Capítulo 167 – O Primeiro Amor Reluzente e o Duelo
— E aí, o que era mesmo que vocês queriam perguntar?
Fiz o ex-rei de Lestia e a princesa Hilda se sentarem num sofá de três lugares na sala de visitas do castelo. Sentei de frente pra eles e decidi ouvir o que tinham a dizer.
Parece que os dois vieram incógnitos, escondendo a identidade. De fato, a armadura não tinha o brasão de Lestia.
Sendo ex-aventureiro, o ex-rei parece ter contatos em todo canto, e conseguiu chegar até aqui sem problema nenhum. Deve ser mesmo uma pessoa bem fora do padrão.
Ouvindo mais a história, parece que ele até anda escondendo a identidade e agindo tipo um "nobre viajante disfarçado", tipo aquelas histórias antigas. "Sabem diante de quem estão? É o antigo rei, o senhor Garen!" "Eeeeh!?" — algo assim? Não me diga que tem um ninja com leque por aí também…
Bom, eu que ando fazendo o que quero sem me importar com incômodo alheio não tenho moral pra falar nada, mas.
— Na verdade, é sobre o colapso de Eurono, dias atrás…
A princesa Hilda tomou a palavra. Ah, entendi, era isso.
Aquela batalha ficou meio confusa em termos de informação precisa, já que os envolvidos eram gente de outros países, e por causa dos rumores contraditórios de Eurono. Principalmente no Leste, isso é bem evidente.
É meio irônico que o Oeste, mais distante de onde tudo aconteceu, tenha informação mais precisa que o Leste, mas, como quase todos os países do Oeste participaram, não tem jeito.
A Guilda também deve ter divulgado a informação correta, mas, sendo um assunto tão sério assim, deve ser difícil de acreditar. Magia que não funciona, capacidade de regeneração, surgindo do espaço… um monstro assim nunca existiu antes.
Contei aos dois, em detalhes, o que aconteceu em Eurono.
— Então foi mesmo aquela grande invasão de Phrase. Aliás, o exército conjunto de Belfast, Regulus, Mismede, Refreese, Ramish e Riinie, é…
— Foi um adversário que só dava pra vencer unindo forças assim mesmo. Na prática, com um único golpe de um exemplar de escalão superior, a capital de Eurono foi destruída.
— Que história assustadora… E aí, existe possibilidade de acontecer algo parecido de novo?
A preocupação do ex-rei é compreensível. Afinal, mesmo em Lestia, apareceu um grupo de Phrase, ainda que de escalão baixo. Melhor contar tudo direito, em vez de disfarçar mal.
— Acho que, por um tempo, não deve acontecer. Mas é bem possível que, no futuro, aconteça outra invasão em grande escala parecida. Por isso, estamos preparando várias medidas pra combater isso.
— Você fala do "soldado gigante", o Frame Gear, né?
Então ele já sabia. Bom, imaginei que uma certa quantidade de informação já tinha vazado.
Achando que mostrar seria mais rápido que explicar, teletransportei os dois, junto com os cavaleiros de escolta, até a planície a oeste do castelo.
O primeiro teletransporte deles, do ex-rei, da princesa Hilda e do pessoal de escolta, os deixou completamente atônitos. Pra espantar ainda mais, teletransportei um cavaleiro negro de Babylon até o chão.
— Este é o Frame Gear, "cavaleiro negro". Uma das armas finais pra combater os Phrase.
Ninguém conseguia nem falar, tamanho o choque. Tirei o receptor do [Storage] e chamei a Monica, na cabine de pilotagem.
《Mostra pra eles um pouco de movimento. Não faz nada arriscado.》
《Entendido, ô, Mestre.》
A Monica andou, correu, sacou a espada e a empunhou, estocou, ergueu, desceu, exibindo vários movimentos diferentes.
— Esse tal de… Frame Gear. Quantos foram usados na batalha de Eurono?
— Contando as unidades de reserva, uns 250 no total. Do lado dos Phrase, tinha uns 13 mil, então foi bem difícil.
— 250, é. O que Vossa Majestade de Brunhild pretende fazer com um poder militar desses?
O ex-rei me lançou um olhar investigativo. Bom, é natural que pensem que eu tenho alguma ambição.
— Talvez não acreditem, mas não pretendo usar isso pra invadir outros países. Se formos invadidos, aí é outra história. O objetivo principal é combater os Phrase. Nem pros países da Aliança do Oeste eu empresto isso, a não ser em situação bem específica.
— O que seria uma situação específica?
— Tipo abater uma fera gigante que apareceu, ou resgate em desastres como deslizamento de terra.
Na prática, já emprestei algumas vezes pra outros países. Se for pra salvar vidas, não vejo problema nenhum. Claro, não cobro taxa de aluguel. É puramente ajuda de boa vontade. Ah, mas, se for enfrentar fera gigante ou algo se quebrar, cobro o custo do material.
— Hipoteticamente, se nós, de Lestia, firmássemos uma aliança com vocês, dava pra emprestar isso também?
— Se não for pra guerra ou uso ilegal, sim.
