Capítulo 152 – A Princesa-Cavaleira e o Presente
A Ordem de Cavaleiros de Lestia avançou em grupo contra o Phrase-besouro. Mas não conseguiam ferir o corpo endurecido da criatura, e vários deles foram perfurados, armadura e tudo, pelo chifre afiado.
— Droga… que dureza é essa!
A garota-cavaleira contornou pelas costas do Phrase e desferiu um golpe horizontal, mirando a perna fina.
Só que, em vez de cortar a perna, foi a espada dela que se partiu ao meio, com um som agudo.
— O quê…!
Enquanto ela paralisava, atônita com aquilo, o chifre de outro exemplar disparou em sua direção numa velocidade tremenda.
— Não pode ser…
Correndo pelo ar com [Fly], tirei do [Storage] a espada que eu tinha feito com fragmento de Phrase e cortei fora o chifre disparado contra a garota.
Deslizando sobre o piso de pedra, me aproximei do Phrase e cravei a espada bem no núcleo transparente visível dentro dele.
Com o núcleo destruído, o corpo do Phrase se cobriu de rachaduras e desabou, esfarelando por completo.
Certo, com essa arma dá pra cortar o corpo de um Phrase também. Faço essa arma amplificar o poder de corte conforme flui energia mágica nela. Não seria bom ficar cortando as coisas assim, sempre com o fio afiado.
No caso de escalão baixo, dá pra puxar o núcleo com [Apport] e destruir na hora — mas, aqui, vou aproveitar pra testar o corte dessa arma.
— Ah, você é…
— Deixa isso comigo e cuide da evacuação dos moradores. Depois a gente conversa.
— C-certo. Conto com você!
Bom, vamos lá.
— Busca. Quantos Phrase existem num raio de 1 km? Ah, exceto o que acabei de destruir.
"Iniciando busca… concluída. No total, 11, senhor."
Quer dizer que eram 12, então. Um, dois, três, quatro… aqui, ainda restam 8. Certo.
— Então, vamos brincar um pouco. [Accel Boost].
Usando reforço corporal e magia de aceleração combinados, cortei de uma vez, núcleo e tudo, os dois que estavam bem na minha frente. Pulei em diagonal, chutei a parede de uma casa, e, caindo, cravei a espada no núcleo de um Phrase logo abaixo.
Sem parar, corri pela cidade, cortando o chifre de quem tentava me atacar. Sem hesitar, cortei o núcleo na horizontal, e, aproveitando o impulso do giro, abati da mesma forma o Phrase do lado oposto.
Faltam três. Fechei a distância de uma vez, atravessei os núcleos de dois deles com estocadas, e cortei o último bem ao meio, de frente.
— Busca. Mostrar os três restantes.
"Entendido. Exibindo."
Confirmei o local mostrado, saltei do chão e corri por cima dos telhados. Vendo, lá embaixo, um Phrase trocando golpes com a Ordem de Cavaleiros, pulei em direção a ele e cravei a espada no núcleo.
Deixando o pessoal da Ordem paralisado de espanto, corri em direção aos últimos dois, que estavam à frente.
Desviando dos ataques sucessivos de chifres, tipo lanças, que vinham na minha direção, cortei o núcleo dos dois da mesma forma. Isso encerra.
Cortei tudo de propósito, mas nem sequer uma mossa surgiu no fio. Isso funciona mesmo, essa espada de cristal.
Não fazia sentido ficar carregando ela desembainhada, então parei de fazer a energia mágica fluir e guardei na bainha que tirei do [Storage].
Ao erguer o rosto, a garota-cavaleira de antes me observava fixamente. Parece que ela tá bem, então. Falei com ela.
— Quantos danos vocês tiveram?
— Hã? Ah, sim… alguns morreram. Tanto gente da cidade quanto da Ordem. Também tem bastante ferido.
— Entendo… que pena os que morreram. Pelo menos, deixa eu curar os feridos.
A garota fez uma cara de "hã?" e olhou pro cavaleiro caído ferido logo ao lado. Ativei [Multiple] e lancei magia de cura em todos os feridos num raio de 1 km.
Partículas de luz envolveram os feridos, curando os ferimentos. Vendo o cavaleiro caído bem ao lado se recuperar, a garota observava tudo com os olhos arregalados, num misto de espanto.
— …Sem querer ser mal-agradecida depois de ser salva, mas, quem exatamente é você?
