Capítulo 120 – O Espírito das Trevas e a Farsa do Deus
De qualquer forma, é enorme. O espírito das Trevas se ergue, sacudindo as pernas de polvo completamente negras. A forma sinistra dele já era suficiente pra causar terror e repulsa em quem visse.
Com um só golpe dos tentáculos das costas, parte do templo ao lado é destruída com facilidade. Com um estrondo ensurdecedor, mais poeira se levanta. Que poder de destruição.
— Go, a, gua.
Da boca enorme aberta, sai um rugido incompreensível. Logo, como se cuspisse pela boca, um líquido completamente negro pinga, plaf-plaf. Antes de cair no chão, transforma-se em algo de forma humanoide, com inúmeras asas parecidas com de morcego. Pescoço comprido, sem orelha, sem nariz, sem os dois olhos; a parte de cima do corpo é de um humano musculoso, e a parte de baixo, pernas parecidas com de inseto.
Aquilo bate asas no ar e se espalha por toda a capital. Gritos de pessoas ecoam por todo lado.
— Ga, gu, rugaaaaaa!!
O espírito das Trevas ruge em direção ao céu.
— É um monstro…!
— Deus… por favor, salve-nos… por favor… por favor…!
Vozes de oração ecoam ao redor. Mas, infelizmente, o próprio deus deles é justamente aquele deus maligno.
Já não deve haver mais nenhuma memória de Ramires. Aquilo é só o instinto puro, espalhando maldade e impulso de destruição.
— Dizem que, mil anos atrás, os cardeais uniram forças pra selar isso; não dá pra fazer de novo?
— Acho que é impossível. Não dá nem perto pra comparar com o poder dos cardeais daquela época. Hoje em dia, a maioria dos cardeais nem consegue usar magia…
Sem jeito, então. Bom, tem uma parte que entendo na fala da Papisa. Comparado com aquela época, hoje o que conta pros cardeais não é força mágica, mas devoção, habilidade política, esse tipo de coisa. Não serve pra situação como essa.
Não tem jeito. Chegando a esse ponto, só resta eu resolver…
Bem quando penso até aqui, uma ideia surge de repente na minha cabeça.
Será que dá pra usar isso pra mudar a doutrina da organização religiosa. Não dá pra trazer o deus de verdade, mas, se eu fingir ser deus, derrotar aquele bicho, dizer algo tipo "isto é um oráculo divino" pra Papisa e ir embora, será que não deixaria as coisas mais favoráveis pra ela depois, contra os cardeais?
Mas isso é, digamos, uma farsa. Afinal, tô tentando enganar todo mundo. Não, mas, se estiver de acordo com a vontade do deus de verdade, será que ainda é farsa…?
Sem conseguir decidir sozinho, levo Sua Santidade e a Phillis pra uma casa de onde os moradores fugiram, e conto o que me veio à cabeça.
— …Sinceramente, engana o povo me deixa constrangida. Mas também acho que, com certeza, a situação vai ficar melhor do que até agora. Pelo menos eu quero acabar com o ensinamento de interferência mental, ou de não perdoar alguém só por ser considerado maligno.
Sua Santidade me olha direto e responde com firmeza. Não há hesitação nos olhos dela.
— Até agora, como Papisa, ensinei o povo a adorar um deus que eu sabia que não existia. Reprimindo o sentimento de quase ser esmagada pela culpa, me convencendo de que isso também era necessário pelo país. Mas, se eu conseguir mudar o ensinamento, daqui pra frente vou poder falar de deus com a cabeça erguida. Vou poder ensinar, de peito estufado, que o deus a quem vocês oferecem oração existe de verdade e está de olho em nós. Se isso acontecer, que coisa maravilhosa seria…
De fato, é verdade. Usar o nome do deus de forma conveniente me deixa constrangido, mas vamos tentar.
O povo também deve ficar mais feliz com o próprio deus em que acredita derrotando o inimigo, do que com o rei de outro país. Pra Brunhild, seria uma chance de criar uma dívida com a teocracia, mas vou me contentar com uma dívida pessoal com a Papisa mesmo.
— M-mas tá tudo bem mesmo? Consegue vencer um monstro gigante desses?! Aquilo é um espírito das Trevas, sabia?!
