eu adorava esportes e tinha bastante coordenação motora. Claro que não tenho experiência nenhuma com espada. Justamente por isso, quero tentar. Afinal, falando em vilã, também precisa ser fisicamente forte, não é?
— Nii-sama! Ensinem esgrima pra mim também!
Diante das minhas palavras, meus irmãos pararam o que faziam e olharam pra mim. Ah, que cara de bobo nunca vista antes. Não precisam arregalar tanto os olhos assim. Do jeito que estão fazendo, parece que eu disse alguma coisa estranha. …Será que, neste mundo, era proibido mulheres aprenderem esgrima?
— Ali? Você está com febre?
Ainda de olhos arregalados, Albert-nii-sama olhou pro meu rosto.
— Estou perfeitamente bem de saúde.
— …Por que de repente você quis aprender esgrima?
Albert-nii-sama, mesmo surpreso, logo sorriu gentilmente pra mim. Mesmo sendo meu irmão, o poder de um rosto bonito é absurdo. Por favor, não fique jogando esse sorriso pra todo lado. Vai fazer muitas mulheres chorarem.
Sorri radiante pro Albert-nii-sama e disse:
— Porque eu quero ficar forte.
— "Mentira!"
As vozes de Alan-nii-sama e Henry-nii-sama se sobrepuseram, idênticas. Como esperado de gêmeos, sincronia perfeita. Já o Albert-nii-sama parecia estático, surpreso com a minha resposta. Bom, "querer ficar forte" — no fundo, o que eu quero mesmo é ter força suficiente pra implicar com a heroína. Será que faltou explicar melhor?
Albert-nii-sama olhou fixamente pro meu rosto e colocou a mão na minha testa. Que falta de educação. Eu não tenho febre nenhuma. Estou falando sério.
Alan-nii-sama e Henry-nii-sama se posicionaram um de cada lado do Albert-nii-sama. Ser encarada por três rostos bonitos ao mesmo tempo — até uma irmã mais nova fica sem graça.
— Al-nii, o que a gente faz?
Quando o Henry-nii-sama perguntou isso ao Albert-nii-sama, ele franziu levemente a testa e fechou os olhos. Depois murmurou alguma coisa baixinho, quase inaudível, e me encarou fixamente.
— Tudo bem.
Disse o Albert-nii-sama, sorrindo gentilmente.
Albert-nii-sama, mesmo numa voz baixinha quase inaudível, eu ouvi direitinho o que o senhor murmurou. Disse algo como "aposto que ela não aguenta nem uma semana", não foi? Eu sou do tipo que, uma vez decidida, vai até o fim, sem meio-termo. Pra me tornar a maior vilã do mundo, vou superar qualquer dificuldade.
— Muito obrigada.
Meus irmãos me olharam com desconfiança, diante do meu agradecimento com um sorriso enorme no rosto.
— Primeiro, a Ali precisa ganhar resistência física básica.
Eu já esperava isso, mas parece que não vão me ensinar esgrima de cara. É verdade que resistência básica é importante.
— Como tarefa diária: cem abdominais, cinquenta flexões.
Albert-nii-sama disse isso sorrindo. Aquele sorriso gentil, de alguma forma, parecia bem assustador. Mas achei que cem abdominais e cinquenta flexões seriam relativamente tranquilas. Na vida passada eu tinha praticado ginástica rítmica por um tempo. Estrela e mortal pra trás eram moleza pra mim. …Só que agora eu não tenho absolutamente nenhum músculo, então não sei se vou conseguir. De qualquer forma, naquela época, eu fazia por dia mais ou menos trezentas abdominais, cem flexões, cem agachamentos.
— Al-nii também é cruel, hein.
— Já tá pedindo coisa impossível pra Ali.
Ouvi Alan-nii-sama e Henry-nii-sama cochichando entre si. …Coisa impossível?
É verdade que, pra Alicia de antes, isso talvez fosse impossível mesmo, mas pra mim de agora — a Alicia — é moleza. Bom, meus irmãos não sabem que eu recuperei as memórias da vida passada.
— Entendido, Nii-sama. Então, se eu ganhar essa resistência básica, o senhor vai me ensinar esgrima, não é?
— Sim. Bom, primeiro vamos ver se você consegue manter por uma semana.
