Capítulo 603 – O Mundo do Passado, e o Verdadeiro Desejo do Golem
『Naquele dia, eu perdi os dois… a figura dos dois, engolida pelo redemoinho de luz disparado pelo homem de cristal, desaparecendo, ainda tá gravada nos meus olhos até hoje』
Homem de cristal… provavelmente, deve ser aquele desgraçado do Gira, espécie dominante. A Arubusu tinha me contado que a esposa e filha de Kuromu Ranshesu morreram pelo canhão de partícula disparado pelo Gira.
『Eu vou recuperar os dois. Por isso, paguei vários sacrifícios, chegando até aqui. Superando o tempo, salvando os dois. Não vou deixar ninguém atrapalhar!』
— …Espera um pouco, seu objetivo é reviver os dois… ou melhor, é fazer com que eles não morram, é isso?
Queimando obsessão, transformando a mão direita em espada, diante do Gorudo, jogo a dúvida que tive.
『Não tenho outro objetivo além disso…! Não importa o que aconteça, eu…!』
— Você… não sabe?
『…?』
Se não souber mesmo, isso é tragédia. Não, não é que não sabe. Será que desse aí… da memória de Kuromu Ranshesu transplantada nele, tá faltando a memória de depois do descontrole…? Será que a transplantação de memória foi incompleta?
O golem dourado diante dos olhos, sem saber o que aconteceu com a esposa e filha depois… só pra recuperar os dois, fez tudo isso contra o mundo inteiro?
— Depois de perder a esposa e a filha, você lembra o que fez?
『Depois de perder, é? Eu… transplantei em "Dourado" a memória… não, não tenho essa memória…? Mas eu tenho a memória do Kuromu…?』
— Como você repeliu o homem de cristal que matou sua esposa e filha?
『Isso… isso, é…?』
O Gorudo para de se mover, feito pensando. Ele mesmo já deve estar percebendo. Diferente de humano, golem não esquece. Na Cristal-Q, que é o cérebro dele, a memória fica acumulada.
Por isso, se tiver essa memória, com certeza, deveria conseguir lembrar. Se tiver a memória…
Nós achávamos que o "Coroa" "Dourado" tinha recebido transplante de memória antes do descontrole de Kuromu Ranshesu, mas, pela fala e ação do Gorudo, parece que a transplantação foi feita depois do descontrole.
Isso talvez seja porque Kuromu Ranshesu tentou de algum jeito reter a própria memória que ia se perdendo.
Mas essa memória só foi transplantada até o ponto do descontrole, quando a esposa e a filha morreram.
Não sei se isso foi intencional, ou problema de capacidade de memória. Mas isso tá gerando tragédia.
— Do meu lado, tem o "Coroa" "Branco". O "Coroa" "Preto" eu acabei inicializando, mas o "Branco", por sorte, consegui garantir mantendo a memória de cinco mil anos atrás.
『"Branco" e "Preto"…!』
— Isso. Cinco mil anos atrás, as duas máquinas que serviam Kuromu Ranshesu. Segundo a memória do "Branco", quando os dois foram mortos, Kuromu Ranshesu fez descontrolar a habilidade do "Branco" e "Preto". Como resultado, Furaizu… os monstros de cristal foram empurrados pro entre-dimensão, e a morte da sua esposa e filha virou "não aconteceu".
『O, o que…!』
O Gorudo, arregalando os olhos, me olha. Talvez não consiga aceitar o fato de que tudo que ele fez foi completamente inútil… mais que isso, o objetivo dele já tinha sido cumprido.
Esse aí não é o próprio Kuromu Ranshesu. É só golem com a memória dele transplantada. Mas, mesmo assim, não consigo evitar sentir pena desse aí.
Se eu também perdesse a família diante dos olhos, e tivesse método de trazer de volta, não importa quem atrapalhasse, não importa que sacrifício precisasse pagar, também tentaria fazer isso mesmo.
『…Quando eu acordei, mil anos já tinham se passado… usando essa memória, tentei voltar pro passado com o poder do "Preto", mas descontrolei, e, pela distorção do tempo gerada, fui lançado ao contrário pro futuro…』
Com o poder do "Preto", pro passado…? [Retrocesso Temporal], é. Ouvi da vovó Tokie, mas disse que voltar pro passado é mais difícil que ir pro futuro.
Se tentar voltar mil anos, deve gerar bastante sobrecarga mesmo. O poder do "Preto" descontrolou, causando tremor dimensional, e, com a reação disso, o Gorudo foi lançado ao contrário pro futuro, é.
