Capítulo 242 – A Fuga e o Caminho Humano
GASHAN!, o soldado de ferro empunhou a lança de investida na mão direita e a estocou em direção ao trono onde estávamos.
— Ugh!
— UHIII!
Eu e o falso Imperador nos dispersamos pra desviar. O trono de construção luxuosa foi despedaçado miseravelmente, virando só escombro. Tem uma força considerável, hein. Se um cavaleiro pesado antigo é nível 10, esse aqui deve ser nível 8.
— HIIIIIII!
O falso Imperador saiu correndo em disparada rumo ao fundo do salão. Sendo originalmente um bandido, corre rápido pra fugir mesmo. Mas não posso deixá-lo escapar aqui.
— Tsc… Jesty-san e os outros, por favor, persigam ele!
— E-entendido!
Com o Jesty-san na frente, o Renetsu-san e a Sonia-san saíram correndo atrás do falso Imperador, desaparecendo rumo ao fundo do salão.
Ficamos aqui eu, o Kohaku e a Tsubaki-san.
《Pretende enfrentar meu soldado de ferro com o corpo desprotegido? Que temeridade.》
Uma voz áspera, tipo saindo de um alto-falante barato, veio do soldado de ferro. Provavelmente, é a voz de quem pilota lá dentro.
Difícil de entender por causa do ruído e distorção, mas essa voz, em algum lugar… Ah.
— …Entendi. Então tava escondido por aqui. Ué? Doutor Bowman?
《O QUÊ…! V-você! Como sabe o meu nome!?》
Han. Como imaginava. Quem tá pilotando aí dentro é o ex-magi-engenheiro de Lodmea, Edgar Bowman.
Aquele mesmo que fez descontrolar os golens armados, destruindo a capital de Lodmea, e, por causa disso, perdeu cargo e título de doutor, mandado como criminoso pras minas.
Ouvi que, no caminho pras minas, escapou com ajuda de alguém, e, agora entendi, a "Sociedade Dourada" puxava os fios por trás disso.
— Entendi. Então foi vocês, a "Sociedade Dourada", quem colocou esse aqui pra construir. Essa aqui, uma porcaria de fracasso.
《FRACASSO!? Você tá chamando de fracasso o soldado de ferro que eu construí!? Essa obra-prima, com poder o bastante pra dominar Eurono inteiro!》
《FALEI ISSO SIM!!》
Investiu a lança de investida erguida na minha direção. Movimento repetitivo demais, hein.
Desviei da lança com facilidade e fui observando o soldado de ferro enquanto desviava das investidas seguintes.
Parece que o sistema de controle é diferente do Frame Gear. O Frame Gear lê ondas cerebrais e pensamento, rastreando até certo ponto, dando suporte ao movimento do piloto. Por isso consegue se mover imitando o movimento do próprio piloto.
Mas esse soldado de ferro parece ter os padrões de movimento bem determinados de antemão. Pra dar um exemplo, é tipo um jogo de luta onde os golpes saem por combinação de comando.
Não deve ser algo tão simples quanto "apertar botão A dá soco, botão B dá chute", mas, exagerando um pouco, acho que é próximo disso. Talvez seja mais simples de pilotar, mas, sendo algo pra humano pilotar, será que não é ruim não conseguir reagir de forma flexível?
Ou será efeito da barreira? O Frame Gear tem gravação de magia de encantamento pra ficar menos suscetível a efeito mágico — será que copiaram até isso também. Mesmo assim, o movimento tá péssimo demais.
— De fato, é uma porcaria mesmo.
《AINDA VAI FALAR ISSO!!》
Entrando por baixo do braço que investia, cortei o cotovelo com a Brunhild envolta em energia divina.
O braço direito, que segurava a lança de investida, foi cortado do cotovelo pra baixo e voou longe.
《O QUÊ!?》
Continuando a passagem por baixo das pernas, cortei os dois joelhos do mesmo jeito, num só golpe. O soldado de ferro tombou pra frente, a partir dos joelhos, e caiu com estrondo no chão do salão.
