Switch Mode

Isekai wa Smartphone to Tomo ni – Capítulo 71

A Doutora e o Garoto Monocromático

Capítulo 71 – A Doutora e o Garoto Monocromático

A doutora em imagem tridimensional reajusta o cigarro na boca e abre de novo um sorriso de canto.

— Vou responder direitinho às suas dúvidas, então me perdoe. Primeiro: por que eu sei de você? É porque eu tenho um instrumento capaz de espiar acontecimentos do futuro.

Um instrumento que espia o futuro? Um Artefato? Ela é gênia a ponto de fabricar até uma coisa dessas… Apesar de doida.

— Combinando magia espaço-temporal com magia de luz, e aí magia de nulo… bom, vou pular os detalhes, mas, enfim, esse instrumento consegue projetar o futuro. Só que, infelizmente, ele tem o defeito de só conseguir espiar coisas fragmentadas e, além disso, de ter a época espiada já predeterminada. É um sistema que capta, através do tempo, alguém com a mesma onda biológica do usuário, e a projeta. No meu caso, ter todos os atributos acabou jogando contra, e eu só consigo espiar a sua época, longe demais.

Eu tenho a mesma onda biológica que essa mulher…? Comecei a ter uma sensação muito ruim. Como se eu estivesse sendo tratado como da mesma laia… definitivamente não é o caso, viu. Ter os mesmos atributos não quer dizer isso!

— Bom, com isso eu te encontrei. No começo foi por mera curiosidade, mas aos poucos foi ficando divertido. Eu acompanhava com prazer as aventuras suas e dos seus companheiros, mas, em certo momento, deixei de enxergar. Por quê? O futuro mudou. Não, mais do que "mudou", o correto é dizer que ficou indeterminado.

Indeterminado…? Como assim?

A (passado) ─────── B (futuro)

Supondo um fluxo do tempo assim, se no meio surge um ponto de alteração C, esse futuro deixa de ser B e vira B'.

Se o futuro que a doutora vinha vendo era B, então algum ponto de alteração C, capaz de abalar esse futuro, começou a ocorrer, e um futuro B' estava se formando… é isso?

— A queda de Parteno… não, isso já estava decidido, suponho. De fato, na época de vocês, a nossa civilização já está extinta. Enfim, a queda de Parteno pela invasão dos inimigos da humanidade, os Phrase, já estava incorporada ao futuro que eu via.

Phrase… Ela disse Phrase…! São aqueles monstros de cristal de que a Leen falou! A queda da civilização antiga há 5.000 anos foi provocada por aqueles monstros?!

— Nós também lutamos, mas não foi possível impedir a queda de Parteno por dezenas de milhares de Phrase. E a destruição do mundo, pela dispersão deles por toda parte, estava prestes a acontecer. Adiante daquilo, provavelmente, não há futuro. Por isso, eu deixei de enxergar o futuro.

O fluxo de A (o passado em que a doutora estava) pra B (o nosso futuro) estava virando B' (o futuro de destruição do mundo pelos Phrase) — é isso? Mas…

— Sim, como você também percebeu, por algum motivo o mundo não foi destruído. A partir de certo momento, os Phrase sumiram do mundo. O motivo, eu não sei. Mas, graças a isso, voltei a enxergar o futuro de vocês.

Quer dizer que não virou B'. Ainda bem. Se tivesse virado, talvez eu tivesse sido lançado num mundo diferente. E aí talvez eu não tivesse conhecido todo mundo.

Mas por que será que os Phrase sumiram de repente deste mundo…? Como nos velhos romances de ficção científica, será que surgiu um vírus, ou algo que só faz mal aos Phrase?

— Ou seja, foi por isso que eu sabia de você. Claro, o meu legado, "Babylon", foi deixado pra você. Use à vontade. E eu também fabriquei umas garotas do seu gosto, então use-as à vontade.

A imagem tridimensional abre um sorriso maroto e malicioso. Tch, que coisa é essa! Esse sorriso de "eu sei, né, fazer o quê. Você é homem"! Tipo uma irmã mais velha mexendo com o irmão!

— Por garantia, como não seria bom "Babylon" cair em outras mãos que não as suas, eu deixei tudo disperso; mas, bom, o resto, achar ou não achar, tanto faz. Se der na telha, é só procurar. Pelo visto, poder forte demais não é lá muito necessário na sua época.

Que relaxada! Tô na dúvida se essa mulher é gênia de verdade.

— Bom, ficou longo, mas encerro aqui a mensagem. Aliás, no instante em que esta mensagem terminar, a Francesca ficará completamente nua.

— Uééééh?!

— Brincadeira. Até mais.

De novo, jogo o smartphone no edredom. Aaargh! Tirou sarro até o fim, aquela doutora tarada! O quê?! Ela construiu "Babylon" só pra zoar comigo?!

— …Eu tiro a roupa?

— Não precisa tirar!

Corto logo a Shesca, que já tinha levado a mão à roupa.

De todo jeito, aquela doutora nos espiava lá do passado e sabia de nós. Mas, pra alguém que vê o futuro, deixar o círculo de transporte no fundo do mar de Ishen, dividir "Babylon" e tal — não parece nada coisa de quem vê o futuro.

Ela disse que só consegue espiar fragmentos, então talvez não dê pra espiar o que quer, na mira. Bom, pensar que, mesmo agora, posso estar sendo espiado lá do passado tira o meu sossego. Espero sinceramente que não seja o caso.

E outra coisa que me preocupa é a questão dos Phrase. Provavelmente, a doutora "não viu" que os Phrase existem também no futuro.