— Hmm, acho que dá pra resolver de algum jeito.
A preocupação da Phillis é compreensível, mas, pelo meu instinto, não parecia um inimigo tão complicado assim.
O forte daquele espírito provavelmente, ou melhor, com certeza, é interferência mental. Mas essa habilidade parece funcionar mais de forma ampla e superficial do que de maneira precisa e localizada. Deve ter sido por isso mesmo que o Ramires pensou em fundar a teocracia. Pra quem tem resistência mágica alta, tipo a gente, o efeito deve ser difícil de sentir, mas, ficando perto por muito tempo, talvez corroa aos poucos. De fato, foi isso que aconteceu com o Ramires.
Bom, só vou saber lutando, mas acho que dá pra resolver de algum jeito. O problema é ter que lutar de um jeito que pareça um deus, né. Bom, a aparência dá pra resolver com [Mirage], mas.
Ao sair, o espírito das Trevas batia os tentáculos longos no chão feito chicote, continuando a destruir a cidade. Pelo visto, o ataque básico dele é mesmo físico. Então, deve dar pra resolver.
Opa, se não me apressar, essa capital vai ser destruída. Me afasto da Papisa e me escondo num beco. Durante isso, a Papisa e a Phillis animam todo mundo na cidade e oferecem orações ao deus. Normalmente, eu preferiria que fugissem logo, mas, neste caso, é um processo necessário. Afinal, preciso descer respondendo a essa oração.
Uso [Mirage] pra mudar de aparência. "Mudar", ou melhor, "envolver numa ilusão pra parecer assim". Por enquanto, experimento uma forma de cabelo loiro e olhos azuis, feito um deus da mitologia grega. Claro, um bonitão.
— E aí?
— De fato, tem esse ar, mas parece que falta alguma coisa.
O Kohaku inclina a cabeça, em dúvida. Não, o deus de verdade é bem mais discreto do que isso. Bom, o Kohaku nunca viu o deus mesmo.
Imagem de deus… então, assim, talvez? Envolvo-me numa ilusão que emite luz por todo o corpo. Cheguei a pensar num anel de luz sobre a cabeça, ou doze asas, mas isso é mais imagem de "anjo", né. Não adianta virar um mensageiro de deus.
Certo, tá bom assim, penso, mas percebo um problema. Normalmente, esse tipo de deus aparece voando pelo céu, né. Aparecer andando na frente de todo mundo é meio… Devia ter aprendido magia de voo. Fingir ser deus dá trabalho, hein! Que saco!
Não tem jeito. Primeiro, vou projetar essa ilusão de deus no ar. Francamente… não fez sentido nenhum ter vestido a ilusão. Bom, na hora de lutar, sou eu que preciso fazer mesmo.
Ao projetar o deus ilusório sobre a Papisa e os outros, ooooh! ecoa a voz de alegria das pessoas da cidade. Certo, primeiro preciso dispersar aqueles subordinados que estão descontrolados pela cidade.
— Trevas, venha; o que busco é a valquíria radiante: [Valkyrie].
Chamar um mensageiro de luz com "Trevas, venha" já é uma história estranha. Gero vários círculos de invocação ao redor da ilusão do deus e invoco um esquadrão de anjos. São os que contratei depois do tumulto no Império, antes. Naquela hora, só tinha o grifo pra voar, e foi um sufoco.
— Derrotem os inimigos gerados pelo espírito das Trevas e protejam o povo da cidade.
Ao transmitir essa ordem por telepatia, os anjos guerreiros se espalham de uma vez por toda a capital. Na verdade, também dava pra travar alvo com o smartphone e jogar magia de luz direto, mas, assim, acabaria num instante só. E os moradores ficariam sem entender o que aconteceu. Falando mal, isso também é encenação.
Devem falar que é falta de respeito, com vidas em jogo, mas sinto que aqueles subordinados não estão nem mirando em atacar humanos. Estão só se descontrolando de qualquer jeito. Mesmo assim, o perigo continua o mesmo. Pode acontecer de alguém morrer sendo pego de arrasto.
Depois da aparição do deus, com a chegada dos anjos, seus mensageiros, o povo da capital ferve de alegria.