Já me perguntaram se, emprestando pra outros países, não corria risco de analisarem e roubarem a tecnologia, mas, se conseguirem, até queria ver. Nem eu nem a Rosetta conseguimos construir do zero. Será que não vai aparecer um gênio à altura daquela doutora pervertida?
Mesmo desmontando, talvez consigam fazer braço ou perna, mas o núcleo central é impossível, e, acima de tudo, não conseguiriam produzir o combustível, o líquido de Éter. Bom, se desmontarem a ponto de não dar mais pra restaurar, aí não empresto mais nunca.
— Um dos objetivos da nossa vinda a Brunhild dessa vez era firmar relações de amizade com o seu país. Se vamos entrar na Aliança, preciso perguntar pro meu filho, o atual rei, mas duvido que ele se oponha.
— Isso também seria bem-vindo pro nosso lado, mas precisamos discutir com os outros países antes.
Bom, acho que também não vão se opor. Lestia é conhecida como reino de cavaleiros, com espírito elevado e confiança forte do povo. …Só que, olhando pra esse velho aqui, é difícil de acreditar nisso.
Mas, se Lestia entrar, será que precisamos mudar o nome de "Aliança do Oeste"? Lestia é do Leste, afinal. Hmm. Bom, isso a gente pensa depois.
— Seeeeeeeeeeh!!
— Haaaaaaaaah!!
As espadas de ambas paravam bem antes de tocar o corpo uma da outra. A espada de madeira da princesa Hilda parou bem ao lado da barriga da Yae; a espada de madeira da Yae, na altura do pescoço da princesa Hilda. Um empate perfeito.
— Até aqui!
Minha voz, que assumi o papel de árbitro, ecoou pelo campo de treino subterrâneo.
A princesa Hilda queria enfrentar o melhor espadachim do país, então coloquei a Yae pra testar. Só em técnica de espada, ela já supera até o senhor Yamagata.
Não sei quantos sites e vídeos sobre esgrima na internet já mostrei pra Yae ao longo desse último ano. Ela absorveu tudo como esponja, e ainda evoluiu por cima disso. Acho que a esgrima dela já se distanciou bastante do estilo original da família, o Kokonoe Shinmei-ryū.
Mas empatar com a Yae já mostra o quanto a princesa Hilda também é habilidosa.
Ambas baixaram a espada e respiraram fundo.
— Foi uma partida divertida. Vossa Majestade tem uma cavaleira maravilhosa.
— Hã? Este que vos fala não é membro da Ordem de Cavaleiros, decerto.
— Como?
A princesa Hilda, que tinha apertado a mão da Yae após o combate, inclinou a cabeça.
— Este que vos fala é noiva do senhor Touya, decerto.
— Noiva?
— É como dizer "prometida", quer dizer, noiva.
Ao me intrometer na conversa, os movimentos da princesa Hilda pararam de vez. Ué? O que houve?
Gi, gi, gi, o pescoço dela girou de um jeito meio travado, e o olhar se voltou pra mim. O quê? Não tem mais brilho nenhum nos olhos dela…
— Uma… noiva… o senhor… já tinha?
— Hã? Ué… bom, sim. Ah, não ficou sabendo? Quando foi com a Yumina e a Lu, o noivado foi anunciado publicamente e tudo.
— Yumina? Lu?
A princesa Hilda perguntou de volta, tipo "quem são esses?". Parece que ela realmente não sabia. Bom, talvez não tenha chegado até o Leste mesmo.
— São as princesas de Belfast e Regulus, decerto. As duas são, junto com este que vos fala, noivas do senhor Touya.
— O QUÊ!? T-t-três noivas já!?
— Pra ser exato, seis, decerto.
— S-seis…!?
A princesa Hilda ficou muda de espanto. Ugh. Será que ela vai se afastar? Mesmo neste mundo, que aceita poligamia, mercadores grandes e nobres costumam ter de duas a três esposas, e, raramente, algum rei tem uma quantidade absurda, mas parece que um membro comum da realeza tem, no máximo, umas cinco.
Não ter mais que isso é só porque não tem "esposas" formais — concubinas e amantes, dizem que costumam ter bastante mais.
Mas isso geralmente é assim: casam com a esposa principal, e, aos poucos, o número vai aumentando. Meu caso, com vários casamentos já decididos de antemão, parece ser raro.
— O que eu faço… inesperado demais… não, ainda…
Estendi a mão diante da princesa Hilda, que começou a murmurar coisas sem sentido. Nada, ela não tá vendo nada.
— É hora da irmãzinha entrar em cena!
— Uaaah, que susto!!
De repente, chamado de trás, acabei recuando com um "zuza". Ali estava a irmã Karen, erguendo a mão direita bem alto, num pose triunfante, resfolegando, "muhh".
Essa pessoa (bom, deusa, na verdade) consegue se teletransportar? Digno de uma deusa, aparece e some sem previsão nenhuma.
— Você aí! É óbvio que a pessoa do seu amor não correspondido é o Touya-kun, né!!
