Capítulo 166 – Os Dois de Rank Ouro e a Princesa Apaixonada
Já se passou um mês desde a grande invasão de Phrase, mas nenhuma informação particularmente nova chegou até nós. No máximo, a mestra da guilda, Relisha-san, veio pedir uma explicação sobre o que aconteceu em Eurono. Como a Guilda também tinha filial em Eurono, parece que o golpe foi considerável.
Ainda hoje, em Eurono continua uma guerra civil (embora nem chegue a ser tanto assim, mais como escaramuças locais). Nobres influentes de cada região se declaram, um atrás do outro, "o verdadeiro Imperador Celestial", e são derrubados, um atrás do outro, repetidamente.
Eurono já não é mais tanto um grande país único, e está virando aos poucos o que dá pra chamar de "região de Eurono", um conjunto de cidades-estado. Talvez, com o tempo, formem alguma aliança e virem uma federação, tipo Lodmea, mas o caminho parece longo.
— "Quem se orgulha não dura muito; é como o sonho de uma noite de primavera"… hein.
— Que negócio é esse?
Ensinei a tradução em linguagem moderna pra Monica, que inclinou a cabeça diante do meu comentário sozinho. Não importa o quanto prospere ou se ache o máximo, isso não dura pra sempre. É passageiro como o sonho de uma noite de primavera. Bom, como país, Eurono até que durou bastante tempo.
A informação sobre a destruição de Eurono se espalhou rapidamente pelos outros países, e a causa foi atribuída a um surto descontrolado de um monstro misterioso.
Só uma parte dos nobres de Eurono ficou gritando que era obra minha; na divulgação oficial da Guilda, a informação foi liberada aos poucos aos aventureiros, de forma correta: "surgimento de um monstro desconhecido", "batizado com o nome Phrase", "possível causa da destruição da civilização antiga", etc.
Além disso, a Guilda também divulgou as características e os pontos fracos dos Phrase. Um grupo de aventureiros competentes deve conseguir lidar bem com os de escalão baixo.
Afinal, não dá pra saber em qual país vão aparecer da próxima vez. Esse tipo de medida preventiva é necessário mesmo.
Se acreditar na palavra do Ende, acho que não deve ter uma grande invasão como aquela tão cedo.
— E aí, o "Fragarach" mesmo continua limitado a quatro?
— É, sim, senhor. Se colocar mais do que isso, provavelmente o próprio corpo da máquina para de funcionar, senhor.
Isso seria ruim num campo de batalha. Só vira alvo fácil. Isso não depende da quantidade de energia mágica do piloto — é puramente o limite do modelo antigo de Frame Gear.
A Rosetta desceu do cavaleiro negro, que carregava nas costas, em formato de X, quatro Fragarachs.
Como o Fragarach em si também é uma Espada de Cristal, dá pra usar simplesmente segurando na mão, como arma comum.
O ataque do Fragarach consome uma quantidade enorme de energia mágica, então não dá pra usar em sequência tantas vezes assim. Sugeri usar [Transfer] pra carregar previamente com minha própria energia mágica, mas, como ele opera sincronizado com a energia mágica do próprio piloto, se eu fizer isso, ele vira uma ferramenta que só eu consigo operar.
Essa arma também tem um monte de desafios acumulados, hein…
《Amo, tudo bem?》
《Hã? É o Kohaku. O que houve?》
Chegou uma telepatia do Kohaku, que está no palácio real.
《Chegou um enviado de outro país, pedindo audiência com o Amo.》
《Enviado de outro país? …Se for de Eurono, manda embora.》
《Não, disseram que é do Reino de Cavaleiros de Lestia.》
Reino de Cavaleiros de Lestia, hein… Ah, esse é o país da princesa Hildegard, aquela que salvei do ataque de Phrase.
Aliás, quando a salvei, dei uma Espada de Cristal de presente, e ela ficou super contente, dizendo que ia retribuir de algum jeito. Será que é isso?
Por ora, já que não convém deixar esperando, abri um [Gate] até a sala de audiências do castelo, mas não tinha ninguém. Ué?
— Ah, Vossa Majestade. É por aqui.
Enquanto ficava parado ali, sem entender nada, a chefe das criadas, Lapis-san, acenou, me chamando.
— Não tinha um enviado de Lestia?
