Capítulo 121 – O Oráculo (Falso) e a Reforma
Ao olhar pra cidade, um grande clamor de alegria ecoa. Na escuridão da noite, as vozes das pessoas chegam até aqui.
— Conseguimos! Conseguimos!
— Viva o deus da luz, Rals! O mal sempre é destruído mesmo!
— Seu demônio maligno! Viu a ira do nosso deus?!
Os cidadãos estão tomados de euforia, mas, sei lá, fico irritado. Só ficam falando o que bem entendem. Será que devo mostrar essa tal "ira de deus" pra eles? Do jeito que tá, nada vai mudar. Pra mudar o jeito de pensar, preciso dar um sermão, pelo menos uma vez.
— Travar alvo, área: toda a capital. Ativar [Lightning Javelin] aleatoriamente em locais sem pessoas num raio de dez metros. Número de disparos: 300.
— Entendido. Alvos capturados. Ativando [Lightning Javelin].
De repente, 300 raios caem do céu por toda a capital. Gritos e clamores explodem de novo, e a cidade inteira entra em pânico.
Manipulo o smartphone e projeto minha imagem por toda parte da cidade. Pra que até quem está longe consiga ver bem.
— Não falem de justiça levianamente. Ainda não perceberam que foi a justiça distorcida de vocês que criou aquele monstro, seus tolos?
Bom, vamos dizer isso, então. Uso [Gate] pra chamar a Papisa até a minha frente, onde estou parado diante do templo desmoronado. Vendo isso projetado no monitor no ar, ooooh!, sobe a voz dos cidadãos. Com um olhar combinado, Sua Santidade se ajoelha e curva a cabeça.
— Vossa figura é o deus da luz, o senhor Rals?
— Sim e não. Eu sou o deus da luz, mas não sou "Rals". Um deus chamado Rals não existe.
Toda a capital se agita num murmúrio. Claro que sim. Afinal, o próprio deus deles acabou de ser negado.
— Vim te dar um oráculo. Avance.
Ponho a mão na testa da Papisa, que avança, e envolvo os dois numa ilusão de luz ofuscante. Até uma pequena encenação cansa, hein. Claro, não tem oráculo nenhum de verdade.
Depois que a luz se apaga, a Papisa se prostra, com a cabeça no chão. Isso não é exagero demais, não?
Bom, tanto faz. Falta só o acabamento final.
— Mais uma coisa: preciso dar castigo àqueles que, em nome da justiça, usaram indevidamente o nome de deus e acumularam pecados.
Do mesmo jeito que com a Papisa, uso [Gate] pra chamar os rostos que estavam todos reunidos quando tive a audiência. O Cardeal Zeon, e sua irmã mais velha, o Cardeal Kyurei, que se passou pela Papisa, além dos cavaleiros sagrados, se prostram todos de uma vez no local.
— Confessam o pecado?
— N-nós não cometemos pecado nenhum! Como servos piedosos de deus…!
O Cardeal Zeon, mesmo prostrado, apela pra mim. Ele fala isso mesmo diante do deus (mesmo sendo falso)? Se acha que consegue enganar, tá subestimando deus mesmo.
— Tolos. Acham que eu não sei que planejaram culpar uma garota inocente por um crime, tentaram executá-la, e ainda por cima trancaram esta que é a Papisa numa masmorra?
— I-isso…!
Os cardeais ficam com o rosto lívido. O povo, ouvindo isso, começa a se agitar em murmúrios. Parecem incapazes de esconder o choque com o fato de que cardeais e cavaleiros sagrados, posições religiosas da organização, faziam algo desse tipo.
— E não é só isso. Quer que eu revele, um por um, aqui mesmo, todos os crimes cometidos usando indevidamente o nome de deus?
— Ugh…!!