Uma semana!? Acham mesmo que eu nem vou aguentar uma semana simples assim.
— Não me subestime.
Falei isso e me afastei dali.
Aquele jeito de falar que eu usei agora ficou parecido com uma vilã, né. Foi a primeira vez na vida que encarei meus irmãos daquele jeito. Alan-nii-sama e Henry-nii-sama ficaram me olhando de boca aberta. Eu, que sempre fui extremamente apegada aos meus irmãos, encarando eles desse jeito? Nesse ritmo, vou polindo minha vilania cada vez mais. Segui pulando levemente até a biblioteca, meu próximo destino.
Já ouvi dizer que a biblioteca da família Williams é a maior entre as famílias nobres, perdendo só pra do palácio real. De fato, parece bem grande. Dá até medo de me perder aqui dentro.
Estantes com mais do dobro da minha altura se estendem até onde a vista alcança. E, além disso, a biblioteca tem dois andares. …Na verdade, essa é a primeira vez que venho aqui, contando até a vida anterior. Nem sei onde ficam os livros de magia das trevas que eu procuro. O que eu faço… Bom, por enquanto vou andar por aí, ver no que dá.
Contos infantis, livros de plantas, livros de animais, livros de medicina… nada! Não encontro nenhum livro relacionado a magia. E, como eu queria aprender magia em segredo, também não quero perguntar pra ninguém onde ficam esses livros…
De repente, peguei um livro de plantas que estava bem na minha frente.
Terminei de ler o livro inteiro em cerca de uma hora. Plantas voadoras, plantas que emitem luz… este mundo tem tantas plantas incríveis! Só coisas que não existiam na minha vida passada — foi realmente interessante. Hoje vou continuar lendo livros sobre plantas.
Esqueci completamente de procurar livros de magia e comecei a devorar livros sobre os efeitos das plantas.
— Senhora Alicia~
Ouvi a voz da Rosetta ao longe. Foi aí que percebi que já tinham se passado dez horas desde que comecei a ler. Parece que fiquei tão concentrada que nem almocei.
Olhei o relógio: exatamente seis da tarde. Ah, já é hora do jantar.
— Senhora Alicia~
Ouvi a voz da Rosetta de novo. Larguei o livro e contei quantos tinha lido. Um, dois, três… vinte e três livros. Vinte e três livros em dez horas… O primeiro tinha levado uma hora inteira… Será que fui ganhando velocidade de leitura aos poucos?
Guuu~~~
O som da minha barriga ecoou pela biblioteca inteira. Por enquanto, saí correndo em direção ao salão de jantar.
Depois de terminar o jantar e voltar pro quarto, o sono me atacou com força total.
Otou-sama, Okaa-sama e meus irmãos ficaram surpresos com o tanto que eu comi. Afinal, comi umas três vezes mais que o normal. Eu queria dormir logo assim mesmo… mas antes disso, preciso fazer meu treino de força. Comecei os abdominais.
Sinceramente… é puxado. Agora eu não tenho força muscular nenhuma, então cinquenta já é difícil. Mas não posso desistir aqui. Pra virar vilã, também é preciso ter perseverança. De algum jeito, consegui terminar as cem.
Depois de comer, sinto o estômago meio embrulhado, mas acho que consigo fazer as flexões.
…Não dá, na décima já meus braços estão tremendo.
Que braços fracos, meu Deus. A força de uma criança de sete anos realmente não é nada. Na vigésima terceira, perdi o equilíbrio. Não consigo mais me levantar. Mas isso também é parte digna do treino pra virar uma vilã de respeito.
Reuni ânimo e, de algum jeito, terminei as cinquenta flexões.
Com o treino de força, fiquei bem desperta — talvez seja uma boa hora pra tentar fazer uma estrela, já que faz tempo que não faço.
Este quarto é bem espaçoso, então, com o meu tamanho de corpo, acho que consigo fazer três seguidas.
Impulsionei o corpo com força pra trás. Vejo o chão. Que sensação nostálgica. Uma, duas… três. Consegui! A última ficou meio incerta, mas, de qualquer forma, consegui! Mesmo sendo coisa da vida passada, uma vez que o corpo aprende, ele não esquece. Ah, depois de conseguir fazer a estrela, finalmente bateu o sono.
