Capítulo 301 – A Ilha Draclif e o Dragão Prateado
— GOGAAAAAAAAAAAAH!!
Bem na minha frente, o grande dragão de cobre avermelhado dispara um rugido ensurdecedor em direção a nós, em pé na praia de areia.
Mesmo sem precisar perguntar, já dá pra imaginar mais ou menos, mas vou perguntar mesmo assim.
— …O que ele tá dizendo?
— «Bom, resumindo, é 'não atrapalha, senão te mato'.»
A Ruri, em forma de dragãozinho pousada no meu ombro, solta um suspiro de reprovação.
Antes de atravessar pra Ilha Draclif, passamos por uma vila de pescadores próxima.
A intenção era conseguir informação sobre a ilha, mas, antes disso, o objetivo também era invocar a Ruri via magia de invocação.
A invocação em si deu certo, e, ficando feliz de conseguir chamar a Ruri do mundo real, um dragão de cobre avermelhado veio voando de algum lugar e começou a atacar a vila.
Quando eu e a Ruri fomos intervir, não aguentando ver aquilo, ele soltou esse rugido de agora há pouco.
— Esse aí tem algum motivo pra atacar a vila? Humano fez algo de errado?
— «Não, disse que era pra não atrapalhar a diversão dele, então deve ser puro capricho mesmo.»
Diversão, francamente. Assim como o dragão negro que conheci antes, será que dragão tende a desprezar outras espécies? Bom, sendo considerada a espécie mais forte, até entendo, mas…
— Esse aí é jovem, né?
— «Sim. Em termos humanos, seria uns 16 anos. Fase em que sobra energia de força.»
Mesmo assim, não dá pra aguentar ser atacado por diversão sem motivo. Algumas casas queimaram, mas parece que não tem ferido.
— Dá pra falar pra ele voltar quietinho pra ilha?
— «Acho que não adianta, mas…»
Mesmo assim, quando a Ruri fala com o dragão de cobre avermelhado em língua dracônica, "gyaa gyaa", um rugido em volume ainda maior que antes ecoa pela praia, e o dragão dispara fogo da boca em nossa direção.
— [Absorb].
O jato de fogo disparado contra mim, a Ruri, e as Étoile se dissolve no ar ali mesmo, sendo absorvido por mim. A magia nula [Absorb] absorve magia, transformando em energia mágica própria.
O sopro de dragão, com exceção de tipos especiais, geralmente converte energia mágica interna e cospe como magia. Se for isso, dá pra absorver com [Absorb] também.
— Então é sem discussão nenhuma mesmo. Se é assim, também não preciso pegar leve, né?
— «Parece que sim.»
A Ruri voa do meu ombro e volta ao tamanho original. Num instante, um belo dragão brilhante azul-safira se manifesta na praia.
Diante do súbito surgimento do enorme dragão azul, o dragão de cobre avermelhado recua levemente.
— GO, GOGAAAAAAAAAAAAAAAH!!
Rugindo em volume ainda maior, o dragão de cobre avermelhado ameaça de novo, mas a Ruri deixa esse rugido passar com cara tranquila… ou melhor, parece isso, mas a região dos olhos treme um pouco. Ué, será que tá brava?
Suu, inspirando fundo, um sopro de fogo, várias vezes maior que o do dragão de cobre avermelhado, é disparado esplendorosamente da boca da Ruri.
O dragão de cobre avermelhado vira cinza num instante, e o corpo carbonizado desmorona aos pedaços. Ooh, que assustador…
— Não exagerou?
— «Sinceramente, não aguentei mesmo. Insultar meu senhor é audácia demais pra quem ele é.»
Ah, então aquilo há pouco era algum tipo de insulto contra mim, hein. A Ruri finge um jeitão racional e calmo, mas é bem passional. Senão, não brigaria tanto assim com o Kohaku.
Fico feliz que ela fique brava no meu lugar, mas, pensando no que vem depois, fico meio incerto sobre o que fazer…
Bom, não adianta ficar preocupado. A vila quase foi queimada, então vamos considerar como resolvido.
— Por ora, vamos até a ilha. Se for dragão velho, deve ter algum que entenda de conversa.
— «Concordo. Espero que nem todos os dragões daqui sejam assim.»
Montado nas costas da Ruri já grande, junto com as três Étoile, seguimos rumo à Ilha Draclif.
Voando por um tempo, avisto a ilha ao longe. Aquela deve ser a Ilha Draclif.
Ué, tem bastante dragão voando por lá… e vindo em nossa direção?
Soltando vozes estridentes, "gyaa gyaa", num instante ficamos cercados.
— De qualquer jeito que se olhe, o clima não parece amigável, né…
— «Estão ameaçando. Parecem ser companheiros do dragão de antes. Todos parecem jovens também.»