— É que… como Vossa Majestade não estava, avisamos que era pra esperar um pouco, mas ele disse que queria ver o treino da nossa Ordem de Cavaleiros…
Essa não. Que digno de um enviado de um país de cavaleiros. Deve ter ficado curioso com os cavaleiros de outro país também. Bom, não é algo que incomode se vir.
Ao chegar no campo de treino, o Logan-san e uma cavaleira mulher trocavam golpes com espadas de treino. Peraí, aquela ali é a princesa Hildegard! O que ela tá fazendo aí!?
— Haaaaaaaaah!
Com um grito rasgado, o golpe da princesa-cavaleira ergueu a espada do Logan-san bem alto no ar. Uou, ela é boa mesmo.
— Até aqui!
A voz da Nicola-san ecoou pelo campo de treino. Da multidão ao redor, subiu um grito de "uaaah". Misturados à nossa Ordem de Cavaleiros, dava pra ver também alguns cavaleiros de Lestia.
— A-agradeço, princesa.
— Eu que agradeço.
Os dois trocaram cumprimentos e encerraram o combate. Percebendo minha presença, a princesa correu na minha direção, num trotezinho leve. O cabelo dourado comprido balançava suave ao vento. Continua na mesma armadura de sempre, mas o sorriso é uma graça. Se não me engano, tem a mesma idade da Yae.
— V-Vossa Majestade! Há quanto tempo!
— Ah, sim. Há quanto tempo mesmo. Mas, quer dizer, por que a princesa Hildegard tá aqui!?
Acabei retribuindo a saudação sem pensar, mas o que mais me intrigava era por que a princesa Hildegard estava aqui.
— Vim agradecer por aquela vez, e também tinha uma coisa que queria perguntar… mas, na verdade, só vim acompanhando.
— Acompanhando… quem?
— Eu, ué.
De trás dos cavaleiros de Lestia, um velho se adiantou. Devia ter uns 70 anos. Um velho de longa barba branca, apoiado num bastão. Mesmo apoiado no bastão, as costas estavam bem eretas, com um vigor firme. Será que essa pessoa é…
— É a primeira vez que nos vemos, soberano de Brunhild. Meu nome é Garen Yunas Lestia. Ex-rei do Reino de Cavaleiros de Lestia, e aventureiro de rank ouro, igual a Vossa Majestade.
Tirou do peito um cartão de guilda e me mostrou. Era autêntico. Então essa é a outra pessoa de rank ouro, além de mim.
— Muito prazer. Sou Mochizuki Touya. Já ouvi falar de Vossa Majestade, o ex-rei, através da Relisha-san, mestra da guilda.
— Ho ho ho. Sou grato pelo que recebi outro dia. Aproveitando pra agradecer, pensei em fazer um passeio turístico por Brunhild.
— Que bom. Não deve ter muita coisa pra ver por aqui, mas espero que possa relaxar à vontade.
Quando o ex-rei estendeu a mão pra eu apertar, minha mão passou reto no vazio. Ué?
— Kyaaa!?
Diante do grito repentino, me virei, e a Lapis-san estava se contorcendo, segurando a região da bunda. Atrás dela, o ex-rei balançava a mão no ar. Hã?
— Ah, foi mal, foi mal. Costume antigo, viu. Hmm, uma bunda bem treinada, hein. Moça, você não é criada comum, é?
— Vovô!! Aqui não é Lestia, quantas vezes já falei pro senhor se conter!!
— Ao ver uma mulher bonita, a mão se move sozinha. Já andei me segurando até agora, mas parece que chegou ao limite. Ka ka ka.
A princesa Hildegard reclamava com o ex-rei. Parece que esse tipo de comportamento é rotina em Lestia. Será que foi por isso que ela deu um sorriso amarelo quando falei sobre o ex-rei, tempos atrás? Que velho impossível, hein…
Mas, quando foi que ele passou pra trás dela? A Lapis-san também é ex-membro de agência de inteligência. Não é fácil dar as costas pra ela desse jeito. Esse velho não é gente comum. Digno de aventureiro rank ouro, ou será só um velho tarado mesmo.
— Desculpa! Isso é… tipo um ataque do vovô! Ah, depois que toca uma vez, já fica tranquilo, pode ficar sossegado!