Fui direto pra cama.
Hoje também consegui acordar bem cedo. Olhei o relógio e confirmei que faltavam pelo menos trinta minutos até a Rosetta vir me acordar. Meus irmãos com certeza acordam ainda mais cedo pra treinar esgrima. Eu também não posso ficar pra trás. Por enquanto, vamos de abdominal.
Quando tentei, consegui fazer as cem tranquilamente. Ah, será que eu sou uma criança que, quando tenta, consegue? E olha que nem fiquei com dor muscular…
No jogo, por que ela era uma menina que não conseguia fazer nada? …Deve ser porque foi criada mimada demais. Ou seja, se eu for melhorando minhas habilidades a partir de agora, vou virar uma vilã ainda mais impressionante do que a Alicia do jogo. Ah, só de imaginar já dá vontade de sorrir.
Regularizei a respiração, me troquei e fui em direção à biblioteca. Vi meus irmãos treinando esgrima no jardim. Ah, quanto mais eu vejo, mais dá vontade de fazer também.
Os olhos roxos dos meus irmãos brilhavam refletindo o sol, lindíssimos. Os três têm olhos roxos, herdados do Otou-sama. Só eu tenho olhos dourados, herdados da Okaa-sama. Realmente, olhos roxos combinam mais com o clima de "maldade" do que dourados, né. Mas! O que importa é o conteúdo. A cor dos olhos não tem nada a ver com isso. Repeti isso pra mim mesma e segui pra biblioteca.
Passei trinta minutos procurando numa área diferente da de ontem. Mesmo assim, ainda não encontrei nenhum livro de magia. Eu já sabia que não seria fácil, mas não imaginei que fosse um trabalho tão exaustivo assim… Por enquanto, hoje vou ler livros sobre animais.
Repetindo essa rotina dia após dia, uma semana passou correndo. Parece que virou boato na mansão que eu, assim que acordo de manhã, sempre desapareço pra algum lugar — chegaram até a sugerir que eu ficara estranha e que seria melhor chamar um médico. Que falta de educação. Estou perfeitamente normal.
Mas é verdade que ninguém imaginaria que eu estava trancada na biblioteca. Otou-sama sempre perguntava, no jantar, onde eu andava, mas eu só sorria e desconversava.
Não parece exatamente o comportamento de quem está tramando algo sombrio nos bastidores? E ainda por cima, fazendo isso aos sete anos. Bom, por dentro eu não tenho sete anos, mas mesmo assim, no futuro, com certeza vou me tornar extremamente má.
E além disso, acho que cresci de forma impressionante nessa semana. Claro, não estou falando de altura. Passei a conseguir ler dez livros por hora. Como leio cerca de dez horas por dia, isso dá cem livros num único dia. Sinceramente, até eu mesma me assusto, e acho meio estranho. Mas, por algum motivo, consigo ler mesmo assim. Será que é porque a capacidade de processamento do meu cérebro é alta?
E, além disso, ganhei bastante força muscular. Só de olhar não dá muito pra perceber, mas já consigo fazer quinhentos abdominais e trezentas flexões.
Já consigo fazer torções, mortais pra trás, mortais com giro… Que estranho, não faço ideia do motivo. Minha capacidade física não está meio sobre-humana demais? Ou será que, neste mundo onde existe magia, isso é normal até esse ponto? Pensando distraidamente nessas coisas, fui procurar meu irmão pra pedir a aula de esgrima.
…O que é isso, essa aura tremenda que essas pessoas estão soltando?
No jardim, além dos meus irmãos, havia mais algumas pessoas. Ah… aqueles devem ser os alvos de conquista da heroína.
Fiquei observando eles de longe, escondida. Realmente, todos têm rostos tão perfeitos que parece que vão derreter só de olhar.
Ainda assim, que sorte a minha poder encontrá-los tão cedo assim. Posso aproveitar essa oportunidade pra já plantar neles a ideia de que sou uma vilã.
Fiquei olhando pros rostos deles enquanto me esforçava desesperadamente pra recuperar as memórias da vida passada.
Cabelo vermelho que parece prestes a pegar fogo, o senhor Eric da família Hudson, dez anos. Especialista em magia de fogo. É o mais alto entre aqueles rapazes bonitos.
