Capítulo 151 – O Cavaleiro Dragão e a Invasão
Já se passou um tempo desde então, e a Sakura não mostra sinal nenhum de recuperar a memória. Não sobrou nem uma cicatriz, os ferimentos já estão completamente curados, e a saúde dela parece boa.
Aliás, quando entreguei de volta a medalha que ela tinha originalmente, ela fez uma cara meio estranha. Mesmo assim, expliquei que era o único pertence dela, e pedi que mantivesse consigo. Talvez sirva pra identificar quem ela é.
Cheguei a sugerir ir uma vez até aquela garganta onde a encontrei, mas ela recusou, dizendo que não queria. Ela quase morreu lá, então talvez o medo tenha ficado marcado no corpo dela.
Tenho a impressão de que ela está, de alguma forma, evitando recuperar a memória. Como se não se importasse, ou como se não fizesse diferença nenhuma recuperar ou não…
Infelizmente, nunca passei por amnésia, então não sei dizer ao certo, mas será que se forma uma espécie de personalidade separada da que está aqui agora? Só que, nesse caso, não seria bem amnésia, e sim personalidade dupla.
Lembro de ter lido em algum livro que, quando uma pessoa passa por algo muito doloroso, uma personalidade "A" pode gerar outra personalidade, "B". Quem sofre a dor é o "B", não o "A" original. Sentir aquilo como algo que aconteceu com outra pessoa seria um instinto de autoproteção.
Bom, não adianta forçar alguém a fazer algo que não quer. Talvez ela se lembre com o tempo mesmo.
Assim que a Sakura ficou capaz de se movimentar, ela pediu pra dar uma volta pelo país. Sem problema nenhum nisso, então designei o Sango e o Kokuyō como vigias e guarda-costas dela.
Parece que ela costuma frequentar o canteiro de obras e a zona agrícola. De vez em quando, dá pra vê-la junto com a Lindsey. Como as duas são quietas e falam pouco, talvez se dêem bem por isso.
— Como será que ela consegue ficar tão tranquila, perdendo a memória desse jeito?
— Mais do que "tranquila", acho que talvez nem consiga sentir esse tipo de emoção. Se não lembra nada sobre si mesma, também não deve surgir o sentimento de tristeza.
Respondi ao comentário do jardineiro Fullio-san enquanto abria buracos por vários pontos do jardim interno, replantando cerejeiras.
Não foi por causa da Sakura, com sua amnésia, que tive essa ideia, mas pensei em transplantar cerejeiras de Ishen pro castelo. Como o outono já está prestes a virar inverno, a florada ainda vai demorar bastante.
Só agora vou pensar nisso, mas será que essas plantas florescem mesmo? O clima de Ishen parece ser bem parecido com o daqui, então acho que deve dar certo. Se não der, peço pra Belflora criar uma espécie nova.
Sem relação nenhuma, fico pensando se a imagem da cerejeira varia de região pra região. Floresce em março, abril, mas será que, no oeste do Japão, ela virou "estação das despedidas", e, no leste, "estação dos encontros"? Deve ser por causa da época de formatura e matrícula.
Lembro que, uma vez, fui visitar parentes em Aomori na Golden Week e me surpreendi que as cerejeiras ainda não tinham florescido lá.
— Fullio-san, já cuidou de cerejeira antes?
— Não, nunca. Mas, olha, esse país tem bastante gente de Ishen, então acho que dá pra dar um jeito perguntando pra eles.
Ah, é verdade mesmo. De fato, o Principado de Brunhild tem muita gente de Ishen. O clã da Tsubaki-san, os ex-vassalos dos Takeda. E ultimamente também tem se visto cada vez mais feras-humanas e demônios por aqui.
Aqui, comparado a outros países, parece que se sofre menos preconceito contra outras raças, então dizem que fica mais fácil trabalhar e fazer negócio.
— Um dia, quem sabe, planto cerejeiras também na estrada do castelo até a cidade. Uma alameda de cerejeiras deve ficar bonita.
— Seria ótimo.
Passei a manhã assim, conversando com o Fullio-san. À tarde, ouvi o relatório da Tsubaki-san.
— A relação entre Paruhu e Riinie parece estar caminhando numa direção boa. Não deve rolar guerra nenhuma tão cedo.
— O rei de Riinie tá se esforçando mesmo, hein. Espero que, um dia, consigam firmar um tratado de não agressão de verdade.
Os agentes de inteligência ninja sob o comando da Tsubaki-san mandam informação de vários países usando o "Espelho-Gate" que entreguei. Não chega bem a ser espionagem — é mais coleta de boatos e informação da cidade.
Tem o assunto dos Phrase e de Babylon, mas informação, no fundo, é um tesouro. Nunca se sabe onde vai estar rolando por aí uma informação valiosa. Não é como se eu estivesse bisbilhotando o palácio de outros países, e, quando perguntei pro rei de Belfast, ele disse que todo país faz isso. Bom, faz sentido mesmo.
