Capítulo 311 – O Interlúdio e os Vários Propósitos
— E aí?
— O som ressonante da vida parou. Parece que perdeu.
— Ché. Faz sentido, sendo alguém que derrotou até o Gira mesmo.
Na fenda espaço-temporal. Nesse espaço vazio, isolado do mundo, esses dois estavam de pé.
Um menino. Uma menina. Os dois eram bem parecidos, mas não exatamente irmãos. Digamos, cópia. Metade um do outro. Um outro eu mesmo.
Um caso raro de espécie dominante de núcleo duplo.
Espécie dominante nasce no estado de núcleo. Passando por evolução cristalina repetida ao longo de muito tempo, desperta como um indivíduo só. Por isso, não existe infância pra eles. Desde o momento em que despertam, já são indivíduos com uma personalidade só.
No caso de espécie dominante, nascer com dois núcleos é algo raro. Normalmente, mantendo os dois núcleos hospedados enquanto continua a evolução cristalina, desperta como um indivíduo só, portando dois núcleos.
Que, durante o crescimento, o corpo se divida em dois, virando duas personalidades separadas, é algo extremamente raro.
Os dois têm o cabelo cristalizado cobrindo metade do rosto. Na menina, o direito; no menino, o esquerdo. O olho que não fica escondido pelo cabelo, nos dois, é dourado.
Fora isso, as outras partes do rosto são bem parecidas. Fisicamente, a menina tem um corpo mais arredondado, com o peito razoavelmente desenvolvido também.
— Da próxima vez que a barreira rachar, que tal a gente mesmo sair de vez, Reto?
— Não pode, Ruto. Ainda não é nossa hora. E, se fizer algo por conta própria, o Yura vai reclamar, viu?
A menina, espécie dominante, rejeita a ideia repentina do irmão mais novo (já que os dois insistem que são o irmão/irmã mais velha, na percepção dela, ao menos).
O nome da menina é Reto. O nome do menino é Ruto. Sendo espécie dominante, eles têm uma parte claramente diferente das outras espécies dominantes.
A parte cristalizada do corpo é dourado-escura. Isso é a prova de terem evoluído da espécie que é "dominante" pra um estágio ainda mais acima.
— Francamente… até quando vamos ficar aqui parados assim, hein?
O Ruto olha pra trás, pro casulo gigante em formato de ovo, flutuando na escuridão atrás deles. De vez em quando, feito batida de coração, ecoa um som ressonante agudo.
De repente, os dois sentem uma leve distorção no espaço.
— Ara? Que visita rara, hein.
A Reto fala em direção à escuridão dessa dimensão diferente. Da escuridão, surge uma espécie dominante.
Cabelo longo cristalizado, olhos vermelhos intensos. Espécie dominante tipo feminino, alta. Nei.
Existência que poderia ser considerada líder da facção "Reconstrucionista", que quer recuperar o "Rei" dos Phrase.
Encarando os núcleos duplos, que sorriam com desdém, com os olhos vermelhos transbordando de raiva.
— Vocês… fizeram algo por conta própria de novo, né? Por que mandaram o "dourado" pra aquele lugar!
— Ara, será que precisamos de aprovação de vocês? Já não estamos separados?
A Reto ri debochada, como se zombasse. Ao lado dela, o Ruto também sorria maroto.
— Diferente de vocês, já não damos a mínima pro núcleo do "Rei". Conseguimos ficar fortes sem precisar disso.
— Já disse que meu objetivo não é o poder do "Rei"!
— Então por que atravessou mundos em vez de servir ao novo "Rei"? Mesmo com poder fraco, "Rei" é "Rei". Podia ter ficado no mundo cristalino e apoiado ele.
— Isso é… !
A Nei fica sem resposta. Pra ela, o único "Rei" possível é "ela". Aceitar um novo "Rei" significaria abandonar "ela". Só isso, ela não conseguiria fazer.
Por isso, aceitou o discurso doce do Yura, e atravessou mundos usando o método que ele criou. Sem o poder de várias espécies dominantes, não é possível atravessar mundos. Por isso, ele e ela mantinham não-interferência mútua.
Ela já percebia que o objetivo do Yura e do Gira era o núcleo do "Rei", mas, sem o poder deles, também não conseguiria perseguir o "Rei". Já rangeu os dentes várias vezes por causa desse dilema.
Quem quer trazer o "Rei" de volta, e quem quer virar o "Rei". De qualquer forma, era óbvio que, ao encontrar o núcleo do "Rei", eles acabariam rompendo relações.
Mas, de repente, o Yura passou a agir de forma inexplicável. Obteve um poder misterioso de algum lugar, e começou a criar novos Phrase. Aquilo já não era algo que pudesse ser chamado de companheiro.
