Capítulo 249 – O Artefato Divino e o Equipamento Pesado
— A barreira do mundo, hein…
— Não existe algum método de restaurar isso?
Roendo com estalo o biscoito especial de Ishen que trouxe de presente, Deus ficou pensativo. Como sempre, aquele cômodo de quatro tatames e meio, e o mar de nuvens se estendendo dali. Agora, eu tô no mundo celestial.
Podia até ter perguntado por telefone, mas achei que, num assunto desses, era melhor levar presente e visitar pessoalmente.
— Não é que não exista. Ou melhor, pra deus de nível superior, seria facílimo. Mas, por regra, é proibido aos deuses interferir no mundo inferior. Se quem destruiu a barreira fosse um deus maligno, eu até consertaria.
Zuru-zuru, bebendo o chá, Deus soltou um suspiro.
— Mas, há 5000 anos, a barreira foi restaurada uma vez.
— Isso só pode significar que alguém da superfície restaurou. Não dá pra afirmar categoricamente que não existe ninguém, ou alguma raça, com essa capacidade.
Quem seria esse "alguém"? Não consigo acertar o alvo direito.
— Se eu tentasse consertar usando meu "poder divino"…
— Acho melhor não fazer isso. Você consegue consertar teia de aranha com a mão nua? Poder grande demais, enquanto não conseguir controle preciso, é melhor não usar tanto.
Achei que, sendo eu ainda não reconhecido (?) oficialmente como deus, talvez pudesse interferir no mundo inferior sem problema. Mas, de fato, se acabasse destruindo a barreira ainda mais, não teria solução.
— Ou melhor, deixei passar batido sem querer, mas… existe deus maligno mesmo?
— Existe. Bom, aquilo, como direi, diferente de nós, nasce na superfície. Rancor, obsessão, energias não muito boas assim se acumulam, e algo que acaba adquirindo ego próprio se funde com nossos artefatos divinos. É algo próximo do que, no seu mundo, se chamaria de "tsukumogami".
— Se for assim, Deus consegue intervir?
— Diretamente, não posso. Mas faço coisas tipo conceder uma espada sagrada divina a um herói escolhido. Em nível hierárquico, isso fica abaixo até de deus subordinado.
Abaixo de deus subordinado, hein. Bom, é tipo uma imitação de deus, no fim das contas.
— Aliás, e se o herói com a espada sagrada for derrotado?
— Não faço nada. Aí acaba. Acha que vou continuar ajudando repetidas vezes? Na pior das hipóteses, aquele mundo é abandonado. Um mundo fora do gerenciamento divino trilha só o caminho do declínio, e o mundo caminha lentamente pra extinção. Bom, faço todo o possível pra evitar que isso aconteça, claro.
Dizendo isso, Deus riu de forma um pouco autodepreciativa. Provavelmente, deve existir mais de um mundo que ele foi obrigado a abandonar assim.
Enquanto eu pensava nisso, Deus, como se lembrasse de algo de repente, soltou um "ah".
— Ah é verdade, esqueci de falar, aquele seu smartphone, era isso o nome? Aquilo, na verdade, é um artefato divino, sabia?
— Hã!? Esse aqui!?
Tirei o smartphone do bolso e mostrei. Isso era artefato divino!?
— Quando você morreu, isso também veio junto pra este mundo, e eu fiz alterações nisso. Sem dúvida, é um artefato divino com poder divino habitando dentro. Senão, não conseguiria obter informação atravessando mundos, nem se comunicar com o mundo celestial.
Pensando bem, faz sentido. Ah, então era isso, era artefato divino mesmo.
— Será que eu também consigo fazer artefato divino?
— Se canalizar poder divino nele, não é impossível. Mas não recomendo tanto, viu? Como falei agora há pouco, pode virar gatilho pra criar deus maligno.
— Entendi.
De repente, veio à cabeça uma dúvida: a espada sagrada dada ao herói pra derrotar deus maligno — aquilo também é artefato divino, né. Se for assim, se energia maligna se apossar dessa espada sagrada, não nasce outro deus maligno de novo?
Segundo Deus, ao derrotar o deus maligno, destroem a espada junto, ou recolhem discretamente, ou substituem por uma falsa. Às vezes, esquecem de fazer isso, e, séculos depois, surge um deus maligno de novo, causando alvoroço de "renascimento do deus maligno" antes de perceberem. Que situação ruim, hein.
