Capítulo 243 – O Pós-Ocorrido e o “Santuário”
Por ora, deixei o Garzeld, desmaiado dentro da "Caixa de Lodo", aos cuidados do Kohaku, e voltei em direção ao castelo de Eurono.
Humano não pode ser guardado no [Storage], e, tirando ele da caixa, tá fedendo. Como podia ter algum companheiro por perto, também não dava pra deixar largado assim.
Ao voar de volta pro castelo, o combate já tinha praticamente terminado. Escombros de soldado de ferro espalhados por toda parte.
Uaaa… queria ter levado pelo menos um intacto pra levar de volta, mas, essa quantidade de dano, acho que já era. Bom, a Doutora deve conseguir consertar sem dificuldade.
Do castelo, soldados e criadas continuavam fugindo, um atrás do outro. Faz sentido, depois de tanto alvoroço.
Ao voltar pro salão do trono, a Tsubaki-san já tinha amarrado o Sol e o tal Bowman. O Sol, entregar junto com o Garzeld pra Felsen; o Bowman, entregar pra Lodmea.
— Vossa Majestade. E o Garzeld?
— Capturei. O Kohaku tá vigiando ele.
Certo, então. Onde será que o Jesty-san tá. Já que a magia de busca não funciona por causa da barreira, fui procurar na direção pra onde o falso Imperador tinha fugido. Então, no meio de um corredor coberto comprido, encontrei o Jesty-san e os outros olhando pro falso Imperador Zhaofa, morto, coberto de sangue. Parece que ele conseguiu cumprir o objetivo.
O Jesty-san tinha cortes por todo o corpo, e segurava na mão uma espada manchada de sangue. Parece que a Sonia-san e o Renetsu-san não intervieram. Se aqueles dois tivessem participado, não teria como ele sofrer esse tipo de ferimento.
— Parece que terminou, hein.
— Sim… Muito obrigado. Graças a vocês, consegui vingar meu pai. Agora ele deve poder descansar em paz.
Será que ele tinha chorado. Os olhos estavam meio vermelhos. Depois de finalmente aliviar o rancor do pai, morto de forma cruel, faz sentido mesmo.
— Por ora, vamos nos retirar daqui. Se não tiverem pra onde ir, mando vocês depois pra Brunhild.
— Por favor.
Quem respondeu foi o Renetsu-san; o Jesty-san ainda parecia meio atordoado. Levando os três de volta pro lado da Tsubaki-san, a Yae e a Hilda já tinham descido dos Frame Gears.
— Hmm? Vocês não seriam, se não me engano, do "Ritual da Poda"…
— Ara? De fato. Adversárias da Elsie-san e da Lucia-san…
— Ah, aquela vez…
— Foram vocês que pilotaram esse Frame Gear?
Os quatro tinham sido membros de equipes rivais na competição, mas, como não se enfrentaram diretamente, não se conheciam tão bem assim. No máximo, "conheço o rosto".
Apresentei direitinho a Sonia-san e os outros à Yae e à Hilda. Ficaram surpresas ao saber que ambas são minhas noivas. E, ainda mais surpresas quando falei que, incluindo a Elsie e a Lu, ainda tinha mais sete.
Deixando isso de lado, fiquei pensando no que fazer com os soldados de ferro espalhados por aí. Se teletransportar com [Gate], resolveria na hora, mas…
Onde será que instalaram o núcleo da barreira. Normalmente, esse tipo de coisa fica no canto ou no centro da área, né… No canto não tinha nada em especial, e o centro deve ser o salão real, né? Se fosse o trono, já teria sido destruído há muito tempo… ah.
Olhando pra cima, encontrei. No telhado do salão real, nas duas pontas do cume principal, brilhando em par, num lugar que, no Japão, chamaríamos de "shachihoko", havia dragões dourados instalados. Aquilo deve ser chamado de "shōfun" (mata-corvo do telhado), né?