E, nesse descontrole, foi criado outro Gorudo… Gōrudo…
O Doutor tinha dito que, no momento do descontrole de Kuromu Ranshesu, o "Coroa" "Dourado" talvez tivesse sido lançado pro futuro, mas parece que era diferente.
『Ku ku… kuhahahaha!』
De repente, o Gorudo começa a rir feito louco. Essa risada parece rindo de mim, e também parece rindo de si mesmo.
『Eu, sem saber de nada, fiz tudo à toa, é isso!? Sendo lançado pro futuro, usando o poder do deus maligno de lá, finalmente achando que cumpri meu desejo… isso tudo foi inútil!? Baboseira desse tipo…! Acha que eu vou acreditar!?』
— Você…
Chama de raiva se acende no olhar do Gorudo. Isso seria contra mim, ou…
O braço direito do Gorudo se transforma em espada grande. No instante seguinte, a figura do Gorudo desaparece dentro da escuridão. Isso é aquilo de agora há pouco…!
— !?
Sentindo intenção assassina, quando torço o corpo, algo passa raspando bem ao lado, cortando o vento.
No cruzamento, através da fresta tipo viseira do Gorudo, acho que vi olho brilhando vermelho.
Provavelmente, deve ser camuflagem. Deve estar deixando todo o corpo, feito de Slime de Orichalcum, preto. Como não conseguiu deixar preto até o olho, tipo câmera, deve ter baixado a viseira.
Dentro da escuridão sem luz nenhuma, corpo preto é difícil de enxergar.
— [Liberação da Autoridade Divina!]
『Gu!?』
Com [Liberação da Autoridade Divina], disparo luz de poder divino ao redor. Desviando do ataque do Gorudo que emerge à vista, perfuro com a espada-arma do artefato divino segurada na mão o braço esquerdo dele.
Recebendo o bloco de poder divino, o braço esquerdo do Gorudo se rasga a partir do cotovelo.
— Desiste. Seu objetivo originalmente já foi cumprido. No mundo de cinco mil anos atrás, Kuromu Ranshesu deve estar vivendo junto com esposa e filha.
Falo isso pro Gorudo, mas, no fundo do coração, penso que não posso afirmar isso com certeza.
Mesmo que o ataque do Gira e o pessoal tenha virado "não aconteceu", não sei que tipo de vida eles levaram depois disso.
Infelicidade inesperada rola por aí à toa em qualquer canto.
A filha pode ter ficado doente, morrendo jovem, ou a esposa, depois disso, morrer em acidente, essas possibilidades não são zero.
O que é certo é que o homem chamado Kuromu Ranshesu, aos poucos, foi perdendo a memória de até então, e, eventualmente, deve ter perdido toda memória do passado.
Tanto o conhecimento enorme de engenheiro de golem, quanto o conhecimento de magia obtido cruzando mundos, e também a memória preciosa da família de até então.
Mas, penso que, se tivesse esposa e filha, deveria conseguir acumular nova memória.
A "compensação" do "Branco" rouba a memória de até então, mas não rouba a memória de depois.
Mesmo esquecendo o próprio nome, a esposa ao lado deve ter ensinado. Mesmo esquecendo quem ele mesmo é, a filha deve ter contado, provavelmente.
Assim, talvez não seja o gênio engenheiro de golem de antes, Kuromu Ranshesu, mas, como esposo, e também como pai, o simples Kuromu Ranshesu, penso que deve ter conseguido viver…
Isso tudo não passa de fantasia conveniente pra mim, mas… espero mesmo que seja assim.
『Agora, quer que eu acredite nisso!? Se isso, se isso for verdade, eu, pra quê, eu tô aqui!』
O que esse aí fez não é coisa perdoável. Mesmo sendo pela família, não vira motivo pra sacrificar outra pessoa.
Mas, se eu estivesse na posição dele, não tenho confiança em dizer que não teria feito a mesma escolha. Mesmo sabendo que não deveria fazer isso, será que não teria manchado a própria mão de sangue mesmo?
Mas, se souber que isso foi completamente sem sentido, ele perde a absolvição do coração pelo que fez.
Quando a desculpa "pela família" desaparecer, vai perceber o tamanho do que fez. Será que ele consegue aguentar isso…?
Talvez sinta como se tivesse traído o sentimento da família que serviu de apoio pro coração.
"Ele" talvez esteja querendo que alguém o julgue. Será isso interpretação minha arbitrária…?