— Tem representante desta ilha? Se tiver, pode avisar que quero conversar?
— «Como desejar.»
A Ruri solta um rugido em direção aos dragões que cercavam, e os dragões ao redor começam a gritar "gyaa gyaa" de novo. Aah, que barulheira!
— «Estão dizendo 'não vamos deixar você encontrar o dragão ancião, volta, forasteiro!'»
— Realmente gente sem entendimento nenhum mesmo…
Originalmente, a Ruri é a existência no topo da hierarquia dos dragões. Mas, por ter ficado tanto tempo sem se manifestar neste mundo, parece que a existência dela foi esquecida. Já é raro fera divina se manifestar do Mundo dos Espíritos, e, ainda por cima, neste mundo com magia pouco desenvolvida, provavelmente nunca foi invocada.
Mesmo assim, se for dragão velho, deveria conhecer essa existência, mas, antes disso, ser atrapalhado por esses jovens assim, hein.
— «O que fazemos?»
— Por ora, velocidade máxima pra ilha. Vamos encontrar à força.
— «Entendido.»
Voando de novo, a Ruri recebe vários tipos de sopro — fogo, bola de fogo, bloco de gelo, descarga elétrica. Vou anulando tudo com [Absorb], um atrás do outro, e a Ruri pousa na ilha.
Assim que pousamos, vários dragões tipo Tiranossauro, em bando, atacam a gente. Dragão que não voa, tipo dragão terrestre, é isso.
— Trava alvo. [Gravity].
Do smartphone no bolso, com [Multiple], travo os alvos dos dragões terrestres, e a magia de peso explode.
— GUGYAAAH!
Soltando um grito tipo esmagado, os dragões terrestres desabam no chão. Não apliquei peso o suficiente pra matar. Fiquem quietinhos aí por um tempo.
Enquanto eu lidava com os dragões terrestres, um grande dragão pousa na frente da Ruri. Corpo inteiro verde, com espinhos afiados nas costas, ombros e até no rabo. Aquele deve ser um dragão-espinho, se não me engano? Já vi em livro na sala de leitura da Guilda.
Mas que grande, hein. Maior que a Ruri.
— GURUOOAAAAAAAAH!!
— GAAAAAAAAAAAH!!
A Ruri responde do mesmo jeito ao rugido do dragão-espinho. Por isso que meu ouvido fica zunindo, francamente…
O dragão-espinho começa a inspirar. Sopro de dragão. Como se aceitasse o desafio, a Ruri também toma postura de sopro.
Ao mesmo tempo, um sopro escaldante é disparado dos dois. O sopro colidindo no meio dos dois mantém o equilíbrio por um instante só, mas logo o dragão-espinho perde força, sendo queimado pelo sopro da Ruri.
Soltando fumaça, o dragão-espinho também desaba no local.
— Esse aí é dragão velho?
— «Não, é mais jovem que o que virou cinzas agora há pouco. Estava nos xingando muito.»
Dragão jovem, francamente. Não dá pra julgar pela aparência mesmo. Não é que ser grande signifique idade avançada.
Hm?
No fundo da ilha, da montanha central, mais um dragão vem em nossa direção. Vendo isso, os outros dragões que gritavam no céu param de repente.
— Hee…
Vendo o dragão que se aproxima aos poucos, solto uma exclamação sem querer. Sem dúvida, aquele deve ser dragão velho, ou talvez até dragão ancião.
Pousando suave e elegante na nossa frente, esse dragão era um brilhante dragão prateado.
— «Diante de Vossa Majestade o Imperador Azul, esta manifestação me deixa muitíssimo feliz.»
Falando fluentemente em língua humana, o dragão prateado curva a cabeça. Vendo essa cena, os outros dragões ao redor pousam todos de uma vez, prostrando o corpo no chão.
— «Meu nome já não é mais Imperador Azul. Podem me chamar pelo novo nome, Ruri. É o nome que meu senhor, aqui presente, Mochizuki Touya-sama, me deu.»
Ouvindo essas palavras, os olhos do dragão prateado se arregalam por um instante, mas logo ele também curva a cabeça em minha direção, do mesmo jeito.
— «Peço desculpa pela grosseria desta ocasião…»
— Ah, bom, tudo bem. Você é o dragão que administra esta ilha?
— «Sim. Sou eu quem governa esta ilha. Peço desculpa por não conseguir impedir a arrogância dos jovens dragões…»
Hm? Que estranho. Esse dragão prateado, sem energia. Aliás, quando veio voando agora há pouco, também foi bem devagar, hein. Será que tá doente de alguma coisa? Será que por causa disso ele não consegue controlar os dragões da ilha?
De relance, olho pro rabo do dragão prateado, e, perto da ponta, tem uma ferida descolorida em roxo. Mais que isso, no rabo inteiro, dá pra ver pequenas manchas roxas.
