Capítulo 42 – O Chifre do Dragão e o Observador
— Aah, que cansaço.
Me jogo na relva e me espicho de braços abertos. O sol que nasce a leste cega. Já é de manhã.
Depois de derrotar o dragão negro, a gente se desdobrou pela vila. A Lindsey saiu apagando os incêndios com magia de água; a Elsie e a Yae procuraram pela vila se não tinha ferido esquecido; e eu fui curando os feridos com magia de cura, sem parar. (Aliás, depois me dei conta de que, buscando "feridos" no mapa e lançando cura, dava pra resolver de uma vez.)
Por sorte não houve mortos, mas a vila está quase arrasada. Estrago imenso……
— Touya, estava aqui.
— Ah, Lion-san, bom trabalho.
O Lion-san vem até mim, caído na relva. Pelo visto a coisa mais ou menos se acalmou. De algum lugar vem o cheiro bom da comida coletiva.
— Mas, abater um dragão só em quatro… Passei do espanto pra estupefação.
— Dizem que aquilo era um dragão jovem, não tão forte. Deve ser por isso.
Às palavras do Lion-san, conto, vago, o que ouvi do dragão vermelho. E aí chega também o Garun-san, o capitão lobo.
— Ô, Touya. Sobre aquele dragão, o que vai fazer?
— Como assim?
— Olha, é material e tanto. Vendido, dá uma grana absurda. Mas como transportar……
— Vender? O cadáver do dragão?
Pelo visto, do dragão, as escamas, garras, chifres, presas, ossos viram material de armas e armaduras; a carne é saborosa e vira alimento; aproveita-se tudo e vende caríssimo.
E o direito sobre isso é nosso, que o abatemos, mas o pessoal disse que deixava comigo. Hmm, deixa eu ver……
— Então, aquilo eu dou ao povo desta vila. Deve ajudar um pouco na reconstrução.
— O dragão?! Inteiro?!
— Touya, você entende? É material valiosíssimo! Em dinheiro, não sai por menos de 10 moedas de ouro real!
Dez moedas de ouro real… hã, mais de 100 milhões de ienes?! Quando eu ia repensar, "foi desperdício mesmo", no meu campo de visão entram os aldeões. Ah, ouviram, né……
— …Se serve pro bem desta vila, não é nada de mais. Por favor, usem.
Sem poder dizer agora "no fim das contas, esquece", respondo aos dois com cara forçada.
— …Em nome de Mismede, eu agradeço. Obrigado, Touya.
— Aah… Como o meu pai disse, você é de grande coração. Tiro o chapéu.
Olhares de gratidão e respeito se voltam pra mim, mas…… não é isso, eu só me fiz de bonzinho, é…… Será que todas me perdoam……
Quando trouxe de volta a Olga-san, a Alma e a Yumina pelo espelho de teletransporte falso, a Olga-san primeiro me agradeceu. Por ter derrotado o dragão e salvado a vila, pelo visto; mas não ter havido mortos foi graças aos soldados de escolta, eu acho.
Eles também, exaustos, cochilavam em volta das carruagens. Sinceramente, eu também queria dormir logo. Como que cortando esse desejo, um velho ferino de bengala se aproxima da gente.
— Sou Solm, o chefe da vila. Por terem derrotado o dragão que atacou a vila e, ainda por cima, por essa imensa ajuda na reconstrução…… muito obrigado.
A "ajuda" deve ser o cadáver do dragão. Foi desperdício mesmo, né… Mas a vila ficou assim, e essa gente vai sofrer daqui pra frente. …Bom, fazer o quê.
O chefe mandou trazerem uma coisa. Um objeto preto, cônico, de uns um metro de comprimento… ah, isto é.
— Este é um dos chifres tirados daquele dragão. Pelo menos este, leve com o senhor.
— Hã, mas……
— Soube que a sua arma se danificou. Com este chifre, dá pra usar de material pra uma arma nova, ou vendê-lo e comprar uma.
Sei. Então fico com ele. Ao receber o chifre do chefe, me espantei com a leveza. E, mesmo assim, a dureza é muito maior que a do aço, dizem. Dá até pra entender como um dragão tão grande consegue voar. Mais duro que isto, só Hihiirokane, Mithril e Oricalco, pelo visto.
Aceito o chifre, agradecido, e me afasto do chefe e companhia.
Sinceramente, eu já estava morto de sono.
Cheguei como pude à nossa carruagem e, ao espiar dentro, a Elsie, a Lindsey e a Yae dormiam.
Como não dá pra eu dormir junto, me deito na relva ao lado da carruagem.
— Touya-san, aceite um cobertor.
E lá vem a Yumina com um cobertor. Bom timing. Resistindo às pálpebras que pesam, agradeço, recebo o cobertor e me embrulho. Quentinho. Não dá mais. E, de olhos fechados, caí no sono.
Quando acordo, vejo o rosto da Yumina contra o céu. Com olhos ainda turvos, fito o rosto da Yumina, que me espia.
