Capítulo 202 – Fim do Combate de Treino e a Governadora da Província das Colinas
— Impossível! Como isso…!?
Gritava o Bowman, com o suor escorrendo. Diante dele, o cavaleiro pesado, desviando dos ataques do golem armado, cortou fora o braço direito dele, do cotovelo pra baixo, com a lança em mãos, movendo-se com leveza.
O cotovelo cortado começou a regenerar, mas, antes que a velocidade da regeneração completasse, o cavaleiro já tinha cortado o cotovelo esquerdo também.
Nem chegou a ser páreo. O movimento é lento demais. E, além disso, parece que a potência também é bem menor do que eu imaginava. Talvez por causa de tantas modificações, dá a impressão de que a força original do Golem de Madeira foi perdida.
A garganta do golem armado brilhou vermelho. Com isso, a velocidade de regeneração dos dois braços aumentou, e eles voltaram ao normal. As placas de armadura equipadas nos braços não foram recuperadas, no entanto. Deve ter forçado a energia mágica toda pra regenerar os braços.
Com os braços regenerados, ele voltou a atacar com socos, mas nenhum deles chegou a acertar o cavaleiro pesado.
— Ugh, se pelo menos um acertasse…!
— Isso, hein, será mesmo? Provavelmente é inútil… ah, olha só.
— O QUÊ…!?
Assim que respondi ao murmúrio do Bowman, o cavaleiro pesado bloqueou com uma das mãos o punho do golem que vinha atacando. Viu só.
Nesse instante, com a outra mão, o cavaleiro perfurou com força a lança na garganta do golem, que estava abaixado. Já que descobrimos a posição do núcleo com a regeneração de agora há pouco. Com a potência do cavaleiro pesado, dá pra perfurar sem problema.
Com o núcleo despedaçado, o golem inclinou devagar e desabou no chão com um baque tremendo. Num instante, o golem se despedaçou como madeira seca, espalhando os destroços ao redor.
Observando aquilo com olhos incrédulos, o doutor Bowman desabou de joelhos.
— Impossível… a minha obra-prima…
Obra-prima, é. Aquilo? Ainda bem que confirmei antes mesmo. Um golem desses, se aparecer espécie intermediária de Phrase, seria aniquilado num piscar de olhos. Mais ainda, mesmo espécie inferior, se atacar em grupo, já pareceria perigoso.
— Governador. Aliás, pra derrotar uma espécie intermediária de Phrase, é preciso vários cavaleiros pesados desses juntando forças. E, junto com isso, milhares deles, e ainda mais fortes, uma espécie superior de ordem completamente diferente, vão aparecer aqui em Lodmea. Sinceramente, acho melhor mesmo evacuar os moradores.
— A-ah. Vou considerar isso com os outros governadores de província também. …Quando decidirmos, entramos em contato.
— Conto com isso.
Deixando pra trás o Governador-Geral, com o rosto contorcido, e o Bowman, ainda de joelhos no chão, imóvel, fomos em direção ao Gaspar-san, que já tinha descido do cavaleiro pesado.
— Será que exagerei um pouco?
— Não, mesmo sendo outro país, vidas humanas estão em jogo. Acho que meio-termo não ajudaria nada. Espero que isso os leve a considerar a evacuação.
Sei que evacuar não é uma decisão tão simples assim. Primeiro, precisam acreditar na informação, e, mesmo evacuando, teriam que abandonar a cidade ou vila onde vivem até agora.
Vou tentar minimizar ao máximo o dano, mas, uma vez que vira campo de batalha, é duvidoso que as casas sobrevivam intactas. Existe boa chance de tudo ser destruído pelo raio da espécie intermediária ou superior.
Se a cidade estiver completamente vazia, acho que os Phrase não atacam, mas, se estiver no caminho deles, duvido que eles desviem. Provavelmente vão pisotear a cidade e avançar mesmo assim.
Não é só a casa onde vivem. Vão perder loja, plantação, tudo que sustenta a vida deles. Não é algo que dá pra encarar simplesmente como "que bom que a vida foi salva".
Enquanto teletransportava os Frame Gears de volta pro "Hangar", e pensava em nos despedir por ora, duas mulheres apareceram na nossa frente.