《Não pode ser…! Impossível impossível impossível!? Não pode ser! Meu soldado de ferro sendo derrotado, impossível!!》
— Der-derrotar soldado de ferro com o corpo desprotegido…!?
Avancei com [Accel] pro Sol, que ficou paralisado de surpresa. Por causa da barreira, o efeito se desfez rápido, mas, só pra pegar de surpresa, um pulso instantâneo de aceleração já é suficiente.
— Ugh!?
O Sol ergueu o escudo, mas isso não importa. O golpe da minha espada corta o braço junto com o escudo.
— GUAAAAAAAAAA!?
— Chega de barulho, cala a boca. [Paralyze].
— GUHA…!!
Toquei o corpo do Sol e ativei a magia de paralisia. Num instante, o adversário perdeu o controle do corpo e desabou no lugar.
Por precaução, curei com magia de cura o ferimento do braço, que jorrava sangue abundante. Tenho um monte de coisa pra perguntar depois, afinal.
— Certo, já acabou o material, é?
Voltei o olhar pro Garzeld. Mas o homem magrelo mantinha um sorriso maroto.
— Fufufu. Forte. Bem forte, Guerreiro Demônio. Se consegue usar magia até certo ponto, tem qualificação. E aí? Não tem vontade de entrar na "Sociedade Dourada"? Quando eu me tornar Imperador do Império Mágico, te dou o posto de Grande General?
— Grande General? Que mesquinho. Tem um cara grande por aí que já me ofereceu metade do mundo pra virar meu aliado. Claro que recusei.
Bom, aquele Rei Dragão acabou sendo devorado pelos dragões, mas.
— É mesmo? Que pena. Então terá que morrer.
— Consegue dizer isso nessa situação? Tanto seu parceiro querido quanto o soldado de ferro já viraram inúteis.
— Quem disse que o soldado de ferro é só isso?
Como se respondesse à voz do Garzeld, GOGOGOGO…, um tremor baixo veio do chão.
No jardim visível pela parede rasgada pelo soldado de ferro, e em vários pontos do castelo, círculos mágicos brilhavam, e, de dentro deles, um atrás do outro, novos soldados de ferro foram surgindo.
Mesmo tipo do que acabei de destruir. Os itens nas mãos variavam — espada, machado — e tinha até um segurando algo tipo besta.
— Tsc, é verdade, se não me engano, tinham mil soldados de ferro guardados no subsolo, né.
— Ora? Já pesquisou até isso? Mas mais de 90% dos soldados de ferro já não estão mais aqui. Já foram movidos pra perto da fronteira de Felsen, com melhorias sucessivas, já fortalecidos. Já estamos numa situação de invadir Felsen a qualquer momento.
Que preparação e tanto. Não, será que meu timing foi ruim? Se mais de 90% significa uns 50 unidades aqui, restam 950 invadindo Felsen… isso é meio perigoso, né?
Antes disso, preciso resolver essas 50 unidades que estão aqui.
Bom, eu não tava nem um pouco preocupado. Porque…
— …Ei, General Garzeld. …Não tá ouvindo?
— …O quê?
Sentindo algo suspeito no sorriso que abri, o Garzeld parou de se mover e prestou atenção.
Um som distante de metal se chocando. O tremor do chão e o barulho foram se aproximando cada vez mais. Diante do som de algo caindo, DOGOON!, o Garzeld, sem aguentar, saiu correndo pro jardim.
— O QUÊ!?
O que se via de lá era o soldado de ferro, cortado ao meio, perto do castelo. Ao lado do escombro, estava de pé um cavaleiro-armadura gigante violeta e um cavaleiro dourado-alaranjado.
O "Schwertleite" da Yae e o "Sieglinde" da Hilda.
— Que absurdo…! Por que o Frame Gear de Brunhild…!!
Diante do Garzeld recuando, o "Schwertleite" da Yae se movia como se deslizasse. Num instante, se aproximou dos soldados de ferro ao redor, cortando com o sabre erguido em sequência, decepando os membros num piscar de olhos.
O "Sieglinde" da Hilda também bloqueava as investidas dos soldados de ferro com o escudo, derrubando os adversários com golpes elegantes.