— Uma coisa que me deixa um pouco preocupada é que a situação em Ishen parece instável.
— Ishen tá assim?
Como o caso da Sakura também tinha me deixado curioso, pedi pra Tsubaki-san detalhar mais. Parece que ainda não chegou a ponto de guerra, mas escaramuças entre senhores feudais já começaram.
— Ishen tinha nove senhores: Date, Uesugi, Tokugawa, Takeda, Oda, Hashiba, Chōsokabe, Mōri e Shimazu. Mas, com o incidente de antes, os Takeda foram extintos, e o poder dos Oda e Tokugawa cresceu. Os Hashiba se aliaram aos Oda, e Tokugawa e Oda mantêm relação amistosa. Parece que o poder dos Oda tá se destacando na frente de todo mundo.
Então vai ser assim mesmo, hein. No nosso mundo, quem toma o poder no fim é o Tokugawa, mas. "O Oda planta, o Hashiba amassa o bolo do domínio, e quem come sentado, sem sair do lugar, é o Tokugawa" — algo assim.
Mas, lembrando daquele Tokugawa Ieyasu-san corpulento, de bigodinho fino, fico com dúvida se vai ser exatamente assim aqui. Bom, nem tudo precisa seguir os fatos históricos do nosso mundo mesmo.
Ishen me preocupa, mas, por ora, vou deixar como está. Se Oedo chegar a correr perigo de verdade, pretendo, pelo menos, evacuar a família da Yae.
Depois de ouvir o relatório da Tsubaki-san, teletransportei até o "Hangar" de Babylon.
Vários cavaleiros pesados e as respectivas unidades de comando, os cavaleiros negros, estão guardados na garagem. Na proporção, é de nove cavaleiros pesados pra um cavaleiro negro.
É uma proporção pra facilitar a contagem mesmo, mas o cavaleiro negro leva um pouco mais de tempo pra construir, e, sendo unidade de comando, exige mais técnica pra pilotar. Em termos de facilidade de uso, o cavaleiro pesado é muito superior.
E agora, além do cavaleiro pesado (bom em defesa) e do cavaleiro negro (bom em ataque), existe mais uma unidade que a Rosetta e a Monica estão preparando neste momento.
Ao entrar na garagem, havia um cavaleiro vermelho de design fino e anguloso.
O detalhe mais marcante são as rodas grandes instaladas na ponta e no calcanhar dos dois pés, além dos propulsores grandes montados dos lados e atrás da cintura. Chamei a Rosetta e a Monica, que faziam manutenção ao redor da cintura.
— Quanto tempo mais falta?
— Bom, deve terminar até amanhã, senhor. Mas, Mestre, esse aqui escolhe bem o piloto, senhor.
— Sendo tão especializado assim, esse aqui não é adequado pra produção em massa, ô. Vai depender totalmente do talento individual de cada um pra saber usar bem.
Se o cavaleiro pesado é defesa e o cavaleiro negro é ataque, esse Cavaleiro Dragão é uma unidade voltada pra mobilidade.
Só que, pra aproveitar a mobilidade, a blindagem é fina, e a própria potência da máquina é baixa. Sinceramente, tenho dúvida se aguenta um Phrase de verdade. Contra fera gigante, dá bem conta do recado, então, além da unidade original, produzimos mais uma — por enquanto, só duas unidades.
Testei pilotar, e era incrivelmente difícil de manejar. Ao baixar as rodas dos calcanhares e ativar o modo de alta mobilidade pra correr, era um trabalho enorme só pra manter o equilíbrio. É rápido, isso sim é rápido.
Além disso, se perde o equilíbrio e cai, a máquina se machuca fácil, talvez por causa da blindagem fina. Não chega a quebrar de vez, mas, caindo várias vezes, talvez acabe quebrando mesmo.
É uma máquina difícil de aproveitar bem. Exige habilidade do piloto, e, sem potência, nem dá pra usar arma superpesada direito. Como que se usa isso direito mesmo? Ah.
Pensando bem, aquela arma que fiz endurecendo demais um fragmento de Phrase com energia mágica, será que dá pra usar aqui? Com aquilo, dava até pra cortar um Phrase de verdade. Digo "dava", porque ainda não testei de verdade contra um Phrase com essa arma.
Se der pro Cavaleiro Dragão empunhar uma arma parecida com a "Tōka" da Yae, talvez desse pra lutar bem aproveitando a mobilidade.
Só que o material, sendo Phrase, é o problema… Com o estoque que já tenho, dá pra fazer algumas, mas não é algo que dá pra repor à vontade.
Voltando pro castelo, o Kōgyoku veio voando na minha direção pelo corredor.
— O que houve?
《Chegou informação do time de reconhecimento. É uma ruína parecida com a que encontramos antes, na ilha isolada a oeste do Reino de Sandra.》
Ilha isolada a oeste, é. Foi quando encontramos o "Hangar" da Monica. Será que acertamos de novo?
