Capítulo 70 – A Resolução e a Mensagem
— P-pera, como assim?!
— F-fizemos algo de errado, este servo pergunta?!
— …Você disse que ia… nos tomar por esposas…
— Touya-san?!
As quatro, de pé, se inclinam na minha direção. Droga, escolhi mal as palavras!
— E-espera! É "por enquanto". "Por enquanto" não vou me casar!
Ao ouvir as minhas palavras, todas param na hora. Ainda bem, parece que vão me ouvir.
— "Por enquanto"? Então quer dizer que um dia você vai se casar com a gente?
— Claro. Se vocês não fizerem objeção, tomo as quatro por esposas.
Quando respondo à fala da Elsie, talvez por terem se acalmado, todas vão se sentando.
— Eu gosto das quatro por igual, e vou cumprir a promessa de tomar vocês por esposas. Mas não é "agora". Eu não posso me casar com vocês assim, no embalo, só me deixando levar.
— …Como assim, este servo pergunta?
Inclinando de leve a cabeça, a Yae pergunta.
— No fim, é que eu ainda sou meio gente. Não sou adulto o bastante pra carregar a vida de outra pessoa, e não tenho ideias profundas. Por isso, quero que esperem só mais um pouco. Até eu conseguir acolher tudo de vocês com folga. E, se acharem que não há essa perspectiva, podem me largar a qualquer momento. Vocês têm esse direito.
Isto é um capricho meu. Eu quero fazer todas felizes. Mas falta. Faltam muitas coisas. Determinação, coragem, amor, conhecimento, e mais um monte.
Em suma, é pedir tempo até eu virar um homem digno de todas vocês; mas eu não pretendo arrastar vocês nesse capricho pra sempre. Estou dizendo algo que merece ser largado. Essa escolha, deixo pra elas decidirem.
— …É uma fala bem egoísta, hein. Mas o que você quer dizer eu entendi.
A Elsie deixa escapar as palavras com um suspiro. Está com uma cara entre exasperada e desinflada. De fato, eu não sou nada diferente de um banana que, pressionado a casar, fica enrolando. Não é à toa. Estou tentando tirar a liberdade delas por minha conveniência. Eu mesmo me acho um cara horrível.
— Que sacanagem, isso. Você não tá falando isso sabendo que a gente não conseguiria te largar?
Levei um olhar de reprovação. Não, eu não sou tão presunçoso assim. Embora eu quisesse acreditar que, logo depois dessa conversa, não fosse ser largado de cara.
— "Quem se apaixona primeiro é quem perde" — disseram bem isso, hein…
Com um sorriso amarelo, a Yae dá tapinhas no ombro da Elsie. A própria, ao levar os tapas, infla as bochechas e vira o rosto pro lado.
— …Mesmo que a maninha largue o Touya-san, eu vou esperar pra sempre. Até o Touya-san me tomar por esposa.
— P-pera, eu não disse que ia largar, oras!
Olhando a irmã atrapalhada, a Lindsey ri baixinho. Ainda bem, era brincadeira.
— Por mim também tá tudo bem assim. Já que todos confirmamos o que sentimos, o resto é só elevar. Até você gostar tanto, tanto da gente que não aguente mais.
— Eu também vou me esforçar pra vocês gostarem mais de mim.
Diante das palavras da Yumina, acabo sorrindo sem querer. Daqui pra frente, não somos só companheiros: somos família, namorados, noivos. Tenho que me firmar mais. E, o quanto antes, preciso conseguir, com confiança, pedi-las em casamento por minha própria iniciativa.
— Então, como agora todas somos noivas do Touya-san, que tal cada uma, por vez, ganhar um beijo do maridinho?
— Hã?! — as quatro.
A Yumina bate as mãos num "pá", com cara de "que ótima ideia!". O que essa menina vai inventar!
— P-pera, i-i-isso não é cedo demais ainda?!
— É que, m-mesmo, mesmo sendo noivos, há que se ter um trato com comedimento, este servo diz…!