Uma era uma mulher de cabelo prateado, por volta dos 40 anos, com clima sereno, vestindo paletó branco e xale. Atrás dela, esperava uma cavaleira alta, de cabelo castanho na altura dos ombros, por volta dos vinte anos.
— É um prazer conhecê-lo, Vossa Majestade Príncipe de Brunhild. Sou Audrey Reliban, governadora da Província das Colinas da Federação de Lodmea. Esta é a comandante da Ordem de Cavaleiros da Província das Colinas, Limit Limitex.
— …Ah, muito prazer…
Diante da abordagem repentina, minha resposta saiu meio sem graça. Província das Colinas? Ah, uma das sete províncias de Lodmea. Sendo governadora daí, não seria a segunda posição mais importante do país, depois do Governador-Geral de agora há pouco?
— Viemos aqui porque temos algo a perguntar. Será que poderia nos dar um pouco do seu tempo?
— Ahn, sem problema. Mas, o que seria?
— Gostaria que nos informasse com precisão a localização onde os Phrase vão surgir. E também, se possível, a previsão de movimento depois disso.
Seguindo o pedido da governadora Audrey, projetei o mapa no ar. A governadora e a cavaleira escolta ficaram surpresas, mas continuei mesmo assim, operando e indicando o local exato que o Ende me informou.
— É aqui. Pode haver algum desvio, mas os Phrase vão surgir daqui a uma semana a dez dias.
— Isso é… como imaginei…
— Governadora…!
Hmm? As duas ficaram olhando fixo pro mapa, pensativas. Aconteceu alguma coisa?
— …Peço desculpas. Esse local, em termos de posição, fica na província central, mas bem ao lado fica justamente nossa Província das Colinas. Se os Phrase surgirem exatamente aqui, como Vossa Majestade acha que eles vão se mover?
— Deixa eu ver. Os Phrase agem com o objetivo de matar humanos e semi-humanos. Se surgirem aqui, provavelmente vão em direção à vila ou cidade mais próxima. Daqui, seria… ué?
Reduzindo o mapa pra mostrar Lodmea inteira, o ponto de surgimento dos Phrase fica na província central, mas a cidade mais próxima dali acaba caindo justamente na Província das Colinas vizinha. Ou seja, é bem perto da divisa entre as duas províncias.
— Ah… essa cidade de Rimurūdo? Devem seguir direto pra lá.
— Então é isso mesmo.
A governadora Audrey soltou um suspiro profundo. Bom, faz sentido. Afinal, vai invadir exatamente o próprio território que ela governa.
— Se evacuarmos todos os moradores da cidade de Rimurūdo, a rota de avanço deles mudaria?
— Sim, mudaria… o próximo mais próximo seria a vila de Eminasu, também na Província das Colinas, ou a cidade de Reseputo, na província central, à mesma distância. Como já disse, pode haver algum desvio, então não dá pra garantir com certeza pra qual lado eles vão.
— Entendo… Então, sobre a proposta de que representantes da Aliança Leste-Oeste vão repelir os Phrase que surgirem, qual seria a contrapartida?
— Não há nenhuma em particular. Já não estamos mais num estágio de discutir isso. Se nada for feito, outros países também vão repetir a destruição da civilização antiga. No caso de Eurono, não chegamos a tempo, mas, dessa vez, o surgimento já foi previsto com antecedência. Quero, de todo jeito, minimizar o dano ao máximo.
Encarei o olhar da governadora Audrey de frente e falei com firmeza. Não temos intenção nenhuma de invadir território. Isso só resta a ela acreditar, mas preciso que entenda que Lodmea já não tem muitas opções restantes.
Se não me importasse com o destino de Lodmea, mesmo que os Phrase destruíssem tudo, eu simplesmente teria deixado quieto desde o início. No fim das contas, é assunto de outro país. Mas as pessoas que vivem aqui também têm direito de escolher.
Se Lodmea, de jeito nenhum, se mover, vou espalhar a informação sobre a chegada dos Phrase diretamente pro povo de Lodmea. Fugir ou ficar, deixo que decidam por conta própria. Pode gerar pânico, mas isso já entra nas consequências previstas.
Não dá pra deixar que a chance de sobreviver seja esmagada pelo egoísmo de quem está no topo.
