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I’ll Become a Villainess That Will Go Down in History – Volume 2 Capítulo 7

Capítulo 7

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Capítulo 7

Enquanto a magia não voltasse, decidi ficar quieta, trancada na cabana.

O risco de encontrar o Otou-sama tinha aumentado, mas eu tinha coisas que queria pensar com calma e concentração.

Quando disse ao Henry-nii-sama que não iria à academia por um tempo, ele concordou na hora.

— O Henry é bem tolerante com você, hein, Alicia.

— Só o Henry-nii-sama mesmo.

— É verdade.

O Jill ergueu levemente o canto da boca diante da minha resposta. Ele também ficou trancado comigo na cabana. Fui eu quem pedi pra ele ficar aqui.

— Quando será que apareceu esse lobo na academia mesmo?

— Segundo a informação do Henry, parece que foi há cerca de um ano.

Um ano atrás… Por que isso não virou um caso mais grave?

Não dá pra imaginar um lobo selvagem aparecendo dentro de uma academia de magia. Será que isso chegou aos ouvidos de Sua Majestade?

— O estranho é por que ele apareceu justo na academia de magia.

Fiquei pensando um pouco diante das palavras do Jill.

— Existe a possibilidade de alguém ter feito isso de propósito.

— Mesmo sendo um lobo selvagem?

— Por isso, talvez só tenham feito parecer selvagem.

O Jill, tocando o queixo, franziu a testa, olhando pra longe.

Se realmente alguém soltou um lobo de propósito na academia, isso é um grande problema.

Ah, mas espera. Antes de mais nada, de onde será que trouxeram esse lobo?

— Neste reino não deveria existir lobo, né? …Nesse caso, será que trouxeram de outro país?

Diante das minhas palavras, o Jill abriu a gaveta da mesa e tirou um mapa.

…País estrangeiro. …Lobo. Ah, isso soa familiar de algum jeito… o que era mesmo?

Sinto que está quase conectando alguma coisa.

A senhorita Liz, tremendo, protegeu os alunos da academia contra o lobo…!?

— "Reino de Lavarre"

Minha voz e a do Jill se sobrepuseram perfeitamente. No jogo, não chegava a ser revelado que o lobo era do Reino de Lavarre. Isso é conhecimento que adquiri lendo livros neste mundo.

— Já li em algum livro que existem lobos no Reino de Lavarre.

O Jill disse isso apontando pro Reino de Lavarre no mapa.

…Como esperado do Jill. Eu só lembrei de um evento do otome game.

Aquele evento que aumenta a afeição pela senhorita Liz — a heroína.

Na vida passada, acho que eu escolhi a opção "não ajudar"… embora tivesse vontade de ajudar, não conseguiria arriscar a própria vida pra salvar pessoas que me odiavam.

Por causa disso, dentro do jogo, acabei virando uma heroína com uma afeição terrivelmente baixa. Isso sim é ser vilã de verdade!

— Alicia? Você está ouvindo?

Fui despertada pelo Jill, que espiava meu rosto.

— O quê?

O Jill fez uma expressão levemente incomodada e abriu a boca.

— Eu tava dizendo, se esse lobo ainda estiver em algum lugar, dá pra saber na hora se veio do Reino de Lavarre ou não.

— …Os lobos do Reino de Lavarre têm um rabo grande e costumam ser ruivos, né.

— E, além disso, têm uma coleira fina de ferro no pescoço.

O Jill disse isso numa voz um pouco mais baixa que o normal.

Aliás, esse evento era só pra aumentar a afeição da heroína; de onde vinha o lobo era um detalhe sem importância. Mas um lobo aparecer do nada numa academia é algo estranho demais.

— Nessa coleira, o nome do dono está gravado.

O Jill disse isso com os olhos brilhando levemente, olhando direto nos meus.

Ainda não sabemos se aquele lobo estava com a coleira. Mas, de qualquer forma, não existe lobo selvagem neste reino.

Não dá pra afirmar com certeza que o lobo da academia era do Reino de Lavarre. De qualquer forma, é só uma possibilidade a considerar.

— Jill! Acorda!

Sacudi o Jill, que dormia no sofá.

— …O quê?

O Jill entreabriu os olhos, com a voz meio rouca. Talvez por causa da pressão baixa, ele me olhava com a testa franzida, visivelmente de mau humor.

— Olha.

Endireitando a postura, estalei os dedos de leve.

No mesmo instante, o mapa que estava espalhado sobre a mesa veio flutuando na minha direção.

Segurei com delicadeza e sorri satisfeita. O Jill continuava olhando o mapa com os olhos entreabertos.

Sem reação nenhuma… queria alguma reação, pelo menos.

— …E daí?

— Consigo usar magia de novo!

Os olhos do Jill se abriram. Parece que finalmente acordou de vez.

— Que bom…

Percebendo a situação, o Jill soltou um suspiro de alívio.

— A partir de hoje, a Williams Alicia está totalmente de volta.

Disse isso sorrindo pro Jill. Ele também sorriu feliz diante das minhas palavras.

— E então, por que você continua saindo de casa escondida sem encontrar o Arnold?

O Jill perguntou numa voz um pouco baixa, no instante em que eu ia atravessar o portão da academia.

O vitral reflete a luz do sol, ofuscante. Qual será mesmo o propósito de existir daquele vitral? Antes de gastar dinheiro com aquilo, deveria haver muitas outras coisas pra melhorar.

— Alicia, tá ouvindo?

— Tô ouvindo. É que aquilo tá tão brilhante que…

— Não muda de assunto.

O Jill me olhou com um pouco de irritação.

— …Quando eu penso em prioridades, encontrar o Otou-sama simplesmente acabou ficando pra depois. Antes, encontrar o Otou-sama era o mais importante, mas aconteceu tanta coisa nessas uma, duas semanas.

Ser tirada do papel de vigilante da senhorita Liz está fora de cogitação, mas tem coisas mais urgentes que preciso resolver.

O assunto do vovô Will, o evento do lobo… enfim, encontrar o Otou-sama fica pra depois.

— Bom, dá pra entender.

— Não é mesmo?

Sentindo alegria por ter conseguido a concordância do Jill, sorri radiante.

Fomos em direção ao prédio principal.

— Ei, Jill, quer apostar comigo?

Sugeri de repente, por um impulso.

— Hã!?

O Jill me olhou como quem vê algo estranho. É natural fazer essa cara diante de uma proposta de aposta assim do nada. Mas foi o que me veio à cabeça.

— "Achei que você não fosse mais voltar" — tenho certeza que alguém vai dizer isso.

Levantei levemente o canto da boca, com estilo de vilã. Diante das minhas palavras, o Jill soltou uma risada na hora.

— Eu acho que vão dizer que pensaram que eu tinha morrido.

— Isso é bem cruel.

— É que só tem gente com aparência bonita mas por dentro suja.

— Não dá pra negar.

— Mas o mundo confia mais em quem tem boa aparência do que em quem tem bom coração.

— Por isso, quem tem os dois é o melhor, né. Como a senhorita Liz.

O Jill ficou em silêncio.

Eu, como vilã, sou do time que valoriza a aparência; já a senhorita Liz é do time que valoriza o interior.

Bom, vista de fora, minha própria aparência hoje deve estar bem terrível também. Além do tapa-olho, mantenho tudo bem-arrumado, então espero que relevem.

Uma vilã pode ter o interior podre, sem problema. Basta que a heroína seja bonita por dentro. Porque, se todo mundo fosse bonito, a hierarquia de superioridade voltaria a surgir dentro dessa própria beleza…

— Acho que é mais a Alicia do que a Kate Liz.

O Jill murmurou algo baixinho, mas eu estava absorta demais nos meus próprios pensamentos pra ouvir direito.

— Jill? Disse alguma coisa?

— Nada não.

O Jill disse isso me dando um sorriso enorme. Faz tempo que eu não via um sorriso desses.

— Ei, se eu ganhar a aposta, você me dá essa pulseira sua?

Pulseira?

Por que ele quer uma coisa dessas? O Jill não parece nem um pouco interessado em acessórios.

— Tudo bem… então, se eu ganhar, me ensina algum conhecimento que você tem que eu não sei.

Diante das minhas palavras, o Jill arregalou os olhos.

— Só isso tá bom pra você?

— Como assim "só isso", conhecimento é o maior tesouro que existe.

— Entendi.

O Jill sorriu feliz. Ele está rindo muito hoje. Contagiada pelo sorriso dele, eu também sorri.

Os alunos me olham fixamente, sem misericórdia, mas não dizem nada. Só me olham com desprezo.

— Só o olhar já diz tudo, né.

Concordei mentalmente com as palavras do Jill.

É como se estivessem olhando pra um deus da desgraça que chegou. É incômodo ouvir comentário atrás de comentário, mas os olhares silenciosos e insistentes também são um problema.

— Ei, Alicia, isso já é a segunda vez que você chama alguém de "lixo"… quer dizer, a primeira vez foi só "lixo" e essa foi "menos que lixo", então talvez o que você disse pra elas outro dia tenha sido pior.

— Quê? Eu já disse "lixo" antes?

Virei pro Jill, arregalando os olhos.

Normalmente lembro do que eu disse, e "lixo" é uma palavra forte demais pra esquecer… mas, por mais que eu pense, não me lembro de nada.

— Foi quando fomos sequestrados, você ficou furiosa e disse isso.

— …Não me lembro.

— Imagino… naquela hora você tava incrível.

O Jill disse isso num tom sério.

Será que fiquei tão exaltada que esqueci?

— Ali-chan~

De repente, ouvi a voz animada e leve do senhor Curtis, vinda de trás.

— Faz uma semana. Como você está?

— Bem. O senhor Curtis parece sempre bem disposto… está sozinho?

Diante da minha resposta, o senhor Curtis começou a sorrir com malícia.

— O quê? Queria ver o Duke?

— Não é isso. Só achei raro o senhor Curtis estar sozinho.

— É que~, sempre tenho garotas fofas ao meu redor.

— Realmente, muitas garotas fofas de cabeça vazia.

Disse isso sorrindo pro senhor Curtis. Ele ficou paralisado por um instante, mas logo sorriu de novo.

— O quê? Ciúmes?

— Impossível.

Respondi com um sorriso radiante.

Não tem como eu ter ciúmes do senhor Curtis.

Aliás, aquela fala minha de "cabeça vazia", bem digna de vilã, foi completamente ignorada…

— Não vai me dar um sermão dizendo pra não desprezar os outros?

Isso escapou sem querer. Diante disso, o senhor Curtis arregalou os olhos.

— …É verdade que seu interior é mais leve que o da Ali-chan mesmo. Tanto no nível de magia quanto no conhecimento.

O senhor Curtis disse isso rindo.

Inesperado… ou será que não era tão inesperado assim? Em dois anos, a situação mudou tanto que já não sei bem de nada. Sinceramente, achei que todo mundo me olhasse à distância como vilã, mas nem sei ao certo se o senhor Curtis é do lado da senhorita Liz.

— Nesta academia, parece que sou vista como uma mulher que só fala e não age de verdade.

Disse isso olhando pro senhor Curtis, levantando levemente o canto da boca. Ele riu meio sem graça.

— Eu não sou das Cinco Grandes Famílias, mas sei distinguir se dá pra conversar de verdade com alguém ou não.

— Eu nem sou nobre, mas também sei distinguir.

O Jill emendou nas palavras do senhor Curtis. Dessa vez fui eu quem riu sem graça.

— Ei, Ali-chan.

De repente, o senhor Curtis me olhou com seriedade.

— O que foi?

Eu também olhei pro senhor Curtis com seriedade.

— A Liz é inteligente… mas o pensamento dela é meio, como dizer, raso demais.

— Sim, eu sei disso.

— …Entendo. A Liz é a Santa da lenda deste reino, não é?

O senhor Curtis abaixou a voz, como se tomasse cuidado pra ninguém ouvir.

Os olhos dele já pareciam ter certeza absoluta de que a senhorita Liz é a Santa.

— Por que o senhor sabe disso?

— Dá pra perceber olhando o comportamento de Sua Majestade em relação a ela. E, além disso, aquele poder mágico, capaz de todos os elementos — é anormal demais.

— Então isso já ficou bem sabido nesses dois anos.

— Ela é pura e inocente, acha que o mundo inteiro é bonito.

— Sim, é verdade.

Quando concordei, o senhor Curtis aproximou a boca da minha orelha, respirou fundo uma vez e sussurrou baixinho.

— …O rei está tentando usar essa parte sombria em você, que é o oposto da Liz. Pelo meu palpite, algum dia vão te dizer pra virar o "avesso" da Santa.

— !!

O senhor Curtis disse só isso e foi embora.

Avesso? A face é a senhorita Liz, e o avesso, eu?

— Alicia? O que o Curtis disse?

O Jill perguntou espiando meu rosto.

— Pra eu virar o avesso da Santa…

Diante das minhas palavras, vi o rosto do Jill escurecer.

Como o Jill tem uma capacidade de raciocínio absurdamente rápida, ele deve ter entendido o significado na hora.

