Capítulo 149 – A Apresentação e a Amnésia
— …Sempre penso, mais uma vez, que é uma sorte que o soberano Touya seja quem é.
— …De fato. Devemos ser gente de sorte mesmo.
— Do que vocês tão falando?
Sem querer, acabei retrucando diante da fala do Imperador de Regulus e do rei de Belfast, ambos olhando pra cima, encarando o cavaleiro pesado erguido diante deles.
— Não, é sério, se o soberano Touya tivesse ambição de conquista, esse mundo já podia ter sido dominado há tempos. Vendo uma coisa dessas, ninguém tem coragem de pensar em se rebelar contra você.
— De fato… Sem contar isso, você já é forte quase o suficiente pra ser considerado covardia. Aliás, já que é agora, o que exatamente você é, afinal?
O Rei Sacro de Refreese e o rei de Mismede continuaram, um atrás do outro. Não sei se isso é elogio ou crítica.
— Vossa Majestade Touya nunca teria ambição de conquista nenhuma. Não importa o que ele seja, continua sendo nosso amigo.
A Papisa de Ramish falou isso com uma expressão tranquila. De certa forma, dentre todos aqui, ela é quem mais sabe da minha verdadeira identidade. Parece que ela imagina que eu seja algum tipo de emissário divino. Infelizmente, não sou nenhum anjo.
— Que incrível, hein… Isso anda mesmo de verdade?
— Anda, sim. Funciona com a mesma operação do Frame Unit.
Quem tinha os olhos brilhando feito criança era o rei Claude, de Riinie.
Hoje, reuni todos os países da Aliança do Oeste pra apresentar o Frame Gear. Os cavaleiros de escolta de cada país também estavam ali, boquiabertos, paralisados de espanto. Bom, era de se esperar mesmo.
— Mas por que você fez uma coisa dessas?
— Por ora… é meio que hobby, digamos. Oficialmente, é pra combater feras gigantes.
— Fera gigante, é. De fato, com isso, dá pra reduzir bastante o estrago.
O rei de Belfast concordou, convencido. Na prática, é diferente disso.
Contei a verdade completa pra Relisha-san, a mestra da guilda, pra garantir a cooperação dela em coleta de informação, mas, com os outros países, ainda prefiro manter em segredo. Não posso envolver outros países numa coisa que talvez nem chegue a acontecer, e não sei se acreditariam, mesmo se eu contasse.
Mesmo assim, é melhor deixar tudo preparado, pra que aceitem rápido se a hora chegar. Pensando de forma conveniente assim mesmo. Mostrar a existência do Frame Gear é parte disso.
— E-então, soberano Touya. Será que dá pra deixar a gente subir nisso?
— Isso! Isso é o mais importante!
O rei de Belfast e o rei de Mismede lançaram olhares intensos na minha direção. Um verdadeiro "raio de me deixa subir, me deixa subir" sendo disparado com toda força.
— Antes disso, por segurança, seria melhor cada um dos respectivos guardas subir primeiro. Gaspar-san, o que acha?
— Hã? Eu… é?
O comandante da Ordem de Cavaleiros do Império, o Gaspar de um olho só, apontou pra si mesmo, de cara pasma. Os guardas presentes aqui já são todos gente que pilotou o Frame Unit na sala de recreação, quando vieram aqui antes. Devem conseguir operar razoavelmente bem, acho que não tem problema.
— Sem problema. Se acontecer alguma coisa, tenho como fazer parada de emergência. Não vai ter nenhum tipo de descontrole estranho.
Instalei no Frame Gear uma função de parada de emergência como dispositivo de segurança. Conectado com meu smartphone, dá pra limitar ou parar os movimentos. Então, mesmo que o Gaspar-san quisesse atacar todo mundo aqui, ele não conseguiria mexer nem um dedo. Bom, isso nunca vai acontecer, imagino.
Com a permissão do Imperador, o Gaspar-san embarcou no cavaleiro pesado.
《Como é que tá? Não é muito diferente do Frame Unit, né?》
《Sim, é isso mesmo. Já entendi o modo de operação.》
《Então, tenta ativar.》
Enquanto conversava com o cockpit via receptor, indiquei pros outros que se afastassem um pouco.