Aquele Phrase em forma de grilo que encontramos na antiga capital — não seria, por acaso, um que estava selado? Talvez tenha havido uma invasão dos Phrase também há 1.000 anos. E, por causa disso, a antiga capital virou ruínas e foram obrigados a mudar a capital… pensando assim, as peças se encaixam.

O que nós descobrimos talvez fosse um sobrevivente daquela época… um exemplar capturado por algum motivo, pra investigar um ponto fraco, sei lá.

Mas… se for assim… o que dizer do Phrase em forma de cobra que a Leen e o pessoal encontraram? Não seria um prenúncio de que vai acontecer o mesmo que há 5.000 e 1.000 anos?

Há 5.000 anos, o mundo quase acabou. Há 1.000 anos, a capital caiu. Dá pra dizer que a escala vem diminuindo. Mesmo que aconteça o mesmo desta vez, talvez não haja tanto estrago… pensar assim é ingenuidade demais, né.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não… não é nada.

Tudo isso não passa de hipótese. Se acabar sendo só preocupação à toa, ótimo. Mas, se acontecer o pior…

— …Não adianta ficar remoendo, né. Só ia deixar todo mundo aflito; melhor não falar nada pra ninguém.

— Sobre o meu yobai?

— Não é isso! Mas, sobre isso aí, fica calada!

— Sim, mestre.

No mesmo dia em que noivei, ser acusado de traição daria a maior confusão. Enxotei a Shesca depressa (já dei um quarto próprio pra ela, direitinho) e me enfiei na cama.

No dia seguinte, saí sozinho pro distrito sul da capital, o distrito comercial.

O destino: uma joalheria. É que, sabe, eu pensei em comprar os anéis de noivado.

Bom, com [Modeling] até daria pra eu mesmo fabricar, mas economizar no presente que se dá às noivas me pareceu meio feio, sabe.

Só que eu não faço ideia de quanto é o preço de mercado dessas coisas. Dizem "o anel de noivado custa três salários", mas eu já ouvi que aquilo não passa de um slogan que as joalherias espalharam. Aliás, a minha renda nem é por salário…

Pesquisei rapidinho na internet, e: o que o homem dá à mulher ao noivar é o anel de noivado. Esse é o tal dos três salários. E o que o casal troca no casamento, em par, pra usar sempre, é a aliança de casamento. Como essa fica no dedo o dia todo, na vida cotidiana, dizem que não precisa ser muito cara. O normal é nem ter pedra.

Num casamento comum, contando o meu, seriam três anéis pra comprar; mas, no meu caso, como tenho quatro esposas, entre casamento e noivado, eu vou precisar de nove anéis no total…

Ué? Só agora me liguei, mas esse costume é do meu mundo. Aqui talvez seja diferente.

Hmm, melhor confirmar com o atendente da joalheria, por garantia.

Enquanto andava pelo distrito comercial pensando nisso, ouvi vozes de uma discussão. "O que será?", e fui até a barraca de onde vinham as vozes; o dono da barraca, de braços cruzados, encarava um cliente.

— Escuta aqui, rapaz. Não sei de onde é esse dinheiro, mas com isso aí não dá pra pagar. Entende?

— Que situação. Eu só tenho isso, sabe…

A idade dele deve ser parecida com a minha. Camisa branca, jaqueta preta, calça preta e um cachecol branco comprido — um garoto perfeitamente monocromático coça a cabeça, sem jeito. E essa cabeça também era de um cabelo branco-níveo. Nas mãos, dois crepes pela metade.

— Se não tem dinheiro, é calote. Vou te entregar pra guarda.

— Ué, mas tô dizendo, não dá pra pagar com isto? Isto também é dinheiro, viu?

— Tô dizendo que neste país não dá pra usar esse dinheiro…!

— Ã, com licença…

Sem aguentar, eu intervenho. Pelo que dá pra deduzir, este garoto comeu a mercadoria sem ter a moeda deste país.

— Quem é você?

— Sou só um sujeito de passagem, mas eu pago essa conta. Assim tá bom, né?

— Bom, contanto que eu receba o dinheiro, não reclamo…

Pago uma moeda de cobre e, de quebra, ganho mais dois crepes. Quatro crepes por uma moeda de cobre é até barato. Levei o garoto e me afastei da barraca.

— Obrigado. Você me salvou.

— Que nada, em apuros a gente se ajuda. Mais importante, você não tem a moeda comum?

Pergunto ao garoto, que me agradecia. De que fim de mundo será que ele veio. Até a longínqua Ishen usa a mesma moeda comum.

— Antes dava pra comprar as coisas com isto, sabe.

O garoto do cachecol tira do bolso, "tlin", e me mostra umas moedas prateadas.

— Que formato estranho.

A moeda comum, as moedas de ouro e prata que a gente usa no dia a dia, são, em geral, redondas. Bem redondinhas. Mas esta tem formato octogonal. Que incomum. Pego uma da mão do garoto e a examino, virando de um lado pro outro.

— Se você gostou, pode ficar. Como agradecimento por agora há pouco. De todo jeito, aqui não dá pra usar mesmo.

— É? Então, sem cerimônia, fico com ela a título de pagamento dos crepes.

Sinceramente, eu não a queria tanto assim, mas, dizendo aquilo, ele não ia se sentir em dívida pelo de agora há pouco, pensei, e aceitei algumas.

— Eu sou Touya. Mochizuki Touya. E você?

— Ende. Prazer, Touya.

Apertei a mão que o garoto, que se apresentou como Ende, me estendeu. Lembro que, sei lá por quê, era uma mão extremamente fria. Foi este o meu primeiro encontro com o Ende.

Comentários

Opções

não funciona no modo escuro
Redefinir