Capítulo 60 – A Joia da Imortalidade e a Prece
Depois de destruir a barreira da estátua de Jizō, busquei pelos soldados mascarados na tela do mapa do smartphone. Beleza, tudo certo, dá pra buscar. E, na sequência, travei como alvo todos os soldados mascarados do solar.
— E-ei, o que é aquilo…?!
Diante dos pequenos círculos mágicos do [Multiple] que pairavam por todo o céu noturno, o tiozão Yamagata e os outros arregalam os olhos. Olhando aquilo, a Leen me pergunta.
— Vai fazer aquilo de novo?
— Melhor eliminar os caras que atrapalham, né. Se eu teletransportar pra lá e for cercado, fica complicado.
Ergo a mão pro céu, concentro a energia mágica e ativo todos os círculos mágicos do [Multiple].
— Luz, perfure; sacra lança fulgurante: [Shining Javelin].
A chuva de luz cai. Bela contra a noite escura, como uma chuva de meteoros. Mas, estando no lugar onde elas caem, eu não imaginava que houvesse tanto estrondo e tanta vibração. Lanças de luz caem por todos os cantos do solar, e os soldados mascarados ali presentes desabam. Pouco importava se era dentro ou fora: atravessando os telhados, a chuva de luz continuava a despencar. Eita… eu não tinha pensado nessa parte.
Quando enfim a chuva de luz cessou, ouviam-se gritos de soldados — "Ataque inimigo! É ataque inimigo!" —, mas, do mesmo jeito, travei como alvo os "soldados Takeda hostis" e mandei um [Paralyze]; aí o silêncio caiu de vez.
— Beleza, então bora.
— Ei… isso tudo agora foi obra sua?
Virando o pescoço devagar e piscando os olhos sem parar, o velho Baba abre a boca. Os outros dois também pareciam de queixo caído, mas, por fim, conseguiram arrancar a voz de algum lugar.
— Isto aqui… é coisa de outro mundo, hein…
— Ei, ei, será que com isso a gente não acabou com o Kansuke também, hein?
Como o Kansuke, em tese, também entra na busca agrupada por "soldados Takeda hostis", essa possibilidade existe. Mas eu estava convicto de que ele provavelmente estava ileso. Assim como o amuleto anula o [Paralyze], em quem tem muita energia mágica o efeito é fraco.
— O Kansuke deve estar inteiro, provavelmente. Bom, vamos acertar as contas de vez.
Abro uma [Gate] até o Kansuke, no recinto central. Ao atravessar a porta de luz, diante do amplo jardim de uma grande mansão, estava o homem caolho de pele escura. Em volta, jaziam soldados Takeda caídos e imóveis.
A área era iluminada por fogueiras, e, em meio às sombras bruxuleantes, o homem caolho de tapa-olho encarava de frente a gente, que surgira de repente.
— Ah, eu me perguntava de quem era a obra, e eram os senhores dos Quatro Reis Celestiais. Ora, que surpresa. Mas como, afinal, conseguiram?
— Não tenho obrigação nenhuma de te explicar. Vai logo pro inferno!
De espadão em riste, o Yamagata parte de uma vez pra cima do Kansuke. P-pera, esse cara é rápido pra agir! É a cara da aparência dele mesmo.
O golpe do Yamagata Masakage, capitão da linha de frente dos Takeda, parecia que ia decepar a cabeça do Kansuke ali mesmo. Mas foi barrado pela katana de um guerreiro de armadura que se interpôs pelo flanco.
— Quê?!
Aquele sujeito, envolto numa armadura vermelha, sacudindo os longos pelos brancos que se projetavam do elmo de mascaron leonino, repele à força o espadão do Yamagata que tinha aparado.
No rosto, uma máscara de oni vermelha. Quase dois metros de altura e músculos saltados a ponto de quase estourar. Este cara… será que…
— Meu senhor…
Ao ouvir a voz sufocada que o velho Baba soltou, "então é isso mesmo", e volto o olhar pro guerreiro de armadura vermelha.
Aquele é o Takeda Shingen. O antigo senhor dos Takeda. Agora, uma marionete do Kansuke.
— Kansuke, seu desgraçado! Vai usar o nosso senhor de escudo?!