— Sou Mochizuki Touya. Só estava passando por perto por acaso. E você?
— Ah, sim, desculpa a falta de educação. Sou Hildegard Minas Lestia, primeira princesa deste Reino de Cavaleiros de Lestia. Agradeço por nos salvar.
Que surpresa. Era princesa. Como ela tava manejando espada, achei mesmo que fosse uma cavaleira mulher da Ordem… Deve ser algo comum num país de cavaleiros mesmo.
Olhando de novo, dá pra ver a estatura esbelta e alta, o cabelo dourado comprido, os olhos verde-azulados claros e límpidos, a pele branco-porcelana. De fato, tem um certo ar de nobreza nela.
A armadura que ela veste também parece ser de mithril. Cheia de detalhes dourados por toda parte, e dava até pra sentir algum tipo de encantamento mágico nela. No peitoral, ao contrário dos outros cavaleiros, não tinha o brasão da Ordem de Cavaleiros de Lestia, mas sim o brasão da família real de Lestia. Aquele símbolo de coroa, se não me engano, era esse mesmo. Parece que ela é mesmo princesa.
Então, é melhor me apresentar direito.
— Perdão pela falta de educação, não sabendo que era a princesa de Lestia. Sou Mochizuki Touya, soberano do Principado de Brunhild, localizado a oeste daqui, entre Belfast e Regulus.
— Brunhild…! Já ouvi falar… o rei-menino que se ergueu de aventureiro… o mediador que percorre os países do Oeste, resolvendo os problemas entre eles…
Mudando o tom de fala pra formal, me apresentei de novo, e a princesa Hildegard também mudou o tom, ainda mais surpresa.
Mediador, é. Será que é assim que sou visto? De fato, ando fazendo o que quero em vários países, e meio que atuo como anfitrião da Aliança do Oeste. Mas, na prática, só digo que sou um país neutro, sem me aliar a nenhum lado específico.
Ela pediu pra ver meu cartão de guilda, então tirei do peito e mostrei.
— Um cartão dourado, igual ao da minha avó… digo, do meu avô. Perdão pela falta de respeito.
— Que isso, imagina. "Avô" quer dizer o ex-rei, né? Fico curioso de encontrar pessoalmente um colega de rank ouro um dia.
É verdade que fico curioso com que tipo de pessoa seria. Deve ser alguém admirável e impressionante. Ao dizer isso, a princesa-cavaleira mostrou um sorriso forçado, difícil de descrever. Do tipo clássico "risada amarela".
— Não… acho melhor não ter expectativa demais…
— Hã?
— Ah, não, nada. Aliás, o senhor é incrível. Derrotar quase num golpe só um monstro que nem todos nós juntos conseguimos vencer…
A princesa comentou isso, olhando ao redor pros Phrase estilhaçados. Bom, é impressionante mesmo que a Ordem de Cavaleiros tenha resistido até aqui sozinha, sem nenhum apoio de magia auxiliar.
— Esse monstro se chama Phrase. Absorve magia, tem corpo extremamente duro e elástico, e ainda por cima tem capacidade de regeneração — um inimigo bem complicado. Pra derrotar, é preciso destruir o núcleo dentro do corpo.
— Phrase…
Perguntando mais à princesa-cavaleira, descobri que elas estavam indo pra um treino da Ordem quando isso aconteceu. Ao saberem que a cidade estava sendo atacada por criaturas que surgiram do nada, correram até lá, e as espadas delas simplesmente não fizeram efeito nenhum — o máximo que conseguiram foi ganhar tempo pros moradores fugirem. Deve ter sido bem frustrante; o punho dela, levemente cerrado, ainda tremia um pouco.
Foi só uma olhada rápida, mas a habilidade de espada da Hildegard é considerável. Acho que não fica devendo nem pra Yae.
Só que, dessa vez, o adversário é que era ruim demais. Só isso.
— Ah, será que eu podia ficar com os fragmentos desses Phrase que derrotei?
— Hã? Ah, sim, foi Vossa Majestade quem derrotou, então não tem problema…
Regra de aventureiro: quem derrota a fera ou monstro tem direito ao material dele. Em grupo, dividiria com todos, mas, sozinho, não tem essa restrição. Recolhi de uma vez, com [Storage], todos os fragmentos estilhaçados dos Phrase. O pessoal da Ordem ficou surpreso ao ver os monstros desaparecerem de repente.