Como havia possibilidade de os soldados de ferro aparecerem, antes de invadir o castelo, preparei um círculo de teletransporte que só Frame Gear consegue atravessar, fora do alcance da barreira. Depois, entrei em contato por telepatia com a Ruri e a Kōgyoku, e chamei a Yae e a Hilda através do círculo de teletransporte aberto no "Hangar". Mesmo dentro da barreira, telepatia não sofre interferência.
Os soldados de ferro atacavam a Yae e a Hilda um atrás do outro. Em quantidade, são mais de 20 vezes. Devem pensar que, empurrando pelo número, conseguem derrotar.
Mas, mesmo havendo diferença de quantidade, essas duas de casa não são fracas o bastante pra perder pra imitação barata. O novo modelo de Frame Gear não é força-tarefa.
Um atrás do outro, os escombros de soldados de ferro foram se multiplicando.
— Ugh…!
— Não sei o que você queria fazer, mas se renda. Ou melhor, quer que eu te entregue pro Rei de Felsen?
— Fu, fufufu. Como imaginava, cachorro de Felsen mesmo. Mas o Reino de Felsen não tem futuro. Aguarde ansiosamente o dia em que se curvarão ao poder de nós, a "Sociedade Dourada"!!
O Garzeld disse isso e ergueu o cajado bem alto pro céu.
Nesse instante, um clarão ofuscante disparou do cajado, e, sem querer, protegi os olhos com o braço.
Quando a luz se dissipou, ao abrir os olhos, o Garzeld já não estava mais ali.
BASAS!, com esse som, olhei na direção, e vi um morcego voando pra leste. Não me diga… aquele morcego é o Garzeld!?
Será que usou magia de transformação corporal. Será que é a magia nula dele?
De qualquer forma, deixar aquele morcego escapar seria ruim. Tentei ativar [Fly] pra persegui-lo, mas caí depois de voar uns 2 metros. Droga, ainda tem efeito da barreira!
— Kohaku!
《Sim!》
Saltei nas costas do Kohaku, que veio correndo. Corri até a muralha, saltei com força e ultrapassei. Assim que saí do alcance da barreira, ativei [Fly] na hora, mas não tinha mais vestígio do morcego em lugar nenhum.
— Busca. Existe morcego por perto?
《…Busca concluída. Não existe morcego num raio de 5km.》
Droga. Não tem como um morcego voar tão rápido assim. Provavelmente, se transformou em outra criatura. Ou será que a barreira, especialidade dele, tá atrapalhando a magia de busca.
Deixei escapar mesmo direitinho, hein. …Não, ainda tem um método.
Descendo até onde o Kohaku estava no chão, pra lançar a magia, usei o smartphone e travei alvo com [Multiple] em todas as árvores num raio de 5km ao redor da capital, incluindo ela. Levou um certo tempo.
E, sobre as árvores designadas, a magia que ativei foi:
— [Absorb].
De uma vez, as árvores dentro do alcance começaram a absorver a energia mágica ao redor delas, apagando toda a magia da região. Essa é a minha versão de barreira de interferência. Claro, minha energia mágica não é absorvida.
— Busca. Garzeld.
《…Busca concluída. Direção sudeste, 3km à frente.》
Deve ter tido a magia de transformação desfeita ao ter a energia mágica absorvida. O efeito deve durar um tempo, então, enquanto isso, ele não deve conseguir usar magia. Preciso me apressar, já que, se sair do alcance das árvores com magia de absorção, o efeito não se aplica mais.
Montado no Kohaku, atravessando a capital, saltei com [Teleporte] até o Garzeld.
Teletransportado num instante, era dentro de um bosque na periferia da capital. Ali, vi o Garzeld erguendo o cajado com todo esforço, tentando se transformar em pássaro repetidamente, mas voltando a ser humano na hora e caindo no chão. O rosto dele percebeu que eu vinha correndo montado no Kohaku.
— Is-isso é obra sua…!?
— Nos encontramos de novo. Certo, como prometido, vou te mostrar uma magia interessante. [Slip].
— GAH!?
