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Isekai wa Smartphone to Tomo ni – Capítulo 247

A Confissão e "Ela"

Capítulo 247 – A Confissão e “Ela”

— Bom, por onde eu começo, hein.

— Conta tudo. Só o que puder contar, já serve.

Bebendo o chá preparado pela Lapis-san, num cômodo do castelo, o Ende murmurou. Ao lado dele, sentada, com o capuz já removido, estava a Rise, mulher espécie dominante, bebendo chá aos poucos, do mesmo jeito de quando bebia no bar.

Neste cômodo, só estou eu. Não é que evitei os outros de propósito, mas achei melhor confirmar a situação sozinho primeiro. Sendo assunto tão sério assim.

— Mesmo assim, se for contar tudo, vai ficar longo, viu.

— Então eu pergunto primeiro. Aquela ao seu lado… Rise, né. Essa garota é espécie dominante?

— Isso mesmo.

Bebendo o chá, o Ende admitiu com naturalidade.

— Espécie dominante é a espécie superior de Phrase, sem engano nenhum, né?

— Isso mesmo. Inferior, médio, superior, e espécie dominante, e, acima disso, o "Rei". Espécie dominante, como o nome diz, comanda espécies subordinadas, tem inteligência, e também sentimento. …Bom, tem alguns que não expressam tanto o sentimento pra fora.

Percebendo meu olhar voltado pra Rise, o Ende respondeu com um sorriso amargo.

— Confirmando de novo… essa garota não é "inimiga", né?

— Depende do que você considera "inimigo". Se o Touya e os outros pretendem eliminar o "Rei", então nós viramos "inimigos".

Com um brilho levemente afiado, o Ende me encarou diretamente.

— O Ende não é Phrase mesmo, né?

— Talvez já tenha dito antes, mas eu sou um "andarilho de mundos". "Viajante interdimensional", "Shift Walker", "forasteiro" — tem vários nomes diferentes. O mundo onde nasci fica num nível superior a este. Bom, só que tenho a habilidade de transitar entre mundos abaixo desse, não é onipotência nenhuma.

Andarilho interdimensional. Alguém com habilidade de percorrer vários mundos diferentes. Parece que só consegue transitar por mundos abaixo do próprio… o que significa que, talvez, ele consiga chegar até a Terra, o mundo de onde eu vim.

— Enquanto percorria vários mundos, cheguei a certo mundo. Lá era o mundo dos Phrase, algo tipo o "Mundo Cristalino", digamos. Lá, encontrei o "Rei". Bom, "Rei" é mais um título mesmo, já que "ela" é do gênero feminino, talvez devesse dizer "Rainha".

Então o "Rei" dos Phrase era mulher, hein…

— Conversamos sobre várias coisas. Isso, durante muitos e muitos anos. Com o tempo, "ela" passou a desejar viver junto comigo. Eu também desejava a mesma coisa, ficar junto de "ela". Mas nós, "andarilhos de mundos", não desejamos ficar presos a um único mundo. Isso é exatamente o karma que carregamos, o que nos define como o que somos. Mas "ela" não desistiu. Gênio existe em qualquer mundo… "ela" acabou criando. O "método pra alcançar a condição de ser capaz de transitar entre mundos".

Parece que, mesmo sendo mundo de camada inferior, isso não significa que as pessoas de lá sejam necessariamente inferiores. De fato, no nosso mundo, a tecnologia científica se desenvolveu, mas a tecnologia mágica deste mundo não é inferior a isso. Não existe substituto pra magia de cura capaz de curar ferimento num instante, afinal.

Mesmo assim, método pra atravessar entre mundos, hein…

— Se não me engano, era transformar a si mesma no estado de "núcleo", atravessar a barreira do mundo, absorver aos poucos poder das formas de vida daquele mundo, e subir pro mundo acima… era isso?

— Isso. Se "ela" chegasse a um mesmo nível de existência que o meu, "ela" se tornaria um ser igual a mim. Poderíamos viver juntos. Foi assim que "ela" pensou.

O Ende falou isso com uma expressão levemente pesarosa. Sabendo ou não disso, ao lado dele, a Rise parecia ter gostado do biscoito feito pela Lu, comendo aos poucos, como quem saboreia. Parece esquilo. Será hábito dela comer e beber aos poucos, tanto na bebida do bar quanto no chá?

Por ora, deixei isso de lado e voltei o olhar pro Ende.

— Claro, os outros espécies dominantes levantaram voz de oposição. A que mais se opôs foi aquela mulher espécie dominante que o Touya encontrou outro dia, chamada Nei…

— Endymion, você encontrou a Nei?

Parando de morder o biscoito, a Rise, ao lado, interrompeu.

— Ué? Ah, sim. Ela parecia bem.

— Entendi.

Só isso, e a Rise voltou a morder o biscoito. Será que se conhecem? Como ela não mostra expressão, é difícil ler o sentimento.