…Odeio a ideia de ser o "avesso" de alguém.

Eu quero ser vilã abertamente, na frente de todos. Por que eu teria que virar o avesso da Santa?

— Foi o Curtis quem disse isso?

— Não exatamente… foi mais que, algum dia, Sua Majestade pode me dizer isso.

O rosto do Jill ficou ainda mais sombrio.

Eu sei que o rei está me usando. Não me importo de ser usada. Só não gosto da ideia de a vilã virar o "avesso".

— Do que vocês estavam falando?

De repente, uma voz clara e familiar ecoou.

Virei na direção da voz. O senhor Duke estava parado do lado de fora da janela.

— Quanto tempo.

Ele estendeu a mão e acariciou levemente minha bochecha.

Meu coração acelerar assim logo de manhã é demais pra mim. Meu corpo não vai aguentar o dia inteiro nesse ritmo.

…Será que, se eu fechasse a janela com força agora, que reação ele teria?

— Er… e o senhor Duke, o que está fazendo aqui?

Eu queria que ele tirasse a mão logo. Senão, o calor do meu rosto vai transbordar pra ele. Bom, acho que já transbordou.

— Demonstração de afeto.

O senhor Duke respondeu erguendo levemente o canto da boca, me olhando de forma provocante.

— Não preciso disso.

Respondi na hora.

Meu rosto foi ficando ainda mais quente. Ficar vermelha por causa do senhor Duke parece que estou perdendo pra ele.

…Como será que eu consigo vencer o senhor Duke?

Ah, é isso, e, com toda a força, estendi as duas mãos pela janela e bagunçei bem o cabelo do senhor Duke.

…Que cabelo sedoso e maravilhoso, mesmo.

— O que é isso?

O senhor Duke arregalou os olhos, olhando pra mim.

Isso já deixa a coisa empatada, né. Consegui surpreender o senhor Duke, nada mal da minha parte.

— Demonstração de afeto.

Disse isso e sorri, vitoriosa. Ele ficou paralisado por um instante, mas logo relaxou o rosto num sorriso.

— Hã, então tem amor aí.

Dizendo isso, o senhor Duke me olhou com o mesmo sorriso maroto de sempre.

— Quê? Não, isso…

Não esperava que ele reagisse assim a uma fala que era pra ser um contra-ataque.

Ele voltou a ficar em vantagem de novo!

Vendo minha hesitação, o senhor Duke ergueu o canto da boca satisfeito.

— Se eu recebesse amor da Alicia, eu faria qualquer coisa.

O senhor Duke disse isso olhando reto pra mim, num tom sério.

Senti meus próprios olhos arregalarem. Por um instante, senti como se o tempo tivesse parado.

Nunca ninguém me disse uma frase dessas na vida. Nem na vida passada. Teria sido mais fácil manter a calma se ele tivesse dito isso com aquele sorriso provocador de antes…

Meu coração disparou de um jeito incontrolável, e tentei esfriar o calor concentrado no meu rosto colocando as mãos nas bochechas.

— Não esconde.

Dizendo isso, a mão do senhor Duke se estendeu… Bum! Alguma coisa deslizou com força na minha frente. Foi o Jill, que fechou a janela com toda a força.

— Namorar é ótimo, mas será que dá pra não fazer isso de manhã?

O Jill disse isso olhando pro senhor Duke.

Ele disse "ficou com ciúmes?" pro Jill, com um sorriso tranquilo. O Jill fez uma cara levemente insatisfeita diante daquela expressão.

O Jill, no fim, sempre está do meu lado, né.

…O calor do rosto sumiu de uma vez. Ainda assim, o ataque do senhor Duke é impressionante. Afinal, será que eu gosto do senhor Duke? Não, claro que gosto, mas não sei se isso é amor de verdade.

— Ah, é verdade, esqueci de perguntar pro senhor Duke sobre o assunto do lobo.

Percebi isso um tempo depois de me separar do senhor Duke.

E ainda encontrei o senhor Curtis também…

— Esquecer justo o mais importante… ah, hoje realmente não é meu dia, hein.

— Mas você conseguiu falar com a pessoa que gosta, então não foi tão ruim assim, né?

A expressão do Jill, ao dizer isso, parecia um pouco adulta.

Não parece nada uma fala de garoto de onze anos. …Será que, quando fizer vinte anos, ele vai ter expressão de velhinho? Isso seria meio triste.

— Pessoa que eu gosto?

Perguntei de volta, e o Jill se virou pra mim com uma cara de "só agora?".

Os olhos cinza bonitos dele refletiam a luz do sol que entrava pela janela, brilhando.

— O quê, a pessoa que a Alicia gosta não é o Duke?

O Jill disse isso arregalando os olhos.

— Gostar, eu gosto… mas será que isso é amor romântico?

— Perguntar pra mim… mas aquele pingente foi presente do Duke, não foi?

O Jill disse isso apontando pro meu peito.

…É verdade que eu uso todo dia o pingente que o senhor Duke me deu. Mas, se me perguntarem o motivo, fico sem resposta certa.

— Eu também gosto do Jill. Esse sentimento é diferente do que sinto pelo senhor Duke?

— É diferente.

O Jill respondeu claramente à minha pergunta. Fiquei um pouco surpresa e olhei pra ele.

— Como você tem tanta certeza assim?

— Porque sou um gênio.

O Jill sorriu, formando rugas nos cantos dos olhos.

Ah, que rosto fofo. …O Jill, no futuro, com certeza vai virar um homem e tanto.

— Tem muita gente que gosta mais do senhor Duke do que eu, e com certeza tem quem daria a própria vida por ele.

— A Alicia é bem desastrada quando o assunto é amor, hein.

O Jill disse isso resignado.

Nunca imaginei que ouviria isso de alguém mais novo. Aliás, por que eu estou pedindo conselho amoroso pro Jill?

Acho que não sou desligada assim, só não sei qual é o critério pra distinguir "gostar" no sentido romântico!

Gostar como amigo, gostar como interesse romântico, ou gostar como família. Ou gostar como ídolo, alguém admirado por todos, como a senhorita Liz… ah, quanto mais penso, mais minha cabeça vira uma bagunça.

— Mesmo que exista alguém que goste mais do Duke do que a Alicia, o Duke gosta da Alicia. …Amar alguém significa não amar outra pessoa.

O Jill disse isso com uma expressão séria, numa voz calma, olhando pra mim.

Não havia nenhum traço de infantilidade naquela expressão. Um rosto adulto, inteligente, cheio de sabedoria.

— O sentimento do Duke pela Alicia não deve mudar, aconteça o que acontecer.

— Eu tenho uma personalidade ruim, viu?

— …Incluindo essa parte também, o Duke só olha pra Alicia o tempo todo.

O Jill respondeu isso como se estivesse confirmando pra si mesmo.

…Espera, então será que nem o senhor Duke nem o Jill acham minha personalidade ruim de verdade?

— Alicia?

O Jill me olhava intrigado.

— …Mas, se eu virar uma mulher com personalidade ainda pior do que agora, ele com certeza vai fugir de mim.

Ser aceita em tudo assim significa que ainda sou imatura como vilã. É verdade que o Jill também é bem sombrio por dentro, então talvez a minha "má personalidade" ainda esteja longe do nível dele.

…Não posso perder pro meu próprio parceiro. Preciso me esforçar mais pra polir minha vilania.

— Já não é mais hora disso… quer dizer, acho que o sentimento do Duke não vai vacilar. Só que, com a Alicia como par, quando será que ele vai conseguir que seu sentimento chegue de verdade…

Com a cabeça cheia da reflexão sobre minha falta de polimento como vilã, acabei perdendo o murmúrio do Jill.

— Aliás, Jill, eu sou meio odiada nesta academia, né?

Confirmei com o Jill no fundo da antiga biblioteca, envolta naquele clima nostálgico sem ninguém por perto.

— …É, é odiada mesmo.

O Jill assentiu sem hesitar.

— E, do lado dessa odiada, tem o Jill, o senhor Duke, a Mel e o Henry-nii-sama…

— É. …Por causa disso, parece que a popularidade do Duke andou caindo ultimamente.

Quando foi que ele conseguiu essa informação…

— Parece que acham que a Alicia enfeitiçou tanto o Duke quanto o Henry.

Isso não é exatamente errado, né.

Afinal, o senhor Duke, que deveria ficar com a heroína, acabou, inacreditavelmente, se apaixonando por mim.

— Sendo só cinco pessoas, a influência é enorme.

— Isso sim é ser vilã de verdade.

Não consegui evitar relaxar os lábios.

Ah, que prazer. Achava que não precisava de aliados, mas, se isso aumenta meu efeito vilanesco, é super bem-vindo.

Achava que uma vilã deveria viver solitária, mas, se meus aliados forem os piores possíveis, isso me deixa ainda mais famosa. E, assim, vou ficar registrada na história.

E, além disso, o senhor Duke é o príncipe deste reino. Uma vilã que seduz um príncipe pro mal soa maravilhoso.

— Nos bastidores, parece que estão te chamando de "organização das trevas" ou "aglomerado do mal".

— É o melhor desenrolar possível.

Disse isso num tom animado.

— "Diabo Negro"

— Como?

— Alicia, é assim que estão te chamando agora.

— Então a senhorita Liz é…

— Anjo Branco.

O Jill disse isso cuspindo as palavras.

Que… que senso terrível pra dar nomes. Não é simplista demais?

— Até "aglomerado do mal" era legal, mas…

Diante das minhas palavras, o Jill ergueu bastante o canto da boca.

…Ui, que medo. Essa expressão é exatamente digna do Diabo Negro. Dá pra ver uma sombra completamente negra no rosto dele.

— Numa parte, dizem que a Alicia também é chamada de "Anjo Negro".

— "Anjo Negro"?

Franzi a testa e olhei pro Jill.

— Então a senhorita Liz é chamada de "Diabo Branco"?

— Isso eu não sei.

…Por que colocariam a palavra "anjo" pra mim?

Eu não tenho jeito de anjo. Antes de mais nada, meus traços já pendem mais pro lado demoníaco. Anjo é justamente o tipo da senhorita Liz. Tanto a personalidade quanto o rosto… especialmente aquele sorriso.

— Que horror.

Coloquei a mão na testa e falei o que realmente pensava, do fundo do coração.

Caí do auge da felicidade num instante. Devolvam minha animação de agora há pouco.

— Onde é que eu tenho cara de anjo?

— Fica tranquila, ninguém fala isso abertamente.

— Como o Jill sabe até isso?

— Se quiser saber, sempre dá pra descobrir informação.

Só posso dizer "como esperado do Jill" mesmo. Até aquele sorriso malicioso é perfeito.

— Talvez vá acabar rolando uma guerra entre o time Alicia e o time Liz.

— …Por que você parece tão animado com isso?

— Porque fico feliz vendo o apoio da Alicia aumentar.

Retruquei mentalmente às palavras dele — apoio de gente que eu nem sei quem é, e daí?

— Bom, provavelmente o pessoal do time Alicia nunca vai admitir abertamente que apoia você.

— O time da Liz com certeza é maioria esmagadora… aliás, de onde exatamente você tira essas informações?

Lancei um leve olhar de censura pro Jill. Ele me olhou por um instante e depois soltou um suspiro resignado.

— É o Henry.

— Henry-nii-sama?

— Isso é segredo daqui pra frente. Tem coisas que eu faço sem a Alicia saber, sabia?

O Jill disse isso com um sorriso cheio de segundas intenções.

Por que ele está com essa cara de quem venceu alguma coisa?

…Mesmo passando quase todo o tempo juntos, ainda tem coisas que eu não sei sobre ele.

— No fim, não conseguimos nenhuma informação sobre o lobo, hein.

Fiquei em pé na frente da cabana, olhando pro céu com um olhar de reprovação, e murmurei isso.

…Céu turvo. Em dias assim, geralmente acontece algo ruim. Foi por isso que hoje não consegui nenhuma informação sobre o lobo.

…Culpar o céu por não conseguir alcançar meu objetivo, que mesquinhez a minha.

— Não faz essa cara tão deprimida. Sempre tem amanhã.

O Jill disse isso me olhando.

— E, aliás, por que você continua voltando pra cabana? Você já consegue usar magia, né?

— Depois de dois anos vivendo aqui, cria-se um certo apego.

— Que tal dar um nome a ela?

— Boa ideia, que tal Josefina?

— …Então é menina.

Parece que o Jill achava que a cabana era do sexo masculino. Mas essa sensação aconchegante e compacta combina mais com algo feminino, acho eu.

— Vai ver o vovô hoje?

— É verdade.

Disse isso e virei os pés em direção à floresta.

Faz só uns dias que não vou ao vilarejo de Roana, mas senti que o ar já tinha mudado de novo.

Cheio de vitalidade… o que será que o vovô Will andou fazendo dessa vez?

— Alicia!

A Rebecca veio correndo até mim, com um salto impressionante numa perna só.