De repente, percebo que o lado esquerdo tá ficando mais claro. A saída do túnel do tempo deve estar ficando mais próxima. Eu era feito estando dentro de rio correndo ao contrário, indo em direção à saída sem controlar isso.
O destino que o Gorudo… Kuromu Ranshesu tentava alcançar, com certeza, era…
『[Distorção… Espacial]』
— Nã…!?
Na ponta do braço direito que o Gorudo ergue, nasce distorção no espaço, e, enquanto eu tô surpreso, ele desaparece dentro disso.
Magia de teletransporte aqui só consegue se mover dentro desse túnel do tempo.
Mesmo indo em direção à entrada por onde entramos, nesse túnel do tempo ainda incompleto, pela torrente de tempo fluindo, não dá pra voltar pro local original do mundo real. Isso, a não ser que use [Teletransporte Interdimensional].
Se for isso…!
Quando direciono olhar pro lado esquerdo onde a luz entra, ali, da distorção aparecida, o Gorudo emerge.
E, assim mesmo, desaparece em direção à saída do túnel do tempo.
O que me surpreendeu não é só ele ter usado [Distorção Espacial], mas também ter usado habilidade de Coroa nesse estado.
Já não deve conseguir mais pagar "compensação" com aquela asa. Se for isso, só resta usar o próprio corpo como "compensação".
Usando até isso, tá tentando voltar pro mundo do passado, é. Sinto medo reverente diante desse sentimento que só posso chamar de obsessão.
De qualquer forma, não posso ficar só observando. Imediatamente, vou em direção à saída do túnel do tempo, saltando pro mundo do passado.
Será dentro de alguma floresta? Não tinha a figura do Gorudo, mas tinha algo tipo pegada pequena na terra úmida. Não tem dúvida que ele apareceu aqui.
Naturalmente, dentro e fora do túnel do tempo, o fluxo de tempo é diferente. Acho que a diferença de tempo de saída não atrasa nem um minuto na sensação, mas, fora, talvez tenha diferença grande.
Como esperado, acho que não deve ter diferença de várias horas assim, mas…
Olhando ao redor, vejo cordilheira grande ao longe. Aquilo se parece bastante com a cordilheira perto do laboratório encontrado em Zenoasu.
Aqui é… será que é perto mesmo de onde Kuromu Ranshesu morava?
『Gogaaaaaa!』
De repente, ouço grito vindo do fundo da floresta, indistinguível entre fera e monstro. Fera mágica?
Se aqui for o mundo de cinco mil anos atrás, talvez seja fera mágica forte.
O que ouvi vem da direção que a pegada do Gorudo seguiu. Vou olhar.
Usando [Accel], corro dentro da floresta, tomando cuidado pra não bater nas árvores.
Eventualmente, quando chego num lugar aberto da floresta, vejo o Tyrannosaurus de duas cabeças, que já encontrei antes, lutando contra o Gorudo. Não, é maior que aquela vez, e tem chifre também, então é espécie diferente. Se aqui for cinco mil anos atrás, talvez seja a espécie original do que eu vi.
O Gorudo, com a mão direita transformada em lança de assalto, avança em direção ao Tyrannosaurus atacando.
A lança de assalto crava fundo no peito do Tyrannosaurus, mas, "bokiri", quebra na base.
『Gofu…』
Cuspindo sangue pela boca e peito, o Tyrannosaurus de duas cabeças cai no local. Simultaneamente, o Gorudo também tomba pra frente.
O corpo do Gorudo já tinha começado a desmoronar. Cada peça do corpo desmorona, virando algo tipo areia. O Slime de Orichalcum do corpo, provavelmente, deve estar pagando "compensação". Se deixar assim, sem dúvida, eventualmente, ele vai parar de funcionar.
— A…
Diante da pequena voz escapando de algum lugar, direciono olhar ao redor. Então, encontro uma garota agachada embaixo de árvore grande.
Idade, deve ter uns sete ou oito anos… quase igual à Rinne e à Eruna. Cabelo cor linho claro amarrado em dois rabos, vestindo roupa tipo vestido-avental.
Vendo essa criança, sem perceber, prendo a respiração. Essa criança era criança que eu já tinha visto.
Sem dúvida. É a criança que aparecia na foto de Kuromu Ranshesu. Então essa criança seria…!
Enquanto direciono olhar do Gorudo caído pra ela, a menina fala comigo, timidamente.
— Aquele… quando eu ia ser atacada, de repente, essa criança me salvou… é golem do senhor?
— …Você conhece golem?
