Capítulo 248 – “O ‘Até Agora’ e o ‘Daqui pra Frente'”
O "Rei" dos Phrase, em estado de morte aparente, "ela", cujo nome nem sei — provavelmente, ela mesma não entende nada disso. No fim, parece só que ambiciosos que buscam poder, e obsessivos incapazes de desistir do poder dela, estão fazendo algo próximo de perseguição obsessiva.
Também não acho certo dizer que ela deveria se sacrificar pra salvar outros mundos. Acho que deveriam ter conversado mais a fundo sobre isso.
Ao deixar o mundo dos Phrase, seguindo o conselho do Ende, "ela" tinha, aparentemente, escolhido um sucessor pro título de "Rei", mas, sendo "ela" excessivamente talentosa demais, depois que ela partiu, dividiu-se claramente entre os que seguiam o sucessor e os que não seguiam — e os que não seguiam reviveram, por conta própria, o "método de atravessar mundos" que ela tinha descartado, e a perseguiram.
Parece que existe, entre os espécies dominantes, alguém genial, mesmo não sendo tanto quanto "ela". Parece que os espécies dominantes também não são um bloco monolítico, tendo facções diferentes entre si.
Sobre a Rise, dizem que ela realmente não interfere de nenhum dos lados. Age junto com o Ende, mas não dá suporte nem ao Ende nem aos Phrase. Mas parece que existem espécies dominantes que consideram essa mesma Rise uma "traidora"…
Colocando de lado o próprio fato de não seguirem o sucessor do "Rei", que audácia dizer isso sem vergonha nenhuma. Quem é o traidor mesmo, afinal?
De alguma forma, os Phrase começaram a parecer só um bando mimado, incapaz de se desapegar dos pais.
Depender pra sempre de alguém… ah, é isso que o Kōsaka-san quis dizer, não é?
Se Brunhild depender demais só de mim, talvez cometa o mesmo tipo de erro que os Phrase.
Não é meu país. É o país de todo mundo. Fiz o juramento, em meu coração, de nunca esquecer disso.
O Cavaleiro Dragão, de pé na terra fora da cidade, brilhava reluzente sob a luz da manhã. Devolvi o Cavaleiro Dragão, que estava sob minha guarda, ao Ende.
Ah, é verdade, o motivo da Rise não reagir na placa de detecção era simplesmente porque não estava configurada pra reagir a espécie dominante. Já que a oportunidade surgiu, pensei em medir a frequência dela e registrar o padrão de espécie dominante, mas, parece que, se quiserem, espécies dominantes conseguem apagar essa frequência que todo Phrase emite.
Ou melhor, parece que, quando não estão em contato com companheiro ou subordinado, deixam sempre apagado por padrão. Que função de furtividade, hein… Como a Rise age separada dos companheiros, de qualquer jeito, não seria detectada pela placa mesmo. Mesmo assim, pensei em registrar pelo menos pra saber quando outra espécie dominante aparecer, mas ela recusou o pedido forçado. Tsc.
Falei com o Ende, que olhava pro Cavaleiro Dragão.
— O que vai fazer daqui pra frente?
— Por ora, vou continuar caçando os Phrase que forem surgindo, como sempre. Até "ela" partir deste mundo.
Isso vai demorar até quando, será. Só que, mesmo que este mundo seja salvo com isso, existe possibilidade de a mesma coisa se repetir no próximo mundo.
Ninguém sabe pra qual mundo o "Rei" vai. Nem "ela" mesma deve saber. O Ende deve continuar perseguindo "ela" pra sempre, protegendo-a de longe, das sombras.
Se possível, gostaria de eliminar os Phrase todos aqui mesmo. Já que o próximo mundo a ser atacado pode ser o meu mundo de origem.
Não é que eu não entenda o sentimento do Ende. Se me colocassem entre escolher uma pessoa importante ou o mundo, mesmo não sabendo o que o Touya antigo escolheria, tenho certeza de que o Touya de agora escolheria, sem dúvida, a pessoa importante. Não importaria quantos outros sacrifícios ou pessoas sem relação nenhuma sofressem, talvez eu nem me importasse com isso.
Se aqui, agora, alguém dissesse "se você não destruir o núcleo do 'Rei', todo mundo vai morrer", com certeza eu destruiria, não importa o que o Ende dissesse.
Se estivesse na posição dele, provavelmente eu faria a mesma coisa que o Ende. Talvez sejamos parecidos de alguma forma.
O Ende embarcou na cabine. Com a Rise, de capuz, sentada na mão direita dele, pneus desceram da parte do calcanhar, e o Cavaleiro Dragão passou pro modo de alta mobilidade.
— Então, Touya, até mais.
— Certo.
Levantando poeira, o Cavaleiro Dragão saiu correndo deslizando, e, num instante, ficou pequeno na distância.
— Então tava aqui.
— Hm? Ah, é você, Yumina.
Ao me virar, a Yumina e o Kohaku estavam ali. Ontem, contei pra todo mundo sobre o Ende e o resto. Todo mundo ficou surpreso da mesma forma, mas, no fim, a política daqui pra frente não muda. Se eles atacarem, como sempre, resistência total.