— Escudo, que nada. O meu senhor apenas me protegeu, só isso. Mas dar trabalho ao senhor me deixa constrangido. Vou chamar alguém em seu lugar.
Energia mágica se reúne em volta do Kansuke, e um grande círculo mágico surge no centro do jardim. Isto é… magia do atributo trevas, magia de invocação!
— Venha, trevas; o que eu invoco é o guerreiro de ossos: [Skeleton Warrior].
Do círculo mágico, rastejam pra fora esqueletos armados com uma espada curva na mão direita e um escudo redondo na esquerda. Esse cara é especializado em mortos-vivos até o talo!
— Modo Lâmina.
A espada-arma Brunhild, sacada, se transforma num átimo em espada longa. E, com ela, parto ao meio, num golpe horizontal, o esqueleto que vinha me atacar. Mas o esqueleto, que devia estar cortado, volta a se mexer devagar, e o corpo se regenera. A espinha que eu cortara se reconecta, e ele se levanta de novo e ataca. Uou?!
— Venha, luz; salva fulgurante: [Light Arrow].
De algum lugar, vem a voz da Leen recitando o encantamento, e flechas de luz se cravam no esqueleto à minha frente. Nesse instante, com um estalar, o esqueleto se desfaz em pedacinhos, fica imóvel e não se regenera mais.
— Você sabe que morto-vivo é fraco contra o atributo luz, né? Sair cortando às cegas é só perda de tempo.
É mesmo. Devolvo a Brunhild ao Modo Arma e recarrego as balas. Balas imbuídas de magia de luz, claro.
Puxo o gatilho mirando o crânio do esqueleto que se aproxima. Junto ao estampido, banhado por uma luz ofuscante, o esqueleto, com a cabeça reduzida a pó, para de funcionar ali mesmo.
Olho pro lado: a Tsubaki-san, o velho Baba e o Naitō-san também derrubavam os esqueletos um atrás do outro, mas, contra um inimigo que se regenera por mais que se faça, não adiantava muito.
— Que saco. Vou acabar com isso de uma vez.
A Leen libera a energia mágica, e um círculo mágico surge aos seus pés. Ele vai se expandindo aos poucos e logo fica grande a ponto de envolver o jardim inteiro.
— Venha, luz; banimento radiante: [Banish].
No mesmo instante em que a Leen termina a entoação, todos os esqueletos do jardim viram partículas de luz e desaparecem. Que isso, impressionante. É a fada exímia em magia mostrando serviço.
— Tch, magia de purificação de luz, é? Nada mau. Mas…
Diante do Kansuke, o guerreiro de armadura vermelha se posta como que pra protegê-lo. Apontava a katana pro tiozão Yamagata à frente, mantendo-o à distância.
— Meu senhor! Saia da frente!
— Hehehe, é inútil. O meu senhor me protege. Eu sei muito bem que vocês não conseguem voltar a lâmina contra o senhor, a quem tanto devem. Ou seja, contra mim…
Cortando as palavras do Kansuke, crac! a máscara do Shingen se parte. Parecia que ia dar trabalho, então atirei nela.
Como se cortassem os fios, o guerreiro de armadura desaba ali mesmo e cai de bruços. Ô, então quebrar a máscara para mesmo. Giro a Brunhild, com que perfurei a máscara, num rodopio.
— Quê?!
Com uma expressão de espanto, o Kansuke volta o olhar pro Shingen caído e pra mim, que girava a Brunhild.
— Garoto, você…
— É que eu não devo nada a ninguém, né.
— Deve ser verdade, mas… considere os nossos sentimentos também, vai…
O velho Baba e o Naitō-san me lançam um olhar exasperado, mas, dizendo isso, fico sem saber o que fazer.
— He, hehehe, vocês não são nada maus. Mas eu ainda tenho isto!
O Kansuke tira o tapa-olho do olho esquerdo. Ali estava incrustado um olho que brilhava vermelho — não, uma joia. Emanando uma luz sinistra e agourenta, ela reluzia de modo macabro, como se pulsasse num batimento. Será que aquilo é a "joia"?
— Enquanto eu tiver esta "Joia da Imortalidade", não há como eu morrer! Ainda que me decepem a cabeça, eu me regenero num piscar de olhos!
— Foi com o poder dessa joia que você deu o poder da imortalidade aos soldados mascarados, não foi?