Cabelo dourado brilhante, o senhor Finn da família Smith, dez anos. Especialista em magia de luz. Baixinho, com uma atmosfera bem infantil…
Cabelo cinza místico, o senhor Gale da família Evans. Doze anos. Especialista em magia de vento. Usa óculos, com uma impressão relativamente mais madura.
O que prende o cabelo verde-escuro num rabo é o senhor Curtis da família Kenwood, doze anos. Especialista em magia verde. Entre eles, acho que é o que tem mais charme.
Aliás, a magia verde não entra entre as cinco grandes magias. Neste mundo, além das cinco grandes magias — trevas, luz, água, vento, fogo — existem muitos outros tipos de magia. Só os nobres de posição elevada que conseguem usar as cinco grandes magias são chamados de "as Cinco Grandes Famílias Nobres".
Ah, e por último, mais um… O filho do rei, o senhor Duke da família Seeker. Doze anos. Especialista em magia de água, igual ao rei. Cabelo azul como o mar, pele levemente bronzeada, um rosto másculo e bonito. A altura dele também é bem alta… na verdade, ele é exatamente o meu tipo. Comparado aos outros rapazes bonitos, a aura dele é claramente diferente. Mas, se for pensar no final feliz do jogo otome, ele acaba junto com a heroína, né. Não tem jeito, dessa vez vou ceder ele pra heroína.
Já que consegui lembrar de todos, acho que já é hora de ir cumprimentar.
Respirei fundo e caminhei em direção aos rapazes bonitos.
— Bom dia.
Assim que levantei levemente o canto da boca e cumprimentei, todos os rapazes bonitos viraram o rosto pra mim ao mesmo tempo. De perto, o nível de beleza deles é tão alto que quase desmaio.
— Essa é a irmã do Al?
— Que fofa!
— Que pequenininha~
Todos me olhavam com os olhos brilhando. Nessa hora, como uma vilã deveria reagir? Com certeza não deveria demonstrar modéstia nenhuma. Então, será que devo simplesmente confirmar que sim, sou fofa mesmo? …Não, antes disso, preciso me apresentar. Não quero que pensem que sou uma mulher mal-educada, sem noção de etiqueta.
— Me chamo Alicia.
Falei isso segurando levemente a saia e fazendo uma reverência.
— Ei, ela é bem diferente da impressão que o Alan e o Henry passaram dela.
Ouvi alguém murmurar isso.
…O que será que Alan-nii-sama e Henry-nii-sama andaram dizendo sobre mim? Bom, mais ou menos dá pra imaginar.
— E então, Alicia, o que você veio fazer aqui?
O que eu vim fazer, ele pergunta? Albert-nii-sama, será que o senhor esqueceu mesmo? Eu treinei resistência física todos os dias justamente pensando neste dia!
Engoli as palavras que quase escaparam pela garganta, me acalmei, e declarei com firmeza:
— Ensinem esgrima pra mim.
A mesma reação de antes. Não só meus irmãos, mas até os outros rapazes bonitos.
Será que eu estou dizendo algo assim tão estranho?
— Ali, isso só valeria se você tivesse feito os abdominais e as flexões todo santo dia, não foi?
Albert-nii-sama disse isso sorrindo, como quem repreende gentilmente.
…Eu fiz, viu! Aliás, já fiz muitas vezes mais do que a tarefa que o Nii-sama passou. Não acha que está me subestimando demais?
Fui ficando com raiva aos poucos. Dava pra sentir minhas próprias bochechas inchando. Ah, que jeito nada digno de vilã de ficar com raiva. Ainda sou uma criança mesmo… por dentro é diferente, mas! Ainda tenho pouca experiência como vilã. Não tem jeito. Às vezes a emoção vence a razão.
— Até brava fica fofa.
Senhor Curtis, o senhor não precisa soltar esse charme desnecessário, será que dá pra ficar quietinho um pouquinho?
— Ali, espada é uma coisa perigosa. É impossível pra uma criança.