Com um som de ativação "vuuum", o cavaleiro pesado começou a se mover.
Depois disso, teve uma pequena disputa sobre quem ia pilotar primeiro, mas nada de mais sério. Todos os reis conseguiram pilotar (a Papisa não quis subir), e, ao que parece, todos operaram razoavelmente bem.
E também prometi que, especificamente em caso de aparição de fera gigante, empresto o Frame Gear. Só que quem opera fica por conta de cada país, então também prometi emprestar seis unidades do Frame Unit pra cada país.
Expliquei essa "justificativa oficial" como sendo pra treinarem com isso e já ficarem preparados pra quando precisar, e também servir de descanso pro pessoal da Ordem de Cavaleiros de cada país.
O "motivo real" é preparar pilotos capazes de operar o Frame Gear, pensando numa eventual batalha contra os Phrase que talvez venha no futuro.
Territórios extensos como Belfast e Regulus parecem ter aparições relativamente frequentes de feras gigantes, então talvez precisem de empréstimo algumas vezes. Mismede e Ramish também têm o Grande Mar de Árvores, então uma invasão de fera gigante não é impossível por lá também.
Infelizmente, parece que Riinie quase não sofre com feras gigantes, então talvez não tenha oportunidade de uso, mas, por precaução, vale a pena mesmo assim.
Contra fera gigante, acho que o equipamento padrão de espada já resolve, mas pode aparecer bicho duro que nem aquele escorpião, então nesses casos só resta trocar a arma.
Já deixei preparado um conjunto de armas ajustado pra cada piloto, então deve dar conta. Afinal, é melhor usar arma com que se sente à vontade. Se pedirem, também posso fazer sob encomenda. Uma vez feito o modelo, produzir em massa é fácil, não dá muito trabalho.
Só que, contra Phrase, arma superpesada leva vantagem. Nem todo mundo consegue usar [Gravity] como eu. Escudo com arma de uma mão só, pra aproveitar a velocidade; martelo de guerra de duas mãos, pra apostar tudo num golpe só; lança comprida, pra lutar mantendo distância; machado de guerra, pra cortar de perto. Isso aí deixo pro julgamento deles mesmo, já que são soldados experientes de batalha.
Sendo assim, dá vontade de ter algum ataque a distância também, mas não dá pra fazer arma de feixe tipo anime. Alguém que nem eu, que nem carro consegue construir, não tem como fazer isso. E, se eu conseguisse fazer, também acharia meio estranho um estudante de primeiro ano de colégio conseguir criar arma de feixe. Aliás, o que raios é "arma de feixe" mesmo?
Será que devia fazer, com baixa tecnologia mesmo, tipo uma funda, pra arremessar pedra com força centrífuga. Não deve ter muito efeito, mas.
Arma de projétil real sem usar pólvora… tipo, disparar bala de canhão usando [Explosion] no lugar da explosão de pólvora… só que, se eu fizer isso tudo com [Program] e [Enchant], não adianta nada se a energia mágica do piloto esgotar. Será que, com dois ou três tiros, já fica sem energia?
Absorver energia mágica do ar também não deve dar conta de magia de alto nível.
Posso até carregar o canhão de energia mágica eu mesmo, mas aí, toda vez que esgotar, eu ia ter que recarregar de novo… e uma arma que "só eu" consigo usar também não faz muito sentido.
Ah, espera aí. Não é que magia não funciona de jeito nenhum contra Phrase. [Rock Crush], de atributo Terra, ou [Ice Rock], de atributo Água, funcionam, já que são ataques indiretos. Vale a pena pensar nessa direção.
Talvez a Leen tenha alguma ideia boa. Depois vou consultar ela sobre isso.
Como o pessoal de Ishen que ajudei tinha acordado, fui até a "Ala de Alquimia", e ela já estava fora da cápsula de regeneração, sentada numa cama simples dentro da própria sala. Vestia um tipo de camisola fina.
A mão direita, colocada em cima do cobertor, estava perfeitamente regenerada. Escondido pelo cobertor, sem dar pra ver, provavelmente a perna também já tinha voltado ao normal.
O cabelo, que eu achava ser branco puro, tinha um leve tom avermelhado, quase rosa-claro. Achei que era branco quando eu a resgatei. Será que não foi só a cor do sangue que grudou nele.