— Esse rabo?
— «…É vergonhoso admitir, mas, há uns 200 anos, um humano que operava boneco mecânico deixou esse ferimento, que virou maldição, e ainda hoje corrói meu corpo. Cheguei a pensar em arrancar o próprio rabo com os dentes, mas, achando melhor isso do que virar incapaz de voar…»
O dragão prateado baixa ainda mais a cabeça, fechando os olhos. Como assim, ficar incapaz de voar?
— Se cortar o rabo, fica incapaz de voar?
— «Fica impossível manter o equilíbrio durante o voo. Dragão que não voa é igual a dragão terrestre. Dragão terrestre tem a força das pernas pra compensar isso, mas espécie voadora não tem isso. Nem voar no céu, nem correr na terra. Isso já não pode ser chamado de dragão.»
Entendi. Mas fazer isso com um dragão, francamente… boneco mecânico deve ser golem, né. Golem capaz de enfrentar dragão…
— Esse golem… boneco mecânico, de que cor era?
— «Roxo, mas… por quê?»
Roxo, é. "Coroa" roxo, Fanatic Viola. Será aquele? Há 200 anos, a mestra não deve ser a Luna.
Não, deve ter outro golem roxo também. Não é que já esteja decidido que seja um "Coroa". E, mesmo que tenha sido a Viola quem causou o ferimento, não tem nada a ver comigo.
— Por ora, vou curar. Não se mexe, viu?
— «Hã?»
Vou até o rabo dele e olho o ferimento. Provavelmente, isso é maldição de veneno. Normalmente, seria fatal na hora, mas aguentar 200 anos deve ser vitalidade de dragão mesmo. Por ora, vamos eliminar o veneno.
— [Recovery].
Ao tocar o rabo e ativar a magia, num instante as manchas roxas desaparecem, e as belas escamas recuperam o brilho prateado.
— [Luz, venha, cura da deusa, [Mega Heal]].
Com magia de cura, curo completamente também o ferimento do rabo.
— «Ooh… força correndo pelo corpo todo…! Sinto uma disposição refrescante, como se tivesse rejuvenescido!»
O dragão prateado solta um rugido tipo grito de guerra em direção ao céu. Seguindo isso, os outros dragões também levantam a voz em direção ao céu, um atrás do outro.
Já ouvi uivo de cachorro antes, mas o de dragão tem escala grande demais. Dá até pra sentir o ar tremendo.
— Barulhento demais…!
— «Estão louvando meu senhor. Perdão.»
Vem a comunicação mental da Ruri. Sendo assim, só me resta calar a boca mesmo.
Depois de ouvir o uivo dos dragões por um tempo, o dragão prateado finalmente curva a cabeça na minha frente.
— «Mochizuki Touya-sama. Não sei como agradecer o suficiente por isso. Existe algo que possamos fazer por vocês?»
— Não precisa se preocupar não, mas tenho um pedido pequeno. Queria pedir emprestado um pedacinho de terra desta ilha. Quero construir uma casa aqui.
— «Isso é bem fácil de atender. Que tal ali, na meia encosta da montanha? Dá pra ver a ilha inteira.»
Hmm, isso é ótimo. Então vamos até lá, guiado por ele.
Diferente de antes, o dragão prateado bate as asas com força e voa pelo céu. Guiados por ele, montamos na Ruri e chegamos até a meia encosta da montanha.
Aí, o dragão prateado emite um brilho ofuscante e vai mudando de forma aos poucos. E, quando a luz se apaga, ali estava em pé um jovem de cabelo prateado comprido até a cintura.
Da cabeça, cresce chifre, e a pele tem um pouco de padrão de escama, dando jeitão de dragonoide. A roupa é calça e camisa cinza simples, com um casaco discreto por cima. Bem bonito. Kuh, não que isso me irrite, viu.
— Que surpresa. Consegue virar humano…
— «Sim. Originalmente, nós, dragões prateados, gostamos do mundo dos humanos, por isso temos essa habilidade.»
— A Ruri não consegue?
— «Não preciso disso. A espécie do dragão prateado é excêntrica mesmo.»
Dizendo isso, a Ruri volta a virar dragãozinho de novo, "pon!". Se essa também é uma técnica de transformação, será que ela não consegue virar humano, ou consegue mas escolhe não fazer?
De qualquer forma, a Ruri e o pessoal parecem ter orgulho dessa forma, então deve ser desnecessário mesmo.
— De fato, esse lugar é bom mesmo. Dá pra ver a ilha inteira, e a vista é ótima.
— «Pi.»
A Ruby imita o que eu faço, olhando ao redor. Seguindo isso, a Safa e a Emera também começam a olhar ao redor do mesmo jeito. Será que gostaram?