Que força muscular. Será que ela não fica cansada? Neste vilarejo, não deve ter material pra fazer uma perna mecânica…

O cabelo prateado da Rebecca balançava suavemente. Queria ver esse cabelo brilhando sob o sol. …Quando será que o sol vai aparecer neste vilarejo de Roana.

— Rebecca, não cansa saltar assim numa perna só?

Diante das minhas palavras, a Rebecca arregalou os olhos por um instante, mas logo soltou uma risada.

— Eu consigo até lutar de espada com essa perna, sabia.

Dizendo isso, ela abriu um sorriso enorme.

— Lutar de espada?

Mesmo com o tronco firme e força nos braços… não deveria ser tão fácil adquirir capacidade de combate assim.

— Já que a Alicia está se esforçando tanto, achei que eu também precisava me esforçar.

Aqueles olhos ardentes. Como um cavaleiro que jurou fidelidade a mim.

…Nesses dois anos, ela deve ter se esforçado além do que consigo imaginar.

— Você me disse pra virar a salvadora deste vilarejo, lembra? Vou cumprir minha promessa.

A Rebecca estreitou os olhos e sorriu.

Numa hora dessas, o que uma vilã faria?

Preciso confirmar se a Rebecca realmente ficou forte.

— Então me mostre essa força.

Disse isso encarando a Rebecca, num tom de desafio. Ela arregalou bem os olhos diante das minhas palavras.

— Perguntar sobre a habilidade de espada da Rebecca é pergunta boba.

De repente, ouvi uma voz masculina jovem e cheia de farpas.

— Quem é?

Fiquei observando fixamente o homem que apareceu de repente.

Cabelo cor de mirtilo escuro, olhos levemente puxados, e uma cicatriz grande no meio do rosto, como se tivesse sido cortado por alguém. Uma aparência bem de bandido.

— Eu sou o Nate. O Will está numa reunião agora, então vim eu.

O homem parou na minha frente, olhando de cima pra baixo.

Alto, com bons músculos. E, olhando bem, o rosto dele também é bem-feito…

Mais um rosto bonito… ah, de vez em quando queria mesmo ver alguém feio!

— Você, qual é o nome?

O Nate me olhou com leve desprezo. Endireitei a postura e olhei pra ele sem me intimidar.

— Eu sou a Alicia. Williams Alicia.

— …Por que uma nobre como você está num lugar desses?

O Nate mostrou uma expressão de desagrado.

…Bom, é uma reação natural mesmo. Não é como se nobres fossem bem-vindos aqui.

— Você que nunca nem tocou numa espada é quem tá fora de lugar aqui, não acha? Ei, vocês também acham isso, né?

O Nate disse isso me debochando, olhando ao redor. As pessoas por perto ergueram o braço, concordando com a opinião dele.

— Nate! Para com isso.

A Rebecca gritou pro Nate.

— Ei, Rebecca, você tá do lado dela?

O Nate lançou um olhar afiado pra Rebecca. Com a voz dele, todas as outras vozes ao redor pararam.

…O Nate parece ser uma espécie de líder aqui.

— A Alicia salvou minha vida. E, além disso, ela sabe usar espada.

Ué, como ela sabe que eu sei usar espada? Não me lembro de ter demonstrado esgrima aqui.

— Foi quando cortou sua perna, né. Isso qualquer um consegue fazer. Bom, pra uma mocinha nobre, talvez tenha sido impressionante mesmo.

Que expressão maravilhosamente maldosa, debochando de mim. Adoro expressões assim.

— Antes de mais nada, você usa magia, não usa? Não precisa de espada nenhuma. Veio aqui pra rir da nossa cara?

O olhar do Nate se voltou pra mim. Que olhos cheios de ódio.

— Não sei se você ganhou o olho do Will ou o que seja, mas você é uma forasteira.

Os olhos amarelos dele… um pouco parecidos com a cor dos meus. Enquanto eu pensava distraidamente nisso, senti de repente um instinto assassino tremendo vindo do meu lado. O Jill encarava o Nate como se estivesse prestes a matá-lo.

— A Alicia…

— Jill, tudo bem.

Interrompi as palavras do Jill. Ao mesmo tempo, o olhar do Nate se voltou pro Jill.

— Ei, Jill. Você saiu deste vilarejo e agora voltou de novo, com que intenção? Traidor.

O Nate cuspiu as palavras. Os olhos dele transbordavam de raiva e ódio.

…É verdade. Todo mundo aqui quer sair deste vilarejo. Mesmo assim, só uma pessoa em especial conseguiu essa chance.

E, ainda por cima, um garotinho… Mas, com certeza, ninguém aqui conhece o verdadeiro valor dele.

Ah, isso está ficando incômodo de novo. Por enquanto, vou fazê-lo calar a boca.

— …Eu sou mais forte que a Rebecca.

— Hã?

O Nate ergueu só uma sobrancelha.

— Alicia, não acho que seja bom eu mesma dizer isso, mas…

— Não é.

O Nate disse isso com firmeza, antes mesmo que a Rebecca terminasse de falar.

— Alicia, seu rosto tá relaxando.

Parece que o Jill entendeu minha intenção.

Como se o instinto assassino de antes fosse mentira, ele ergueu o canto da boca com um ar satisfeito.

— Então quer testar? Minha habilidade com a espada?

— Hã?

Diante do meu sorriso, o Nate franziu a testa.

— Quem vai lutar comigo? A Rebecca? Ou você?

— Você tá falando sério?

— Claro que sim.

Desamarrei a fita fina que tinha enrolada no braço e prendi o cabelo com ela.

Até a Rebecca me olhava com uma expressão intrigada.

Um ar de tensão pairava no local. Todo mundo esperava, ansioso, a próxima fala do Nate.

— Eu sou seu adversário.

O Nate me encarou em silêncio e apontou a ponta da espada pra mim.

Ah, então vou enfrentar direto o chefão final. Agora tenho energia de sobra, então dá pra lutar a sério!

— Use isso.

…Ele sacou a espada do lado esquerdo da cintura?

Espera, ele acabou de tirar a espada do lado direito, não foi? …Será que ele usa duas espadas?

Lutar com duas espadas exige bastante força muscular. Observei o braço dele.

Que braço volumoso. Bem treinado mesmo.

— Rebecca, me empresta sua espada?

— Como? …Mas a qualidade não deve mudar muito.

Enquanto a Rebecca hesitava, o Nate levantou a voz.

— Hã? Tá dizendo que minha espada não presta?

— Não é isso. Eu quero que você lute a sério comigo. Você normalmente luta com duas espadas, não é?

Diante do meu sorriso, o Nate mostrou uma expressão de surpresa.

— Ha, percebeu bem, hein.

O Nate riu de leve, mesmo franzindo a testa. A Rebecca também veio até mim e me entregou a espada.

Peso e desgaste parecidos com o da espada do Nate. Bem usada mesmo. A própria espada conta a história do esforço da Rebecca.

Olhei pro Nate. Ele já estava em posição de combate, olhando pra mim.

Um instinto assassino que parece perfurar o corpo… maravilhoso.

Ergui o canto da boca olhando pro Nate. Por um instante, ele pareceu recuar diante disso. Parece que meu nível de seriedade chegou até ele.

— Que instinto assassino, os dois.

— Especialmente aquele daquela mocinha… me arrepiou.

Ouvi vozes de comentário por aqui.

— Pode vir quando quiser.

Encarei o Nate de forma provocante.

— Se subestimar demais, vai se machucar.

O Nate me olhou reto. Nesse instante, ele avançou.

…Que impulso nas pernas.

Eu recebi os golpes de espada dele vindo de todas as direções.

…E, além disso, é rápido.

Manter esses golpes tão pesados e fortes com essa velocidade exige força muscular considerável demais.

Talvez seja o adversário de esgrima mais forte que já enfrentei até agora.

— Incrível, aquela garota…

— Está lutando de igual pra igual com o capitão Nate.

— Os movimentos de espada estão rápidos demais pra acompanhar.

— O capitão está falando sério… e mesmo assim, um braço tão fino conseguir aguentar aquela espada, é inacreditável.

O barulho ao redor ia aumentando.

— Alicia!

Ouvi a voz do Jill, e, no mesmo instante, vi a ponta de uma espada bem na minha frente.

Deveria ser uma velocidade absurda, mas pareceu se mover em câmera lenta. Desviei da espada, e, ao mesmo tempo, mechas do meu cabelo caíram no chão.

…Se eu relaxar, com certeza morro. O Nate está vindo pra me matar de verdade.

— Desviar disso…

— …Usou magia, não foi!

— Ah, é isso mesmo, é magia. Que jogo sujo.

— Nobre é sempre assim, cheio de meios sujos mesmo.

De repente, vozes de deboche vieram voando na minha direção.

— Cala a boca.

O Nate lançou um olhar afiado pros que gritavam. Num instante, eles se calaram.

— Ela não tá usando esse tipo de truque baixo não.

Ele me olhou de relance e ergueu o canto da boca.

Ah, ele até que é uma boa pessoa. Deve ser do tipo que gosta de lutar limpo, cara a cara.

— Isso eu queria ter dito.

O Jill mostrou uma expressão levemente decepcionada.

— Você tem uma boa habilidade, garota.

— Você também.

Depois de uma pausa, ele voltou pra posição de combate.

Só de aumentar mais uma espada, ele ficou tão forte assim. …Queria aprender essa técnica.

— Movimento rápido demais, os olhos não conseguem acompanhar.

— A senhorita está totalmente na defensiva, será que o capitão vai vencer isso?

— Do que você tá falando, claro que o capitão vai vencer. Ele é o mais forte daqui.

Estou concentrada demais nos movimentos da espada pra entender o que estão dizendo ao redor.

…Queria contra-atacar logo, mas não há brecha nenhuma.

— Isso encerra o combate.

Talvez confiante da vitória, os olhos do Nate brilharam enquanto ele erguia o canto da boca.

…Que expressão maldosa mesmo. Maravilhosa.

Mas eu não vou perder de jeito nenhum.

Observei bem a espada que vinha na minha direção, procurando uma brecha. Sem pressa, com calma.

Com certeza deve ter uma brecha em algum lugar.

O Nate deu um passo forte, chutando o chão, tentando me esmagar de cima.

…É a barriga.

Soltei a espada e, dando um passo à frente, desviei da espada dele ao mesmo tempo em que dei um soco com toda a força na barriga dele. Com o impulso, ele voou longe.

No silêncio que se instalou, olhei de cima pro Nate. Ele tremia os ombros enquanto se levantava.

Será que está chorando… não, isso seria improvável.

— No final, foi com as mãos, hein.

…Será que ele está rindo?

— Perdi. Foi mal ter debochado de você.

Ele disse isso encolhendo os ombros, olhando pra mim, e riu de leve.

Será que isso significa que ele me reconheceu?

— Como o Will tinha dito, tem uma capacidade de percepção visual absurda mesmo.

…Como? Por que o vovô Will sabe disso?

— O olho do Will é seu, né? Ele já disse antes, que olho maravilhoso, será que o mundo que ela vê é tão bonito assim.

Como se tivesse lido minha dúvida, o Nate abriu a boca.

Ah, entendi. Então a capacidade dos meus olhos foi transferida junto pro vovô Will.

…Mas o mundo que eu vejo é bem sujo, acho. Afinal, são olhos de vilã, não é? Não parece que o mundo apareceria bonito assim aos meus olhos.

— Além de mágica, e ainda por cima com essa habilidade de espada… só a palavra "invencível" descreve.

A Rebecca me olhava com admiração, os olhos brilhando.

— Não sou invencível não. Ainda tem gente muito mais forte que eu. …Toma, devolvo. Obrigada.

Estendi a espada pra Rebecca, lembrando de algo de repente.

…É verdade, já consigo usar magia de novo.

Estalei os dedos de leve.

Uma espécie de aurora negra brilhante envolveu as espadas ao redor. Claro, apliquei a magia em todas as espadas ali presentes.

Assim que a aurora negra desapareceu, as marcas de desgaste sumiram, e até as partes enferrujadas ficaram completamente limpas. Que bom, a magia funcionou direitinho. Senti um alívio interno.

Os olhos de todos brilhavam. Até o Nate ficou olhando pra própria espada, de olhos arregalados.

Foi com aquela espada que ele cortou meu cabelo — se tivesse lutado com essa aqui, o estrago teria sido bem maior… ainda bem que só cortou as pontas.

— Isso é…

— Aquela espada toda gasta ficou tão bonita assim.

Alguns ficaram tão emocionados que ficaram girando a espada de um lado pro outro, examinando.

Sinto de novo o quanto a magia é impressionante. É verdade que só de conseguir usar magia já dá uma vantagem enorme sobre os outros. …Se eu não tivesse vindo ao vilarejo de Roana, talvez nunca tivesse percebido isso de verdade.

Nesse caso, o que será que protege as pessoas que não podem usar magia?

O reino? …Se fosse protegido pelo reino, não teriam criado um vilarejo desses. Até entre a nobreza tem gente que consegue usar magia e mesmo assim não consegue fazer nada de útil.