Saquei a Brunhild e disparei em sequência em ambos, despedaçando os dois. Mesmo que aquilo fosse o artefato mágico que gera a barreira, um artefato utilizável só pelo Garzeld não me faz falta nenhuma.
Depois de destruir, testei ativando [Fly], e consegui voar normalmente. Como imaginava, aquilo era o artefato da barreira mesmo. Ah, se eu tivesse percebido antes…
Rapidamente abri [Gate] e enviei os escombros de soldado de ferro pro "Hangar".
Espero que, sem o Imperador Celestial, essa capital vire um lugar mais habitável. Não, será que vai surgir outro novo Imperador Celestial de novo. Meio jogo de gato e rato, hein.
Na prática, o Zhaofa já eliminou os outros "Imperadores Celestiais" também, então já tá claro que este país já não funciona mais como país.
Poderiam formar uma aliança entre as cidades e escolher um líder daí mesmo, mas fico com receio de que surja algum líder estranho, sendo gente de Eurono.
Não, não, calma. Deve existir gente decente entre o povo de Eurono também. Ainda não conheci ninguém assim, mas…
Dessa vez, me envolvi por causa do assunto do soldado de ferro, mas, originalmente, assunto desse país deveria ser resolvido pelo próprio povo do país.
Parece que já teve caso de cidade de Eurono perto de Hanok pedindo pra ser incorporada ao lado de Hanok, então talvez o território mesmo vá sendo absorvido pelos países vizinhos aos poucos.
Depois de ser atacado pelos Phrase, esse país começou a brigar internamente. Não deve ter tempo pra mais nada. Talvez já estivesse perdido desde aquele estágio.
No subsolo do castelo, tinha uma fábrica de produção de soldado de ferro. Mas já não estava mais em funcionamento, parece que já tinham se retirado, e não sobrou nada. Como seria complicado se voltasse a ser usada, destruímos com cuidado e nos retiramos do palácio.
No dia seguinte, fui até Lodmea e entreguei o Bowman. Claro, dessa vez não foi mandado pras minas, e sim condenado à morte. Por causa da fuga desse prisioneiro de Lodmea, muitos habitantes de Eurono acabaram vítimas. Precisa pagar por isso. Foi a sentença dura da Governadora-Geral.
O problema mesmo são os dois entregues a Felsen. O Sol ainda tá bem. O Garzeld, foi extremamente rejeitado. Fedido demais. Insuportável.
E, ainda por cima, mesmo tentando arrancar informação, o Sol não sabia muita coisa, e o Garzeld tava tão atordoado que não dava pra saber se estava ouvindo ou não.
Olhar vazio, escorrendo baba, e, de vez em quando, soltando uma risada travada tipo "eh-heh, eh-heh-heh-heh…". Será que exagerei.
— Príncipe… o que foi que fez com ele?
— …Fiquei irritado e fiz aquilo. Tô me arrependendo.
No calabouço subterrâneo de Felsen, olhando pro que restou do líder da "Sociedade Dourada", já sem nem sombra do que era, o Rei de Felsen me olhou de canto, tapando o nariz.
Parece que essa cela tem barreira que impede o uso de magia, então tá seguro, mas o cheiro não dá pra bloquear.
Não aguentando mais, saímos correndo do calabouço subterrâneo. Chegando no jardim externo, respiramos fundo, enchendo os pulmões de ar gostoso.
— Mesmo assim, ainda sinto cheiro, viu…
Cheirei a própria roupa, "kun-kun", e senti um leve resquício de cheiro de slime de lodo. Se não me engano, existe magia de eliminação de odor. Vou pesquisar isso na "Biblioteca" depois.
O Rei de Felsen tirou de algum lugar um perfume e começou a borrifar, "shuh shuh", então pedi emprestado pra disfarçar meu próprio cheiro também. Envolvido num aroma tipo cítrico-menta, isso deve resolver.
Mesmo assim, que ele tivesse algo assim guardado, hein. Achei que não combinava com ele, mas talvez, com todo esse amor pela noiva Erisia-san, ele carregue esse tipo de coisa consigo mesmo.