Pensando de novo, deuses, mesmo sendo deuses, não são perfeitos, né. Bom, no meu mundo de origem também, existem inúmeras histórias de deuses traindo esposa, cometendo falhas absurdas, comportamento bem humano. Tem bastante deus incômodo também.
— Ei, Touya-kun. Isso é assunto pra bem mais na frente, mas… você não teria interesse em administrar aquele mundo?
— Hã?
— Eventualmente… bom, virando deus de nível superior, é normal acabar cuidando de algum mundo. Já que é assim, melhor um mundo familiar, né?
Não, não, não. Deus de nível superior? Ficaria acima até das irmãs? Não, mas, sendo parente do Deus do Mundo, não seria estranho mesmo.
— …Então eu realmente vou entrar de vez pro grupo dos deuses?
— Desculpa, viu. Mesmo você não tendo desejado isso. Mas os outros deuses estão contentes. Já fazia várias dezenas de milhares de anos que não surgia um deus novo. Devem estar querendo bancar os veteranos experientes.
Fico grato que estejam contentes, mas… sinceramente, é uma sensação meio ambígua.
— Se eu virar da raça divina, filho vai dar problema? Ano que vem, vou me casar, sabe…
— Filho entre deuses existe aos montes. Sem problema nenhum. Bom, talvez nasça com capacidade fora do comum, comparado a humano, mas provavelmente não tanto quanto o deus-pai.
Faz sentido mesmo. Hércules, Perseu, Aquiles, Cú Chulainn — tem inúmeros casos assim na mitologia.
Mas, segundo a Doutora, no mínimo um filho, e, entre as filhas, chegam a nascer oito… Se todos nascerem com poder semi-divino, criar essas crianças deve dar um trabalho absurdo.
— Ahn… não existe algum deus da criação de filhos?
— Existe, sim, existe… Mas acho melhor você mesmo criar seus filhos, sabe.
— É verdade mesmo…
Argumento correto. Não tenho intenção de abandonar a criação, mas por que preciso me cansar tanto assim com filhos que nem nasceram ainda.
Bom, casar não significa que filho nasce na hora também… Não vai ser assim, né?
— Bom, por ora, é melhor não usar tanto o poder divino, e ir tentando fazer o que conseguir dentro do possível. Resultado da história, mas acho que até você ter vindo pra aquele mundo foi destino. De qualquer forma, se esforce.
— Sim.
Sei que só resta fazer mesmo. Vai ser o que tiver que ser.
Recebendo esse encorajamento de Deus, deixei o mundo celestial.
— Reforço da Ordem de Cavaleiros, é?
— Sim. Comparado ao começo da fundação do país, já temos alguma folga, então achei que seria uma boa hora pra abrir recrutamento de novo.
Ouvindo a explicação do primeiro-ministro Kōsaka-san, fiquei pensativo. De fato, mesmo somando toda a nossa Ordem de Cavaleiros, não chega a 100 pessoas. E, dessas, cerca de 40 são não-combatentes. Nesse caso, "não-combatente" se refere a quem não pilota Frame Gear.
Agentes de inteligência sob comando da Tsubaki-san, ou pessoal de escritório e envio externo sob comando do velho Naitou. Claro, todos têm capacidade de combate razoável, mas eles são, basicamente, isentos de treino de combate.
Não sendo um país tão grande assim, não precisamos de pessoal na casa dos milhares como outros países, mas, de fato, talvez seja bom aumentar um pouco mais.
— Quantas pessoas seriam necessárias?
— Deixa eu ver… simplesmente dobrando o efetivo atual, seriam 100 pessoas, mas, além disso, incluindo pessoal pra patrulha da cidade, guarda do castelo, funcionário administrativo, gostaria de uns 150.
— Desses, quantos cavaleiros vão pilotar Frame Gear?
— Somando com os 60 atuais, acho que uns 100.
Só 40 dentre 150, então. Os outros 110 seriam alocados pra guarda do castelo, patrulha da cidade, atividade de inteligência. Claro, isso também é trabalho importante da Ordem de Cavaleiros. Bom, quem não quiser fazer isso provavelmente nem entra na nossa Ordem de Cavaleiros mesmo.
— Se for assim, melhor recrutar separado por habilidade, né…
Mesmo sem capacidade de combate tão alta, se for competente em trabalho administrativo, isso já é um talento útil, penso.
Mesmo assim, não posso baixar o padrão por causa disso. Quero manter pelo menos o mesmo nível de força dos recrutas do ano passado.
