Capítulo 237 – O Novo Imperador Celestial e o Plano de Roubo
A reputação do smartphone foi ótima, e reconfirmei que, de fato, é uma ferramenta útil.
Em outros países, entreguei aos monarcas e líderes da Aliança Leste-Oeste, mas, em Brunhild, entreguei também pras noivas, claro, e pros Números de Babylon, pra irmã Karen, pra irmã Moroha, pra Tsubaki-san, pro pessoal que era dos Quatro Reis Celestiais do clã Takeda, pra capitã e vice-capitã da Ordem de Cavaleiros, pro intendente Lime-san, pras criadas, pra Mika-san da "Lua de Prata", entre outros.
Cada contato registrado é, basicamente, só de gente próxima. Por exemplo, no smartphone da Mika-san, não tem o número do Rei de Belfast cadastrado. No meu, sim, mas. No máximo, o dela vai até a capitã Rain-san.
Claro, se o Rei de Belfast passar o número, dá pra cadastrar. Mas seria complicado se todo mundo pudesse ligar sem cerimônia pros reis de outros países.
Como efeito colateral, por qualquer coisinha, todo mundo começou a ligar ou mandar mensagem, o que ficou um pouco incômodo. Acho que é só o desejo mesmo de "querer ligar" ou "querer mandar mensagem". Igual criança animada com brinquedo novo. Bom, entendo o sentimento. Deve se acalmar com o tempo.
— Isso é… realmente algo impressionante, hein… Tem performance superior ao artefato de comunicação que usamos. Isso é pra mim mesmo?
— Sim, é de presente.
Depois de explicar todas as funções, entreguei o smartphone pra Mestra da Guilda, Relisha-san. Hoje vim até a Guilda justamente por esse motivo.
Bebi do chá que a Relisha-san preparou. As folhas mudam sempre, mas continua gostoso como sempre. Parece que a Relisha-san gosta bastante de chá. Tem várias latas de folhas diferentes na prateleira, afinal.
— Como estão as coisas com os Phrase ultimamente?
— Semana passada, apareceram duas espécies inferiores no Reino de Hanok também… derrotadas por um grupo de aventureiros de rank vermelho. Já é o terceiro caso desse mês. Sinto que a frequência de aparição tá aumentando aos poucos.
De fato. Isso deve significar que as fendas na barreira estão aumentando também. Se os pequenos buracos ficarem separados, ainda tá tranquilo. Mas, se esses pequenos buracos se concentrarem perto um do outro, viram um buraco maior.
Se esse buraco continuar se alargando, pode virar um buraco grande o bastante pra espécie superior e espécie dominante entrarem e saírem livremente.
De qualquer forma, o que a gente consegue fazer é limitado. Como exemplo de possíveis medidas:
1: Exterminar todos os Phrase. Bem difícil. Nem sei quanto poder de combate eles têm. Precisaria estar preparado pra um dano considerável do nosso lado também.
2: Negociar com os Phrase. Só espécies dominantes conseguem conversar, e nem tenho certeza se a conversa funcionaria. Afinal, eles vêm com intenção de matar. Pelo menos os dois com quem já cruzei palavra pareciam ter personalidade bem complicada.
3: Encontrar o núcleo do "Rei" e mandar pra outro mundo. Talvez salve este mundo, mas deixaria um gosto ruim. Seria basicamente empurrar a desgraça pra outro mundo. E também não sei como fazer isso. Pedir ajuda pro Deus… também não dá. Basicamente, ele deveria ser não-interventor.
4: Destruir o núcleo do "Rei". Com certeza o Ende viraria inimigo. E também, será que o "Rei" ficaria quieto vendo ser destruído. Se despertasse de forma estranha, pode ser perigoso.
5: Reconstruir a barreira do mundo pra ficar perfeita. Como, exatamente?
Nenhuma dessas alternativas tem um argumento decisivo. Na prática, a opção 1 já tá em andamento. Se cruzar com outra espécie dominante de novo, posso tentar a opção 2, mas…
— Aliás, sobre Eurono. Parece que, há poucos dias, surgiu um novo Imperador Celestial.
— De novo?
Já é o enésimo, hein. Auto-proclamados Imperadores Celestiais aparecendo por aí. Já que surge um Imperador Celestial em cada cidade, parece que Eurono virou tipo um estado coletivo de cidades independentes.
— Não, dessa vez o Imperador Celestial parece bem mais sério. Vem declarando guerra a outros Imperadores Celestiais, um atrás do outro, submetendo-os. Parece que usa métodos bem agressivos.
— Agressivos?
— Explodindo o palácio da capital onde outro Imperador Celestial mora, subornando os subordinados do rival — parece disposto a qualquer meio pra vencer… Mas o problema maior mesmo é uma arma chamada "soldado de ferro".
— Soldado de ferro?
Diante da fala da Relisha-san, franzi a testa. Não me diga.
— Como o nome sugere, é um soldado mecânico feito de ferro. Suspeitamos que seja tecnologia roubada do Frame Gear.
— Imaginei mesmo.
Já suspeitava que fosse ser usado pra algo, mas foi mais rápido do que esperava. Devem ter poder tecnológico e financeiro considerável.
Só suposição, mas… Se quem roubou nossas máquinas foi mesmo aquela "Sociedade Dourada", será que levaram a tecnologia produzida com isso até o novo Imperador Celestial de Eurono? Já que os membros da Sociedade Dourada vão de acadêmico a comerciante, deve ser possível estabelecer contato.