— …Entendido. Nossa Província das Colinas vai realizar a evacuação por conta própria. E, além disso, autorizamos totalmente a entrada da Aliança Leste-Oeste. Ainda não temos a permissão do Governador-Geral, mas, mesmo que ele se oponha, essa é uma decisão da Província das Colinas. Não vou aceitar reclamação.
— Governadora… tem certeza? Dependendo da decisão do Governador-Geral, isso pode significar desobedecer a ordem dele…
Preocupada, a Limit-san, atrás dela, falou com a governadora Audrey. Agir sem sequer ouvir a posição do Governador-Geral, representante de todo o país, e permitir a entrada de outro país numa única província — não seria estranho ser julgado como traição.
— Não temos tempo pra evacuar de uma vez os moradores de cidades e vilas. Precisamos agir imediatamente. Não posso esperar pela decisão do Governador-Geral. Assumo total responsabilidade por isso.
— Ah, não, se tivermos autorização, acho que dá pra resolver a evacuação de um jeito ou de outro. Com minha magia de teletransporte, tipo…
Falando isso, tive uma ideia repentina. No início, tinha em mente algo mais simples: abrir [Gate] e deixar os moradores da vila ou cidade passarem um ou dois dias num lugar seguro. Mas…
— Espera aí… será que dá pra teletransportar a cidade inteira…
— "HÃ!?"
Belfast, Regulus, e a governadora da Província das Colinas de Lodmea, os líderes dos três, soltaram um som de espanto ao mesmo tempo.
Nunca fiz um teletransporte de área tão ampla assim. O maior até hoje foi quando teletransportei o castelo Ripple original, ao construir o castelo de Brunhild.
Teletransportar uma cidade inteira, ou melhor, teletransportar o próprio terreno junto com o desnível de altura, então preciso deixar o solo de destino perfeitamente plano, senão vai dar problema.
Tipo… colocar várias tigelas de missoshiru numa bandeja grande e pousar isso num tatame liso, tudo bem, mas, se pousar numa superfície com degrau tipo escada, a bandeja inteira vira de cabeça pra baixo… algo desse tipo?
Sendo assim, se algo der errado teletransportando pessoas junto, seria bem perigoso. Por ora, melhor pedir pra evacuarem mesmo. Se depois der pra teletransportar a cidade também, farei, mas não quero que contem demais com isso.
Claro, se todos os moradores evacuarem, a rota de avanço dos Phrase também deve mudar, então há grande chance de a cidade ficar intacta.
De qualquer forma, o importante é deixar a área completamente desabitada. Se um único teimoso permanecer na cidade, não só a vida dessa pessoa corre risco, como a própria cidade sofre dano por causa disso. Preciso que expliquem isso bem pro povo da cidade.
— Dependendo do caso, uma remoção forçada também será necessária. De que escala vocês acham que vai ser o combate?
— Só sei dizer que deve ser numa escala menor do que em Eurono. Bom, aquilo aconteceu porque não sabíamos do surgimento com antecedência, e também porque não conseguimos nenhuma cooperação do lado de Eurono — talvez seja por isso que virou uma tragédia daquele tamanho.
Não adianta ficar dando desculpa, mas, dessa vez, temos um período pra nos preparar com antecedência. Precisamos fazer tudo que estiver ao nosso alcance.
Por ora, deixei a cargo da governadora Audrey a preparação pra evacuação dos moradores. Poderia teletransportar tudo de uma vez logo antes do ataque, mas, pensando na possibilidade de algum erro, é melhor assim. No fim, vou checar com magia de busca se não ficou ninguém pra trás.
Agora, sobra o problema da produção do novo modelo, mas provavelmente já vai dar trabalho suficiente só com a nova máquina da Elsie e a reforma do Cavaleiro Dragão do Ende.
Se, dessa vez também, aparecer um Phrase voador tipo manta-raia, só resta eu derrubar de novo. Ué? Quer dizer que, dessa vez também, não vou poder lutar de Frame Gear?
Ugh. Preciso mesmo pensar num Frame Gear voador também.
Algo que ganhe voo com equipamento adicional… um modelo capaz de lidar com qualquer situação… tipo modular, trocável.
Talvez não dê tempo dessa vez, mas vou consultar a Rosetta sobre isso.