Capítulo 72 – Os Anéis e a Moeda de Prata de Parteno
— Hmm, e agora, o que eu faço. Sem dinheiro, a vida complica de vários jeitos, né?
O Ende, dando uma bocada no resto do crepe, quebra a cabeça. Eu também, mastigando o meu crepe, observava, com ele, as pessoas que iam e vinham diante do chafariz da praça onde nos sentamos.
— Bom, é. Só te resta arranjar algum trabalho e ganhar uma grana, né.
— E você, Touya, trabalha com o quê?
— Eu?
Renda… é, renda. Nunca prestei muita atenção nisso, mas qual é a minha profissão, afinal? Aventureiro, né. Afinal, a recompensa da guilda é a minha principal fonte.
— Eu ganho dinheiro cumprindo trabalhos da guilda. Derrubando bestas mágicas, escoltando comerciantes, essas coisas.
— Ah, saquei. Isso talvez eu também consiga fazer.
Que jeito fácil de falar. Bom, se for uma missão de nível iniciante, tomando bastante cuidado, dá pra se virar.
— Você vai se registrar na guilda? Mas, sem arma, vai dar certo? Bom, acho que existem missões de coleta também.
— Arma eu não preciso. Não é que eu vá derrotar um dragão.
Pretende fazer de mãos limpas? Será um lutador corpo a corpo, igual à Elsie? Ou um usuário de magia? Aliás, ele fala como se, com uma arma, até um dragão ele derrotaria — quanta confiança.
— Bom, de todo jeito, eu te levo até a guilda. Eu também tenho o que fazer lá.
— Que gentileza.
Jogando no lixo o papel do crepe que terminamos, começamos a caminhar até a guilda. É que eu preciso sacar o dinheiro pros anéis.
O Ende é um pouco mais alto que eu. Uns 173 centímetros. Os traços também são finos, meio andróginos, bem-feitos — o tal do "bonitão". Tch, não que eu esteja com inveja…
Ainda assim, o cachecol branco é tão comprido que parece quase tocar o chão. Mas, não sendo nem inverno, por que ele usa um cachecol desses?
— Isto foi um presente de uma amiga.
Quando pergunto, ele me responde isso com um sorriso. Não era bem isso que eu queria saber, mas será que tem algum motivo? Bom, não cabe a um estranho meter o nariz na privacidade ou nas escolhas dos outros.
Logo a placa da guilda apareceu. Ao entrar, como sempre, diante do mural havia uma agitação.
Arrasto o Ende até a moça da recepção e peço pra fazerem o registro dele. Enquanto explicavam o registro pro Ende, no balcão ao lado, eu saco o dinheiro. É uma coisa que acontece uma vez na vida (quero acreditar), então tenho que caprichar.
Quando recebo o dinheiro sacado, o Ende, ao lado, tinha ganhado um cartão de guilda preto.
— Conseguiu se registrar?
— Sim, graças a você. Agora é só cumprir as missões. Pelo visto, a guilda existe no mundo todo, o que ajuda. É que eu não costumo ficar muito tempo num lugar só.
É mesmo. Pra quem viaja, ele anda bem leve, hein. Aliás, sem nem dinheiro, conseguiu viajar até aqui, é impressionante. Sei lá, ele dá uma impressão de ingênuo, alheio ao mundo; não vai ser príncipe de algum país, né…
…Tenho um monte de dúvidas, mas, bom, não é da minha conta. Cada um tem lá as suas circunstâncias.
— Então eu vou indo. No começo, pega só missões fáceis, viu. Não se arrisca à toa.
— Tá, entendi. Obrigado, Touya. Tomara que a gente se encontre de novo em algum lugar.
— É, até qualquer dia.
Me despeço do Ende e saio da guilda. Que cara estranho.
Bom, vamos pra joalheria, o objetivo original.
As quatro, sentadas à minha frente, contemplavam, cada uma toda contente, o anel que brilhava no anelar da mão esquerda. Um anel simples, de platina com diamante, mas custou um bom dinheiro. Sinceramente, como eu não sabia o preço de mercado, deixei tudo a cargo da moça da loja; será que me empurraram um preço inflado? Depois de escolhido o design, quando eu disse "então, quatro desses", ela ficou de olhos arregalados.
Pelo visto, têm um efeito mágico imbuído, e o tamanho se ajusta naturalmente ao dedo. E nisso eu ainda acrescentei mais magia.
— Nesses anéis eu imbuí, com [Enchant] e [Program], o [Accel], o [Transfer] e o [Storage].
O [Accel], pra combate; o [Transfer], se usarem como um tanque de mana reserva, dá pra puxar energia dali mesmo quando a sua acabar. O [Storage] dá pra usar como armazém pessoal.
— Muito obrigada, Touya-san.
A Yumina envolve com a mão direita, com cuidado, a mão esquerda onde está o anel, e sorri toda contente.
Em seguida, tiro do bolso uma correntinha fina de acessório, feita de mithril.
— E isto é pra Elsie.
— Pra mim?
A Elsie recebe, intrigada.
— Com o anel no dedo, você não consegue pôr as manoplas, né? Então pensei que dava pra passar o anel nela e pendurar no pescoço.