Bom, mesmo com um pouco de insegurança na capacidade de combate, se jogar no boot camp da deusa da espada, a irmã Moroha, deve conseguir adquirir força mínima.
— Certo, então, tendo 150 como meta aproximada, cada responsável ajusta os detalhes entre si. Se tiver alguém que queiram recomendar, também incluam.
— Entendido.
Infelizmente, não tenho ninguém em mente pra recomendar.
Bom, se for forçar, tem os aventureiros Sonia-san e Renetsu-san, e também os quatro novatos aventureiros, o Rop e os outros, mas eles devem ganhar mais como aventureiros mesmo.
Vou pedir também pra Guilda de Aventureiros abrir recrutamento. Deve aumentar ainda mais candidatos do que da última vez.
Da última vez, pedi pra dupla de olho mágico da Yumina e da Papisa fazerem a entrevista, mas, dessa vez, será que peço pra Doutora fazer um detector de mentira.
Pensando nisso, ao me teletransportar pra Babylon, no "Hangar" só tinha a Monica, com os mini-robôs, cuidando da manutenção da Gerhilde.
— Ué? A Doutora?
— Tá em reunião com a Rosetta no Segundo Laboratório do "Laboratório". Falando sobre a próxima máquina, sei lá.
— Reunião?
Sem entender bem, fui até o Segundo Laboratório do "Laboratório", como a Monica falou, e, sobre a mesa, tinha vários projetos e miniaturas de Frame Gear, e, no painel de vídeo da parede, flutuavam coisas tipo wireframe de várias peças.
E, diante disso, duas garotas, cruzando os braços, gemendo, "uuum, uuum", sem parar.
— O que foi? Parece que estão bem enroladas nisso de novo.
— Ah, Mestre. É sobre a máquina em desenvolvimento… A da Lindsey-dono ficou decidida no conceito de se transformar em modo de voo, e depois se combinar com a máquina da Elsie-dono, mas…
Dizendo isso, a Rosetta pegou a miniatura de Frame Gear que estava na mesa, dobrou braços e pernas, abriu as asas, transformando no modo de voo. Uau. Transforma suavemente mesmo.
Formato que parece aguentar reentrada atmosférica, tipo ônibus espacial. Se colocasse um Frame Gear em cima, dá até pra voar carregando. Ou melhor, essa miniatura, ou melhor dizendo figura, parece que ia vender bem…
— O problema é a máquina da Leen. Qual direção seguir, hein. Sinceramente, tô pensando num tipo de aniquilação por bombardeio, com armamento pesado embutido no corpo inteiro. Magia não funciona em Phrase. Se for assim, só resta usar explosão gerada por magia pra impulsionar projéteis, e destruir com dano real. Tava pensando em fazer algo tipo aquele "Vulcan" ou "Gatling" que aparece naquele "anime", mas…
Parece que, considerando custo, é bem ineficiente. Porque, pra fazer projétil capaz de ferir o corpo de Phrase, o ideal é usar, no mínimo, mithril. Senão, precisa canalizar energia mágica em material de cristal. Fazer milhares, dezenas de milhares desses projéteis é um trabalhão. E não seria legal deixar a "Oficina" trabalhando full-time só pra isso. Material de cristal até vai, mas, se for feito com mithril, seria basicamente jogar dinheiro fora.
E também tem limite pra quantidade de munição carregada. Se for usar como canhão fixo, sem se mover do lugar, talvez não tenha problema de ficar sem munição, mas, se for assim, precisa mesmo ser Frame Gear?
— Se construir de verdade e disparar tudo com força total, quanto tempo dá pra atirar?
— Provavelmente, uns 1 minuto.
— Curto demais.
Pensando bem, no anime também, quando acabava a munição, o poder de combate caía na hora.
Não acho que vá disparar full por 1 minuto inteiro, então o tempo de operação deve ser bem mais longo, mas, mesmo assim, é curto. Depois de esgotar toda a munição, só resta trocar pra ataque comum tipo espada?
Cada vez mais parece que perde o sentido de colocar Gatling gun num Frame Gear…
— Em vez de Gatling gun, algo tipo tiro certeiro, um projétil de cada vez, direto no núcleo de Phrase, tipo sniper… modelo de tiro de precisão, não seria mais eficiente?
