Capítulo 165 – O Fim do Império Celestial e a Nova Arma
Alguns dias se passaram desde aquilo. No total, o dano dessa vez foi: 36 Frame Gears destruídos, 24 feridos leves, 4 feridos graves, 0 mortos.
Foi bom que não morreu ninguém, mas o resultado deixou muita coisa pra refletir.
A capital de Eurono foi arrasada, e vários vilarejos e cidades desapareceram do mapa. Fico pensando se, com um jeito melhor de conduzir as coisas, talvez desse pra ter evitado isso.
— E então, o que vai acontecer com Eurono daqui pra frente?
— Sei lá. Já não precisamos mais nos meter. Não tinha nada a ver com a gente desde o início.
Entre os presentes da Aliança do Oeste reunidos na sala de reuniões, o rei de Mismede respondeu à minha pergunta sem muito interesse.
— Mas será que isso não vai desencadear uma disputa entre os países ao redor de Eurono? Já que o povo de lá sofreu tanto com os Phrase, se ainda por cima estourar guerra…
— Hanok já queria manter distância de Eurono desde antes, então não precisa se preocupar com isso. O Reino do Rei Demônio Zenoas também mantém política de não intervenção com outros países, então não deve dar problema. Ishen parece que tá prestes a entrar em guerra civil, e o Reino de Horn é um país que não aprova invasão militar.
— Nesse caso, resta saber como vão se mover Felsen, Nokia e Lodmea…

Diante da fala da Papisa de Ramish, o rei de Belfast e o Imperador de Regulus ficaram pensativos.
— Provavelmente, esses três países também devem ficar de olho, esperando pra ver, por um tempo. Pensa bem, um golpe devastador desses foi causado por uma existência misteriosa. Alguém teria coragem de tentar governar aquele lugar? Só de pensar que isso pudesse acontecer no próprio país, já dá um arrepio.
De fato, talvez o Rei Sacro de Refreese tenha razão. É natural pensar "e se acontecer de novo".
— Então, Eurono está sem nenhum governante agora?
— Não, é que… o Imperador Celestial tinha três filhos. Um deles estava na capital, e acabou compartilhando o destino do próprio Imperador. Outro estava em outra cidade, mas também morreu, atacado pelos Phrase. Só o último sobreviveu por sorte, e agora se declara o novo Imperador Celestial.
O rei de Belfast contava ao novo rei de Riinie a situação atual de Eurono. Então surgiu um novo Imperador. Se for assim, talvez Eurono consiga se recompor de novo.
Mal pensei isso, o rei de Belfast fez uma cara amarga, como quem morde algo azedo.
— Só que, ao que parece, esse novo Imperador Celestial está espalhando por aí que toda essa destruição de Eurono foi obra do soberano de Brunhild, ou seja, do Touya-dono.
— O QUÊ!?
Como assim isso surge daí!? Diante de uma acusação tão sem sentido, fiquei de boca aberta, atônito.
— Segundo ele, o Touya-dono teria invocado os Phrase com magia de invocação e os feito atacar a capital e as cidades. Como prova, dizem que Vossa Majestade construiu uma fortaleza de linha de frente na fronteira, do lado de Hanok. E ainda tem gente que alega ter visto Vossa Majestade invocando os Phrase. Dizem que testemunharam um massacre em massa da população de Eurono como sacrifício, usado numa invocação em grande escala. Parece que há testemunhas que fugiram por pouco com vida.
Isso é… o quê!? Isso é uma invenção completa! Isso parece matéria de tabloide de fofoca! De onde surgiu esse boato absurdo? Quem é essa pessoa que "viu" eu invocando Phrase!?
— Vocês estão bem informados sobre isso, hein?
— Não, é que mandaram uma carta oficial pra nós. Dizem que tudo isso foi autoencenação do Touya-dono, e que eles são as vítimas. E que o real motivo por trás disso teria sido exibir o próprio poderio militar de Brunhild, buscando tomar o controle da Aliança do Oeste.
— A carta também dizia que é perigoso demais deixar um poder militar desses nas mãos de Brunhild, e que o melhor seria confiscá-lo, deixando sob administração de países grandes, como Belfast, Regulus, e a própria Eurono.
Depois do rei de Belfast, dessa vez foi o Imperador de Regulus quem falou. Também mandaram carta pra vocês!?
