Capítulo 238 – A Capital de Heilong e o Reencontro
O local onde antes ficava a capital imperial de Eurono virou um monte de escombros. A terra estava profundamente escavada, sem nenhum vestígio da capital outrora esplêndida.
Pensar que um único golpe de espécie superior conseguiu explodir tudo até esse ponto. Estando de pé no local, dá pra entender de verdade a força absurda daquele ataque.
Assim que nós, teletransportados de Brunhild, observávamos ao redor, o Kohaku, aos meus pés, soltou um "grrrrr" rosnado.
Na direção que o Kohaku fitava, alguns homens de aparência suspeita surgiram de algum lugar, se aproximando. Cada um carregava faca ou machadinha na mão.
— Ei, moleque. Se valoriza a própria vida, deixa todo o dinheiro e essa mulher aí e cai fora.
Com um sorriso vil, um dos homens falou isso. "Essa mulher aí" deve se referir à Tsubaki-san, parada ao meu lado.
— O que é isso?
— Provavelmente, um bando de saqueadores vasculhando objetos de valor enterrados na capital.
Tipo hiena, hein. Bom, todos parecem meio burros mesmo.
— Ei, seu desgraçado, tá me ouvindo!?
— Tô ouvindo. Meus ouvidos ainda não pioraram.
Achando que foi zombado, todos ao redor sacaram as facas. Que chato.
— Fogo, exploda, explosão carmesim, [Explosion].
Sem cerimônia, disparei magia de explosão em direção ao monte de escombros. Com um estrondo espalhafatoso, aquela área virou terreno vazio. Hmm? Sinto que o poder da magia aumentou. Será que isso também é efeito do fenômeno de "divinização"?
Quando acontece algo assim, às vezes fico pensando se não vou acabar entrando de vez pro grupo dos deuses. Nunca morrer de velhice, será que é uma coisa boa?
— HIIIIII!?
— Esse cara é mago! Foge!
Ignorando essa minha leve melancolia, os bandidos fugiram em disparada, feito filhotes de aranha espalhados.
Que terreno sem lei, hein, mais do que eu esperava. Melhor ir logo pra tal capital onde tá o novo Imperador Celestial.
Exibi o mapa no ar e ampliei a região ao redor.
— Deixa eu ver, se não me engano, era a Capital de Heilong, né?
— Sim. …É aqui. Fica na direção noroeste a partir da posição atual.
— Certo, vamos então.
《Pe-pera aí, senhor. Será que vamos voando?》
— Hã? Sim, isso mesmo?
Ao dizer isso com naturalidade, os rostos do Kohaku e da Tsubaki-san se encheram de desespero. Parece que todo mundo odeia mesmo ser levado voando pelos ares.
Podia até me mover com [Teleporte], mas ainda não domino movimento de longa distância. Se acabar caindo em cima de um rio, seria terrível. Não tem jeito.
— …Tá bom. Eu vou primeiro sozinho até Heilong e abro [Gate].
— Se puder ser assim, agradeço.
《Igualmente, por favor.》
Ah, se fosse assim, devia ter vindo de "Gungnir", a aeronave de alta velocidade. Mas eu voando sou mais rápido que aquilo mesmo.
Bom, tanto faz. Usei [Fly] e decolei de uma vez.
Voando a toda força por uns três minutos, já cheguei no destino. Uma cidade grande visível lá embaixo. Aquilo deve ser a Capital de Heilong.
Por que será que não consigo simplesmente aguentar esses três minutinhos, hein. Pousei numa floresta um pouco afastada da capital, e abri [Gate] em direção à capital celestial.
Atravessando o [Gate] conectado, o Kohaku e a Tsubaki-san vieram pro meu lado.
— Certo, vamos. Ah, preciso me disfarçar antes.
Ativei ao meu redor a magia invisível [Mosaic], usando como cortina, e troquei de roupa. Se alguém do meu mundo original visse, provavelmente pensaria que é magia pra parecer nudez completa.
— …Que chamativo, hein…
Vendo-me transformado no Guerreiro Demônio Prateado, a Tsubaki-san deixou escapar esse comentário. Será mesmo? A máscara à parte, o hakama e o sobretudo de armadura são pretos, então achei até discreto.
— Não é questão de cor, é o traje em si que chama atenção demais. Sendo pra entrar de fininho num roubo, essa aparência é meio contraditória… Como ninja, sem dúvida nenhuma, seria reprovado.
Nnnh. O exame de ninja é rigoroso, hein. Bom, tanto faz. Não vou entrar de fininho agora mesmo.
Por ora, levei a Tsubaki-san e o Kohaku, e entramos na Capital de Heilong. Teve um pequeno atrito na entrada da capital, mas, ao passar uma propina pro guarda, ele deixou entrar. Nesse ponto, já senti na pele que a segurança dessa capital é uma peneira. Deixa muito a desejar.