Não, pensando bem, é possível até que o próprio Imperador Celestial seja membro. Aliás, é até duvidoso se ele realmente descende do Imperador Celestial anterior.
— Como é esse tal "soldado de ferro"? Parecido com Frame Gear mesmo?
— Sim, parecido. Ah, temos um desenho que um membro da Guilda esboçou. Deixa eu ver… ah, é esse aqui.
A Relisha-san me entregou um papel, retirado dos documentos sobre a mesa.
— Entendi… De fato, parece bastante.
O que estava desenhado ali tinha uma silhueta atarracada, braços longos e pernas curtas. Pescoço curto também, desengonçado no geral, mas com uma sensação de estabilidade robusta. Então isso é o soldado de ferro.
De fato, é um produto similar ao Frame Gear. Não sei qual a performance dele, mas.
— Quantas unidades disso já foram reunidas?
— Segundo relatos de membros da Guilda, pelo menos mais de cem unidades. Parece que, usando esses soldados, atacaram Imperadores Celestiais de outras cidades, e nem foi disputa mesmo.
Soldado comum não teria como enfrentar algo desses. Mesmo derrotando algumas unidades, com cem deles, não tem chance.
— E o que esse Imperador Celestial pretende fazer com Eurono?
— Reunificar o país novamente e construir uma nova dinastia, parece. Com esses soldados de ferro, não parece impossível.
De fato, esse soldado de ferro é um poder e tanto. Reunificar Eurono não seria sonho impossível mesmo.
Mas o que fazer, hein. Essa tecnologia, sem dúvida, foi roubada de nós. Não me sinto bem sabendo que vai ser usada numa guerra. Mas intervir militarmente também é delicado. Afinal, isso é um conflito interno deles.
Só que, se por trás disso tem uma organização chamada Sociedade Dourada, talvez estejam tramando algo bem ruim.
Bom, motivo pra intervenção militar dá pra inventar quantos quiser.
— Ou melhor, é isso mesmo… já que roubaram minha máquina, é justo eu pegar a deles também, né.
— Hã?
A Relisha-san soltou uma exclamação surpresa.
— Então, resumindo, pretendo roubar esse tal "soldado de ferro" de Eurono.
— Ora, ora. Isso é bem do meu gosto. Claro que, depois de conseguir, vai me deixar "Analisar" isso, né?
A Doutora abriu um sorriso maroto. Deve estar curiosa em ver como a própria tecnologia dela foi usada.
Em contraste, quem me olha com um olhar de exasperação são a Yumina, a Lu e a Hilda, princesas de sangue puro. A Sakura também se enquadra na categoria "princesa", mas foi criada tipo nobre mesmo. A Elsie, a Sue e a Leen parecem animadas com a ideia, mas a Lindsey, a Yae e a Sakura restantes parecem confusas quanto ao que fazer.
— Sendo rei de um país, não seria estranho cometer um roubo?
— Então, digamos que é "pegar emprestado pra sempre". Sem permissão, claro.
— Não é a mesma coisa que roubar?
A Hilda franziu a testa. Essa aqui é séria demais, hein.
— Por precaução, vou esconder minha identidade também. Olha só.
— Aquilo de novo, decerto…
Vendo eu tirar a máscara de demônio prateada, a Yae soltou um suspiro. Que má fama essa coisa tem, hein. É um item conveniente, que esconde a identidade e permite agir do meu jeito.
— Vai roubar sozinho, decerto?
— Não, pretendo levar a Tsubaki-san e o Kohaku junto. Com gente demais, é mais fácil de ser descoberto.
— Eu também quero ir. Não pode, Touya?
— Não pode.
— Nnn. Que malvado.
Recusei o pedido da Sue. Enquanto eu estiver por perto, não deixo ela passar por nada perigoso, mas, mesmo assim, existe o risco do "e se".
Aliás, não vou contar isso pro Kōsaka-san. Com certeza ele ia me impedir.
— Mesmo assim, que curioso, hein. Não seria melhor deixar esse país de lado?
— Nunca se sabe quando esse soldado de ferro vai se voltar contra o país vizinho. Felsen, Hanok, Zenoas, Lodmea… É melhor conhecer a força do adversário, pra caso de emergência.
— Mesmo assim, não precisava ser o Touya-san pessoalmente…
— Isso não é assunto de estado, é iniciativa pessoal minha, então não dá pra pedir pra outra pessoa.
Respondi assim pras irmãs gêmeas Elsie e Lindsey, mas, na verdade, também penso em arrastar pra fora a verdadeira identidade daqueles chatos que ficam se metendo, e acabar com isso de uma vez.
Tem uma coisa que me incomoda também.
O que o Rei de Felsen me contou, sobre a antiga Sociedade Dourada.
"Há vinte anos, a Sociedade Dourada tentava reviver uma magia tabu."
A magia tabu que eles tentaram reviver — será que não é justamente o que a atual Sociedade Dourada está buscando agora?
Emprestar poder ao Imperador Celestial de Eurono deve ser só parte desse objetivo. É essa a sensação que tenho. Bom, por ora, é só intuição.
Minha intuição costuma acertar. …Ué? Será que isso também é efeito da "divinização"? Hmm… bom, tanto faz. Não é nada que atrapalhe.
Pensando bem, aquela magia tabu que eles tentam realizar parece não ser algo fácil de ativar. Ou seja, ao contrário, é bem provável que seja algo perigoso o bastante pra isso.
Se for realmente esse o caso, melhor bater neles agora, enquanto dá tempo. Pra isso, preciso de confirmação sólida antes.
Vai ser um trabalho meio pesado, parece.