— E o que vocês responderam?
— Nem precisou responder muita coisa. Se isso fosse verdade, não teríamos como enfrentar de jeito nenhum. Como resistir contra alguém capaz de apagar até a capital de Eurono? Melhor mesmo é nos rendermos tranquilamente a Brunhild — foi mais ou menos isso.
— No meu caso, se isso for de fato verdade, é assunto grave. Vou mostrar essa carta ao soberano de Brunhild e confirmar a veracidade. Como o soberano é de temperamento curto, se for mesmo algum tipo de engano, é bem capaz que vá reclamar bravamente com o país de vocês, mas esclarecer a verdade é dever de um grande país. Deixem tudo comigo — foi isso que respondi.
Os dois são terríveis, hein. Que sensação é essa de jogar tudo pras minhas costas. Bom, também compartilho do sentimento de que lidar com isso é bobagem demais.
Mas, sinceramente… Chegando a esse ponto, tô ficando com vontade de simplesmente não me importar mais com Eurono…
Não, não, o povo que mora lá não tem culpa nenhuma. Só porque uma parte da elite dominante de Eurono é sem jeito, não quer dizer que todos sejam iguais… eu acho.
— Por ora, acho que dá pra deixar Eurono de lado mesmo. Do jeito que o país ficou, duvido que tenha margem pra fazer alguma coisa contra a gente. Nem sequer fazemos fronteira direta com Eurono.
O que o novo rei de Riinie disse faz sentido. Eurono já não tem mais o poderio nem a força militar de antes. Não há risco de invadir Hanok, então pretendo devolver, em breve, aquela fortaleza na fronteira de volta pra Hanok.
Sobre Eurono, decisão: deixar como está. Nenhuma interferência, mantendo só o mínimo de contato necessário. As ações do novo Imperador Celestial provocaram uma queda enorme de confiança entre os países do Oeste. Se tivesse algum conselheiro leal de verdade, acho que teria impedido isso. Hmm, me vem à cabeça o ditado "filho de sapo é sapo"…
De qualquer forma, o novo Imperador Celestial acabou sendo assassinado duas semanas depois. Parece que estourou uma disputa de poder entre nobres influentes dentro de Eurono. Surgiram vários por toda parte, cada um alegando ser o verdadeiro Imperador Celestial.
Fugindo desse fogo cruzado, uma quantidade considerável de gente de Eurono se espalhou por outros países, virando refugiados sem terra.
Aliás, dizem que, em Eurono, o assassinato do novo Imperador Celestial também é dado como obra minha. Já não aguento mais esse país.
— E aí, o que você fez?
— Não fiz nada. Melhor deixar quieto. Só ia dar mais trabalho perder tempo com isso.
— Bu. O Touya conseguia acabar com Eurono numa palhinha, viu.
A Sue, sentada no meu colo, fez bico. Fácil de falar, hein.
Fazia tempo que a Sue veio brincar, então eu tava fazendo companhia pra ela, e, ao ouvir sobre Eurono, ela ficou mais brava até do que eu.
— Afinal, o Touya não ajudou Eurono? Por que ele tem que ser criticado por isso? Sem nem investigar direito, só empilham argumentos que convêm a eles próprios. Um tigre de papel sem conteúdo nenhum, mas na hora de latir são de primeira!
— Bom, não quero criar mais complicação, então prefiro deixar assim mesmo.
— Isso não pode ser. Quando é hora de ficar bravo, tem que ficar bravo. Se não mostrar que a gente tá falando sério, só vai ser desrespeitado sem parar. Relação de "deixa passar" não gera nada de bom pra ninguém. Tem gente idiota que só acorda depois de levar um baita golpe de vez.
Que crítica dura, hein. Será que é isso, por causa do pai dela, o duque Ortlinde, atuar como diplomata?
— Então, o que você acha que eu deveria fazer?
— Devia dar um belo soco em cada um desses que se declaram o novo Imperador Celestial de Eurono e dar um sermão! "Parem de ser tão sem-vergonha!" — assim.
Diplomacia fracassada, hein. Que solução de líder de gangue de moleque é essa.
Bom, ainda assim, é grato que ela esteja bravo por minha causa. Afaguei a cabeça da Sue, ainda meio emburrada.
— Obrigado. Mas tá tudo bem mesmo, viu.