Os cardeais ficam em silêncio. Testei um blefe, e é isso que dá. Devem ter feito várias coisas sujas usando o nome de deus. Não têm salvação nenhuma. Esses aqui, sabendo que o próprio deus não existia, ainda o usaram do jeito que era conveniente. Não há espaço nenhum pra atenuante.
— Arrependam-se.
— Uguu!
Uso [Paralyze] discretamente, paralisando todos. Dou uma olhada nos cardeais que desabam no local e falo com a Papisa.
— Deixo o tratamento dessas pessoas a seu critério.
— Sim.
— Luz e Trevas são as duas faces de uma mesma moeda; justiça e mal, tudo é criado pelo coração humano. Saibam que a justiça em excesso destrói a si mesma. Não é isso que eu desejo.
Digo isso, dirigindo-me ao povo, mas as palavras não saem bem direito. Realmente não levo jeito pra ser vigarista. Vou desaparecer antes de dar bandeira.
As valquírias espalhadas pela cidade se reúnem ao meu redor.
— Adeus, filhos dos homens.
As valquírias brilham todas de uma vez. Aproveitando o instante em que ofuscam os olhos de todos, uso [Gate] e me escondo na sombra. Depois que a luz desaparece, espalho penas de anjo em ilusão. Encenação, encenação.
A Papisa se levanta e declara em voz alta.
— Deus se retirou! A partir de agora, precisamos expiar nossos pecados e nos arrepender de termos ido contra a vontade de deus! Deus disse: caminhem com a própria força, esforcem-se para abrir caminho por conta própria diante de dificuldade e provação. Deus vela por nós! Orações de gratidão!
Oooooooooooh!! ecoa por toda a capital a voz de alegria do povo. Convenhamos, ou lá o que for. Profissional é profissional mesmo, hein. Deve ser isso que chamam de carisma.
De qualquer forma, parece que vai dar tudo certo. Enquanto observo, da sombra do templo, os cidadãos fervendo com o discurso da Papisa, o smartphone no bolso, em modo silencioso, vibra, avisando uma chamada.
— Alô, alô. É o deus?
— Sim, alô. É o deus. Parece que resolveu tudo, hein. Isso já deve trazer um alívio, por ora.
— Bom, por enquanto. A interferência mental estranha já deve ter desaparecido, e daqui pra frente eles devem conseguir decidir por conta própria se acreditam em deus ou não.
De certa forma, dá pra dizer que enfiei uma cunha na consciência coletiva presa por correntes chamadas "deus". Com certeza o poder do país vai cair. Mas, com isso, acho que o número de pessoas oprimidas por uma justiça irracional vai diminuir.
Mesmo assim, talvez ainda tenha gente que continue acreditando no deus da luz Rals, mas tudo bem também. Afinal, acreditar ou não em deus é livre. Só que, com a religião do Estado mudando assim, não devem mais conseguir usar uma justiça egoísta pra fazer o que quiserem com os outros.
— Desculpa ter deixado tudo em suas mãos. Pede desculpa também à mocinha e à Papisa por mim.
— Não se preocupe. Mais do que isso, mesmo que seja de vez em quando, dá uma olhada nesse país também, viu. Pra não ir numa direção estranha de novo.
— Entendi. Vou fazer o possível.
Termino a ligação com o deus e uso [Gate] pra teletransportar até onde estão a Phillis e o Kohaku.
— Vossa Majestade… muito obrigada.
Assim que me vê, a Phillis, com os olhos marejados, curva a cabeça. Bom, não fiz nada que mereça tanto agradecimento assim. Afinal, fui basicamente eu que causei esse tumulto todo, pra começo de conversa.
— O deus pediu pra eu me desculpar com você e com a Papisa. Deve ser difícil daqui pra frente, mas vai ficar bem?
— Sim. Porque deus vai velar por nós.
A Phillis balança a cabeça com firmeza, sem hesitação nos olhos. Parece que era preocupação à toa mesmo, minha.