Eu quero ser uma vilã forte e inteligente, mas, ao mesmo tempo, quero ser alguém capaz de proteger os fracos.

Antes eu só pensava em ficar forte, mas, nesses dois anos, encarando o próprio nível e o próprio treino sem parar, meu jeito de pensar mudou um pouco.

Claro, meu desejo de virar vilã continua o mesmo. Porque quem é forte tem o dever de proteger os fracos. É por isso mesmo que nós, nobres, existimos capazes de usar magia, não é?

— Alicia, o que houve?

O Jill me olhava espiando meu rosto.

…É óbvio, mas conseguir falar olhando direto nos olhos de alguém é importante. Não parece o mesmo Jill de anos atrás, que tinha medo de se relacionar com as pessoas.

— Reafirmei minha convicção como vilã.

— O que quer dizer com isso?

— O fraco deve obedecer ao forte.

— E então?

O Jill pediu mais explicação.

…Por que ele insiste tanto assim? Será algum novo tipo de implicância? Eu mesma acabei de perceber isso agora. Bom, mas com o Jill não tem jeito, vou ter que ceder.

— Ao mesmo tempo, o forte precisa proteger o fraco.

Murmurei isso baixinho, como se estivesse solidificando minha própria determinação.

— Bem a cara da Alicia essa conclusão.

O Jill assentiu com tranquilidade, como se já soubesse disso de antemão.

Acordei com o ofuscar da luz da manhã. Levantei da cama da cabana e soltei um pequeno suspiro.

Ontem, no fim, não consegui ver o vovô Will. Na prática, se o vovô Will consegue mesmo voltar a ser nobre é outra questão completamente diferente, e ainda não encontrei nenhuma pista de solução fundamental pra esse problema. Aquele evento onde a senhorita Liz salva o vilarejo de Roana nem existe no jogo. Só fala coisas bonitas, mas nunca chega a pisar de fato no vilarejo. Quem realmente salva aquele vilarejo é, sem dúvida, o vovô Will.

Quando será que todos esses problemas vão se resolver… vou fazer uns golpes de treino de espada pra esvaziar a mente.

Peguei a espada e saí da cabana, esticando o corpo.

— Alicia?

Quem me chamou foi uma voz inesperada.

Sei que o Jill acordou antes de mim e está lá fora. E sei que o Henry-nii-sama também está ali.

…O problema é… por que ele está aqui?

— Quanto tempo.

O senhor Paul — dono da loja de plantas — sorriu olhando pra mim.

— Ficou muito bonita, Alicia. …O olho, está tudo bem?

O senhor Paul disse isso apontando levemente pro próprio olho esquerdo.

— Sim, está tudo bem. …Mais do que isso, por que o senhor Paul está aqui?

Diante da minha pergunta, o Henry-nii-sama e o Jill se entreolharam, com uma cara de criança pega em travessura.

— O Henry me apresentou. Achou que seria melhor a Alicia também ouvir o que o Paul tinha pra dizer.

— Ali, o Paul nos passa informações.

Não pode ser, o senhor Paul é informante? Será um trabalho paralelo? Ou será a loja de plantas o trabalho paralelo?

— Ou seja, o motivo do Jill sempre ter tanta informação era: sobre a academia, ouvia do Henry-nii-sama; sobre a cidade, do senhor Paul; e sobre o vilarejo de Roana, ia lá pessoalmente — reunindo todas as informações assim.

Disse isso admirada, e o Jill ergueu o canto da boca com orgulho.

…Que garoto.

— Vilarejo de Roana?

O senhor Paul nos olhou com uma expressão intrigada.

…É verdade, as pessoas ao meu redor já sabem do vilarejo de Roana, então acabei falando naturalmente como sempre.

Será que o senhor Paul não sabia que o Jill era do vilarejo de Roana?

— Antigamente, o Josiah que o senhor Paul me deu foi usado pra curar a doença do Jill.

— Como?

Diante das minhas palavras, foi o Jill quem exclamou, não o senhor Paul.

O Jill também não sabia que foi a erva da loja do senhor Paul que curou a doença dele. De alguma forma, parece um "surpresa" bem-sucedido depois de vários anos.

— Parece que já estávamos conectados desde aquela época.

O senhor Paul mostrou o mesmo sorriso reconfortante de sempre.

— Nunca imaginei que uma senhorita das Cinco Grandes Famílias frequentasse o vilarejo de Roana.

— Sim, toda vez que esse segredo vaza, todo mundo se surpreende.

Diante das minhas palavras, o senhor Paul sorriu meio amarelo.

— O Jill… é do vilarejo de Roana.

O senhor Paul ficou olhando fixamente pro Jill, em silêncio.

— Foi ruim eu ter contado?

Sussurrei baixinho, só pro Jill ouvir.

— Não, mais cedo ou mais tarde ia acabar sabendo mesmo… e, além disso, já estou acostumado com isso.

Eu preferia que ele não se acostumasse com uma coisa dessas, mas, enquanto existir preconceito, não dá pra simplesmente dizer isso levianamente.

…Mesmo assim, o senhor Paul não parece ter uma boa impressão do vilarejo de Roana. Por mais gentil que a aparência dele seja, esse tipo de sentimento existe mesmo. Mesmo reconhecendo a inteligência do Jill, ele é nobre, então não seria estranho ter esse tipo de sentimento.

— Sendo do vilarejo de Roana, ele estuda na academia de magia?

O senhor Paul olhou pro Jill com desconfiança.

…Ah, como imaginei, ele está com a guarda alta. Isso foi um erro meu. Preciso pensar melhor antes de falar daqui pra frente.

— Ele frequenta na forma de assistente pessoal meu.

— Sua Majestade sabe disso?

— Sim.

O senhor Paul mostrou uma expressão difícil.

De alguma forma, o clima está ficando complicado… seria um problema se o senhor Paul espalhasse o segredo do Jill por aí. Preciso tomar alguma providência… que tal ameaçar ele, do jeito de uma vilã de verdade?

— Senhor Paul, será que dá pra manter isso em segredo? Se contar pra alguém… eu mato.

Diante das minhas palavras, a expressão do senhor Paul travou. Continuei falando.

— E, além disso, o vilarejo de Roana não é tão ruim quanto o senhor imagina. Adquirir conhecimento por boato ou por livro é maravilhoso, mas questione se aquilo é realmente verdade. Eu realmente fui até lá, então conheço bem o vilarejo de Roana. Tem gente de talento incrível lá.

Sorri com malícia, levantando o canto da boca.

— Entendi. Não vou contar. Bom, ser morto por uma mulher bonita não seria de todo ruim.

Dizendo isso, o senhor Paul riu de leve. …Será que ele sempre teve essa personalidade?

— Posso confiar nisso?

Diante da minha insistência, o senhor Paul deu um sorriso amarelo.

— Sabe o que eu ganho em troca de dar informação pro Henry e pro Jill?

— …Sei lá.

— Dinheiro.

— Como?

Não consegui evitar perguntar de novo.

— Eu gosto de plantas e de dinheiro.

Se me dissessem isso vendo o rosto gentil dele, eu perderia a confiança na humanidade.

— Sinceramente, ainda carrego preconceito contra o vilarejo de Roana, mas não odeio o Jill. …E, se existirem outras pessoas como o Jill lá, talvez o vilarejo de Roana não seja tão ruim assim mesmo.

Senti como se tivesse vislumbrado um lado sombrio do senhor Paul. Achei que fosse alguém com um pensamento tranquilo, do tipo "todos os humanos são iguais, paz em primeiro lugar". …Isso também é um tipo de preconceito meu.

— Justamente por isso que dá pra confiar nele.

Dizendo isso, o Jill ergueu bastante o canto da boca.

— E aí, como ficou aquele assunto do lobo?

O Henry-nii-sama perguntou ao senhor Paul num tom sério.

…Lobo? O Jill já tinha falado disso com o Henry-nii-sama?

Que rapidez de trabalho.

Diante das palavras do Henry-nii-sama, os olhos do senhor Paul mudaram de repente.

— Aquele lobo foi enviado por alguém pra academia de magia.

— "Como eu imaginava"

Minha voz e a do Jill se sobrepuseram perfeitamente.

— Alicia e Jill, vocês já sabiam?

— Só senti que era isso mesmo.

— Um lobo selvagem aparecer do nada na academia de magia é estranho demais.

— Era o lobo do Reino de Lavarre?

— …Sim, era. Como esperado.

O senhor Paul já não parecia mais surpreso com a fala do Jill. Em vez disso, assentiu devagar e profundamente.

— O que eu quero saber é quem trouxe esse lobo pra cá.

O Henry-nii-sama disse isso com um pouco de impaciência.

— Isso também, mas o que aconteceu com esse lobo?

Diante das minhas palavras, o senhor Paul e o Henry-nii-sama ficaram paralisados, meio sem graça.

Isso… que tipo de reação é essa?

Mas confirmar se o lobo ainda está vivo é natural, não é?

— Parece que a Liz o conteve com magia e depois soltou.

O Henry-nii-sama disse isso num tom difícil de falar.

Como?!

— …Soltou?

— O lobo?

— Ele tinha atacado gente, não tinha?

— Soltou onde?

Eu e o Jill fizemos, um atrás do outro, perguntas cobrando o Henry-nii-sama.

Sabendo que perguntar ao Henry-nii-sama não adiantaria nada, mesmo assim eu não conseguia deixar de perguntar.

— Não sei. Mas, embora não tenha contado isso pra Liz, esse lobo foi encontrado morto no dia seguinte.

— Foi morto por alguém?

O Jill disse isso com uma expressão difícil, numa voz baixa.

…O assunto está ficando pesado.

— A Kate Liz queria interpretar o papel de mulher que valoriza os animais.

O Jill disse isso, sem nenhum brilho nos olhos.

— Não me diga que o lobo também foi arquitetado pela Kate Liz.

— Isso com certeza não é possível.

O Henry-nii-sama negou a suposição do Jill com um sorriso amarelo.

— Porque normalmente não se protege quem tentou te fazer mal. A Kate Liz sabia que o lobo não a mataria, e mesmo assim, propositalmente, o protegeu na frente de todo mundo.

— …É verdade que isso aumentaria a popularidade dela.

O senhor Paul parece ter entendido o que o Jill queria dizer.

Espera, isso é interpretar demais, ela é a heroína. Não precisaria criar um plano desses só pra aumentar a própria popularidade. A antipatia do Jill pela senhorita Liz está gerando um pensamento enviesado.

— Deus da desgraça.

O Jill soltou o veneno com meio sorriso.

…Isso não é uma boa tendência.

— Jill.

Falei isso olhando diretamente nos olhos do Jill.

Ele deve ter entendido na hora o que eu queria dizer. Devagar, fechou a boca.

— Você está enxergando as coisas de forma subjetiva demais. Capture só os fatos e olhe de forma objetiva.

Continuei falando, mantendo o olhar fixo nele.

— Vamos organizar os fatos. Focando só no lobo: alguém trouxe esse lobo do Reino de Lavarre pra este reino, e ele invadiu a academia de magia. O lobo foi contido pela senhorita Liz, depois fugiu pra algum lugar, e no dia seguinte estava morto… o que dá pra pensar a partir disso?

Dei uma olhada rápida nos três. Eles só mostravam uma expressão pesada.

Quem trouxe o lobo pra este reino continua sendo o ponto central. Mas, no momento atual, não temos nenhuma pista.

— O corpo do lobo não tinha coleira?

Diante da pergunta do Jill, o Henry-nii-sama balançou a cabeça devagar.

— Não, não tinha.

Não tinha coleira, mas já está confirmado que era um lobo do Reino de Lavarre.

Porque não há outra explicação possível. …Por exemplo, será que pessoas próximas dos aliados exilados do vovô Will poderiam ter arquitetado isso? Eles conseguiriam facilmente destruir uma coleira de ferro com magia, e, além disso, guardam rancor deste reino.

…Mesmo assim, por que trazer um lobo pra dentro da academia de magia? Não consigo pensar em nenhum motivo.

Não deve ser só pra investigar o estado da academia de magia. Pra investigar a força atual do Reino de Dulkis? Mas o lobo apareceu perto da senhorita Liz…

Levantei o rosto de repente e olhei pro Jill. Os olhos cinza dele brilhavam enquanto murmurava numa voz baixa.

— O alvo é a Santa — Kate Liz.

— Foi aqui que o lobo apareceu.

O Henry-nii-sama nos guiou até o local onde o lobo tinha aparecido.

…Um lugar sem nada de especial.

— Talvez tenha sobrado algum vestígio.

O Jill olhou os arredores com atenção total.

Existe a possibilidade de o lobo ter sido teletransportado até aqui com magia. Se os culpados forem ex-cidadãos deste reino de Dulkis, com certeza conhecem bem a academia de magia.

— Vamos procurar por algo também.

O Henry-nii-sama me lançou uma expressão levemente séria.

— Ali, sei que não adianta eu dizer nada, mas… não faça nada perigoso.