— Fua!? Q-q-q-que negócio é esse!? Não, não é isso!
Diante do dedo apontado com força pela irmã, a princesa Hilda ficou vermelha feito fogo aceso, atrapalhada. Hã? O que é isso? Isso quer dizer que… é aquilo mesmo?
Não, mas… a gente só se viu duas vezes… não pode ser.
Puxei a irmã, que se divertia toda animada apontando pra princesa Hilda, e conversei baixinho.
— Ei, espera aí. Não me diga que você usou algum poder estranho, tipo deixar ela mais fácil de se apaixonar, ou algum efeito de encantamento?
— Que ofensa. Não usei nada disso. Desde o início, já existia amor pelo Touya-kun no coração dela. E, ainda por cima, é primeiro amor. Reluzente, brilhante e lindo.
Até isso dá pra saber. Aliás, não é meio tarde? Primeiro amor. Mas, bom, o que eu faço com isso?
Enquanto eu não sabia o que dizer pra princesa Hilda, que se contorcia encabulada, a Yae se adiantou diante dela. Peraí, cena de confronto não, por favor!?
— A senhorita Hilda gosta do senhor Touya, decerto?
— Hii!? N-não, é que… eu não sabia que já tinha a senhorita Yae como noiva… então, tipo… me desculpe… deve ser incômodo, né…
— Que nada. Este que vos fala também já esteve na mesma posição que a senhorita Hilda, então entende bem o sentimento, decerto.
Diante da fala da Yae, a princesa Hilda, que estava cabisbaixa, ergueu o rosto.
— Quando o senhor Touya se noivou pela primeira vez com a senhorita Yumina, este que vos fala era só uma companheira. Sem nunca revelar os próprios sentimentos, só guardando tudo no fundo do coração. Mas o senhor Touya e a senhorita Yumina aceitaram este que vos fala assim mesmo, decerto.
— Foi assim…
— Então a senhorita Hilda também devia, da mesma forma, virar noiva do senhor Touya, decerto.
— "O QUÊ!?"
Minha voz e a da princesa Hilda saíram juntas. Peraí! Como assim isso!? Ainda mais logo depois de ter acabado de aceitar a Sue, sétima já é rápido demais, não é!?
— Aliás, ainda restam três vagas de noiva do senhor Touya, decerto. Já que tá decidido que a esposa dele serão nove, decerto.
— NOVE!?
De tanto espanto, a voz da princesa Hilda saiu embargada. Vai trazer isso à tona!? Eu nunca aceitei essa história, viu!
— Como sempre, popular demais. A irmãzinha até se sente orgulhosa.
— Ei, olha aqui!
Olhei torto pra irmã idiota, que começou a assobiar do lado. Tá se divertindo às pancadas com isso, né!
— E-e-e-e-e-então, quer dizer que ainda restam três vagas pra virar esposa de Vossa Majestade!? Não como amante nem concubina! Eu vou! Vou virar a sétima!
— Então, depois, apresento você às outras também, decerto. Fico feliz de ganhar uma companheira tão confiável, decerto.
— Muito obrigada, senhorita Yae!
A princesa Hilda apertou a mão da Yae com força. Espera aí! Isso tá estranho de vários jeitos! Por que essa gente (principalmente as mulheres!) nunca escuta a opinião da outra pessoa!? Minha vontade tá sendo ignorada!?
Perigo. É o mesmo fluxo de quando foi com a Yumina e a Lu. Do jeito que tá, vai acabar assim de qualquer jeito… Hmm? Só agora, é?
Pra essas pessoas, casamento não é só sobre pessoas que se gostam — também carrega o sentido de fortalecer laços entre famílias. Talvez por isso, a ideia de que "o amor se cultiva depois do casamento" também é bem enraizada. Especialmente na classe alta, essa tendência é mais forte.
Sendo família real, talvez esse pensamento seja levado ainda mais a fundo. Claro, ninguém quer se casar com alguém que não gosta.
A conversa se desenrolava rápido diante de mim. Achando que precisava parar isso em algum ponto, alguém se moveu antes de mim.
— Ouvi tudo o que foi dito!! Não posso permitir esse casamento assim, tão facilmente!
— Vovô!?
— Sinto que apareceu mais um estorvo…
De algum lugar, o ex-rei surgiu, erguendo a mão como quem diz "esperem aí!". Você é ator de kabuki, por acaso?
Esse fluxo é tipo "se quer minha neta, primeiro me derrote!"? Do meu lado, não tenho essa intenção nenhuma, viu…
— Já que a princesa de um reino de cavaleiros vai se casar, quero que mostre a determinação à altura! Vamos duelar!
Acertei em cheio. Sério mesmo… Não tem jeito, vou perder de propósito. Por ora, não tenho intenção nenhuma de tomar a princesa como esposa. Acho ela fofa, mas ainda não sei nada sobre ela. Mesmo com a idade, ele é aventureiro rank ouro, então enfrentar deve ser trabalhoso.
— Aceite este desafio e me derrote com dignidade! É um duelo, Hilda!
— Sim! Vovô!
……………Ué?