A Yumina veio ficar do meu lado, observando o Cavaleiro Dragão ficando pequeno na distância.
— Se… o Touya-san voltasse pro mundo original…
— O que foi, de repente assim?
— Fiquei pensando. Se não puder viver junto com o Touya-san, que sentido teria isso? E, se existisse algum jeito de perseguir o Touya-san, escolheria esse caminho sem hesitar.
Será que ela tá falando do Ende e de "ela", o "Rei". Os dois que escolheram atravessar mundos, decidindo viver juntos. Lamento que isso tenha se tornado o gatilho de várias tragédias, mas, mesmo que eu fosse devolvido pro mundo original, acho que também procuraria um método de atravessar mundos, só pra reencontrar a Yumina e as outras.
Se eu dissesse, no mundo de lá, "tô procurando um jeito de ir pra outro mundo", provavelmente duvidariam da minha sanidade. Mas, sinceramente, tanto faz isso. Seja ocultismo, seja religião suspeita, contanto que exista mínima possibilidade, eu me apegaria a isso.
Afinal, se eu não puder viver junto com a Yumina e as outras, viver não teria sentido nenhum pra mim também.
Coloquei a mão no ombro da Yumina, ao meu lado, e puxei de leve.
— Tá tudo bem. Eu não vou pra lugar nenhum. Mesmo que seja arremessado pra outro mundo, com certeza volto pra vocês. Nem que precise implorar pro próprio Deus.
— Deus, é? Espero que ele atenda seu pedido.
Achando que era brincadeira, a Yumina riu baixinho.
Quero proteger esse sorriso. Quero ficar sempre ao lado dela. Quero caminhar rumo ao futuro junto com elas. Pra isso, vou fazer tudo que estiver ao meu alcance.
Abraçando o ombro dela, pensei isso do fundo do coração.
— Ah, Touya-sama.
Ao passar pela frente do campo de treino, a Lu, sentada num banco, percebeu nós dois e acenou. Vestindo traje leve de treino, com duas pequenas espadas de madeira ao lado. Ao lado dela, sentada do mesmo jeito, a Elsie enxugava o suor do rosto com a toalha no ombro.
No campo de treino, a Yae e a Hilda travavam um combate intenso. Desde que passaram a receber instrução da irmã Moroha, as duas subiram de nível rapidamente. Acho que já devem estar chegando perto do nível de mestre.
De longe, todos da Ordem de Cavaleiros acompanhavam com o olhar.
Ao nos aproximarmos das duas no banco, a Elsie olhou de relance e fez bico.
— O que é isso, vocês dois já tavam juntos desde de manhã?
— Um pouco, sim. Ué? Tá com ciúme?
— N-não é ciúme nada disso!
Corando, a Elsie enxugou o rosto de novo com a toalha. Continua tão fácil de entender como sempre. Bom, é justamente isso que é fofo nela.
— Onde estão os outros?
— A Lindsey e a Leen foram levadas pela Doutora. Devem estar em Babylon. Falaram algo de ajuste da máquina exclusiva delas. Ah, e a Rosetta falou que ia mexer um pouco na minha Gerhilde também.
— Na Gerhilde? O que ela vai fazer?
— Não sei. Falou algo tipo "vermelho e azul precisam se combinar de algum jeito".
Ei, ei. Não me diga que vão fazer um docking simétrico ou algo assim. Duvido que isso seja possível, deve ser algum tipo diferente de combinação.
— Eu também quero que a minha máquina fique pronta logo.
— Calma, calma. Parece que as feitas depois têm performance melhor, vamos aguardar com expectativa.
Consolei a Lu, meio emburrada, com um sorriso amargo. Afinal, eu mesmo ainda não tenho a minha. Ou melhor, provavelmente vou ser o último mesmo. Já que consigo lutar contra espécie superior mesmo sem Frame Gear… bom, o trunfo verdadeiro sempre entra por último.
Enquanto eu resmungava isso pra mim mesmo, a Sakura, a Spica-san, e a Sue vieram vindo do lado do castelo.
— Touya!
— Sue. Veio desde de manhã hoje?
Recebi a Sue, que veio correndo e se abraçou em mim. A Sue vem até aqui pelo quarto de teletransporte do castelo, saindo do próprio quarto na casa em Belfast. Normalmente, costuma vir só depois do meio-dia.
— Sim. Não posso negligenciar o treinamento de noiva, como futura esposa do Touya. Hoje vou ficar aqui o dia inteiro. Já pedi permissão pro papai pra passar a noite também. Touya, hoje vamos dormir juntos!
— Não, isso é meio… como será, hein!
Ouvindo isso, todas as noivas ao redor lançaram um olhar de suspeita, em uníssono.
Normalmente, quando a Sue passa a noite, costuma dormir junto no quarto da Yumina, mas por que justamente hoje…
— Por quê? O Touya não gosta de dormir junto comigo?
— Não, não é isso, mas ainda é cedo demais, ou como direi, dá má impressão…
— Má impressão? Mesmo só dormindo juntos?