— …Eu já enfrentei situações perigosas várias vezes.

— Dessa vez tem outro reino envolvido. Deixa isso com o Duke.

— Com o senhor Duke, e não com Sua Majestade? …Henry-nii-sama, o senhor Duke te disse alguma coisa?

Olhei pro Henry-nii-sama, tentando sondar. Ele fez um sorriso levemente apressado diante da minha pergunta.

— O que foi que eu fiz?

…Por que ele sempre aparece bem na hora certa assim.

Virei devagar em direção à voz.

— Não é nada.

Diante da minha rejeição sorridente, o rosto do senhor Duke ficou levemente sombrio. Os olhos azuis translúcidos me observavam fixamente.

— …O assunto do lobo tava me incomodando, então estava investigando.

Não aguentando a pressão silenciosa do senhor Duke, acabei abrindo a boca meio a contragosto. O senhor Duke logo olhou pro Henry-nii-sama, como se o culpasse.

— Eu tinha dito pra não falar sobre isso.

— A Ali, quando começa uma coisa, não para até o fim. Você sabe disso, né.

— Eu disse que esse assunto era perigoso, não disse?

— Sim. Mas reclama com o Eric por isso. Nem eu esperava que fosse descoberto daquele jeito.

O Henry-nii-sama disse isso com um sorriso amarelo.

Ou seja, os dois ficaram calados justamente pra não me envolver em perigo?

Que horror. Mesmo assim, minha capacidade de combate é razoavelmente alta, viu. Agora só enxergo com um olho, então talvez tenha perdido um pouco de precisão, mas, se precisar, ainda consigo lutar.

— Me dê essa informação também.

— …Não.

— Eu vou ficar bem.

— Acha que eu daria informação perigosa de propósito pra uma mulher que amo?

Fiquei intimidada pelo olhar sério do senhor Duke. Não sei por quê, mas sou fraca com esse olhar dele.

Soltei um pequeno suspiro. Ele é teimoso, mas eu também não sou boba. Entendi finalmente o que o Henry-nii-sama quis dizer quando disse pra deixar esse assunto com o senhor Duke.

— Então, só uma coisa que gostaria de perguntar: existe alguém em outro reino que saiba que a senhorita Liz é a Santa?

— Isso ainda não sei dizer.

Diante da minha pergunta, o senhor Duke franziu a testa.

— Entendo… então, com licença.

— Alicia.

No momento em que tentei sair do local, o senhor Duke chamou meu nome, calmamente.

Mesmo já acostumada a ser chamada assim, por algum motivo meu coração deu um salto.

Os olhos do senhor Duke, olhando direto pra mim, pareciam transbordar de gentileza.

— Algum dia, quero ouvir também os seus sentimentos, Alicia.

— Meus sentimentos…?

Do que ele está falando? Olhei de relance pro Jill.

— A Alicia realmente é adulta nos pensamentos, mas é um bebê quando o assunto é amor.

— Eu também peço, por favor. Diz pro Duke o que você sente por ele.

Em seguida, o Henry-nii-sama disse isso também, com um sorriso meio amarelo.

— A Alicia sempre só recebe, e nunca disse os próprios sentimentos pro Duke uma única vez, né…

— Sem saber o que a Alicia sente, continuar entregando o próprio sentimento sem parar… que tortura, hein.

Ugh… não precisavam me pressionar tanto assim, os dois. O senhor Duke continuava calado. O que será que ele está pensando?

— Encantar assim um príncipe bonito e talentoso, adorado por todos, isso sim é ser uma vilã de verdade…

Dizendo isso até esse ponto, o Jill tapou a própria boca com a mão. Não consegui evitar relaxar os lábios.

— Sim, sou uma vilã e tanto, capaz de enfeitiçar até um príncipe.

O Jill me olhou com uma expressão de "ops, falei besteira".

Nunca imaginei que chegaria o dia em que o Jill me chamaria de vilã… hoje é um dia maravilhoso!

— Só a Alicia mesmo, que fica radiante ao ser chamada de vilã.

O Jill assentiu profundamente diante das palavras do Henry-nii-sama.

Algum dia, quando eu conseguir ter confiança nos meus próprios sentimentos, vou dar uma resposta digna de vilã. Olhando pro senhor Duke, que continuava calado, fiz esse juramento silencioso pra mim mesma.

— O professor John estava dizendo que a doença das manchas, que está circulando no Reino de Lavarre, não tem cura por magia.

— Mas cura com a Madi, não é?

— É, mas a Madi é uma erva tão valorizada que é difícil de conseguir.

— Que tal replicar a Madi por magia?

…É isso mesmo! Se conseguir replicar a Madi, muita gente seria salva. Por que eu nunca pensei numa coisa tão simples assim até agora? Neste reino, a doença das manchas quase não circula, mas quero muito tentar!

Minha curiosidade foi crescendo cada vez mais.

— Acho que vou pro Reino de Lavarre.

— Quê?!

O Jill soltou um som estranho. Ops. Acabei falando um pensamento em voz alta sem querer.

Mas acho que eu seria útil lá. A magia de duplicação fica disponível no nível 82 da minha magia das trevas.

…Deixando de lado por que a magia de duplicação é exclusiva das trevas, essa magia com certeza seria útil.

De qualquer forma, quero ver com meus próprios olhos a situação atual do Reino de Lavarre.

Assim como no vilarejo de Roana, tem muita coisa que só se entende vendo de perto.

…Mas quem pode sair do reino é limitado. Eu não tenho esse tipo de privilégio.

Se o Reino de Lavarre estiver mirando no poder da Santa da senhorita Liz pra sequestrá-la, eu me deixaria sequestrar no lugar dela…

E, além disso, se a senhorita Liz desaparecer deste reino, minha razão de existir também desaparece. A Santa é indispensável pra uma vilã.

— Ei, Alicia, você não está pensando em nada estranho de novo, né?

O Jill me olhava com os olhos semicerrados.

Se eu disser o que estou pensando agora, com certeza ele vai ser contra.

— Nada não. Por quê?

Respondi de forma provocativa, e o Jill ainda parecia não muito convencido.

…Não sou confiável mesmo. Bom, o instinto do Jill não está errado.

Fomos assim mesmo em direção ao refeitório.

De novo, tinha muita gente reunida. Por que esse lugar é sempre tão barulhento assim? Não passa um dia sem acontecer nada.

— Vamos entrar?

— Vamos deixar pra lá.

Respondi na hora.

De jeito nenhum eu queria me meter naquele tumulto. Só ia me envolver em mais uma confusão de novo.

No instante em que estávamos virando as costas pro refeitório e começando a andar, ouvi o grito de alguém.

— Ei! A Williams Alicia chegou!

…Bem quando eu ia voltar.

Me descobrir num piscar de olhos assim, será que estão gostando de mim?

— De novo deve ter acontecido algum incidente relacionado à Alicia.

O Jill disse isso com um leve sorriso maroto.

Por que sempre acontece algum incidente ligado a mim sem eu nem saber?

Ser vilã não é algo que se leve na moleza.

— Jill, você tá curtindo isso, né.

Disse isso baixando um pouco a voz, olhando de esguelha pro Jill.

— Bom, é que toda vez que a Alicia faz alguma coisa, a popularidade dela aumenta escondida.

— Eu não quero popularidade, quero má reputação.

— Isso à parte, vamos entrar ou não?

— Vamos.

Se eu não fosse, pareceria que eu tinha perdido. Dizendo isso com firmeza, entrei no refeitório.

Ninguém falava nada, só uma quantidade enorme de olhares me atravessava.

Sendo observada assim por todos, meu corpo naturalmente se endireita.

— Ah.

Foi a primeira coisa que saiu da minha boca sem querer.

…Isso é cabelo?

Um cabelo raro, cor lilás claro, espalhado pelo chão, chamou minha atenção.

— Finalmente a pessoa em questão apareceu.

Uma voz um pouco aguda e firme, familiar de algum jeito. Olhei na direção da voz.

…Não é a Jane? Quanto tempo.

Parece que o ferimento de quando eu a afastei, naquele dia, já sarou. Ou será magia de cura?

— Tá com boa saúde, Jane.

— Que desagradável, ser chamada pelo nome por você.

Assim que falei com ela, seu rosto se contorceu. Ah, parece que ela me odeia de verdade agora.

Bom, é natural, já que a joguei longe sem controlar a força por reflexo.

Ela tem coragem de usar a palavra "desagradável" comigo.

Sentia que a batalha entre nós ainda não tinha terminado. Isso é revanche, então.

— Alicia, acho que o alvo dessa vez não é ela.

O Jill me disse baixinho.

…Como? Não é?

— Aquela garota ali é o problema?

Dizendo isso, o Jill apontou pra trás da Jane. Olhei na direção que ele indicava.

Ali, sentada no chão, estava uma aluna com o cabelo cortado sem dó.

Ela deve ser a dona daquele cabelo cor lilás claro.

— Que situação lastimável. O que aconteceu?

— Sabe, ela é fascinada por você. Parece que estava deixando o cabelo comprido, admirando esse seu cabelo brilhante e… assustador.

A Jane de repente começou a falar, me encarando.

Que explicação detalhada. Até sobre a textura do meu cabelo.

— E daí?

Pedi que continuasse, e a Jane soltou de repente uma voz estridente.

— Só de pensar que ela te admira já me dá calafrios! Foi por isso que cortei o cabelo dela com essa tesoura. Ela ficou chorando desesperada! Isso é o que dá pra admirar alguém como você!

Depois de gritar com toda a força, a Jane lançou um olhar de ódio pra aluna de cabelo lilás claro sentada no chão.

…Parece que a Jane, que reencontrei depois de tanto tempo, virou uma pessoa bem perigosa. Já não sobra nem sombra daquele ar de "presidente de turma". Será que foi por causa de eu ter jogado ela longe…

— E, então, o que você quer que eu faça?

— Por sua causa, ela ficou nesse estado miserável. Não sente nada?

— Não sinto.

Assim que respondi na hora, o ambiente dentro do refeitório mudou completamente.

…Ah, conheço bem esse clima. O clima de me condenar.

A Jane arregalou os olhos e abriu a boca.

— Que absurda.

— …Falta de educação. Antes de mais nada, eu nem conheço ela, e não tenho interesse nenhum por quem é fraco.

— É por sua causa que ela ficou nesse estado!

— Não se confunda. A culpa não é minha. É sua.

— A culpa é sua, por ter me feito fazer isso!

Ela disse isso alteando a voz, meio desesperada.

…Parece que ficou realmente chocada por ter sido derrubada por mim.

— Isso mesmo, senhora Alicia. Foi você quem cortou meu precioso cabelo.

Ah, que voz agradável.

Voltei o olhar pra aluna de cabelo lilás claro atrás da Jane. Ela se levantou e encarava a Jane fixamente.

Que presença poderosa. E, mesmo com o cabelo bagunçado, tem elegância na postura.

— Ela realmente te admira mesmo, hein.

— Será mesmo?

— A postura, o jeito de encarar as pessoas com aquele olhar penetrante, tudo idêntico ao seu.

O Jill disse isso, observando ela com calma. Fiquei olhando fixamente os cabelos cor lilás claro espalhados pelo chão.

…Apareceu mais uma pessoa impressionante.

A Jane riu com desdém pela aluna de cabelo lilás claro.

— É porque você fica soltando bobagens dizendo que gosta dela?

A Jane apontou a tesoura pra ela. Parecia prestes a esfaqueá-la ali mesmo.

…Diante dessa situação, como será que essa garota, que idolatra a vilã, vai reagir?

Fiquei observando em silêncio. Os olhos cor de uva dela estavam bem abertos.

O Jill me olhou como se estivesse me testando.

— O que você vai fazer?

— Foi ela quem teve o cabelo cortado. Como reagir é decisão dela.

Minhas palavras pareceram ecoar mais do que eu esperava pelo refeitório.

Os olhos dela se voltaram pra mim. Foi a primeira vez que nossos olhares se cruzaram.

…Certo. Não parece que eu precise ajudar em nada aqui, nem que precise dar uma mão.

— Que mulher fria e sem coração.

A Jane cuspiu isso propositalmente em voz alta.

— Fria? Por quê? Não sou eu quem vai resolver esse problema.

— Que irresponsável. Sua existência me deixa profundamente incomodada.

Ah, isso é um elogio, vindo de uma vilã. …Já que ela pediu, que tal eu fazer algo bem digno de vilã aqui?

Ergui levemente o canto da boca e estalei os dedos.

No mesmo instante, a Jane, segurando o peito, com a respiração ofegante, caiu no chão sofrendo. Da boca dela saíam sons chiados, de dificuldade pra respirar, e um pouco de baba começou a escorrer.

Magia específica das trevas de nível 91, que paralisa o funcionamento dos órgãos. Isso sim parece magia das trevas, né.

Estalei os dedos de novo, interrompendo a magia.

Preciso parar por aqui, senão ela realmente morre.

A Jane, com um pouco de espuma na boca, me encarou. Deve ter sofrido bastante.