— Aliás, Príncipe. Ei, você lembra do mestre da nossa "Corporação Magi-Técnica"?
— "Corporação Magi-Técnica"? Ah, aquele de óculos escuros suspeito…
Se não me engano, se chamava Izes. Mestre da guilda gigante que controla mago, comerciante e artesão de Felsen.
— Ele tem três submestres subordinados, mas, hoje de manhã, um deles desapareceu. E o que encontramos na casa dele foi isso.
O Rei de Felsen tirou do bolso um pingente de ouro com heptágono dentro do círculo. Prova de membro da "Sociedade Dourada".
— Será que fugiu ao saber que o Garzeld foi capturado?
— Provavelmente. E, ainda por cima, há indícios de que ele estava tramando meu assassinato.
Parece que, na busca domiciliar, encontraram provas materiais desse tipo aos montes. Não há dúvida de que o Garzeld mirava Felsen de fora, e esse submestre, de dentro.
— Certo, então, sobre a magia tabu que eles tramavam…
— "Santuário", né. Explicando de forma simples, parece ser uma magia de "domínio".
— "Domínio"?
— Perguntei ao mago da corte Rudo, e parece ser um tipo de magia de controle mental. O assustador é que dá pra ativar num raio bem grande, e quem estiver dentro dessa área nem sequer duvida de estar sendo controlado.
Será que é lavagem cerebral. Tipo efeito subliminar, incutindo informação conveniente no subconsciente.
— Nesse tal "Santuário", qualquer coisa absurda vira normal. Provavelmente, o Garzeld pretendia usar isso pra construir um país supremacista, onde só magos importam.
Infelizmente, não sabemos as condições de ativação. Mesmo tentando arrancar informação, o Sol é só um guerreiro que usa um pouco de magia, então não sabia quase nada sobre isso. E o Garzeld tá naquele estado.
— Não tem jeito. Vou perguntar a alguém que talvez saiba.
— O quê?
Magia tabu é magia antiga criada pelo antigo reino. Se for assim, o mais rápido é perguntar pra alguém que viveu naquela época.
Tirei o smartphone do bolso e liguei pra um contato específico. Depois de três toques, a pessoa atendeu.
— Alô? Doutora?
— Alô, alô. Mas, sabe, esse "Doutora" soa meio distante. Não dá pra me chamar de "Regina", como uma amante deveria?
A Doutora Babylon respondeu num tom leve. Que amante, o quê. Já disse que não reconheço isso.
— Certo, Doutora, tenho algo pra perguntar.
— Hmph. Vai insistir mesmo nisso? …Bom, tanto faz. E aí?
— Você conhece a magia "Santuário"?
— "Santuário"? Deixa eu ver… ah, é a magia de domínio mental de longo alcance, né. O que tem ela?
— Você sabe as condições de ativação ou o ritual?
— Hmm, precisa de um sacrifício com energia mágica forte, né. Da mesma raça de quem vai dominar. Quanto maior a área, mais sacrifícios são necessários. Bom, se tiver energia mágica absurda o bastante pra compensar, não tem problema.
Sacrifício, hein. Sinistro. Bom, esse tipo de magia costuma virar tabu mesmo.
— Mas aquilo, se sair fora da área designada, o efeito se desfaz, e não funciona bem em quem tem energia mágica forte, então não era muito usada, viu.
— Hã? Sério isso!?
— Acho que era isso mesmo. Basicamente, só usavam mesmo em prisões de condenados à prisão perpétua, algo assim. E, ainda por cima, só uns poucos países faziam isso. Em Partenon, não usávamos.
Que isso, hein. Bom, talvez usassem em lugar assim pra evitar rebelião, mas será que chegariam ao ponto de usar sacrifício pra isso. O sacrifício também seria condenado à morte? Isso também é meio complicado.