Parece que o objetivo do Yura se desviou do "Rei". Isso em si deveria ser motivo de alegria, mas não dá pra ficar quieta vendo, sem fazer nada, a espécie Phrase sendo corroída dessa forma.
— Bom, o que você faz com o "Rei" já não tem nada a ver com a gente, viu. O Yura também não parece ter interesse. Ah, se der de comer o núcleo do "Rei" pro ovo, será que ele eclode mais rápido?
— Seu desgraçado!
A mão da Nei se estende em direção ao Ruto, que ria "kerakera". A Reto, que estava na frente, segura firme essa mão.
— Já tava enjoada faz tempo do seu fanatismo pelo "Rei", viu. A gente já não é companheiro seu, então não precisa se conter mais, né? …Será que posso te devorar?
A mão da Reto, segurando a mão esquerda da Nei, começa a corroer a adversária. O pulso da Nei já começa a se fundir com a mão da Reto, ficando incapaz de mover a partir do pulso, perdendo a sensibilidade.
O brilho dourado-escuro sobe pelo braço. A Nei imediatamente corta o próprio braço esquerdo pelo cotovelo com a mão-espada direita.
Salta pra trás, criando distância entre ela e os dois.
— Ara, deixou de comer no meio, que pena.
Mantendo fundida a mão esquerda decepada da Nei, a Reto balança "purapura". Eventualmente, dissolvendo devagar, a mão esquerda a partir do cotovelo da Nei é absorvida pelo corpo da Reto.
— Kuh…
A Nei regenera imediatamente a mão esquerda decepada, e salta pra dentro da escuridão dimensional.
Aquilo é o poder de "corrosão" que o Yura deu aos núcleos duplos. Habilidade extraordinária e temível — absorver Phrase, transformando em poder próprio. Provavelmente, isso funciona não só em espécie superior, mas também em espécie dominante. Se for corroído, só resta cortar antes que o "núcleo" seja devorado.
Dessa vez foi corrosão pela mão, mas, se fosse corrosão perto do "núcleo", a Nei sente um medo genuíno só de pensar.
O Ruto tenta perseguir a Nei que desapareceu na escuridão, mas a Reto o impede.
— Deixa quieta. De qualquer forma, ela não consegue fazer nada mesmo. A gente só precisa vigiar isso aqui, como foi combinado.
— Ché. Aah. Aqui é tedioso demais, hein. Será que não aparece de novo alguém tipo aquele de outro dia.
O Ruto diz isso e se deita de lado.
— Aquele, quer dizer, o Endymion?
— Ah. Ele até serviu pra matar o tédio, né? Bom, machucamos ele tanto que nem sei se ainda tá vivo.
Com um sorriso maldoso, o Ruto murmura isso. Mesmo dizendo "não sei", a Reto sabe que o Ruto tem "certeza" de que aquele homem, quase morto, continua vivo. Entre os núcleos duplos, esconder segredo um do outro não tem sentido nenhum.
O aparecimento da Nei até divertiu um pouco, mas só isso mesmo. Deve continuar um tempo tedioso de novo.
Combinando entre si misturar um "dourado" diferenciado, da próxima vez que os Phrase encontrarem uma rachadura na barreira e tentarem surgir "do outro lado", os dois trocam risadas contidas.
— Hmm… isso pode ser um pouco grave, hein…
No Mundo dos Deuses. Na sala de quatro tatames e meio de sempre, o Deus do Mundo encarava, gemendo, a imagem projetada na televisão de quatro pernas à frente.
— Por isso, cara. Já não dá mais, não é? Melhor cortar as perdas logo, senão isso também vai acabar afetando outros mundos. Se eu der um golpe bem forte, resolve, né?
Atrás do Deus do Mundo, cotovelo apoiado na mesinha baixa, um homem que roía biscoito de arroz "boriboli" fala.
Idade aparenta uns 60 e poucos, mas o corpo bem trabalhado tinha músculo saliente feito aço. Esse homem de olhos e cabelo pretos, com barba, bebe o chá do copo "zuzuu", fazendo som, e volta a roer biscoito.
— Esse seu "não dá mais" quer dizer "acabar" com este mundo, né?
— Óbvio, esse é o trabalho do deus da destruição.
Sem se envergonhar nem um pouco, o deus da destruição abre a boca.
Existem vários tipos de mundo sob a gestão dos deuses. Raramente, existe mundo que sai do objeto de proteção, e destruir esse tipo de mundo é o papel do deus da destruição.
Exercer poder divino no mundo terreno, basicamente, não é feito com frequência. Exceção seria subordinado divino, ou novo deus sem tanto poder assim, mas o deus da destruição é uma existência especial, que usa poder divino justamente pra destruir mundos.