— Depois disso, fui atacado pelo tal espécie dominante Gira.

— Gira? Ah, ele é um oportunista típico. Um dos que tenta absorver o poder de "ela".

Isso dá pra ver pela cara dele. Parecia um cara arrogante que gosta de causar confusão.

— Voltando ao assunto, quase todos os espécies dominantes se opuseram a "ela" atravessar mundos. Os motivos variavam. Quem se preocupava com "ela", quem queria manter o poder dela retido, e quem visava o poder dela. O poder do "Rei" concede força a todos os Phrase. Se o "Rei" desaparecesse, os Phrase perderiam força. Era isso que temiam. Mas, se o "Rei" desaparecer e surgir alguém reconhecido por todos os Phrase, essa pessoa vira o novo "Rei". Mesmo não tendo o mesmo poder que "ela". "Ela" desejava isso, e partiu comigo, deixando o mundo dos Phrase.

— Parece uma fuga de amantes cujos pais se opuseram ao casamento.

Ao falar o que pensei, o Ende abriu a boca com um sorriso amargo.

— Bem dito, mas não vou negar. Não fui eu quem levou "ela" embora, foi um desejo de nós dois. Depois disso, subimos os mundos com tranquilidade, por um tempo. Enquanto "ela" ficava no estado de núcleo, presa a um mundo, eu percorria aquele mundo, e, assim que "ela" partia pro próximo mundo, eu me teletransportava do mesmo jeito. Só nesse breve momento de transição, saindo de uma forma de vida, consigo sentir "ela". Seguindo esse rastro, eu também me teletransportava. Mas, uma vez, algo inacreditável aconteceu. Phrase invadiu o mundo onde estávamos.

— Pera aí, então isso significa que os Phrase também conseguiram o poder de atravessar mundos?

— Isso. "Ela" tinha pensado em vários métodos de atravessar mundos. Entre eles, o mais simples é romper a "barreira do mundo" e invadir à força o mundo de destino. Mas nem eu nem "ela" usamos esse método. Um mundo cuja "barreira" foi destruída fica completamente desprotegido. Queríamos evitar, se possível, colocar em risco outros mundos por causa do nosso próprio objetivo. Por isso, "ela" escolheu virar "núcleo" num estado de morte aparente e atravessar o mundo silenciosamente. Mas os outros Phrase usaram esse método que "ela" deixou pra trás, e nos perseguiram.

De alguma forma, imaginei na cabeça a cena do Ende, fugido com a filha de um chefão da máfia, sendo perseguido pelos capangas do pai dela.

Claro, nessa história, se fosse pego, deixando a filha de lado, o Ende levaria um tiro fatal.

— Naquele mundo, "ela" atravessou pro próximo mundo antes de ser encontrada, então não chegou a ser descoberta. Mas aquele mundo acabou completamente destruído. Foi aí que conheci a Rise, e ela me contou como os Phrase remanescentes agiram. Desde então, virou uma perseguição por vários mundos.

— O Ende consegue perceber isso porque tem a capacidade de atravessar mundos, mas, e ela… a Rise, como faz pra atravessar?

Se o Ende tem a capacidade de fazer outras pessoas atravessarem junto, "ela", o "Rei", não precisaria passar pelo trabalho de virar estado de morte aparente.

— Se for uma ou duas pessoas, atravessar mundos junto demora, mas não é impossível. Mas o que "ela", sendo o "Rei", buscava, não era "transferência", e sim "evolução". Pra viver junto comigo, precisava atravessar os mundos um por um.

Entendi. Deve ser algo tipo renascer de Phrase pra outro tipo de existência. Pensando bem, talvez seja parecido comigo.

Só que, no meu caso, teve intervenção de Deus. Se o "Rei" dos Phrase está subindo uma escada em espiral, no meu caso, subi de elevador direto até o último andar.

— Fomos subindo mundo por mundo, mas eles esperavam a oportunidade certa na fenda dimensional. Existem mundos com barreira forte, e mundos com barreira fraca. Aproveitando o momento em que "o Rei" atravessava pra um mundo de barreira fraca, fomos atacados várias vezes. Claro, as pessoas daquele mundo também não se deixavam matar tão facilmente. Teve até raça que conseguiu repelir os Phrase. Bom, eu também ajudei um pouco. Assim, fui repelindo ou atrapalhando os Phrase que nos perseguiam, protegendo "ela", atravessando mundo após mundo. E, alguns milhares de anos atrás, cheguei a este mundo. …E foi aí que aconteceu a grande invasão dos Phrase.

O colapso mundial de 5000 anos atrás, hein. Então o Ende já estava neste mundo desde aquela época mesmo.

— Naquela hora, sinceramente, fiquei desesperado. Se a humanidade deste mundo fosse toda dizimada, "o Rei" acabaria sendo encontrado eventualmente. Eu também lutei, mas, claro, sozinho tem limite. A Rise não me ajudava.