— Então, ativar "Santuário" no país inteiro seria…
— Não faria muito sentido. E, além disso, quantos sacrifícios seriam necessários pra cobrir um país inteiro? Precisaria até de uma guerra pra conseguir isso, não acha? Manter o "Santuário" contínuo também precisa de sacrifício, dizem. Se ficar fazendo esse tipo de desperdício, a humanidade vai acabar desaparecendo.
Entendi. Provocar guerra com Felsen, usar os mortos em batalha como sacrifício, e ativar o "Santuário". Deve ser isso mesmo. Os soldados mágicos de Felsen devem ser todos de elite com energia mágica alta, perfeitos como sacrifício.
Mas parece que eles não entenderam a parte importante. Sair da área desfaz o efeito — não acredito que uma lavagem cerebral assim consiga sustentar um país inteiro. E, ainda por cima, precisa de mais sacrifício pra manter isso. Será que pretendem continuar em guerra pra sempre?
Provavelmente, descobriram o método de ativação em algum documento antigo achado em algum lugar, mas devem ter faltado outras partes importantes, ou não conseguiram decifrar direito. Deve ser isso.
— Entendi. Certo, valeu.
— Opa, o agradecimento eu prefiro em outra forma, viu. Quero ver a continuação daquele "anime" de outro dia.
— Nnh… bom, tudo bem. Mas nada de maratona a noite toda, hein.
— Entendi, entendi. Prometido.
Mostrei o anime original que inspirou a espada voadora controlada, mas, pensando bem, talvez tenha sido erro mostrar aquilo. Só mostrei o primeiro filme, mas aquela franquia é longa demais… Parece que serve de referência pra várias coisas. Espero que ela não acabe construindo um Frame Gear sem pernas algum dia. Aquele é modelo espacial, não terrestre.
De qualquer forma, contei ao Rei de Felsen o conteúdo que ouvi da Doutora. No começo, ficou surpreso com o conteúdo, mas, conforme ouvia, foi assentindo, convencido.
— Entendi. Então, por não ter sido transmitida a parte de que o efeito se desfaz saindo do "Santuário", foi passada adiante como magia tabu terrível, temida.
— Não, acho que não estava totalmente errado. Se incutir algo tipo "sair do Santuário é algo terrivelmente ruim", já resolveria. Continua sendo uma magia assustadora mesmo.
Criar um lugar limitado, mas exatamente à imagem do próprio ideal. Pensando bem, aquele uso em prisão faz até bastante sentido. Usar condenado à morte como sacrifício, e prender os prisioneiros com a magia ativada por isso. Deixando de lado a questão ética, faz sentido isso ter sido classificado como magia tabu.
— Certo, então, o que a "Sociedade Dourada" tramava era…
— Completamente sem sentido, então.
Chegando a esse ponto, dá até pena. Fiéis de um sonho vazio, agarrados a algo que nem existe.
— Mas o problema é que ainda existe gente que acredita nisso. Segundo o que arrancamos do Sol, os membros da "Sociedade Dourada" chegam a um número considerável. E, ainda por cima, ainda deve sobrar soldado de ferro, né? Com o líder capturado e a existência deles exposta, o "Santuário" é a única esperança que resta pra eles. Que ação eles tomariam… ou melhor, seriam forçados a tomar, é…
— Vossa Majestade!! Perto da fronteira com Eurono, algo que parece soldado de ferro e uma quantidade incontável de Golens de Madeira apareceram, avançando em direção à capital! O relatório diz que são cerca de 3000!
Um soldado veio correndo até nós, ofegante, dando esse relatório.
Bom, faz sentido chegar nisso.
Mas até Golem de Madeira misturado, é? Aquele Bowman, fez algo desnecessário.
— O QUÊ, 3000…!?
Falei com o Rei de Felsen, que arregalou os olhos diante desse número.
— …Preciso dar uma força?
— Pode mesmo?
— Já que a origem disso também é a nossa máquina roubada. E, sinceramente, já tô cheio dessa incômodo.
Já tô sobrecarregado com o assunto dos Phrase, não aguento mais complicação extra.
— Vamos exterminar eles aqui.