— O que… você fez…

A Jane disse isso caída, numa voz fraca. Ainda parecia com dificuldade pra respirar.

— Só parei um pouco o coração. Doeu?

Inclinei a cabeça e sorri pra ela.

Nesse instante, o olhar de todos ao redor mudou de desprezo pra medo. O ar ficou tenso. Dava pra sentir, pela respiração deles, que todos estavam com cuidado extremo. Ninguém mais me provocava.

Foi um bom momento pra mostrar o nível de magia que levei dois anos pra dominar. Deixar uma vilã com raiva é assustador, viu.

— É melhor você não se mexer muito.

Passei ao lado da Jane, caída, e fui em direção à aluna de cabelo lilás claro.

Mesmo diante de uma coisa dessas bem na frente dela, ainda dava pra ver, no olhar dela, respeito e admiração por mim.

— Qual é o seu nome?

— Miller Carol, senhora Alicia.

Mesmo com a voz um pouco trêmula, ela disse isso com clareza.

Como esperado, tem elegância mesmo.

— Você me admira?

— Sim! Aquela convicção forte, e a capacidade de encarar a realidade olhando pro futuro. E também os belos olhos dourados, o cabelo negro comprido e brilhante, admiro tudo isso.

A Carol respondeu isso com sofreguidão.

Nunca imaginei que existisse alguém que me admirasse tanto assim.

— Por isso, eu estava deixando o cabelo crescer, pra chegar um pouquinho mais perto da senhora Alicia, mas…

Ela murmurou isso com uma expressão trágica. Dei uma olhada rápida no cabelo dela.

Ficou bem curto mesmo. A Jane exagerou demais.

— …Foi mal ter envolvido você nisso.

Disse isso pra Carol e virei em direção à Jane.

O poder de antes já tinha sumido, e a Jane me olhava com olhos amedrontados.

— Fica tranquila, já não tenho mais nada a ver com você.

Sorri levemente pra ela e tirei a tesoura da mão dela.

Virei de volta pra Carol. Ela me olhava com uma expressão atônita.

— Certo, agora é o grande momento da vilã que vai ficar registrada na história! Observe bem com esses seus olhos!

Segurei o cabelo com uma mão e cortei com força usando a tesoura. O cabelo negro comprido caiu espalhado sobre o cabelo lilás claro.

Ilustração

A Carol e o Jill me olhavam com os olhos arregalados. Pareciam prestes a saltar dos rostos deles.

— Agora meu cabelo está tão curto quanto o seu. De novo, chegamos mais perto uma da outra.

Dizendo isso, sorri pra ela. O refeitório ficou completamente silencioso, sem som nenhum.

Quem quebrou o silêncio foi a risada do Jill.

— A Alicia sempre supera minha imaginação com as próprias atitudes.

— Ora, isso é um elogio, não é?

— Claro que sim.

O Jill riu feliz.

De fato, comparado ao passado, o Jill anda rindo bem mais.

…Depois vou arrumar as pontas com magia.

Me aproximei da Carol e estendi a mão.

— Prazer, Carol.

Mas ela começou a chorar ali mesmo. Hã? Hã? Será que eu disse algo de errado?

— Agora, você chamou meu nome…

Ela me olhou fixamente, a voz tremendo.

— Só chamar seu nome já causa essa reação, você é bem amada, Alicia.

O Jill disse isso com um sorriso maroto.

De fato, parece que ela realmente me admira bastante.

— O Jill também me ama, né?

Disse isso com um pouco de maldade. Ultimamente eu andava sempre sendo pega de surpresa pelo Jill, então quis fazer uma pergunta que o deixasse em apuros também.

O Jill fez, por um instante, uma cara de quem foi pego desprevenido, e depois sorriu de leve.

— Pergunta boba.

Só essa frase já foi suficiente pra saber a resposta do Jill.

Que bom ouvir um garoto na fase rebelde responder com tanta seriedade assim.

Virei o olhar do Jill pra Carol.

— Já ficamos tempo demais aqui. Vamos.

— Sim!

Ela respondeu com uma voz cheia de vigor às minhas palavras.

A voz dela já não tremia mais. Me olhava com uma expressão radiante de alegria.

Ao sair do refeitório, como imaginei, todos abriram caminho pra eu passar.

Realmente pareço uma rainha. …Rainha do mal é o máximo mesmo.

Assim que saí do refeitório, encontrei a Mel. Assim que ela me viu, começou a falar comigo com uma animação extrema.

— Ali-Ali~! Espera, você cortou o cabelo?

— Sim, aconteceram várias coisas.

— Que fofa! Fofa demais! Nunca vi ninguém combinar tão bem com cabelo curto assim!

A Mel foi se aproximando de mim, cada vez mais animada.

Vendo a reação exagerada dela, mesmo sendo elogiada, não consigo ficar feliz de verdade.

— Tá babando.

O Jill disse isso resignado, olhando pra Mel, mas ela não parecia ter ouvido.

— A Ali-Ali tem rosto pequeno, traços marcantes! Cabelo curto em garota bonita é demais!

Ser chamada de rosto pequeno pela Mel… acho que o rosto dela é bem menor que o meu.

— Mel, essa atitude é falta de respeito com a senhora Alicia.

Sem aguentar mais, a Carol lançou uma voz de censura pra Mel.

…Ah, será que as duas se conhecem?

O olhar da Mel se voltou pra Carol.

— Ué, é a Carol? Que cabelo horrível é esse? E como é a relação de vocês duas, Ali-Ali?

O tom de voz da Mel mudou completamente num instante.

— E vocês duas, qual é a relação?

— Somos parentes distantes.

A Carol respondeu na hora às minhas palavras.

— Só porque você é um ano mais velha que eu, não fica se achando, tá?

A Mel disse isso encarando a Carol. …Um ano mais velha? Se bem me lembro, a Mel tem dezoito anos.

Ou seja, a Carol tem dezenove? Quatro anos mais velha do que eu?

Olhei surpresa de relance pra Carol. As duas ainda se encaravam com expressões tremendas. Parece que se odeiam bastante mesmo.

Aliás, preciso arrumar logo esse cabelo tão maltratado dela.

Enquanto elas se encaravam, estalei os dedos. Num instante, meu cabelo e o dela ficaram arrumados.

Magia é mesmo muito prática. Nem precisa ir ao salão.

— Arrumei rapidinho.

— Senhora Alicia… muito obrigada mesmo! Fico feliz demais, nem sei como expressar em palavras.

— Não fica se achando por causa disso.

Interrompendo a comoção da Carol, a Mel disse isso.

— Deve estar com inveja de a senhora Alicia ter arrumado meu cabelo, né.

— Hã? Não é isso não~. E, além disso, eu passo mais tempo com a Ali-Ali~. E até já sequestrei ela uma vez~.

— Ah, é verdade, isso já aconteceu mesmo.

Diante das nossas palavras, a Carol olhava pra Mel como se não acreditasse no que ouvia.

— Aliás, a Mel veio aqui por algum motivo?

Diante das palavras do Jill, a Mel de repente pareceu se lembrar de algo e olhou pra mim.

— É isso, o Duke disse que o refeitório tava barulhento, mas ele tava sem tempo de vir, então mandou eu vir dar uma olhada… mas parece que já se resolveu!

A Mel disse isso num tom animado.

Não sei se "resolvido" é a palavra certa pra aquela situação, mas fico aliviada, do fundo do coração, que a Mel não estava lá naquele momento.

— Ah! O Duke!

A Mel disse isso apontando pra longe.

…Que aura, aquele grupo do conselho estudantil. Parecem ídolos.

O senhor Duke no centro, a senhorita Liz ao lado dele, e o grupo de sempre alinhado ao redor.

Também dá pra ouvir os gritinhos das alunas.

— Duke! A Ali-Ali ficou super fofa!

A Mel gritou em direção ao senhor Duke e aos outros.

Nossos olhares se cruzaram. Ele veio correndo em minha direção na hora.

…Devo fugir? Mas nunca ouvi falar de vilã que foge.

O senhor Duke parou bem na minha frente, olhando fixamente pra mim. Também não vou deixar barato, e olhei de volta pra ele. Não tenho motivo pra ser criticada só por cortar o cabelo, né? Vai ficar tudo bem… né?

No instante em que fiquei um pouco intimidada, o senhor Duke cobriu levemente os próprios olhos com uma mão.

…Será que ficou tão ruim assim?

— Fofa demais, isso me irrita.

Ouvi um murmúrio baixinho.

…Hã!? Era isso mesmo?

— Eu queria ter sido o primeiro a ver.

— Como?

Não consegui evitar soltar um som.

…Reação inesperada. Achei que o senhor Duke fosse mais adulto que isso. Será que foi um erro meu ter dito pra ele falar tudo que pensa em voz alta?

— Ué, Ali-chan, você cortou o cabelo? Que fofa~

Vindo do descontraído senhor Curtis, isso já nem me abala tanto.

— É óbvio que a senhora Alicia é fofa.

Seguindo a Carol, o Henry-nii-sama disse isso e acariciou minha cabeça.

— A Ali é linda, então tudo combina com ela.

A senhorita Liz e o séquito dela observavam de longe, sem dizer nada.

— Cabelo curto fazendo sucesso, hein.

O Jill murmurou isso do meu lado.

De fato, ganhar tantos elogios só por cortar o cabelo não é nada ruim.

— Provavelmente é porque muita gente já viu no refeitório… então o Duke acabou sendo um dos últimos a ver!

A Mel disse isso com um sorriso malicioso.

De verdade, a Mel tem uma personalidade e tanto.

…Numa hora dessas, como será que uma vilã deveria agir? Se eu ficar consciente demais, não sei direito quais são as atitudes de uma vilã capaz de encantar um homem.

Bom, ainda estou em treinamento pra virar vilã, então tudo bem se eu ainda não consigo fazer isso direito.

Pensando distraidamente nisso, não percebi que a senhorita Liz me observava com um olhar misturado de ciúme e inveja.

— Alicia.

Quando cheguei em casa, o Otou-sama estava parado na frente da cabana. Diante desse reencontro depois de tanto tempo, fiquei paralisada por um instante.

Ah, parece que ele envelheceu um pouco. Mesmo assim continua um Otou-sama bonito…

— Er… quanto tempo, Otou-sama. O que houve?

— Ouvi que você atingiu o nível 90. Parabéns.

— Muito obrigada.

A voz grave e gentil e nostálgica do Otou-sama ecoou nos meus ouvidos. Fiz uma reverência educada.

O Otou-sama me olhava com uma expressão difícil. Devagar, com cuidado, ele tocou o tapa-olho no meu olho esquerdo.

Ah, é sobre isso. Fui eu quem fez por conta própria. Não precisava fazer essa expressão de culpa. Desde que consegui usar a magia de transferência, sempre pretendi dar o olho pro vovô Will primeiro.

— Otou-sama, eu estou feliz agora. Esses dois anos trancada, pra continuar sendo vigilante, me trouxeram mais do que só isso. Por isso, por favor, nunca se arrependa.

Disse isso calmamente, sorrindo.

— Entendo… então você já vai voltar pra casa, certo?

— Pra casa?

— Não me diga que pretendia passar a vida inteira na cabana.

É verdade… já tinha até esquecido disso, de tão distante que parecia agora.

…Será que eu deveria voltar pra mansão?

— Fique na cabana, volte pra casa… os adultos são bem egoístas, hein.

O Jill soltou um veneno numa voz baixa. Diante disso, o Otou-sama mostrou uma expressão de sofrimento.

É verdade que o que o Jill está dizendo faz sentido. Mas o Otou-sama só sugeriu isso porque estava preocupado comigo…

— Bom, mas a biblioteca fica na mansão, então, se for pra coletar informação, a mansão é mais prática mesmo. …E, além disso, acho que uma garota como a Alicia não deveria continuar pra sempre numa cabana.

Mesmo soltando veneno, o Jill deu uma força.

— É verdade… vamos voltar.

Diante das minhas palavras, o rosto do Otou-sama se iluminou na hora.

Ah, então ele queria mesmo que eu voltasse… ou melhor, parece que ele realmente estava incomodado por ter me trancado na cabana.

— Que bom, Arnold.

O Jill disse isso numa voz baixa pro Otou-sama.

Que saudade!

Olhei ao redor do meu próprio quarto. Parece que, mesmo na minha ausência, ficou bem cuidado.

— Senhora Alicia!!

Ouvi o som de alguém batendo na porta, chamando meu nome com uma voz animada. …Rosetta?

— Pode entrar.

Assim que respondi calmamente, a porta se abriu com ímpeto.

— Senhora Alicia! A senhora voltou!

No jogo, a Rosetta deveria me odiar, mas, com lágrimas nos olhos, ela demonstrava alegria genuína pela minha volta.

Nesses dois anos, não nos encontramos pessoalmente, mas ela sempre levou várias coisas até a cabana.

— Senhora Alicia… o olho…

Ao ver meu tapa-olho, a Rosetta cobriu a boca com a mão, com uma voz fraca.

— O que… aconteceu?