— Isso também seria válido, mas〜… o charme desse tipo é justamente uma destruição completa por poder de fogo absurdo que afasta o inimigo, virando uma fortaleza móvel e um paiol de munição ao mesmo tempo〜…
A Rosetta desabou na mesa, "unyu~". Tanto assim?
— Se não fosse contra Phrase, poderia até fazer um Gatling gun de ataque mágico, disparando [Fire Arrow] ou [Thunder Arrow].
A Doutora riu com um sorriso amargo. De fato, isso resolveria o problema de acabar a munição, mas, dessa vez, o esgotamento de energia mágica da Leen viraria problema.
— …Aliás, onde ficam as balas da arma do Mestre?
— A minha? Deixa eu ver, tá aqui na bolsa da cintura. Bala real, bala de paralisia, bala explosiva, separadas por uso.
Mostrei o interior da bolsa dividida em compartimentos. Tem cerca de 20 balas de cada tipo dentro.
— …Isso aí você recarrega até durante o combate?
— Imagina. É recarga automática. Quando acaba a bala, expulso o cartucho vazio e "programei" pra recarregar via [Apport].
— «« ISSO! »»
Diante de mim, pronto pra dizer "então…", as duas se levantaram e apontaram o dedo pra mim, "BAM!".
— Não precisa carregar bala andando de jeito nenhum! Basta instalar um paiol gigante em Babylon, e transferir direto pra arma via [Gate] ou [Teleporte]!
— Hmm. Vai gerar algum atraso, mas não é como se precisasse disparar em sequência por vários minutos. Dá pra suprir bem. O problema é a linha de produção de balas, mas…
Não sei bem o motivo, mas as duas estão animadas de repente. Sinto que fui deixado de fora, de alguma forma.
— Touya-kun, quanto de material de cristal tem, aproximadamente?
— Tem um montão. Basicamente, só consumo grande quantidade quando faço máquina nova.
Recebi bastante de Eurono e Lodmea, afinal. Tem quantidade suficiente pra, se colocasse no mercado, causar colapso de preço.
— Material tá suficiente, então. Mas também não quero ocupar a "Oficina" só pra fazer bala… vou construir, então.
— Construir? Construir o quê?
— Outra "Oficina", ué. Já tinha planos de construir uma segunda "Oficina" mesmo. Se for algo não muito grande, tamanho de um barraco pequeno, não é difícil de construir. Vamos chamar de "Pequena Oficina".
Vai construir uma oficina especializada só em munição!? Vai tão longe assim!? Não, pensando que também serve pra equipamento de outras máquinas, não é desperdício, né?
— Mas, será que dá pra fazer isso tão fácil assim? Mesmo sendo pequena, ainda é "Oficina", né?
— Ué? É só fazer a "Oficina" fazer isso.
— Hã? Fazer a "Oficina" construir a "Oficina"?
Fiquei paralisado diante da fala casual da Rosetta.
— A "Oficina" é uma fábrica onívoda. Dá pra construir algo do tamanho de um barraco sem dificuldade nenhuma.
A Rosetta estufou o peito, orgulhosa.
— Levaria umas duas semanas pra construção. Preciso incluir a montagem e o processamento de magia também. Bom, só na última parte vou precisar que o Touya-kun se mova até lá com [Gate]. Diferente do Frame Gear, ela não anda sozinha.
— Não, isso tudo bem, mas…
Construir "Oficina" usando "Oficina"… que trapaça. Bom, sendo tamanho de barraco, não dá pra fazer Frame Gear ali, mas, pra coisa pequena, já dá conta.
— Certo! Com isso já temos um plano definido! Vamos começar logo!
— Roger! Sim!
Correndo, aos tropeços, as duas pequenas saíram do laboratório. Como direi… deve ser a operação normal daqui mesmo.
Peguei em mãos e observei, sobre a mesa, a máquina da Lindsey transformada no modo de voo, e a da Leen, com Gatling gun na mão direita e Vulcan em todo o corpo.
Bem feitas, hein. Modelo de combate aéreo e modelo de bombardeio de aniquilação.
Sem pensar muito, coloquei a máquina da Leen em cima da da Lindsey. Certo, ficou bem legal.
Será que consulto o comerciante Orba-san se dá pra colocar isso à venda a sério. Será que dá pra fazer menor ainda, vender tipo cápsula de brinquedo. Aquele negócio que gira a manivela e compra. Se conseguir vender num preço acessível pra mesada de criança, seria perfeito.
Pensando nisso, saí do laboratório com a miniatura na mão.