Capítulo 48 – A Situação das Maids e a Cúpula.
— Somos do “Espion”. Agentes de inteligência diretamente subordinados a Sua Majestade, o rei de Belfast — explicou Lapis-san.
— Do rei? — perguntei, surpreso.
— Sim. Atualmente, estamos encarregadas da proteção pessoal da princesa — confirmou ela.
Entendi. Achei que o rei era bem liberal deixando a filha viajar assim, mas tinha isso por trás. Elas tavam protegendo Yumina nas sombras.
Lembrei daqueles barulhos no forro do “Lua Prateada”… Achei que era rato, mas deviam ser elas. “Espion” parece uma mistura de guardas secretos com espiões.
— Só vocês duas na proteção? — perguntei.
— Não~ Tem mais algumas~ Todas meninas~ — respondeu Cecil-san, com aquela voz arrastada.
Todas mulheres, hein? Faz sentido pra vigiar em lugares como forro ou vestiário, pensando na privacidade.
— Vocês nos seguiram desde Belfast? — perguntei.
— É a missão — respondeu Lapis-san.
— Naquela vez que voltei pra casa com [Portal], vocês não tavam lá. Então o mordomo Laim-san também tá no esquema?
— Sim~ — confirmou Cecil-san.
Fui enganado direitinho. Pelo visto, serem da guilda das maids é verdade. É uma cobertura pra infiltrar e ganhar habilidades necessárias. Quase todas as agentes mulheres do “Espion” são registradas lá.
— Ah, a faca que cravou no olho do dragão foi sua, Cecil-san?
— Fui eu. Sou especialista em facas de arremesso — respondeu Lapis-san.
— Ehehe~ Não é pra tanto~ — disse Cecil-san, corando, com aquele jeitinho fofo.
Essa mulher toda mole é especialista em facas? Aparências enganam mesmo.
— E agora, o que vão fazer? — perguntei.
— Continuar protegendo Yumina-sama nas sombras… Mas temos um pedido, senhor… — disse Lapis-san, me olhando de canto, hesitante.
Para de me chamar de senhor…
— Por favor, não contem pra princesa quem somos de verdade… — pediu ela.
— Se ela descobrir que tem guarda-costas, o rei vai levar bronca dela~ — explicou Cecil-san.
Por isso, hein? Faz sentido. O rei posou de “confio na minha filha”, mas na real não confiava nada.
Beleza, não vou contar. Combinamos que continuariam como antes, nos despedimos e voltei pras meninas.
Expliquei pro Kohaku por telepatia, mas pras duas disse que “eles fugiram”. (Tecnicamente, fugiram com o flash.) Elas acharam estranho, mas engoli a história, e voltamos pro castelo naquele dia.
No dia seguinte, rolou a reunião entre os reis pra discutir a aliança.
Foi uma cúpula mesmo, mas deu um leve atrito sobre quem ia onde. No fim, o rei de Belfast veio pra Mismede. Montamos o “espelho de transferência” na sala de reuniões.
Na sala, tinham Lyon-san e os cavaleiros de Belfast que vieram com a gente, e do lado de Mismede o rei ferino, o primeiro-ministro Glatz-san, Garun-san como capitão e alguns guerreiros.
Abri o [Portal] no espelho, e o rei de Belfast e o duque Ortlinde apareceram.
Todo mundo ficou boquiaberto vendo gente sair de um espelho, mas logo se recompuseram e receberam o rei com todas as honras.
— Bem-vindo a Mismede, rei de Belfast — disse o rei ferino.
— Agradeço o convite, rei de Mismede — respondeu o rei de Belfast.
Trocaram um aperto de mão. Daí pra frente era papo de estado. Eu, como figurante, saí da sala.
No corredor, pensei: tomara que dê tudo certo.
Aí, vindo do outro lado, vi Paula andando de um jeito fofo, com Leen ao lado. Ela tava com o mesmo visual gótico-lolita preto de sempre.
— Ouvi que o rei de Belfast chegou — disse Leen.
— É, agora há pouco. Tão na reunião — respondi, apontando pra porta guardada por soldados dos dois lados.
— E aí, pensou em virar meu discípulo? — perguntou ela de novo.
— Já disse que não — respondi.
Desde ontem, ela não para de insistir. Até falou em “discípulo provisório”. Que diabo de categoria é essa? Parece pior que discípulo normal.
Paula até fez sinalzinho de “vem com a gente!”.
— Mas a Paula parece bem viva pra um ursinho de pelúcia. Quase como se fosse de verdade — comentei.
— É porque acumulei [Programa] por 200 anos. Fiz ela reagir a várias situações e emoções. Humanos choram se doer, ficam bravos se zoarem, né? — explicou Leen.
200 anos? Essa pilha de programas faz ela parecer tão natural.
Pensei se com [Modelagem] eu fizesse um boneco humano e copiasse os programas da Paula, daria pra fazer um androide… Mas 200 anos é osso. Não dá pra copiar os programas dela?
Paula recuou um pouco, como se achasse meu olhar estranho. Essa reação também é programada.
— Aliás, a Paula tá intacta depois de 200 anos. Você refaz ela?
— Não. Uso minha magia sem atributo [Proteção]. É uma magia de guarda que protege de várias coisas. Na Paula, protege de sujeira, deterioração, traças… — explicou ela.
[Proteção], hein? 200 anos no mesmo estado é impressionante. Se usar na roupa, não precisa lavar. No corpo, não precisa de banho… Mas isso parece meio nojento. Sujeira não gruda, mas o corpo produz células mortas e tal.
— Quantas magias sem atributo você tem? [Proteção], [Programa], e ouvi da Charlotte-san que você usa [Transferência] também.
— Fadas têm alta afinidade com magias sem atributo. Quase todas usam pelo menos uma. Mas até eu só tenho quatro — respondeu ela.
Quatro magias sem atributo? A maioria mal tem uma. Faz sentido as fadas serem boas em magia. Fiquei curioso pela quarta dela.
— Touya-dono, o rei de Belfast chama. Venha — disse Glatz-san, abrindo a porta da sala.
Entrei, e os dois reis olharam pra mim.
— Touya-dono, tudo resolvido. Obrigado — disse o rei de Belfast.
— Que bom — respondi, aliviado.
Meu trabalho tava quase acabado.
— Vamos voltar pra Belfast. Deixo o resto com você. Rei de Mismede, até logo — disse o rei de Belfast.
Trocaram despedidas rápidas, e eles sumiram no [Portal] que abri escondido. Depois que saíram, fiz o combinado: peguei um martelo e destruí o espelho na frente de todo mundo.
— Touya-dono!? O que tá fazendo!? — exclamou Glatz-san, em pânico.
— Calma, olhem — respondi.
Ignorei ele e concentrei magia nos cacos e na moldura.
— [Modelagem]! — conjurei.
Os pedaços se transformaram em vários espelhinhos pequenos, uns 2 cm de altura por 15 de largura, com moldura de madeira. Encantei um deles com [Portal] escondido.
— Esses espelhos conectam com Belfast. Pra comunicações importantes, coloquem uma carta aqui. Claro, usem documentos oficiais pra confirmar autenticidade dos dois lados.
— Entendi. Mensagens que levam 20 dias ida e volta num instante. Conveniente. Vamos usar bastante pra amizade entre os reinos — disse o rei ferino, pegando um espelho e sorrindo.
Pronto, missão cumprida de vez.
Hora de voltar pra casa. Mal moro na mansão que ganhei. Quero relaxar um pouco.