Se aqui for o mundo de superfície de cinco mil anos atrás, golem não deveria existir. Talvez tivesse robô tipo mecânico de suporte criado pela Doutora Babylon, mas acho que não existia o nome "golem". Ela conhecer isso quer dizer…
— Em casa também tem duas crianças parecidas com essa. "Arubusu" e "Nowāru"… agora já não se movem mais, mas…
Não se movem…? Se for isso, aqui é o mundo depois do descontrole do "Branco" e "Preto", é?
O Gorudo deveria querer ir pro tempo antes das duas serem atacadas pelo Gira… Deve ter havido diferença no tempo de saída pela luta trocando poder divino dentro do túnel do tempo.
A Arubusu e a Nowāru já pararam de funcionar. Kuromu Ranshesu não fez contrato de novo com elas.
A próxima vez que elas acordarem vai ser quatro mil anos depois, pela mão de Āsā Erunesu Berufasuto, ancestral da família real de Berufasuto.
Ela conhece a Arubusu e a Nowāru. Com certeza, essa criança é…
— Eu sou Mochizuki Tōya. Pode me dizer seu nome?
— A, sou a Ryūri. Ryūri Ranshesu.
Sem dúvida. Essa criança é filha de Kuromu Ranshesu.
…Passando pelo túnel do tempo, na frente, tinha a própria filha em risco de vida, e o Gorudo, com a memória do pai, a salva. Isso seria coincidência?
Se o Gorudo não tivesse criado o túnel do tempo, essa criança chamada Ryūri talvez tivesse morrido.
Isso não é como se, desde o início, ele tivesse vindo do futuro justamente pra salvar a vida da filha. Não pode ser, será que isso também tava incluído no fato histórico? Ou será só coincidência mesmo…?
— Ryūri!
— A, mamãe!
Do fundo da floresta, uma mulher jovem corre apressada. Idade, parece na casa dos vinte e poucos anos. Amarrando o cabelo cor linho claro, parecido com o da filha, num só rabo, deixando cair pelo ombro.
Abraçando a filha, com medo do Tyrannosaurus de duas cabeças caído, a mulher. No olhar dela, havia tom de alerta em relação a mim.
— Você é…?
— Aquele senhor é Mochizuki-san. Ele me salvou.
Nos braços da mulher, a Ryūri começa a explicar tudo até agora. Ouvindo isso, ela curva profundamente a cabeça pra mim.
— Sou Edda, mãe dessa criança. Obrigada por salvar minha filha. Como posso agradecer, não sei nem como…
— Não, na verdade, não fui eu que salvei…
Direciono olhar pro Gorudo, caído de bruços, sem se mover. Parece que tá tentando de algum jeito mover o corpo, mas já deve estar no limite. Só conseguia mover levemente o corpo, no máximo.
Me aproximo do Gorudo, falando com ele, mesmo alerta. Esse aí já começou a desmoronar. …Não deve durar muito tempo.
— Precisa de ajuda? …Quer ver, por último, a figura da esposa e da filha, não é?
『P, por favor…』
Uso [Levitação], flutuando o Gorudo, apoiando-o na base de árvore próxima.
— Quem salvou a filha de vocês foi esse golem. Eu só cheguei depois…
— Isso é terrível… até ficar tão danificado assim protegendo minha filha…
A Edda-san prende a respiração, mas dizer que a maior parte foi eu que fiz, de jeito nenhum consigo.
A Edda-san também parece conhecer golem. Sendo esposa de Kuromu Ranshesu, é natural mesmo.
— Senhor, essa criança tem nome?
— Eh? Aa, é Gorudo.
A Ryūri se aproxima do Gorudo, segurando a mãozinha dele já toda arrasada.
— Obrigada, Gorudo-chan. Por me salvar.
『Ryūri… E, dda…』
O Gorudo olhava pros dois com o olho vermelho piscando. Eventualmente, o piscar vai ficando mais lento, e, achando que apagou de repente, "fu", a cabeça cai, "kakuri", e o Gorudo para de se mover.
Completamente, a função para. Golem tem função de suspensão, mas isso é diferente. Não sinto mana vindo do G-Cube, a fonte de energia do golem.
— Parou de se mover…
— Já era o fim de vida útil dele. Não precisa se preocupar.
Pra não gerar sentimento de culpa na Ryūri, falo essa palavra de propósito.
Abro com [Cracking] o peito do Gorudo, que parou de se mover, tirando o G-Cube que tava dentro.
O G-Cube, cubo que originalmente deveria brilhar levemente verde, perdeu o brilho, rachado sem piedade.
E, dentro desse G-Cube, encontro núcleo pequeno de cor sinistra. Sinto levemente poder divino.