— Certo, então primeiro vamos nivelar o terreno.
Usando magia de terra, transformo a encosta em superfície plana, e endureço o solo pra fazer a base. Se isso não ficar firme, tenho medo de desmoronamento de montanha.
Depois de nivelar bem o terreno, faço surgir do [Storage] uma mansão.
— Ooh…
— «Pi» «Po» «Pa»
Enquanto o dragão prateado se surpreende, a Ruby e o pessoal prestam atenção na mansão que surgiu de repente. Será que estão surpresas também?
Essa mansão eu já tinha comprado de antemão, no mundo real. Originalmente, era propriedade de um nobre do Império de Regulus, mas, como ele precisou se desfazer dela, comprei barato.
Instalo a mansão no terreno nivelado, e, de novo, com [Modeling], firmo bem o solo. O jardim tá sem graça, mas vou plantar grama depois, por ora vou deixar passar.
— Tá tudo bem outras pessoas entrarem e saírem dessa mansão por teletransporte? Claro, não pretendo causar transtorno aos dragões da ilha.
— «Sem problema. Vou avisar bem os moradores daqui pra nunca interferirem.»
O dragão prateado promete isso, mas, por precaução, aplico uma barreira de proteção no perímetro da mansão. Não dá pra garantir que não exista dragão idiota por aí.
No centro do jardim, instalo o portão dimensional Marca 2 tirado do [Storage]. Na verdade, pensei em instalar no porão, mas, sendo esta ilha, sem olhar curioso nenhum, não deve ter problema.
…Pensando bem, sem olhar curioso, será que nem precisava da mansão pra disfarce mesmo? Podia ter só colocado o portão sozinho.
…Bom, tanto faz, precisa de um lugar pra relaxar também.
Agora, falta deixar a Ruby e o pessoal administrando essa mansão… deixar, é? Ainda deve ser impossível. E, além disso, primeiro preciso levar elas até a Doutora.
— Hmm… não posso trazer o Reim-san pra este mundo, né…
Nosso super-mordomo devia dar conta sem problema. E, sinceramente, seria uma perda ele desaparecer do mundo real.
— «Se for isso, acho que dá pra deixar aos cuidados deste dragão prateado. Esses aqui, raramente pra dragão, entendem bem do mundo humano, então têm conhecimento básico geral.»
— Sério?
— «Sim. De vez em quando, viram humano assim e vão à cidade observar a vida das pessoas, com frequência…»
Parece que a espécie do dragão prateado é curiosa demais mesmo. A capacidade de se transformar em humano também deve ser fruto dessa curiosidade. Será que foi fazendo esse tipo de coisa que ele acabou amaldiçoado pelo "Coroa" roxo…
— Se é assim, será que dá pra pedir isso a você? Pode usar a mansão à vontade. Móvel, comida, tudo que achar necessário, pode providenciar.
— Sim, entendido. Sempre quis experimentar morar numa casa humana assim, então tô ansioso.
Tiro do [Storage] uma quantia de dinheiro reunida e entrego ao dragão prateado. Peço pra usar isso pra comprar mobília e várias coisas. Também entrego um tapete mágico pra locomoção. Não deve dar pra voar até a cidade em forma de dragão, afinal.
— Ué? Aliás, dragão prateado é nome de espécie, né. Não tem nome próprio?
— Não tenho. Se possível, seria uma alegria enorme se Touya-sama me desse um, igual fez com a Ruri-sama…
Dragão prateado… prata, hein. "Silva" foi nome que, se não me engano, a Yumina já deu pro espírito invocado dela.
Dragão com o mesmo nome que lobo, não deve gostar disso.
— Que tal Shirogane… Byakugin? Nome que usei antigamente, mas.
— Receber um nome desses… muito obrigado. Doravante, por favor, me chame de Byakugin.
O dragão prateado, agora Byakugin, curva a cabeça. O nome do "Guerreiro de Armadura Prateada" cedo a ele.
Certo, por ora, a missão no mundo sombrio já dá pra dizer que chegou numa pausa.
— Então, por ora, vamos voltar. Eventualmente, vou trazer meus companheiros de novo, conto com você aí.
— Sim. Vou aguardar ansioso.
Byakugin curva a cabeça respeitosamente. Os movimentos combinam bem mesmo, hein. Quase dá pra duvidar que ele é dragão de verdade.
Injeto energia mágica pra ativar o portão dimensional Marca 2 instalado no jardim. Preciso preparar um tanque de energia mágica pra esse lado também.
Comparado ao portão dimensional original da Ilha Parelius, o medidor fica cheio com uma quantidade muito menor.
Nem a Ruri nem a Ruby e o pessoal devem passar de 50kg, então não deve ter problema pra atravessar.
Atravessamos o portão conectado, e voltamos em segurança pro Jardim Suspenso da Babylon.