— Eu dei, pra uma pessoa.

Assim que disse isso, percebi uma coisa. O Otou-sama olhou pro meu olho e não perguntou o motivo.

Será que ele já sabia da situação… bom, imaginei que ele soubesse mesmo.

A Rosetta não insistiu mais no assunto, e fez uma reverência educada.

— Peço perdão pela falta de educação de invadir o quarto de repente, tomada pela alegria.

— Tudo bem. Obrigada por se preocupar.

A Rosetta me olhava com um rosto quase às lágrimas. Nos olhos marejados dela, eu me refletia.

— Senhora Alicia… estou tão feliz que a senhora tenha voltado.

A Rosetta disse isso com a voz trêmula, sorrindo pra mim.

É bom ter alguém feliz com meu retorno.

— Então, com licença. Se precisar de algo, pode me chamar. …Ah, e, senhora Alicia, a senhora ficou muito mais bonita.

Antes de sair do quarto, a Rosetta se virou pra mim mais uma vez, com o rosto se abrindo num sorriso feliz.

— Alicia, está aí?

Ouvi a voz do Jill do outro lado da porta.

— Pode entrar.

— Tem mais alguém?

— Não, só eu.

Depois de um instante de silêncio, a porta se abriu devagar. A expressão do Jill estava séria.

— O que houve?

— …Eu encontrei isso na academia.

Ele disse isso numa voz baixa, e me entregou uma carta.

— Onde você achou isso?

Peguei a carta do Jill e a examinei, perguntando.

…Isso é um baralho. Neste mundo, se bem me lembro, chamam de carta real. Costuma ser usado em apostas da nobreza.

— Encontrei no local onde o lobo apareceu.

— Como?

Acabei soltando um som bobo diante da voz do Jill.

— Ou seja, será que isso tem algum significado…

— Isso eu também não sei.

Escrito na carta estava o quatro de espadas. A partir disso, dá pra imaginar…

— Se essa carta levar até o culpado…

— "Kate de espadas"

Nossas vozes se sobrepuseram, três palavras de uma vez.

— Ah, então a Alicia também percebeu.

No mundo das cartas de baralho, o naipe pode representar classe social. Paus representa camponeses, ouros comerciantes, copas clérigos, e espadas, a nobreza.

O um é ás, o dois duque, o três três, e a leitura do quatro é "kate", então essa carta pode ser interpretada como "Kate de espadas". Não sei se isso é nome de algum grupo, ou de alguma organização.

E, além disso, ninguém deixaria propositalmente uma evidência que aponta pra si mesmo.

…Talvez estejamos conectando as coisas de forma simplista demais.

— Pode ser uma armadilha.

— É verdade, talvez alguém do Reino de Lavarre tenha tentado incriminar alguém da academia de magia.

— Só com essa carta não dá pra saber de nada. Sério, o mistério só aumenta.

…Sinto que seria mais rápido mesmo entrar no Reino de Lavarre.

Mas o Otou-sama nunca permitiria isso. Ainda mais que ele já quer me tirar do papel de vigilante da senhorita Liz.

Nesse caso, e se eu fosse banida do reino…?

Isso mesmo, aqui talvez seja melhor eu ser exilada, de forma bem digna de vilã. E, depois, voltar pro Reino de Dulkis já com as provas em mãos. Não sei se vai dar certo, mas, se conseguir, com certeza vou ficar registrada na história.

— Alicia? No que você está pensando?

— …No papel de vigilante da senhorita Liz.

— Eu não uso magia, mas sei identificar mentira.

O Jill me olhou desconfiado.

— Estava pensando qual seria a melhor escolha pra virar vilã.

— …E, então, chegou a alguma conclusão?

Se eu contasse ao Jill exatamente o que estou pensando agora, com certeza ele seria contra. Mas mentiras também seriam descobertas… hesitante, ainda assim, encarei ele e abri a boca.

— Só ficar na academia implicando com a senhorita Liz não é mais suficiente.

O Jill franziu a testa. Parece que não entendeu direito o que eu quis dizer.

Até agora, sempre que eu e a senhorita Liz, extremamente boazinha, nos encontrávamos, virava confusão, e, como resultado, minha vilania se destacava.

— Já é hora de eu tomar iniciativa própria.

— Acho que a Alicia já colocou bastante coisa em prática.

— O que eu almejo é ainda mais alto.

— Até onde você pretende ir?

— O mais alto possível, até onde der.

Diante das minhas palavras, o Jill pareceu pego de surpresa, mas logo ergueu o canto da boca num sorriso malicioso.

— …Eu também vou junto.

— Ter o Jill comigo seria reconfortante, mas esse plano eu vou fazer sozinha.

— O quê? Eu não sou necessário?

O Jill me olhou arregalando os olhos.

Pra ele, que quer ser necessário pra mim, minhas palavras de agora devem ter sido péssimas.

— Quero que o Jill fique aqui e assuma o papel de vigilante da senhorita Liz no meu lugar.

— …Não quero.

Talvez tenha sido a primeira vez que o Jill me disse "não quero".

Mesmo assim, é melhor eu ir sozinha pro Reino de Lavarre. Não posso envolver o Jill até esse ponto.

— O que você está tentando fazer, afinal?

O Jill me olhou com seriedade.

…Não posso dizer que estou pensando em ser exilada. O Jill é perspicaz, então provavelmente vai acabar descobrindo minhas intenções em breve. Preciso agir antes disso…

— O que eu devo fazer?

Ele me olhou como se estivesse pedindo ajuda. O que o Jill vai fazer não é algo que eu deva decidir.

— Jill, seu objetivo não é ficar comigo, e sim se tornar alguém que está no topo, não é?

— Eu quero ficar lá em cima junto com a Alicia.

De alguma forma, senti que reencontrei o Jill mais novo, depois de tanto tempo. Ultimamente ele andava tão espevitado que já não tinha tanta fofura. O Jill de agora parece um garoto da própria idade.

— Eu posso dar uma oportunidade a você. Mas quem vai aproveitar essa oportunidade não sou eu, é você, Jill. Não se preocupe, o lugar que os dois estamos almejando é o mesmo.

— E onde é isso?

— Em cima.

Disse isso apontando o dedo indicador pro teto.

Nós dois estamos sempre buscando ir pra cima, então, mesmo separados, com certeza vamos nos encontrar de novo. E não é como se fôssemos morrer e nos separar pra sempre. É só uma viagem, por um tempo.

Bom, não tenho garantia de que, mesmo exilada, vou conseguir voltar sã e salva…

— Fica tranquilo, no caminho que eu sigo, o Jill sempre vai estar presente.

Disse isso e acariciei a cabeça do Jill com gentileza.

— …Depois de ouvir isso, já não consigo mais dizer mais nada. Realmente, não tem como vencer a Alicia.

Dizendo isso, o Jill soltou um pequeno suspiro e sorriu de um jeito um pouco mais adulto.

A luz da manhã entra pela pequena janela da carruagem. O Jill dorme na minha frente, o cabelo balançando de leve.

A partir de hoje, preciso pensar na operação de exílio. Sinto o coração acelerar, como se eu estivesse prestes a fazer algo bem ruim mesmo.

…Pra ser exilada, será que basta fazer algo desrespeitoso com Sua Majestade? Mas, antes disso, quero perguntar também sobre o vovô Will.

— Alicia.

…Que susto.

O Jill, que estava dormindo até agora, me observa com olhos sérios.

— O que houve?

— Ontem à noite, fiquei pensando o tempo todo. Eu… se a Alicia já decidiu fazer algo sozinha, eu não vou interferir. Não sou contra o que a Alicia pensa.

Ele não desvia o olhar de mim nem por um instante.

— …Mas quero pedir uma coisa a você.

— O quê?

— Não morra.

A frase dele foi tão bonita que fiquei hipnotizada por um instante. Que expressão tão adulta.

— Não sou só eu quem pensa assim. O Duke, o Henry, a Mel, a Carol, todos amam demais a Alicia. O Duke já disse uma vez que um futuro sem a Alicia seria triste demais.

Diante da seriedade dele ao dizer isso, cheguei a pensar, meio sem sentido, se seria certo mesmo uma vilã ser tão amada assim. Fico feliz, mas ao mesmo tempo cresce uma certa ansiedade dentro de mim.

…Será que a vilã que eu almejo é a vilã certa mesmo?

— Eu sempre vou ser seu escudo.

— Então eu sempre vou ser sua espada.

— …Nós somos os mais fortes, né.

O Jill disse isso, erguendo o canto da boca satisfeito. Os olhos cinza dele, iluminados pela luz da manhã, brilhavam, quase ofuscantes.

— Senhora Alicia.

— Ali-Ali!!

A Carol e a Mel vieram correndo com força na minha direção. As duas com o rosto cheio de determinação.

— Bom dia.

— Bom diaaa!!

— B-bom dia.

— Consegui!! Isso com certeza foi dirigido a mim!!

A Mel disse isso com uma expressão triunfante, na voz cheia de alegria.

— Não é. Isso foi dito pra mim.

— Hã~? Pra mim, óbvio que foi pra Mel.

As duas estão bem animadas logo de manhã, hein.

— É melhor você pensar que existem uns cem alunos nesta academia que idolatram a Alicia assim.

— Cem?! Não tá exagerando demais?

Não consegui evitar soltar um som estranho diante das palavras do Jill. Nem que seja uma vilã, cem é demais, não é?

— …Cem é um número conservador. Acho que tem mais gente ainda.

Como será que ele sabe disso? Quanta informação será que o Jill tem em mãos, afinal?

— Eu gosto mais da Ali-Ali.

— Eu que idolatro mais a senhora Alicia.

As vozes agudas da Mel e da Carol ecoam nos meus ouvidos. Vendo aquilo, o Jill fica com uma expressão resignada.

— Ainda estão nisso.

…Nesse grupo, será que quem tem a mentalidade mais adulta é justamente o Jill, o mais novo de todos?

— Bom dia, Alicia.

Fui abraçada por trás, com braços fortes. Um cheiro doce e agradável flutuou suavemente no ar.

Será que ele não consegue simplesmente cumprimentar normal? Até pouco tempo atrás era assim mesmo…

— Muito doce.

— Vai com calma logo de manhã, hein.

O Henry-nii-sama e o Jill me olham resignados. …Não a mim, mas ao senhor Duke.

— Bom dia, senhor Duke. E, por favor, se afaste.

Empurrei levemente o corpo do senhor Duke com uma mão.

Ser eu quem lida assim com um príncipe, isso também é digno de vilã de respeito.

Mesmo assim, que corpo firme. Magro, mas bem definido, exatamente o corpo ideal.

— Até pouco tempo atrás você ficava vermelha com isso, já se acostumou?

O senhor Duke disse isso levantando levemente o canto da boca, com malícia.

…Será que aquele abraço por trás é só pra ele curtir minha reação?

Se for assim…

— Sim, já me acostumei. Daqui em diante, meu coração não vai se abalar nem um pouco. …Exceto talvez por alguém que não seja o senhor Duke.

Com essa última frase, com certeza meus pontos de vilania subiram bastante.

— Hã, olha só como fala agora.

O senhor Duke me olha como se estivesse vendo através de mim.

…Ugh, ele está bravo.

Mas eu sou uma vilã. Preciso conseguir dizer coisas assim com toda a firmeza.

— Eu respeito o autocontrole que o Duke sempre teve até agora.

O Henry-nii-sama disse isso como se estivesse apoiando o senhor Duke, mas ele não dava ouvidos às palavras do Henry-nii-sama, continuando a me olhar fixamente.

Ah, o olhar dele dói. Ele tinha me pedido uma resposta, mas eu mesma ainda não sei o que sinto de verdade! O que eu faço!

— Ei~, já vai começar a aula, hein… o que houve?

O senhor Curtis se aproximou de nós e, olhando pro senhor Duke, mostrou uma expressão surpresa.

Ver o senhor Duke com essa expressão é mesmo raro.

— Nada não. Vamos.

O senhor Duke disse isso num tom um pouco duro e virou as costas, andando com passos rápidos.

— Eu sou uma vilã maravilhosamente detestável, hein…

Diante das minhas palavras, o Jill riu meio sem graça.

— Mais do que isso, acho que é uma mulher desastrada mesmo.

— …Mulher desastrada é péssimo. Nem consigo ser uma vilã direito assim.

— Se fosse ao contrário, você não odiaria essa fala de agora há pouco?

Se eu estivesse apaixonada pelo senhor Duke, e, mesmo tendo passado anos gostando dele de forma tão dedicada assim, demonstrando meu afeto sempre, e ele dissesse pra outra mulher que seu coração se abalaria…

— Ia odiar bastante.

Admiti com sinceridade.

— Se o senhor Duke me dissesse algo assim, eu ficaria magoada.

— Quê? Pro Duke? Então será que a Alicia, o Duke…

— Será que já fui abandonada pelo senhor Duke…

— Quê? Por que você chegou a essa conclusão de repente? Quer dizer… a Alicia sobre o Duke…

— Com certeza o decepcionei com meu comportamento péssimo de agora há pouco.