Certo, vou me mover também. Fico invisível com [Invisible] e corro pelos telhados, levando a ilusão de deus feito uma pipa. Não fica lá muito digno. Realmente queria uma magia de voo. Magia de vento, talvez? Não, se fosse isso, a Leen também voaria. Deve ser magia de atributo nulo mesmo.
Ao chegar perto do templo, dá pra ver bem o tamanho do espírito das Trevas.
Apago a ilusão do deus e, vestindo a mesma ilusão em mim, tiro do [Storage] uma espadona de uns dois metros de lâmina.
Essa espadona, feita de cacos de Phrase, foi aliviada com [Gravity], então dá pra manejar com uma mão só. A espada, brilhando feito cristal, deve dar uma certa imagem mística, penso.
O espírito das Trevas vira o corpo pra mim e olha de cima pra baixo. Não tem olhos, mas dá essa sensação. Os tentáculos das costas vêm voando na minha direção.
— E lá vai.
Desviando de lado, giro a espadona num golpe horizontal. O tentáculo é cortado com um "zupan" e voa em pedaços. Uma névoa negra sinistra transborda da superfície cortada do tentáculo. Uau, nojento.
Sem tempo nem de pensar isso, a ponta do tentáculo cortado se dissipa como névoa, e o tentáculo se regenera. Tem essa habilidade também, é. Que saco.
Não posso ficar apanhando demais, como deus (falso). Pensei em derrubar com [Slip], mas, sendo tão gigante assim, o dano à cidade seria grande. Vou logo esmagar, então.
— Travar alvo. Alvo: espírito das Trevas. Ativar [Gravity].
— Entendido. Captura concluída. Ativando [Gravity].
No instante seguinte, gogaaaan!!, o espírito das Trevas, sem aguentar o efeito de [Gravity], desaba de lado. Naturalmente, parte da cidade que fica embaixo do espírito caído desmorona, destruída. Uaaa, no fim, dá no mesmo que usar [Slip]! Que constrangedor. Mesmo sendo, teoricamente, um deus.
Isso não é bom. Chegando a esse ponto, só resta fazer algo bem espalhafatoso, na linha de "bom, com um ataque tão violento assim, não tinha jeito mesmo"… acho que não convence.
De qualquer forma, só resta terminar com poder esmagador. Pensando isso, vou aumentando o peso com [Gravity], mas não sei bem se está tendo efeito. Esse aqui nem tem expressão. Parece que está sendo contido, ao menos. Então…
— Luz, perfure; lança sagrada radiante: [Shining Javelin].
A lança de luz atravessa o corpo do espírito das Trevas. Dessa vez, o buraco perfurado não se regenera de novo. Sendo mesmo um espírito das Trevas, deve ser fraco contra magia de Luz.
— Travar alvo. Ajustar ao espírito das Trevas e desdobrar cem… não, duzentos disparos de [Shining Javelin].
— Entendido. Captura concluída.
Pequenos círculos mágicos de luz se abrem no céu, um atrás do outro. Que sinta o golpe (imitação) de um deus (mesmo sendo duzentos disparos).
— Disparo simultâneo.
— Entendido. Iniciando disparo simultâneo.
Dododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododododon!!!
O chão treme fortemente com o disparo simultâneo de [Shining Javelin]. Com as lanças caindo como chuva de luz, o corpo do espírito das Trevas se despedaça aos poucos, e, quando o disparo simultâneo termina, já não mantém mais a forma. Os pedaços do corpo despedaçado se espalham como névoa negra, pairando ao redor. Isso também deve ser espírito das Trevas. Se ele ressuscitar depois de um tempo, dá trabalho. Vou eliminar por completo.
— Luz, venha; banimento radiante: [Banish].
Desfiro a magia de purificação numa ampla área. Um clarão ofuscante envolve o entorno, dissolvendo e desaparecendo a névoa negra espalhada.
A luz se apaga, e, depois de o espírito das Trevas desaparecer completamente, restam os ossos de uma única pessoa, caídos no chão. Por fim, eles também se desfazem em pedaços, virando cinzas levadas pelo vento.
Aquele devia ser o Ramires. Depois de mil anos, finalmente deve ter sido libertado. Mesmo sendo culpa própria, é algo digno de pena.
Bom, daqui em diante é a hora da verdade. Vamos lá, então, dar o meu melhor pra enganar todo mundo.