Isso deve ser o fragmento do deus da corrosão, hein.
Quando tiro isso, envolvo com meu próprio poder divino, esmagando de uma vez, destruindo em pedacinhos, ao ponto de não conseguir regenerar. Com isso, cumpri o pedido de Sua Excelência o Deus Supremo do Mundo.
G-Cube quebrar significa morte do golem. Diferente do estado de suspensão, a função básica e o resto, gravado na Cristal-Q, não desaparece, mas a experiência e memória de até então se perdem.
Seria tipo videogame antigo sem função de salvar, tirando o plugue da tomada? Volta do início mesmo.
Se tiver a Cristal-Q, conseguindo novo G-Cube, é possível até regenerar a máquina chamada Gorudo, mas isso significa que vai voltar pro estado inicializado.
Naturalmente, não tem como restar a memória transplantada de Kuromu Ranshesu.
Ou seja, a existência "Gorudo que herdou a memória de Kuromu Ranshesu" desapareceu deste mundo agora mesmo.
Esse aí… será que ficou satisfeito, encontrando por último a esposa e a filha…?
Não, esse aí é golem, não é a pessoa em si. Antes de mais nada, aquela memória, aquele sentimento em si, é coisa implantada, sendo só resíduo de dados.
Pensando assim, esse pequeno golem talvez fosse só palhaço miserável, interpretando a personalidade de Kuromu Ranshesu do passado.
Mas, a manifestação de emoção que ele mostrou, penso que era verdadeira mesmo.
Alma reside em máquina? Será, hein…
— Aquele, essa criança, dá pra me dar?
— Eh?
Afundando dentro do mar de pensamento, ergo a consciência diante dessa palavra inesperada.
— Eu, no futuro, quero conseguir criar golem igual meu pai. Se não me engano, com a Cristal-Q, dá pra herdar a característica, né?
De fato, é isso mesmo, mas a característica do Gorudo foi instalada depois, junto com a memória de Kuromu Ranshesu, e, provavelmente, mesmo consertando, deve virar máquina sem habilidade de Coroa, igual o Gōrudo.
— Tá pensando em consertar?
— Com o meu jeito atual, deve ser impossível, mas, algum dia… quero ver a figura dessa criança que me ajudou se movendo animada de novo.
— Esse aí… é golem sem característica, mas… se tá tudo bem assim, pode levar.
— Obrigada! Vou me esforçar consertando!
A Ryūri, mostrando sorriso radiante, toca o Gorudo. Essa esperteza me faz lembrar levemente do Kūn.
— Aquele… o senhor parece bem entendido sobre golem, será que, por acaso, é conhecido do meu marido… o Kuromu?
— Eeto… bom…
Conhecido, é. Se for conhecido no futuro, é conhecido, mas o outro lado é só existência que copiou a memória. Ponto complicado mesmo. Não é que tô mentindo, mas também não é totalmente correto.
— Desculpa, meu marido, sabe, esqueceu várias coisas num acidente…
— Aa, isso, eu sei. Falando em conhecido, mas, do lado dele, deve não me conhecer. Vim aqui por acaso, não vim com intenção de encontrá-lo, então…
Diante da minha fala, a Edda-san mostra claramente expressão de alívio. Por esse jeito, a memória de Kuromu Ranshesu já deve estar bastante perdida. Talvez tenha achado incômodo, sendo conhecido meu, ele não lembrar de mim.
Mais que não lembrar, nem sou conhecido dele mesmo. Não posso encontrar.
— Então, eu vou indo… por favor, dê lembranças ao seu marido. Ryūri, cuide bem do Gorudo, tá?
— Sim!
Direciono olhar pro Gorudo, com a maior parte do corpo já desmoronada, virando resto arrasado, quase irreconhecível.
O corpo dourado já perdeu a cor, a armadura desmoronou completamente, virando quase corpo nu. Consertar essa máquina vai virar máquina completamente diferente mesmo.
Será que Kuromu Ranshesu, vendo isso, vai perceber que é o "Coroa" "Dourado"? Se tiver perdido a memória, talvez nem perceba…
Não tenho intenção de afirmar o que esse aí fez, mas, chegando a esse ponto, cumprindo o objetivo, só essa determinação, respeito mesmo.
Troco cumprimento de despedida com os dois, ativando [Teletransporte Interdimensional], saindo do mundo de cinco mil anos atrás.
Até mais, pequeno golem dourado. Algum dia… se conseguir se mover de novo, dessa vez, proteja os dois por perto.