Albert-nii-sama deu tapinhas gentis na minha cabeça. Por que, na vida passada, esses tapinhas na cabeça eram tratados como um gesto que fazia o coração disparar de emoção? Muito pelo contrário, isso me deixa é irritada. Talvez fosse melhor renomear de "coração disparando de emoção" pra "coração disparando de irritação".
Afastei a mão dele com um tapa leve. O rosto do Albert-nii-sama ficou paralisado. Não só ele — o rosto de todo mundo ficou paralisado. O clima tranquilo de até agora ficou tenso num instante.
Er… o que eu deveria fazer depois disso mesmo? …Bem na hora que precisa, não me vem nada à cabeça.
Nessa situação, só resta agir seguindo a emoção mesmo!
Puxei a espada menor que estava presa na cintura do meu irmão.
…Pesada demais! Espada é tão pesada assim? De fato, treino de força é necessário mesmo.
Mas o resultado de uma semana de esforço estava dando frutos. Com a força que eu tinha antes, provavelmente eu nem conseguiria segurar isso. Do jeito que estou agora, balançar essa espada é… possível, digamos.
Segurando a espada, me aproximei da base da árvore, regularizei a respiração e concentrei toda a força nas minhas pernas. Confirmei a posição da maçã que estava quase caindo e chutei o tronco da árvore com toda a força.
…Precisa cair, viu. Se não cair aqui, vou passar uma vergonha tremenda.
Calculei a trajetória de queda da maçã exatamente como eu tinha lido nos livros. Ainda bem que li tantos livros. Balancei a espada horizontalmente com força total.

Olhando pro chão, vi a maçã caída, partida ao meio.
…Mentira, deu certo.
Levantei o rosto e vi todo mundo de olhos arregalados, parados feito manequins. Queria alguma reação, viu. Será que essa não é justamente a chance de plantar de vez a imagem de vilã?
Respirei fundo, endireitei a coluna e olhei diretamente pra todo mundo.
— Nii-sama, eu já disse pra não me subestimar. Eu tenho um objetivo. Pra alcançá-lo, vou superar qualquer dificuldade.
Que maravilhoso. Essa é exatamente a fala que uma vilã de verdade diria. Pelo próprio objetivo, dá pra fazer qualquer coisa.
— Impressionante.
Quem falou primeiro foi o senhor Duke. O senhor Duke levantou levemente o canto da boca e ficou me encarando fixamente.
Até agora ele estava completamente indiferente a mim… Não precisa ficar me olhando assim tão de repente. Sendo encarada fixamente por aqueles olhos azuis translúcidos, sinto minha própria temperatura corporal subindo.
Albert-nii-sama pegou a maçã partida ao meio e ficou olhando fixamente pra ela. Depois, em vez do sorriso de sempre, olhou pra mim com expressão séria e disse:
— Você realmente quer aprender esgrima?
Eu já falei isso desde o começo, será que não chegou a mensagem. Assenti com força. Albert-nii-sama ficou pensativo por um instante e murmurou "tudo bem".
…Ele acabou de dizer "tudo bem"? Quer dizer que, finalmente, vou poder aprender esgrima?
— Sério mesmo!?
…Que droga. Acabei falando em voz alta o que só devia ter pensado. Até agora eu estava representando a vilã perfeita… Bom, é que eu realmente queria aprender de verdade. Até vilã, às vezes, fica sinceramente feliz!
O rosto do Albert-nii-sama se abriu num sorriso.
— É sério.
Disse ele, gentil, acariciando minha cabeça. Há pouco, quando ele tocou minha cabeça, fiquei irritada — mas agora estou extremamente feliz. Sem perceber, acabei abraçando o Albert-nii-sama.
— Muito obrigada! Eu amo o Albert-nii-sama!
— Albert, seu rosto tá derretendo.
— Acho que ele tá com vergonha.
— Que inveja, Al-nii.
Ah, será que o rosto do Albert-nii-sama estava mesmo derretendo? Queria ter visto isso.
Mas, quando levantei o rosto, ele já tinha voltado à expressão gentil de sempre. …Que sem graça.
Ah! É verdade, já está quase na hora de ir pra biblioteca. Não posso deixar de cumprir minha meta de hoje.
— Então, Nii-sama, até mais tarde. Bom dia a todos!
Falando isso, deixei pra trás o grupo inteiro estupefato e saí dali num leve trotinho.