A Sue inclinou a cabeça, com um olhar puramente sem entender nada. Não, eu entendo, viu. A diferença entre o que a Sue pensa e o que eu penso. Claro que não tenho intenção nenhuma de fazer nada!?
Enquanto um suor frio ruim começava a escorrer, pedi socorro com o olhar pra Yumina, ao lado.
Percebendo isso, a Yumina falou com a Sue, sorrindo docemente.
— Olha, Sue. Homem e mulher de posição, antes do casamento, dormirem sozinhos no mesmo quarto não é algo bem visto socialmente.
— É assim mesmo, irmã Yumina?
— É sim. Então, vamos todos dormir juntos, incluindo o Touya-san? Assim não tem problema.
— HAAA!?
O que você tá falando de repente, Yumina-san!? Pensando bem qualquer jeito, isso é bem mais problemático!!
— Pe-pera aí! O que tá falando!? Isso não pode!
— O que foi? É só dormir na mesma cama junto, não é? Não tem problema nenhum. Ou será que tinha intenção de fazer "alguma coisa"?
— …Grrr.
Diante da Yumina revidando com um sorriso, fiquei sem palavras. De fato, se for só dormir, não tem problema… será?
— Espera, pera aí, Yumina! "Todo mundo" inclui a gente também!?
— Claro que sim. Ou será que só a Elsie-san vai dormir num quarto separado?
— Nnngh… isso também parece que eu perderia de algum jeito… mas… uuu~
— Eu não me importo, mas.
Como quem diz "sem problema nenhum pra mim", a Sakura abriu a boca. Dizendo que não se importa, o rosto tava vermelho, e os olhos fugiam de um lado pro outro. Ao lado, a Spica-san franzia a testa, meio incomodada.
— E-eu também tô tranquila! Touya-sama! Vamos dormir juntos, mu— !
— Fala alto demais!
Tapei apressado a boca da Lu, que ia gritar. O que é essa direção que a conversa tá tomando!? Como chegou nessa situação!? Alguém, me ajuda! Help me!
Como se minha oração tivesse sido ouvida, um som de chamada tocou do smartphone no bolso. Aliviado por isso, tirei o aparelho, e era da Mestra da Guilda, Relisha-san.
— Alô, alô.
— Perdão por incomodar em horário ocupado. Na verdade, a Guilda fronteiriça do Reino de Lyle observou sinais de aparição de um grande número de Phrase, mais de mil. Não parece haver espécie superior, mas a quantidade é grande, e, além disso, o horário previsto de aparição é daqui a três horas.
— Três horas!? De novo cedo, hein…
Até agora, mesmo no mais rápido, sempre tinha pelo menos um dia de margem… Será que isso também é efeito de algo relacionado à barreira do mundo?
— Nessa situação, não dá pra evacuar nem reforçar, então só resta pedir ajuda a Vossa Majestade Príncipe… Claro, já temos autorização do Rei de Lyle.
— Entendido. Manda a posição exata em anexo por e-mail. Vamos mandar a Ordem de Cavaleiros também.
— Muito agradecida.
Desliguei a ligação. Todo mundo, que até agora discutia se dormir junto ou não, ficou quieto diante da minha expressão, olhando na minha direção. Parece que aquele assunto de antes ficou esquecido, de alguma forma. Que ironia, o Deus salvador ser justamente os Phrase.
Reuni todo mundo da Ordem de Cavaleiros presente no campo de treino e passei a situação.
— Detectada aparição de Phrase na fronteira do Reino de Lyle. Quantidade, alguns milhares. Aparição prevista pra daqui a três horas. A Ordem de Cavaleiros de Brunhild parte agora rumo ao Reino de Lyle pra extermínio dos Phrase. Avisem também quem estiver disponível; em uma hora, com tudo pronto, reunião na frente do dormitório da Ordem de Cavaleiros!
— «« «« SIM!! »» »»
Todos da Ordem de Cavaleiros saíram correndo, cada um em direção diferente. Pra buscar o próprio equipamento, ou chamar de volta colegas que estavam fora de serviço.
Eu também repassei a situação por telefone pra capitã Rain-san, e pras vice-capitãs Nicola-san e Norn-san. E também preciso pedir pro velho Baba e pro velho Yamagata cuidarem da retaguarda. Preciso me apressar.
— Que trabalheira, hein.
— De fato. Bom, isso também é pra proteger o mundo. Vou fazer valer a pena.
Diante da fala da Yumina, disse algo meio impróprio pro meu jeito, e olhei pro céu.
Aconteceu muita coisa desde que vim pra este mundo. Sinceramente, acho que é um mundo mais duro de viver do que o mundo anterior.
Mesmo assim, gosto deste mundo onde todo mundo importante pra mim vive. Por isso, luto e protejo. Só isso.
— Certo, vamos.
Diante da minha fala, todos assentiram.
Quando cheguei neste mundo, só tinha o smartphone no bolso. Mas, agora, tenho tantos aliados confiáveis assim ao meu lado.
Daqui pra frente, com certeza vão acontecer várias coisas ainda. Mas, com todo mundo, tenho certeza de que consigo superar. Com certeza, sim.
Convicto disso, abri o [Gate] rumo a Babylon.