— Eu não tenho intenção de atacar ativamente meus semelhantes. Só quero ver aonde "o Rei" vai chegar.

— É por isso mesmo, viu.

O Ende deu de ombros. Parece que a Rise realmente não tem intenção de participar do combate contra os Phrase.

— Naquela época, a barreira deste mundo estava em farrapos. Bom, foi justamente por isso que quase todos os Phrase transbordaram pra cá. Muitos espécies dominantes invadiram em massa, e alguns humanos que continuavam resistindo, e até os demi-humanos, estavam só à beira da extinção. Como último recurso, cheguei a considerar que, se os Phrase conseguissem o núcleo do "Rei", eu roubaria de volta e fugiria pra outro mundo, escondendo "ela". Mas, num certo momento, a barreira deste mundo começou a se restaurar. Não sei o motivo. Mas, se a barreira deste mundo se restaurasse, teria como agir. Teletransportei todos os espécies dominantes e superiores que estavam aparecidos neste mundo pra fenda dimensional, igual fiz com a Nei outro dia. Graças a isso, perdi força por 5000 anos, e não consegui mais usar a habilidade de transitar entre mundos. Depois que nós nos teletransportamos, parece que as pessoas deste mundo se esforçaram e foram exterminando as espécies inferior e média. E, finalmente, quando recuperei minha força e desci de novo neste mundo, foi quando encontrei o Touya.

Terminando de ouvir o longo relato do Ende, fiquei atônito. Como direi… a escala é grande demais. Nem consigo imaginar por quantos mundos ele passou, e quantos anos e mais anos ele já dedicou nisso.

— Que ironia, hein. Tentando não colocar outros mundos em risco, no fim, acabou empurrando eles pro risco mesmo.

— É verdade. Não vou dar desculpa. Se não tivéssemos vindo pra este mundo, o colapso de 5000 anos atrás não teria acontecido. Nós estamos sacrificando outros mundos pelo nosso próprio egoísmo. Mas não posso desistir a essa altura. Nem "ela" nem eu podemos mais voltar atrás. Por isso, vou lutar mesmo que tenha que enfrentar todos os mundos como inimigos.

Nos olhos do Ende, olhando fixo pra mim, havia um brilho de determinação firme. Dá até pra chamar de teimosia, ou de irresponsabilidade. Egoísta, extremamente egoísta, parece só pensar em si mesmo. Mas, sabendo disso, ele age assim mesmo. Não é algo digno de elogio de forma alguma, mas só a força de vontade dele, isso sim, eu respeito.

— Certo, e aí, ouvindo isso, o que o Touya vai fazer?

— …Sinceramente, na situação atual, não tem muito o que fazer, é o que penso. Se o núcleo do "Rei" cair nas mãos dos Phrase, este mundo também acaba de qualquer jeito, mas, mesmo resolvendo algo com você, isso não muda a situação pra melhor. Claro, também não tenho intenção nenhuma de ser massacrado pelos Phrase sem reagir. Todo Phrase que aparecer, seja superior ou espécie dominante, vou destruir, um atrás do outro. Não importa o que vocês digam.

Falei isso diretamente à outra espécie dominante presente. Diante disso, a Rise abriu a boca.

— Não posso concordar, mas também não tem jeito. Se ambos os lados lutarem com resolução, eu vou ser espectadora.

Ou seja, mesmo que vire guerra total contra os Phrase, a Rise não vai intervir.

— Então você tá dizendo que não tem problema se nós eliminarmos todos os Phrase?

— Originalmente, a culpa é nossa, por atacar outros mundos. Se acabarmos exterminados por isso, esse era o destino dos Phrase mesmo.

Será que a Rise mantém essa postura de não-intervenção justamente pra esse cenário. Pelo menos, enquanto a Rise sobreviver, a espécie Phrase não vai ser extinta.

Mas, sem espécie dominante macho… não, não sei como eles se reproduzem, então não dá pra afirmar nada. Talvez até um só consiga se reproduzir.

Seguindo a Rise, o Ende também abriu a boca.

— Se possível, eu também gostaria que quem tenta mirar "ela" desaparecesse. Pra isso, achei melhor pedir emprestada a força do Touya. E também… isso eu queria perguntar há um tempo, o Touya é mesmo humano deste mundo?

Foi direto ao ponto, hein. Bom, esconder de alguém que atravessa mundos não adiantaria mesmo.

— …De fato, eu também não nasci neste mundo. Mas não tenho poder de atravessar mundos como o Ende, e considero a mim mesmo como pessoa deste mundo.

— Não tem poder de atravessar mundos? Então como… ah, será que foi envolvido num "desastre interdimensional"? Um vagabundo interespacial?

— Bom, mais ou menos isso.

Diante do Ende tratando Deus como "desastre", respondi com um leve sorriso amargo.

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