— Onde fica?
《A leste do Reino de Lyle, no Reino de Cavaleiros de Lestia. Numa ruína abandonada localizada ao sul de lá.》
Reino de Cavaleiros de Lestia, é. Se não me engano, quem governa lá é chamado de rei-cavaleiro. E o pai desse rei, o ex-rei, também é aventureiro de rank ouro, igual a mim.
Fico um pouco curioso sobre essa pessoa, mas dessa vez vou deixar passar. Se essa ruína de Babylon lá for o "Depósito", dá pra reforçar ainda mais o Frame Gear, e talvez até consiga fazer uma unidade exclusiva minha. Ótimo, unidade exclusiva.
Por ora, como fazer isso. Até agora eu ia com Babylon, mas, já que aprendi [Fly], não tem necessidade de ir todo mundo junto.
Avisei a todos que a quinta Babylon foi encontrada e disse que ia sozinho. No começo, todo mundo se opôs, mas, considerando a velocidade do [Fly] e o fato de que, no local, só eu, com todos os atributos, consigo entrar na ruína mesmo, relutantes, acabaram concordando. Só que fizeram eu prometer chamar todo mundo com [Gate] assim que encontrasse Babylon.
Aliás, mesmo já sendo noiva oficial, ainda não contei pra Sue sobre Babylon. O anel de noivado também ainda não. O anel, dou depois; mas, sobre Babylon, o que fazer?
Será que tá tudo bem contar pra Sue? Uma vez, quando contei uma história de anime, ela logo disse "vou procurar o castelo no céu!". Fico um pouco preocupado que ela acabe contando pro pai dela, o duque Ortlinde.
Consultei a Yumina sobre isso, e ela respondeu:
— A Sue é uma menina esperta, então acho que, nesse ponto, tá tudo bem. Só que ela é do tipo que, se ficar animada demais, pode acabar dizendo que quer ir procurar sozinha, e isso me dá um pouco de medo.
Bem possível mesmo. Aquela menina tem iniciativa demais, de um jeito ou de outro. Se a capacidade dela acompanhasse essa iniciativa, tudo bem, mas ela tem uma tendência a agir sem pensar nas consequências…
Certo, vou continuar sem contar por mais um tempo.
Pedi pra todo mundo cuidar da Sakura por mim (bom, com o Sango e o Kokuyō junto, acho que tá tranquilo), abri um [Gate] e teletransportei, por ora, pro limite entre o Grande Mar de Árvores, onde lutamos contra a fera gigante antes, e o Reino de Lyle.
Dali, disparei em [Fly] de uma vez rumo ao leste. Bloqueando a pressão do vento e tudo mais com [Shield], continuei o voo em alta velocidade.
Depois de voar um tempo, parei um instante e exibi o mapa. Já devia ter entrado no Reino de Cavaleiros.
— Hmm… deixa eu ver. Um pouco mais a sudeste, então. Certo.
Fechei o mapa e, ao me preparar pra voar de novo, algo estranho apareceu no canto da minha visão. Aquilo é… fumaça?
Alguma coisa tá queimando. Será um incêndio?
— [Long Sense]
Estendi o alcance da visão e confirmei o que estava acontecendo. Uma cidade. Uma cidade em chamas. Pessoas correndo desesperadas. Cavaleiros vestidos com armaduras esplêndidas, empunhando espadas, avançavam como se protegessem os moradores, indo de encontro ao inimigo que atacava a vila.
O inimigo era um monstro de corpo tipo cristal. Um Phrase.
— O quê…!
Por sorte, os Phrase ali não eram de escalão médio. O tamanho era pequeno — mesmo tipo de escalão baixo do grilo que encontrei pela primeira vez.
Só que a quantidade era grande. Pelo que dava pra ver, tinha quase dez deles.
A forma lembrava um besouro. Não o besouro comum do Japão, mas mais tipo aqueles Hércules gigantes de lá.
Havia alguém desferindo golpes de espada contra esse Phrase-besouro. Vestida numa armadura prateada, com o cabelo dourado ao vento, ela golpeava o Phrase, mas todos os golpes eram repelidos, causando só ferimentos leves. E, além disso, esses ferimentos se regeneravam na hora.
— Não recuem! Cavaleiros, ganhem tempo pra que o povo da cidade consiga fugir! Ninguém dá um passo atrás!
Era uma garota. Se virava e gritava ordens pros cavaleiros ao redor. Sendo da mesma idade que eu, será que ela é a comandante?
Mirando na garota, o Phrase-besouro estendeu instantaneamente o chifre da cabeça, tentando perfurá-la. Na hora, a garota-cavaleira aparou com a espada e rolou pro lado, esquivando.
Isso não é hora de ficar só observando!
Desativei [Long Sense] e disparei em voo, com toda a força, rumo à cidade.