Mas, a menos que aconteça algo grave, mundo não sai da proteção divina. Por isso, o trabalho do deus da destruição também é limitado.
O fato de esse deus da destruição estar visitando o Deus do Mundo significa que aconteceu "algo grave".
— Do jeito que tá indo, na pior das hipóteses, esse mundo vai sair da sua mão. Bom, tanto faz isso, mas, antes disso, não seria melhor destruir logo, evitando complicação?
— Sei disso, mas… aqui tem o Touya-kun, sabe… aquele lá.
— Touya? Ah, o novo deus que o vovô transformou em subordinado. Vai deixar pra ele resolver? Não é fardo pesado demais?
O deus da destruição franze a testa. Num mundo instável, não dá pra saber o que pode acontecer. Deixar isso a cargo de um novo deus talvez seja um pouco duro demais. Ainda mais um deus sem cargo nenhum, ou melhor, um deus-aprendiz.
— Provavelmente vai ficar tudo bem. Se der certo, acho que esse mundo deixa de sair da minha mão, e você nem precisa destruir.
— Tá confiando bastante nele, hein. Bom, se você diz isso, tudo bem. Mas será que tá tudo bem mesmo, esses dois mundos?
O deus da destruição olha, por cima do ombro do Deus do Mundo, pra televisão. Lá, dois mundos estavam alinhados feito espelho, mas dava pra ver a parte que separa o centro distorcida.
— O deus maligno nasceu, né?
— Absorveu um deus subordinado, né. Caso raro, mas não impossível.
— "Devorador de deus", é.
Bari, o deus da destruição quebra o biscoito com os dentes.
— Originalmente, seria caso de mandar artefato divino ou anjo pro plano terreno, mas, por coincidência, foi justamente onde eu tinha mandado o Touya-kun, então decidi deixar a cargo dele.
Yokkorase, o Deus do Mundo senta na almofada.
— Considerando isso, tá com bastante gente de vigia lá em baixo, hein.
— Incluindo a folga delas, de dezenas de milhares de anos. Eu também desci, e foi bem divertido.
— Que isso, hein, parece divertido mesmo. Eu também desço, quem sabe.
— Não vai. Se você descer no plano terreno, o mundo é destruído.
Não é figura de linguagem nenhuma, é fato mesmo que isso aconteceria, então o Deus do Mundo intervém pra impedir a ideia repentina do deus da destruição.
— E aí, o quê? Se esse problema for resolvido sem incidentes, você vai deixar esse mundo a cargo desse tal Touya, é isso?
— Aos poucos, sim. Claro, se ele mesmo recusar, desisto. Ainda é despreparado demais como deus, mas… bom, se treinar uns dois, três mil anos, deve pegar o jeito.
— Espero que eu não acabe destruindo o mundo antes dele assumir.
A distorção entre os dois mundos está gerando mudanças estranhas. Sendo algo feito artificialmente, e não algo pretendido pelos deuses, o deus da destruição considera que destruir tudo de uma vez e reiniciar seria a solução mais eficiente.
— Por ora, vou esperar antes de destruir. Mas acho melhor isolar esses mundos e explicar a situação pro tal Touya.
— De fato… vou conversar aproveitando alguma oportunidade. Ainda quero observar mais um pouco o desenrolar disso. Talvez a distorção se resolva sem incidente nenhum.
— Duvido, hein.
Os dois deuses sabem que essa probabilidade é bem baixa. O deus da destruição, achando que, se não der certo, basta destruir o mundo e reiniciar, não se opõe especialmente.
Pensando bem, mesmo materializados como humanos, já são seis deuses que desceram. Mais um aprendiz. Reunindo essa quantidade toda, devem dar um jeito.
Deus materializado derrotando deus maligno, dragão maligno ou demônio divino, é algo comum mesmo.
— Mas, quantos milhares de anos fazia que um humano virava deus, hein?
— Sei lá, não lembro. O motivo de virar deus é bem variado, cada caso é diferente.
— O motivo dele ter virado deus ser um descuido seu, acho que é bem raro, viu.
— Cala a boca.
Diante do deus da destruição rindo "gahaha", o Deus do Mundo faz cara amarga.
De fato, acha que aquilo foi um erro impróprio dele mesmo. Mas, chegando nesse ponto, começa a achar que aquilo também foi um tipo de destino. O Deus do Mundo acha bom ter conhecido o Mochizuki Touya, um garoto quase como neto dele.
— Aliás, ultimamente não vejo o deus da guerra por aí, onde ele andou se metendo?
— Ah, parece que encontrou um discípulo promissor, sabe…
Os dois deuses começam papo informal, cara a cara na mesinha baixa. Atrás deles, na tela da televisão, no meio dos dois mundos, algo tipo distorção gira devagar em espiral, como se algo estivesse prestes a sair de dentro dela…