— Ah… isso deve ser bem complicado…
Que ataque é esse. Isso é o ex-rei de um país de cavaleiros… a imagem tá bem diferente do que eu esperava.
Por ora, decidimos voltar pro castelo. Os cavaleiros de Lestia que vieram com a princesa e o ex-rei foram guiados pro alojamento da nossa Ordem de Cavaleiros. Alguns vieram como escolta da princesa e do ex-rei.
Ao entrar no castelo, em vários pontos por onde passávamos:
— Kyaaa!?
— Ho ho ho.
— Vovô!
Essa sequência se repetiu várias vezes. As criadas do castelo sofreram e tanto. Se isso vier a se tornar assunto, será que não vira problema internacional?
Será melhor jogar [Gravity] nele, quem sabe.
— Ué? É o Touya-kun. Bom dia.
Na curva do corredor, encontramos a irmã Karen. No instante seguinte, o ex-rei de Lestia se moveu num relâmpago pra trás dela, e de novo estendeu a mão em direção à bunda dela.
Só que, no instante seguinte, o ex-rei girou sozinho no ar e foi jogado no chão.
— …Que isso.
A irmã, que repeliu o assédio sem sequer tocar nele, continuava sem nenhuma mudança de expressão, como sempre. O ex-rei também ficou atônito, caído no chão.
— Touya-kun, quem é esse?
— Ah, é o ex-rei do Reino de Cavaleiros de Lestia.
— Hmm, um vovô cheio de energia, hein.
Apresentei a irmã Karen pro pessoal de Lestia, que ainda piscava os olhos, atônito. Afinal, aqui ela é considerada, tecnicamente, membro da realeza além de mim.
— Peço desculpas pela falta de educação da minha irmã.
— Não, imagina! A culpa é totalmente nossa desde o início! É um bom remédio pro vovô. Foi castigo divino.
Na prática, é castigo divino de verdade, mas decidi ficar quieto sobre isso. Já que ele tentou tocar a bunda de uma deusa e só levou isso, já é sorte demais.
— Mas, digno da irmã de Vossa Majestade. É a primeira vez que vejo uma mulher repelir o vovô assim.
— …Ahn, o que foi?
A irmã Karen ficava encarando fixamente a princesa Hildegard. Um olhar de quem investiga algo, como se espiasse até o fundo do coração dela. Por fim, a irmã abriu a boca devagar.
— Você… tá apaixonada, né?
— Fuea!?
De rosto completamente vermelho, a princesa Hildegard vacilou. A expressão firme de sempre desapareceu, e um suor escorria pela testa.
— Q-q-que negócio é esse!? A-amor, tipo, amor e tal! N-não é nada disso!
— Nufufufu. Não existe assunto de amor que eu não enxergue. Vem conversar comigo depois, quer?
Deixando isso dito, a irmã foi embora em direção ao refeitório. A princesa Hildegard, com as bochechas ainda vermelhas, murmurava alguma coisa baixinho pra si mesma.
— Tá tudo bem?
— F-fue!? A-a-a-tô bem! Tudo bem! Haaah…
Não parece nada bem, viu… Dá até a impressão de que ia sair fumaça da cabeça dela a qualquer momento.
Mas, apaixonada, hein. Se a irmã, que é a própria Deusa do Amor, disse isso, deve ser verdade mesmo. Mesmo sendo chamada de "princesa-cavaleira", no fundo, ela é uma garota como qualquer outra. Corar tanto assim só de lembrar da pessoa amada.
Desde há pouco, ela fica olhando de rabo de olho pra cá. Será que fica com vergonha de eu, um estranho, ver ela nesse estado? Melhor deixar isso passar como se não tivesse notado nada.
— Bom, então, ex-rei, princesa Hildegard. Vamos?
— A-ah, então… não é Hildegard, por favor me chame de Hilda! É que… as pessoas próximas de mim me chamam assim…
A princesa disse isso, meio encabulada. De fato, é meio difícil de pronunciar. Já que ela mesma disse que tudo bem, vou aproveitar o gesto.
— Entendido. Então, princesa Hilda, por aqui, por favor.
— S-sim!
A princesa Hilda respondeu com um sorriso radiante. Diante disso, o ex-rei riu baixinho.
Hã? Teve alguma coisa engraçada?