— Exatamente. O ponto fraco, um tanto inconveniente, é que, se ficam muito longe, só aceitam ordens simples; mas é um Artefato esplêndido, que dá ao dono uma energia mágica colossal e o poder da imortalidade!
O Kansuke responde à pergunta da Leen como quem se gaba. Então aquilo é a raiz de tudo mesmo.
— Toma essaaa!
O espadão do Yamagata desce sobre o Kansuke. O golpe com toda a alma decepa certeiro o braço direito dele, mas o braço caído vira na hora uma névoa negra e se dissipa, e do ombro direito do Kansuke um braço novo se regenera.
— Mas q-quê…!
— É inútil! Por mais que me cortem, eu me regenero quantas vezes for. Enquanto eu tiver esta joia!
— [Apport].
Um objeto redondo é puxado pra dentro da minha mão. Ou seja, sem a joia, ele não se regenera.
Jogo pra cima a reluzente esfera vermelha que puxei, exibindo-a pro Kansuke, e a aparo.
— Quê?!
Em pânico, o Kansuke leva a mão ao próprio olho esquerdo. Claro que ali não há mais a joia. Pensando bem, era ali que ela estava incrustada, esta coisa. Começou a me dar uma sensação ruim de segurar isso.
— Maldito, quando foi que você…?!
— Que mãos leves, hein. Isso também é magia de nulo?
— Ah, chama [Apport], e dá pra puxar objetos pequenos. Em horas dessas é bem útil.
A Leen espia a joia na minha mão e a pinça num gesto rápido, fitando-a com os olhos semicerrados. Franze o cenho e a encara mais ainda. Tá nojento, isso aí.
— Hunf, isto aqui não presta. Absorve a energia negativa em volta e tem uma maldição que turva o coração do dono. Parece que foi amaldiçoado em algum lugar. Que aquele cara enlouqueceu também é por causa disto. Pra controlar mortos-vivos, um coração límpido atrapalha, então, racional, até que é racional.
— Você consegue saber até isso, hein.
— Não subestima os olhos do povo das fadas, viu.
"Hum-hum", e a Leen estufa o peito magro toda orgulhosa. É a chefe do povo das fadas mesmo. Embora de vez em quando a gente quase esqueça.
— Artefato é um aparelho mágico da civilização antiga. Uma coisa valiosíssima, mas este aqui, depois de tanto tempo sugando malícia, se transformou no tipo de coisa que atrai desgraça. É melhor destruir.
Dito isso, ela ergue bem alto a mão direita que segura a joia, voltada pra parede.
— O que você vai fazer?! Pare!!
— Não quero.
De canto de olho pro Kansuke, que ergue a voz desesperado, a Leen abre um sorriso maldoso. Essa criatura adora mesmo fazer o que desagrada os outros…
A joia, arremessada com toda a força, bate na parede e se estilhaça em pedacinhos.
— Guááááaaaah!!!
Soltando um berro de cortar a alma, o Kansuke desaba ali mesmo. Se contorceu de dor por um tempo, mas logo ficou imóvel, e o corpo caído foi aos poucos ressecando feito uma múmia.
— O-bri… ga… do…
Com essa voz, ele por fim virou pó, foi levado pelo vento e sumiu rumo ao céu.
— Isto… como assim?
— É que o corpo daquele humano chamado Yamamoto Kansuke já estava morto, desde o começo. Energia mágica, vontade, vigor físico, tudo sugado por aquela joia, com certeza.
Ao murmúrio do Yamagata, que olhava as roupas deixadas pelo Kansuke desaparecido, a Leen responde com naturalidade. Ou seja, com a joia destruída, o corpo dele não conseguiu mais se sustentar. Ele já tinha virado um morto-vivo, então.
— Ah, o nosso senhor…!
Ao pequeno chamado da Tsubaki-san, me viro, e os corpos do Shingen e dos outros soldados mascarados também, como o do Kansuke, viravam pó e, levados pelo vento, sumiam no céu noturno. Tomara que assim eles encontrem o descanso…
Os Quatro Reis Celestiais e a Tsubaki-san juntam as mãos e oferecem uma prece aos mortos. Por ser japonês, talvez, eu também, naturalmente, juntei as mãos do mesmo jeito.