— …Ah…
Assim que me viu, ela soltou uma vozinha baixa. Parece que se lembra do momento em que a salvei.
Chamei a Belflora, sentada numa cadeira ao lado.
— Parece que a regeneração terminou bem.
— Aah… é que… isso…
A Belflora começou a gaguejar, indecisa. O que foi?
— Parece que… ela perdeu a memória, senhor.
— Hã?
Pelo visto, ela não tem memória nenhuma de antes de eu tê-la resgatado. Nome, origem, por que quase foi morta — nada disso, ela lembra.
— Será que é sequela do tratamento de regeneração…
— Não é isso, senhor! Se fosse a cabeça que tivesse sido regenerada, até dava pra pensar nisso, mas perder memória por regenerar mão e perna, isso não acontece, senhor! Se duvida, corta a coisinha da virilha do Mestre e testa, senhor!
— Que medo!
Ninguém vai cortar nada, muito obrigado! Aliás, se tivesse sequela mesmo, minha própria memória também devia sumir!
Mas, amnésia, é…
— Você se lembra de ter me conhecido?
A garota balançou a cabeça, de leve, num "sim" silencioso. Ou seja, ela tem memória de depois de me conhecer. Depois disso, ela entrou na cápsula de regeneração — então, pensando naturalmente, a causa da amnésia deve ser mesmo o momento em que foi atacada.
— Seu nome?
— …Não sei.
— Por que aquele ferimento?
— …Não sei.
Hmm, o que fazer com isso… Depois disso, tentei perguntar várias coisas, e descobri que ela mantinha memórias e conhecimentos gerais sobre Ishen, leitura, escrita, cálculo. Ela até conhecia Belfast e Regulus.
Mas a memória relacionada a ela mesma tinha sumido por completo. Nome, data de nascimento, onde estava e o que fazia, se tinha família, do que gostava e do que não gostava — nada disso ela conseguia lembrar. Tentei aplicar [Recovery] de novo, só pra garantir, mas não fez efeito.
— Hmm… espero que, com o tempo, ela consiga se lembrar…
— …Você é…
— Hã?
Dos olhos violeta, ela me encarava direto, de cima da cama.
— …Quem é você?
— Ah, sou Mochizuki Touya. Sou o rei do Principado de Brunhild.
— …Rei…
Ela mostrou um leve traço de surpresa por um instante, mas logo voltou ao normal. Tenho a impressão de que essa garota tem pouca expressão de emoção.
— Aqui é Brunhild mesmo?
— Sim. Te trouxe pra cá depois de te encontrar caída nas montanhas de Ishen. Tava com um ferimento terrível.
— Como…
— Com magia de teletransporte.
Ah, mais uma vez ela fez cara de surpresa. Voltou ao normal na hora, de novo. É meio engraçado.
De qualquer forma, achei melhor não deixar ela ali na "Ala de Alquimia", então teletransportei, com [Gate], junto com a cama simples, pra um dos cômodos do castelo.
— Isso é…
A garota olhava ao redor do quarto que mudou de repente. Será que agora ela acredita que foi mesmo teletransportada.
Por ora, vou deixar ela morar nesse quarto por um tempo. Talvez a memória volte, com o tempo.
Tem também a opção de mandá-la de volta pra Ishen, mas, estando com amnésia, e sem descartar a possibilidade de que alguém ainda esteja atrás dela, agora não é o momento. É arriscado demais.
— Mesmo assim, não ter nome é meio incômodo, hein… Que tal decidirmos um nome provisório?
— Nome… qualquer um serve. O rei decide.
Falando assim, viu. Fiquei um tempo pensando, mas achei que um nome mais no estilo de Ishen combinasse melhor do que um nome ocidental. Sendo assim…
— Bom, então, "Sakura".
— Sakura…
— Já que seu cabelo é dessa cor bonita, tipo flor de cerejeira. Se não gostar, penso outro.
Foi bem simplista da minha parte, admito. A garota balançou a cabeça de leve, num gesto de negação.
— Sakura tá bom. Obrigada.
Achei que o rosto da Sakura, que quase não mostrava emoção nenhuma, esboçou um leve sorriso.