— …O Touya é gentil demais. Bom, é aí que tá o seu charme, mas… pensa também em quem fica preocupada.
Se virando pra mim, a Sue me abraçou com força. De um jeito meio inesperado, fiquei feliz e a abracei de volta.
De repente, erguendo o rosto, vi que a porta do quarto estava um pouco aberta, e, por lá, a Shesca espiava com um conjunto de chá na mão.
— …Trouxe o chá, Mestre-lolicon.
— Ei, criada, vem cá conversar um pouco.
Não é isso. De jeito nenhum. Nesse caso, o que sinto pela Sue é sentimento familiar, não é aquilo. Pelo menos, por enquanto.
— Não precisa esconder mais nada agora, senhor. Eu, a Shesca, já sei tudinho sobre a preferência do Mestre. Não se preocupe, fique à vontade.
— Vem aqui e senta. Vou te dar um sermão.
— Se for treinamento, aceito com prazer.
— Vem logo, ué!
Depois disso, passei quase uma hora dando sermão na criada tarada. No meio do sermão, ela ficou vermelha e começou a dizer "me xingue mais", então, cansado, desisti. Não fala coisa sem sentido tipo "brincadeira de provocação…" também.
Deixei a Shesca pra lá e saí do castelo. Hoje dei à Sue o anel de noivado, mas não só isso — decidi também mostrar Babylon a ela. Seria triste demais ela continuar sendo a única de fora pra sempre. Por precaução, pedi segredo absoluto.
Ao teletransportar com [Gate] e chegar em Babylon, a Sue arregalou os olhos ao ver a paisagem do céu vista dali, soltando um grito de admiração.
— Incrível! Incrível, incrível, incrível! É um castelo no céu! O castelo celestial existe de verdade!
Não é bem aquele castelo, viu. Não tem feitiço de destruição nem nada. Vendo o castelo erguido na "Muralha" de Babylon, a Sue ficou ainda mais empolgada.
— Bem-vindo de volta, Mestre.
— Cheguei, Riola. E a Noel?
— Está tirando uma soneca.
De novo. A administradora da "Torre" vive dormindo assim que sobra um tempinho. Será que ela só acorda na hora de comer.
— Touya, quem é essa pessoa?
— É a Riola, administradora deste castelo, a "Muralha". Como ela quase não desce lá pra baixo, deve ser a primeira vez que você a vê, Sue.
— Sou Preliora. Por favor, me chame de Riola.
Segurando de leve a barra do jumper de listras finas, ela cumprimentou com um gesto delicado. Nesse tipo de coisa, dá mesmo a impressão de ser a irmã mais velha das Babylon Numbers.
— Riola. Então, sobre aquele sistema que a gente falou…
— Sim. Conversei também com a Rosetta, e acho que provavelmente dá pra tornar viável. Mas nunca imaginei que fôssemos aproveitar a tecnologia das "Orbes Satélite" pro Frame Gear.
Uma das ferramentas do sistema de defesa de Babylon, as "Orbes Satélite". É um sistema de defesa automática em que esferas voadoras de oricalco interceptam qualquer inimigo que se aproxime.
Aplicando melhorias nisso, eu estava pensando em instalar no Frame Gear. Ou seja, criar um sistema de ataque múltiplo por controle remoto. Claro, a ideia veio daquele anime.
Pretendo mudar o formato do objeto disparado de esfera pra tipo espada, e, claro, feito com material de fragmento de Phrase (já que dá trabalho, vou chamar isso, daqui pra frente, de "material de cristal"). Nesse tamanho, dá pra reproduzir na "Oficina".
O problema é que, sem um certo talento mágico, não dá pra operar. O tempo de atividade também é limitado pela quantidade de energia mágica de cada piloto. Não é uma arma pra qualquer um usar, mas ter capacidade de ataque a distância já é uma vantagem e tanto.
Cheguei a chamar essa arma provisoriamente de "Fragarach", e, sem perceber, o nome pegou de vez. Bom, tanto faz. De qualquer forma, ninguém deste mundo faz ideia da origem desse nome.
Por enquanto, parece que o sistema de controle das máquinas atuais só consegue operar, no máximo, quatro delas simultaneamente.
Será que, afinal, preciso mesmo do projeto do novo modelo guardado no "Depósito"… Hmm.