Desativei [Absorb] e ativei [Slip]. Escorregando de forma espetacular, o Garzeld largou o cajado e caiu, batendo a nuca no chão.
Na hora, disparei na terra onde ele caiu, com a Brunhild, a "bala do diabo". Isso mesmo, a "Bala de Queda Infinita".
Assim que o efeito de [Slip] passa, ativa de novo. Isso continua sem parar até a energia mágica canalizada se esgotar. Aliás, a quantidade de energia mágica canalizada é o bastante pra continuar caindo por três dias, se deixado assim. Ah, então não é bem "infinita". Melhor renomear pra "bala de três dias de queda".
— GUHA!? UGO!? FIGYA!?
Caindo desse jeito sem parar, não tem como concentrar energia mágica nenhuma. Afinal, se mover um milímetro que seja, cai naquela direção. E, nesse estado, parar é praticamente impossível. Já que ferrou desde a primeira queda.
Ignorando o Garzeld continuando a cair, assobiando, tirei algo do [Storage].
Colocado com um "dozun", era um cubo de vidro (precisamente, não é vidro) totalmente transparente de três metros. No centro, um cadáver de slime de lodo, exalando fedor. Isso mesmo, a temida "Caixa de Lodo". E, ainda por cima, com melhorias em relação à versão anterior.
Como seria complicado se ele usasse magia, encantei com [Absorb]. Pra absorver na hora se ele tentar usar magia. Bom, acho que ele nem vai ter condição de usar magia mesmo.
— Um cliente, por aqui, por favor~
Teletransportei o Garzeld, ainda caindo sem parar, pra dentro da caixa via [Gate].
— CHEIRO ÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!!?
BAN!, batendo na parede, o Garzeld tapou o nariz. O rosto dele, além de pálido, já ficou completamente branco.
— FEDIDO! Fedido, feDIDO! OGUEEEEEEEEEEEE!!!
— Certo, certo, ainda não terminou, viu. O próximo é isto aqui.
Apertando um botão instalado do lado de fora, do alto-falante interno começou a sair som tipo "unha arranhando quadro-negro" e "fricção do fundo de louça de porcelana".
— UHIIIIIIIIIIIIIIII!!?
— Opa, esqueci de isolar o som. [Silence], então.
Ativei magia de silêncio voltada pro exterior da caixa, pra não vazar som. A voz do Garzeld também parou de ser ouvida, mas parece que ainda tá gritando algo.
— …ÇH!! …ÇH!!!
Tapando os ouvidos pra bloquear o som, acaba inalando o mau cheiro pelo nariz, e, ao tapar o nariz, dessa vez são os ouvidos — repetindo esse movimento sem parar.
O rosto tá completamente lambuzado de lágrima, ranho e baba. Que nojo.
《Senhor… Sinceramente, isso já…》
— Ah, fiquei bem irritado com esse cara, sabe. A barreira dele foi bem incômoda. Acho que dá pra fazer esse tipo de vingança, né.
《Acho que já é demais…》
Será mesmo? Respondi assim pro Kohaku, que parecia recuar diante disso.
Isso já dá dano no olfato e na audição, mas parece incompleto. Vou acrescentar a visão também.
Com [Mirage], espalhei ilusões de lagarta, centopeia e barata pelo chão todo, aos pés dele.
— …ÇH!! …ÇH!!! …ÇH!!!
Ooh, finalmente começou a bater na parede. Mas que pena. Essa parede é feita de material de cristal. Sem uma arma do mesmo material, não quebra, então é inútil.
O Garzeld escorria suor frio sem parar, os joelhos tremendo, tipo um cervo recém-nascido, quase dá vontade de zombar. Exibia essa aparência sem parar.
Por fim, como um boneco cuja corda se rompeu, o Garzeld desabou no lugar. Espuma na boca, olhos revirados, o corpo inteiro convulsionando.
Vendo isso, pensei em algo.
— Se eu ativar [Refresh] pra restaurar a energia dele, será que consigo ver essa mesma cena de novo?
《Senhor. Isso passaria dos limites do caminho humano.》
Fui impedido pelo Kohaku. Que chato.