— Ah, é mesmo. Obrigada, Touya. Que alegria.
A Elsie passa o anel na corrente e o pendura no pescoço pra me mostrar. É, assim também combina. Sendo mithril, não tem como arrebentar, e, contanto que esteja com ela, dá pra usar as magias imbuídas também.
De repente, lembro que tinha no bolso as moedas de prata que ganhei do Ende e, "tlin", as ponho na mesa.
— O que é isso?
— Ganhei de um cara estranho que conheci hoje, o Ende. Parece dinheiro de algum país, vocês conhecem?
A Lindsey, curiosa, pega uma da mesa e começa a examiná-la diante dos olhos.
— …Nunca vi, não… A cunhagem é muito bem-feita. Não deve valer um bom dinheiro…
Hmm, se for assim, então foi feio da minha parte, como se eu tivesse passado a perna nele. Era melhor eu ter levado ele a uma casa de câmbio. Ou, levando a uma casa de penhores, no mínimo valeria o preço da prata.
Pego também uma da mesa e, virando de frente e de costas, examinando de todos os ângulos, ouço uma batida na porta, e a Rene entra na sala. Segurando a porta aberta, em seguida a Shesca entra no cômodo, com as xícaras e o bule de chá.
— Trouxe o chá.
A Shesca dispõe as xícaras e vai servindo o chá do bule. Enquanto eu observava aquilo distraído, a Rene veio pro meu lado. Sei lá por quê, está toda sem jeito. O que foi?
— Escuta, mano Tou… patrão. Eu tenho um pedido… sabe…
— O Lime-san não está aqui, pode falar normal, Rene. O que foi?
— É que… eu também queria andar de bicicleta…
De bicicleta? Bom, na idade da Rene, começar a treinar não é problema. Andar pela cidade me deixa um pouco inseguro, mas, com alguém acompanhando, deve dar.
— Eu queria treinar, mas, nas que tem na mansão, meu pé não alcança. Ouvi que o mano Touya fez uma bicicleta pequena pra mana Sue tempos atrás…
Ah, é mesmo. As que ficam em casa são tamanho adulto. Claro que pra Rene é inviável andar nelas. Não tinha me ligado nisso.
— Entendi, faço uma só pra Rene. Que cor você quer?
— Sério?! E-então quero vermelha!
— É moleza.
— Eba! Obrigada!
Passando por cima do sofá, a Rene me abraça. Ei, ei, se o Lime-san estivesse aqui, você levava bronca. Bom, ver ela feliz não me faz mal.
Enquanto eu sorria amarelo pra Rene agarrada em mim, cruzei o olhar com a Shesca à frente.
— …Lolicon.
— Eeei! Calma lá!
Não vou deixar você dizer mais que isso, dona robozinha! Eu já fico me remoendo com a história da Yumina, então não vem soltar coisa desnecessária!
A Shesca me olhou com cara esquisita por um tempo, mas logo termina de servir o chá nas xícaras como se nada tivesse acontecido. Em seguida, repara nas moedas de prata sobre a mesa e inclina de leve a cabeça.
— Ainda hoje, neste país, usa-se esta moeda?
— "Ainda hoje"… Shesca, você conhece esse dinheiro?
— Sim. É uma moeda de prata de Parteno. Foi cunhada pela primeira vez há 5.284 anos, e era usada por aqui também. Que ainda exista até hoje é surpreendente.
Há 5.284 anos?! Diante das palavras da Shesca, fito demoradamente a moeda na minha mão. Não parece, de jeito nenhum, ter se passado tanto tempo. Está como nova. Por que o Ende tinha um dinheiro tão antigo?
…Peraí. O que foi mesmo que ele disse naquela hora?
Antes dava pra comprar as coisas com isto, sabe.
"Antes"? Como assim "antes"? Existe algum lugar onde dê pra usar a moeda usada no reino antigo?
Não me diga… É uma ideia ridícula, mas me peguei pensando que o Ende talvez seja alguém vindo do passado. Ou, quem sabe, igual à Shesca, alguém fabricado pela doutora Babylon.
— Shesca, entre os seres como você, criados pela doutora Babylon, existe algum menino?
— Menino…? Não, não há. A doutora não fabricou nenhum modelo masculino. Modelos de personalidade "meio masculina", desses havia alguns.
"Meio masculina", é. O Ende tinha traços andróginos. Eu não cheguei a confirmar se era menino. Acho difícil, mas…
Pra mim, mergulhado em pensamentos, a Shesca lança um olhar fixo e esquisito. Que foi.
— …Gay.
— Eeei! Tô dizendo, calma lá, dona robozinha!
Não foi nesse sentido que eu perguntei! Eu não tenho esse tipo de gosto! Sou hétero raiz! Adoro mulher!
— Seja qual for o gosto do mestre, eu apenas o sirvo, e nada mais. …Quer que eu vista um calção, talvez?
— Não precisa vestir nada!
Pô, por que essa daí tem um repertório tão vasto à toa de conhecimento desse tipo. É o tal "filho de peixe…", é? Olha só. Todo mundo aí de boca aberta, sem entender nada.
…Ué, por que só a Lindsey está de rosto vermelho…?