Certo. Isso foi um lucro inesperado. Mesmo sendo escalão baixo, com 12 exemplares, dá pra fazer uma quantidade razoável de armas. Ainda que não dê pra ficar feliz de coração com o fato de que vários Phrase apareceram de uma vez.
— Será que essa espada… é feita a partir desse tal Phrase?
A Hildegard olhava com interesse pra espada de cristal na minha mão. Ah, ela reparou mais rápido do que eu esperava. Bom, as duas coisas têm aparência de cristal, então faz sentido perceber.
— Exatamente isso. A Ordem de Cavaleiros do nosso país usa essa espada e escudo como equipamento padrão. Só que só consigo fazer com a minha própria magia nula.
Deixei implícita a mensagem de que "mesmo tentando imitar, não vai adiantar de nada". Não queria que ela pedisse de volta o Phrase de antes.
Na prática, exige [Modeling] pra moldar, uma quantidade enorme de energia mágica pra aumentar a dureza e o poder de corte, e ainda [Gravity] pra reduzir o peso — então mesmo tentando imitar, dificilmente conseguiriam.
— Entendo… Que inveja. Como cavaleira, um dia eu gostaria de ter uma espada dessas.
Entendi. Então era por isso que ela ficava olhando de rabo de olho pra minha espada há um tempo.
…Hmm. Não custa nada estreitar os laços com Lestia aqui.
Tirei do [Storage] mais duas espadas de cristal já embainhadas, e, junto com a que eu carregava, gravei com [Modeling] o brasão da família real de Lestia no punho das três espadas. Depois, entreguei tudo pra princesa Hildegard.
— Então, como lembrança do nosso encontro, aceite isto de presente. Pra você, pro rei, e pro ex-rei.
— Quê!?
Ela não esperava mesmo ganhar de presente, e a Hildegard, recebendo as espadas, ficou visivelmente atrapalhada. Engraçado isso.
— T-tem certeza!? Isso não seria segredo de estado do seu país…!?
— Não? Já que só eu consigo fazer, não tem segredo nenhum a esconder. É verdade que o material é difícil de conseguir, mas, no nosso país, todo mundo na Ordem de Cavaleiros já tem uma dessas. Só que essas três eu fiz pra uso pessoal, então o desempenho é bem superior ao das outras. Passando energia mágica, corta até ferro só com o peso da lâmina, e quase nunca quebra. Mesmo se lascar ou rachar um pouco, se regenera sozinha.
A princesa-cavaleira sacou uma das três espadas e ergueu contra o sol. Encarando a lâmina reluzente, deixou fluir energia mágica devagar e encostou de leve numa pilha de escombros de uma casa desmoronada ao lado. A parede de tijolos foi cortada como se fosse tofu.
— Isso é incrível… e ainda por cima nem sinto o peso. E esse fio de corte… se um Phrase aparecer de novo, dessa vez não vamos perder.
Vendo a princesa se animar tão feliz, engoli de volta o comentário de que, contra um escalão médio, ou pior ainda, isso não seria tão simples assim. Não custa nada não estragar a alegria dela agora com um comentário desnecessário.
Bom, já fiquei tempo demais aqui. Melhor sair antes que perguntem "por que um rei de outro país tá justamente aqui?".
Já que dá esse trabalho todo, será que não é melhor, daqui pra frente, ceder o trono pra alguém antes de sair de viagem? Depois, quando voltar, pego de volta.
Normalmente isso não faria sentido nenhum, mas talvez valesse a pena criar uma lei permitindo o rei ceder o trono facilmente. Claro, só enquanto eu estiver vivo. Quando eu tiver que viajar, quem sabe deixo o Kohaku no meu lugar como rei. Um tigre rei. King Tiger. Isso não é tanque de guerra?
Bom, quando voltar, vou consultar o Kōsaka-san sobre isso.
— Bom, tenho um compromisso, então vou me despedir por aqui. Espero que a gente se encontre de novo.
— Muito obrigada pelo presente maravilhoso. Em breve, vamos mandar um agradecimento pro Principado por isso.
Não precisava se preocupar com isso, mas, bom, é gesto de gratidão, então vou aceitar com prazer quando chegar.
Ativei [Fly] e comecei a subir no ar. Vendo a cara de espanto da princesa diante disso, quase ri, mas subi e me afastei do local.
Bom, foi um encontro inesperado, mas melhor não perder mais tempo e procurar logo a ruína de Babylon.