— Acordou?
Embaixo da minha cabeça, uma sensação macia. Ué? Este estado é… colo?
Rolo pelo chão e escapo dali. Pera, desde quando estava assim?
Quando me ergo de chofre, os aldeões em volta e os soldados já acordados me lançam olhares mornos e maliciosos. Uaaa…! Que vergonha! Colo de menina na frente de todo mundo! Dizer que não gostei seria mentira, mas a vergonha fala mais alto!
— Ora, parece que acordou.
— …Dormiu bem, hein.
— Estava tão à vontade~.
Arrepio. Sinto um calafrio nas costas e, com medo, viro pra trás. Lá, com sorrisos serenos, as três meninas, paradas em silêncio. O rosto sorri muito gentil, mas os olhos das três não riem. A-ah…? Estão bravas…?
— Ã… aconteceu alguma coisa……?
— Nada não~. — as três.
Mentira. Então por que essa cara de emburradas.
— Pronto, pronto, vamos parar por aí? Par ou ímpar é uma disputa sagrada. Sem guardar rancor, combinado?
— Eu sei…
— …Hmpf…
— Que pena profunda……
Quando a Yumina se mete, batendo as mãos, as três desviam o olhar e se aquietam. …Vocês apostaram alguma coisa?
— Touya, por favor, comece a preparar a partida. Precisamos reportar o ocorrido da vila à capital.
A Olga-san e o Garun-san chegam e nos apressam pra partir. Como o clima estava estranho, aproveito e vou pra carruagem. O olhar nas costas me incomoda, mas vou fingir que não percebo.
— Kohaku, aconteceu algo enquanto eu dormia?
Mando telepatia pro Kohaku, que deve estar na carruagem. Talvez ele saiba.
— Aah, bom… como dizer… isto… houve uma batalha entre mulheres, digamos…
— …?
Não entendi, mas é fato que, fora a Yumina, estão de mau humor. Preciso dar um jeito… Ah.
Me ocorreu uma coisinha; fui à casa do chefe, negociei e consegui "aquilo".
Na carruagem que sacoleja, eu, aliviado por as três finalmente terem voltado ao bom humor. Nos braços da Elsie, da Lindsey, da Yae e da Yumina, brilhavam pulseiras prateadas.
Com [Modeling] sobre algumas peças de prata que comprei da casa do chefe (paguei direitinho), fiz as pulseiras. E as dei a todas, como sinal da gratidão do dia a dia.
No começo se espantaram, mas receberam felizes. Vendo elas espiando de canto a pulseira no braço, pelo visto gostaram. Volta e meia abrem um sorrisinho, o que me dá um certo receio…
— Olga-san, quanto falta pra capital?
— Pra capital, Berge, faltam uns dois dias e pouco. Numa cidade no caminho, Touya, talvez você devesse arranjar alguma arma.
Hmm, é. Pelo que o Garun-san disse, pra mandar fazer uma arma com o chifre de dragão, é melhor na capital. Mas ficar desarmado até lá também… Dá pra lutar só com magia, mas bate uma insegurança.
Hm, peraí, é só fazer eu mesmo com [Modeling]? Não, se eu errar, a perda é grande…
— Bom, são só dois dias; mesmo sem arma, eu resolvo com magia.
Comprar uma arma de quebra-galho por só dois dias é bobagem. Chegando à capital Berge, deve ter arma melhor. Quando respondo isso, a Olga-san, como quem lembra de algo, tira da bolsa uma coisa embrulhada em pano.
— Ah, é mesmo, o chefe me pediu pra guardar isto.
A Olga-san me passa uma faca embrulhada. Faca preta de um gume, lâmina de uns 20 centímetros, levemente curva.
— O que é?
— …? Ouvi que estava cravada no olho do dragão… Não é sua?
Ah, aquela que se cravou no olho do dragão naquela hora. O chefe recolheu, hein. Recebo da Olga-san, embrulho de novo e tento entregar à Yae.
— Toma, Yae.
— …? Não é deste servo, viu.
Hã? Então a Elsie… também não? A Lindsey não seria. Hã, então de quem é esta faca? Ou melhor, tinha alguém lá? Alguém estava naquela cena e nos ajudou? Bom, como ajudou, não parece inimigo, mas……
— Kohaku. Naquela hora tinha mais alguém além da gente?
— Sim. De fato senti uma presença no alto das árvores do bosque. Provavelmente dois… Como não havia sede de sangue contra nós, achei que fosse algum aldeão.
Confirmo com o Kohaku por telepatia. É certo que alguém vigiava a nossa luta com o dragão. Mas pra quê?
Aliás, na cidade de Langley, teve uma presença de alguém me observando, a mim e à Yumina. Será o mesmo?
Por mais que eu pense, não sei. Examinei a faca, mas não vi nada de diferente.
Por ora, vou guardar. Sem bainha é incômodo.
Mesmo assim, quem será, afinal……?