A Capital de Heilong tinha uma paisagem urbana bem ao estilo chinês. Casas alinhadas com telhado de telha e pilar vermelho, e dava pra ver até torres altas. Barracas enfileiradas, e algo tipo lanterna pendurado.
Ao longe, dava pra ver um prédio grande, tipo castelo. Parece cercado por muralhas altas, então não dá pra ver direito.
Uma cidade caótica, cheia de coisas variadas. As pessoas indo e vindo pareciam meio abatidas, mas será só impressão minha?
— Sinto que todo mundo tá olhando pra cá…
《Todo mundo tá olhando pro senhor.》
— Por isso que eu disse que chamava atenção demais.
Nnn. Bom, tanto faz, não tem jeito agora. Se me confrontarem, resolvo na hora.
— Então, como fazemos?
— Tsubaki-san, quero que colete informação sobre o soldado de ferro. Kohaku, escolta a Tsubaki-san. Onde tá o soldado de ferro, quem fez, coisas assim. Não precisa se aprofundar demais, só o que der pra reunir até de noite. Se acontecer algo, me liga.
— Entendido.
《Deixa comigo.》
A Tsubaki-san e o Kohaku desapareceram no meio da multidão da cidade.
Eu decidi ouvir da população o boato sobre o novo Imperador Celestial.
— Coletar esse tipo de informação, geralmente é melhor num bar, né.
Mas o sol ainda tá alto. Melhor perguntar em algum estabelecimento. Ah, é verdade, ainda não almocei.
— Deixa eu ver… ah, ali serve.
Fui até uma barraca instalada na beira do caminho e sentei numa mesa exposta ao tempo. Tinha um cardápio na mesa, mas eram nomes de pratos que nunca ouvi falar, difícil de saber o que era. O que seria "Ramein com carne"? Deve ter carne dentro, mas de quê?
— …O que vai querer?
O dono da barraca, de dentro do local, me chamou. Será efeito da máscara, mas parecia meio desconfiado.
— Ah, então, um ramein com carne.
— Certo, ramein com carne.
Enquanto esperava a comida, fiquei observando a rua movimentada, mas, de repente, percebi algo estranho. Sentia que tinha poucas mulheres e crianças.
Em vez disso, via com frequência soldados com ombreira especial em formato de cabeça de dragão. Aqueles devem ser soldados desta cidade.
Será que aconteceu algum incidente, e estão em vigilância reforçada?
— Certo, aqui tá o ramein com carne.
— …Char siu men?
Vendo o macarrão na tigela que veio, acabei murmurando sem querer. Ramein é tipo "ramen", né? Não, é diferente, o macarrão é fino e curto. Mais parecido com somen.
De qualquer forma, provei a sopa com a colher, mas tava excessivamente aguada. O macarrão também sem gosto nenhum. Parece comida de hospital. Mesmo assim, o char siu tava duro, com textura tipo jerky de carne bovina. Ah, será que é pra mergulhar na sopa e amolecer? Molhando, molhando, molhando… …duro.
Já vou comer isso como jerky mesmo. Quanto mais mastigo, mais o sabor… o sabor… o sabor… vira borracha.
Ou melhor, afinal, isso é carne de quê mesmo…?
— Dono, essa carne é de quê mesmo…?
— É canela de troll, sabe.
— Fica com o troco!
Bati a moeda de cobre na mesa e me levantei.
Que coisa mais absurda me fizeram comer… Que absurdo mesmo…
Sem querer, quase soltei essa fala e quase chorei. Em outro sentido.
Será que, por ser perto do Reino do Rei Demônio Zenoas, essa cultura culinária tá misturada também. Dizem que, quem é nobre de certo nível, tipo a Sakura e a Spica-san, não come carne de fera mágica — simplesmente porque não é muito gostosa.
Mas nós também comemos carne de dragão de vez em quando. Aquilo é incomparavelmente mais gostoso, sem chance de comparar com canela de troll. Se o dragão não fosse forte, será que já não teria sido caçado até a extinção.
Queria beber algo pra tirar o gosto da boca, mas, se beber outra coisa estranha no estabelecimento, seria pior. Sentei numa pedra decorativa perto de uma loja, tirei uma cantil do [Storage], e bebi água comum, sem nada de especial. Que água comum consegue ser tão gostosa assim. Hm?
— Pra onde foi!? Não deve ter ido longe! Procurem!
Que agitação. Soldados correndo pela cidade. Estão procurando alguém? Aconteceu alguma coisa?
— Ei, você! Rosto desconhecido, hein! O que é essa máscara!
Um deles falou comigo. Bom, faz sentido mesmo, sou suspeito.
— Sou um aventureiro viajante. Essa máscara é porque, antigamente, queimei o rosto.
— Sério isso? Tira ela!
Diante da ordem arrogante do soldado, mesmo sentindo uma leve irritação, apliquei discretamente [Mirage] no rosto sob a máscara. Colei uma ilusão de rosto totalmente desfigurado por queimadura, e tirei a máscara.