— Escuta o que eu tô falando!

O Jill de repente levantou a voz. Levei um susto e olhei pra ele. Ele soltou um pequeno suspiro e depois me olhou com seriedade.

— Alicia, você já gosta do Duke, não gosta?

— …

Demorei um pouco pra entender as palavras do Jill.

— Bom, mesmo que eu diga isso, você provavelmente vai negar mesmo assim.

— É… acho que sim, gosto dele.

— Quê?

O Jill arregalou os olhos.

— Alicia, "gosto" no sentido de amor romântico, viu?

— Eu sei.

— Sério mesmo?

Por que eu iria mentir a respeito disso?

Agora há pouco, quando pensei na perspectiva do senhor Duke, senti algo bem incômodo por dentro. Não quero ver o senhor Duke se apaixonando por outra garota que não seja eu. Até agora, eu sempre pensava que era melhor ele logo ficar com a heroína, mas agora é um pouco diferente.

Ter meu coração acelerado pelo senhor Duke não era desagradável. Talvez isso seja um sentimento especial mesmo.

…Mas esse sentimento só vai atrapalhar meu sonho.

Vilã não se junta com príncipe. No final, sempre é a heroína quem fica com ele.

"A Santa se une ao rei, tornando-se um símbolo de paz pro reino."

É a tradição estabelecida. Mas isso é só aplicar o senso comum, não é uma escolha que eu mesma fiz de verdade… o senhor Duke também disse que queria ser livre.

— …Não sei se isso está certo.

— Como assim? Você tinha acabado de dizer que sabia.

— Falei, mas… já não sei mais. Sinto que entrei num labirinto complicado.

— É, mas parece que a Alicia cresceu bastante.

O Jill disse isso assentindo.

…Por que ele fala com esse tom tão de superioridade assim?

— De qualquer forma, preciso encontrar o senhor Duke e pedir desculpas.

— Vai pedir desculpas?

— Sim, dessa vez. Mas, claro, vou pedir desculpas do jeito de uma vilã.

— Não dava pra esperar um pouco mais?

— Se o mundo acabasse de repente agora mesmo, eu me arrependeria muito por não ter pedido desculpas.

— Entendi, então vamos encontrar ele agora mesmo.

O Jill disse isso com os olhos levemente suavizados.

— O senhor Duke já deve estar na aula, né?

Fiz um esforço pra não deixar minha voz ecoar pelo corredor.

— Não só o Duke, todo mundo já está na aula. Só nós que estamos matando aula.

— Entrar na sala do senhor Duke durante a aula?

— Isso é bem digno de vilã, mesmo sendo incômodo.

— De qualquer forma, todo mundo deve estar dormindo. Vamos entrar como um despertador.

— Falando de um jeito bonito, mas é errado mesmo, viu.

— Vilã só é vilã fazendo coisa errada mesmo.

— Tá bom, tá bom.

Ultimamente, sinto que o Jill parece mais adulto que eu de verdade.

Mas eu também, com quinze anos, deveria ser bem adulta pra minha idade. É o Jill que é especial demais.

Fomos em silêncio pelo corredor reto, em direção à sala de aula do senhor Duke.

Um corredor bem grande e bonito de verdade. O chão é de mármore, sempre bem polido.

Mas ter um lustre no corredor é meio esquisito. Mais parece um palácio do que uma escola.

— A senhorita Liz, quando virar rainha, devia melhorar isso.

— Quê? Por que a Kate Liz vai virar rainha?

O Jill franziu a testa e me olhou fixamente.

— Ela é a Santa, né? Vai ficar noiva do próximo rei.

— Acho que o Duke nunca vai fazer isso.

— Isso é regra do reino, não é?

O Jill arregalou os olhos. Parece que ficou surpreso por eu ter trazido a regra do reino à tona.

E, além disso, acho que existe a força coercitiva do jogo também. Sinto muito pelo senhor Duke, mas…

— Se essa regra é ruim, é só quebrar. Você é vilã, não é?

— Por mais vilã que eu seja, quebrar as normas é outra história. Se nós, nobres, não seguirmos as regras, o que o povo deveria seguir?

— …Faz sentido o que você diz. Mas o Duke quer ficar noivo da Alicia mesmo.

— Se eu realmente me apaixonasse de verdade pelo senhor Duke, com mais razão ainda eu abandonaria esse sentimento.

O Jill ficou em silêncio por um instante, pensando em algo. Será que minha resposta não agradou ele?

Meu sentimento à parte, nobres não deveriam agir por interesse pessoal.

— Estava escrito na bíblia, o diabo matou dez pessoas.

A voz do Jill estava bem baixa, séria como nunca.

— Deus, sabe, matou dois milhões, trinta e oito mil, trezentas e quarenta e quatro pessoas.

Ele disse isso calmamente, olhando pra longe. Um pequeno silêncio se instalou entre nós dois.

O ser chamado de deus matou mais gente. Provavelmente é isso que o Jill quer dizer. Mas minha cabeça não conseguia processar bem isso.

— Por isso, Alicia, mesmo que digam que a Kate Liz é a Santa, pra mim, a Santa é a Williams Alicia.

Diante daquele olhar tão sério ao dizer isso, perdi as palavras por um instante.

Que olhos tão sábios. Se o senhor Duke virasse rei e o Jill se tornasse chanceler, esse reino com certeza ficaria muito melhor do que hoje.

Enquanto eu pensava em como responder às palavras do Jill, chegamos na sala do senhor Duke.

— Não tem ninguém.

Olhei ao redor da sala vazia.

— Verdade, fazia sentido não ouvir nenhuma voz vinda da sala.

Aula extra fora do prédio, talvez? Que viagem em vão.

— Ei, não tá ouvindo alguém chorando?

O Jill franziu a testa, olhando pra mim.

…Não acredito em fantasma, mas realmente dá pra ouvir, fraquinho, alguém soluçando.

— Achei.

— Hã?

O Jill apontou reto pro fundo da sala.

Cabelo cor de castanha. Já vi em algum lugar antes… quem seria mesmo? Como ela está de cabeça baixa, não dá pra ver o rosto.

— Quem é?

Percebendo nossa presença, ela levantou o rosto devagar.

Finalmente reconheci quem era. Se bem me lembro, é a Ema, fiel da senhorita Liz, né? Aquela que tentou me incriminar.

Sendo que ela está nesta sala, isso significa que é mais velha do que eu, então.

Ainda assim, por que ela está chorando num lugar desses?

— Por que… você tá aqui?

Ela me olhava, confusa.

A Ema, com uma expressão apressada, enxugou as lágrimas com a manga de forma desajeitada e tentou sair da sala às pressas.

— Espera, você já estava aqui antes, nós é que saímos.

Diante das minhas palavras, a Ema parou, com uma expressão de desconfiança.

— A culpa é toda sua… com certeza vai espalhar por aí que eu estava chorando na sala de aula, né?

O tom da Ema foi ficando cada vez mais agressivo. Será que estava descontando em mim, ou realmente estava com raiva de mim de verdade?

— Naquela vez, você debochou tanto da minha aparência, e por isso eu passei vergonha na frente da senhorita Liz!

Ela parece estar brava comigo, mas a senhorita Liz não seria do tipo de abandonar a Ema por causa disso. O coração dela é justamente o de uma Santa de verdade.

…Será que alguém fez algo com ela? Bom, isso não tem nada a ver comigo.

— Desculpe incomodar. Já vou indo.

— O quê? Pena? Vai me deixar sozinha aqui chorando por pena? Não quero uma gentileza dessas vinda de você.

Ela realmente me odeia mesmo. Não é de agora, mas ainda ser tão odiada assim, sou mesmo uma vilã de verdade.

Fui me aproximando devagar dela. A Ema mostrava uma expressão levemente amedrontada, mas não recuava nem um passo. Sem se mover nem um pouco, ela me encarava fixamente.

— O… o que foi?

Os olhos dela estavam vermelhos e inchados ao redor. Deve ter chorado bastante…

— Eu não vi nada, e não ouvi nada.

— Hã?

— Se tiver vontade de chorar, não precisa se conter.

A Ema me olhava arregalando os olhos.

— Vou colocar uma barreira nesta sala pra você. Ninguém vai ouvir nada de fora, e ninguém vai conseguir entrar. Quando você sair da sala, a barreira desaparece sozinha, então fique tranquila.

Dizendo só isso, tentei sair da sala.

— Aposto que é mentira, você vai tentar me incriminar do mesmo jeito que eu tentei te incriminar!

A Ema gritou pra mim, os olhos vermelhos, com algumas lágrimas escorrendo.

— Fazer isso não me traria nenhum benefício.

— Você não pode me odiar!

— Alguém te disse alguma coisa?

— …Isso não é da sua conta!

A Ema ficou claramente perturbada.

Acertei em cheio, então.

— É verdade, não é da minha conta. …Mas pessoas de personalidade forte como você geralmente se seguram pra não chorar, achando que chorar é perder. Por isso, acho que, de vez em quando, tudo bem soltar a voz e chorar sem se conter. Fica aqui até se sentir melhor.

Antes que ela dissesse mais alguma coisa, saí da sala. Não sei que expressão a Ema estava fazendo enquanto me olhava.

Estalei os dedos de leve, criando uma barreira em volta da sala inteira. Antes de terminar a barreira, ouvi a voz dela soluçando, gritando de dor.

…Não tenho interesse particular na Ema, mas parece que algo sério aconteceu com ela.

— Eu tava pensando…

— O quê?

— Alicia, você é meio bonzinha demais, né.

— O que você está dizendo, "bonzinha" é uma palavra pra gente como a senhorita Liz.

Respondi rindo às palavras do Jill. Ele me olhava com uma expressão levemente resignada.

— O que foi, essa cara?

— Nada não. Só que, nesse ritmo, a posição da Santa vai…

O Jill foi diminuindo o tom de voz aos poucos. Não consegui ouvir direito o que ele disse.

Fico curiosa, mas, de qualquer forma, ele provavelmente não vai me contar mesmo que eu pergunte.

— Vamos procurar o senhor Duke.

Começamos a andar rápido pelo corredor.

Andamos por vários pontos do prédio, mas não encontramos ele em lugar nenhum.

— Aula extra é sempre tão difícil de encontrar assim? Ah… será por causa da magia, mas de repente fiquei com fome.

— Vamos pro refeitório? A essa hora deve estar vazio.

— Vamos.

Respondi na hora à sugestão do Jill.

Nos corredores vazios, só ecoavam nossos próprios passos. Por isso, quando nos aproximamos do refeitório, as vozes lá dentro soaram ainda mais altas.

— Bem feito pra Ema.

— Se acha demais só porque quer ser querida pela senhorita Liz.

— Tava incomodando mesmo, precisava disso.

Ah. Quando será que vou conseguir comer em paz nesse refeitório?

Sem deixar perceberem, espiei devagar dentro do refeitório.

Ah, é um rosto que eu já vi em algum lugar… acho que era aquela garota usada pela Ema? A da magia de terra que gravava minha voz. …Marika, se bem me lembro. As outras duas eu nunca vi antes.

A Marika tinha o ar de figurante comum, parecia mansa, mas agora tem um rosto de vilã de verdade. Que expressão excelente, ela.

— Fica dando ordem pra tudo de cima, cansa de tanto egoísmo.

— A gente que faz tudo, e ela finge que fez sozinha, é um absurdo.

— Uma pessoa normal não faz isso. Eu mesma já apanhei dela.

— Alguém como a Ema não tem condições de apoiar a senhorita Liz.

— É verdade, acho que ela combina mais com aquela mulher da família Williams.

— Já que ela é uma das Cinco Grandes Famílias, precisa dizer "senhora Alicia" pelo menos, viu~

— Não quero nem falar o nome dela.

No caso da Ema, é bem merecido.

…Mas, sinceramente, saber que já espalharam tanto assim que minha personalidade é ruim me deixa contente. É o máximo!

Pra que se espalhe ainda mais essa má fama, também preciso me esforçar mais.

As reclamações delas não pareciam ter fim, cada vez mais empolgadas.

— Quando as três apontamos a faca pra Ema, aquele rosto de medo dela! Melhor coisa!

— É mesmo! Aquela cara foi obra-prima!

— Quem diria que a Ema, sempre tão cheia de confiança, faria aquela cara!

— No dia em que colocamos um rato morto na bolsa dela, ela também tremeu todinha, né~

— E, além disso, quando jogamos as facas todas de uma vez perto dela, sem acertar de propósito!

— Naquela hora ela até perdeu o controle do corpo ali mesmo, com lágrimas nos olhos!

Uma risada aguda.

Que barulho irritante. O que estão fazendo é vil demais, e as mais baixas de todas são elas.

— Jill, me empresta a faca.

Disse isso baixinho, numa voz calma. O Jill me entregou a faca sem hesitar.

— Aqui. …Ah, sempre que venho pro refeitório, sempre acontece alguma coisa, hein.

O Jill deixou os ombros caírem, soltando um suspiro.


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