Como parte do pós-processamento, tento consertar com [Modeling] os prédios que desabaram por causa do [Gravity] que usei e o templo destruído, mas Sua Santidade me impede. Diz que não é bom eu exibir tanto poder assim aqui. A verdadeira identidade daquele "deus" pode acabar vazando, então é melhor eu não ficar por aqui.
Observando a Papisa pregando o novo ensinamento de deus, entrego o Espelho-Gate de contato pra Phillis. Depois de uma breve despedida, eu e o Kohaku voltamos pra Brunhild pelo caminho de [Gate].
Alguns dias depois, corre o boato de que um deus desceu à Teocracia de Ramish e derrotou um deus maligno das Trevas. Nos outros países, de fé mais fraca, isso foi motivo de riso, mas, a partir daí, a doutrina da teocracia mudou, e o objeto de fé passou de "o deus da luz, Rals" para simplesmente "o deus da luz". E dizem que a expressão "em nome da luz e da justiça" desapareceu.
Que Ramires fundou a Teocracia de Ramish, e que o deus da luz o ajudou, continuou sendo o que se dizia. Só que a existência de "Rals, o deus da justiça" foi apagada.
— Não acredito que você fingiu ser deus… Vai receber um castigo divino, viu, Touya.
A Elsie fala isso meio de brincadeira. Já expliquei direitinho pra todo mundo o que aconteceu em Ramish. Claro, omitindo a parte do deus.
O Cardeal Zeon e o Cardeal Kyurei, que se opunham à Papisa, junto com os outros cavaleiros sagrados, tiveram seus bens confiscados, além de excomungados e presos. O valor confiscado foi considerável; pelo visto, tinham ganhado dinheiro sujo sob o pretexto de doações e ofertas. A Papisa usou esse dinheiro como indenização para as pessoas que sofreram com o incidente.
Os que foram presos conhecem o segredo da fundação da teocracia, mas provavelmente ninguém vai acreditar neles. Afinal, foram condenados pelo próprio deus, diante de uma multidão, como criminosos que usaram indevidamente o nome divino.
Depois de um tempo, chega de novo um mensageiro de Ramish. A Phillis, que virou a mais jovem cardeal da história, saindo do posto de padre, curva a cabeça na sala de audiências.
— Parece que está bem.
— Vossa Majestade também continua o mesmo.
Depois da saudação de mera formalidade, passo os olhos pela carta que a Phillis trouxe. Resumindo, estava escrito o que já tinham dito antes: o desejo de estreitar laços profundamente. Dessa vez, não tem exigência de tornar aquilo religião do Estado, nem de receber batismo. É simplesmente uma carta de "vamos ser amigos".
Isso em si não é ruim, então decido aceitar. Manter relações diplomáticas com muitos países é necessário pro desenvolvimento deste país. Claro, não preciso manter relação com país que só traz prejuízo.
— Fiquei apreensivo sem saber como ia acabar, mas, no fim, tudo se resolveu bem. Será que isso também é vontade do deus que apareceu em Ramish?
Depois que a Phillis sai da sala de audiências, o Kōsaka-san, que estava ao lado, solta um suspiro de alívio e me olha de relance. Não contei os detalhes do que aconteceu pro Kōsaka-san, mas informei que eu estava presente no local. Parece que ele tem alguma suspeita sobre essa coincidência conveniente demais: eu ir a Ramish e um deus descer justamente lá.
— Será que deus existe mesmo?
— Sei lá. Existe no coração de quem acredita, e não existe no coração de quem não acredita. Deve ser assim mesmo.
No mundo de "Peter Pan", escrito pelo autor britânico James Barrie, dizem que, toda vez que uma criança murmura "fadas não existem", uma fada morre em algum lugar do mundo. Acreditar é reconhecer a existência de algo, e talvez seja um sentimento que ninguém pode aprisionar.
— E Vossa Majestade, acredita em deus?
— Ora, claro que acredito.
Em algum lugar, tive a impressão de ouvir a risada despreocupada daquele deus.