— Ugh… T-tá bom. Já chega.
Diante do rosto medonho exibido, o soldado recuou. Sentindo um leve alívio, coloquei a máscara de volta e perguntei ao soldado.
— O que houve, afinal? Parece bem agitado.
— Perseguimos alguns que ousaram atentar contra a vida de Sua Majestade o Imperador Celestial. Um trio, dois homens e o que parece ser uma mulher. Provavelmente, gente de algum dos outros falsos Imperadores Celestiais.
Opa, opa. É a especialidade de Eurono, envio de assassino?
Segundo ele, o ataque aconteceu no jardim interno do castelo. Será que não tem algum problema na segurança do castelo, pra deixar invadir até esse ponto. Foi impedido a tempo pelos guardas do Imperador Celestial, mas os criminosos fugiram.
— Dos três invasores, o homem que usa técnica de bastão está ferido, com o ombro direito cortado. Se encontrarem alguém suspeito, avisem na hora.
Dizendo só isso, o soldado saiu apressado. Que país perigoso continua sendo, hein.
Bom, não é da minha conta, mas… Inimigo do meu inimigo é meu amigo, dizem, então talvez consiga alguma informação.
— Será que dá pra fazer uma busca?
Como já chamo atenção demais (talvez tarde demais pra pensar nisso agora), em vez de projetar no ar, abri o mapa no smartphone e ajustei a escala pra Capital de Heilong.
— Busca. Pessoa com ferimento no ombro direito.
《Busca concluída. 1 resultado.》
Ah, conseguiu. Se fosse só machucado leve, não daria pra saber por fora, então esse resultado deve ser ferimento sério o bastante pra dar pra ver por fora — ombro exposto, provavelmente.
Achei que talvez tivessem curado o ferimento com magia, mas parece que não têm ninguém com magia de atributo luz no grupo. Talvez nem tenham poção também.
Por ora, vou até lá. Só espero que não seja outro assassino se autodestruindo tipo da última vez.
— É por aqui.
Na periferia da rua, seguindo por um beco, cheguei numa passagem com bambuzal denso, com pouco movimento de pessoas.
Seria engraçado se tivesse panda por aqui. Não, panda deste mundo com certeza não seria normal. Já sei que deve ter quatro braços, ou usar kung fu, algo estranho assim.
Enquanto pensava nisso e caminhava, parei de repente no lugar.
Tem gente. Mais adiante, duas pessoas, e mais uma presença diferente. Essa última já percebeu minha presença, e algo tá me olhando de algum lugar. Ué, de cima?
— HAAAAAH!!
— Opa…!
Desviei por um triz do chute voador do atacante, que saltou do meio do bambuzal.
Pousando ali mesmo, girando o corpo, desviei os golpes seguidos do adversário, ora pra direita, ora pra esquerda, e, com um passo pra trás, esquivei do chute giratório que veio na sequência, criando distância.
Vestindo um manto preto com capuz, não dava pra ver, mas, pela voz, parece ser mulher.
Fiquei em posição, mantendo distância. A mulher de manto, numa postura semi-agachada, disparou um golpe de palma. Ué!?
— Haa!!
Bloqueei o impacto que veio voando, cruzando os braços. Isso é… Fajin!?
Continuando o ataque, aproveitando a brecha, o adversário se aproximou e disparou uma tempestade de socos contra meu braço.
Abaixando pra desviar dos socos, aproveitei pra derrubar a perna do adversário. Diante disso, perdendo o equilíbrio, o adversário deu um mortal reverso pra trás e retomou a postura. Com o impulso, o capuz caiu pra trás, expondo o rosto da mulher sob a luz do sol.
— A—! Sabia mesmo!!
— !?
Surpresa com meu grito repentino e o dedo apontado, a mulher da raça dracônida recuou um pouco.
Não era outra senão Sonia Pararem, com quem a Elsie travou um combate intenso no "Ritual da Poda", na Grande Selva.
— O que faz aqui, num lugar desses!? Ah, não me diga, o lutador de bastão ferido é o Renetsu-san!?
— …Quem é você?
— Ué? Ah, é verdade. Assim não dá pra reconhecer.
Ainda de máscara, né. Desamarrei o laço nas costas e tirei a máscara.
— Olha, sou eu!
— Quem é você!?
— Opa!?
A Sonia-san, assustada, olhava pro meu rosto surpresa. Ah, esqueci de desativar [Mirage]!
Apressado, desfiz a ilusão colada no rosto. A Sonia-san tem o olho mágico que enxerga através de ilusão, mas parece que só funciona se ela ativar conscientemente. Bom, é assim com a Yumina e a Papisa também.
— Sou eu. Mochizuki Touya.
— Touya-dono!?
Parece que finalmente reconheceu. Mesmo assim, por que a Sonia-san estaria em Eurono?