A Elsie, de rosto vermelho, começa a se atrapalhar toda. A Yae também está de rosto vermelho do mesmo jeito. A Yae até vá lá, mas a Elsie, surpreendentemente, também é acanhada nessas coisas.
— Mas eu ganhei o meu ontem, viu?
— Hã?! — as duas.
Diante do murmúrio da Yumina, "vupt!", a Elsie e a Yae voltam o rosto pra mim numa velocidade absurda. Não, beijei mesmo, mas…
— E-eu também ganhei o meu… N-na testa, mas.
— Hã?! — as duas.
Quando a Lindsey, timidamente, ergue a mão, de novo, "vupt!", numa velocidade ainda maior, a Elsie e a Yae voltam o rosto pra mim. Não, beijei mesmo!
— E-en-en-então, na ga-na gente também, b-beija logo!
— É que… este servo queria que… fizesse…
Que reviravolta é essa! Vocês, até agora há pouco, falavam em "cedo demais", "trato com comedimento"!
As duas estavam de rosto vermelho, mas mantinham, firmes, um olhar direto em mim.
Tch, aqui não dá pra fugir, né… Afinal, eu já decidi acolher todas.
Estendo a mão e puxo a Elsie. Ela, por um instante, estremeceu, mas se deixou conduzir, dócil. Ponho a mão na bochecha dela e, devagar, aproximo o rosto…
— N-não, pensando bem, que vergonha!!
— Gfhó?!
O soco fulminante e certeiro que ela desferiu dizendo isso acertou em cheio a boca do meu estômago. E, assim, pelo punho dela, o segundo desmaio do dia. Bem que eu queria me poupar disso toda vez… pensei num cantinho da cabeça, enquanto soltava a consciência.
— Hng…?
— O senhor acordou?
Quando desperto, estou na cama do meu quarto. Sem eu perceber, já era noite cerrada. Sob a luz fraca e difusa de uma lamparina, a Shesca, vestida com um uniforme de maid, está sentada na cadeira ao lado da cama.
— Shesca…? Que roupa é essa…
— A Lapis-sama me emprestou. Disse que, se é pra servir o mestre, este é o uniforme.
Pensando bem, desde que voltamos eu tinha largado a Shesca por conta de outros… Não que eu tivesse esquecido, mas é que aconteceu evento atrás de evento envolvendo a minha vida… Aliás, o estopim de tudo foi essa menina.
— E, por que você está no meu quarto?
— Vim me deitar com o senhor esta noite.
"Zuf!", recuo pra beirada da cama. Minha cabeça grogue acordou de uma vez! Crise de castidade?!
— É brincadeira. Hoje eu não tenho intenção de fazer.
Como assim "hoje", "hoje"! Que índole péssima, essa menina!
— Hoje eu vim porque tenho um assunto. Há uma mensagem endereçada ao mestre.
— Mensagem…? De quem?
— Da doutora Regina Babylon.
Da genial doutora antiga que construiu a Shesca e o Jardim Suspenso?! Como assim?
Quando a Shesca, com a mão direita, faz no pulso esquerdo um gesto como o de medir a pulsação, a parte interna do pulso esquerdo se abre, e um cabo com algo parecido a um conector na ponta é puxado pra fora.
— Uau.
Quando vejo uma coisa dessas, me lembro, de novo, de que essa menina é uma robozinha mesmo.
A Shesca me estende a ponta do conector que puxou.
— Hã? E isso aí, o que eu faço?
— Sei lá? A doutora disse que, entregando a quem virasse o novo mestre, ele entenderia.
Falar é fácil. Infelizmente eu sou humano, então não tenho nenhuma porta pra conectar um conector. É pra eu botar na boca, é? …Ué?
Esse formato de conector… não me diga. Não, mas não dá pra pensar em outra coisa.
Tiro o smartphone do bolso do casaco pendurado na parede e conecto o conector que a Shesca me estendeu. Encaixa perfeitamente.
"Pipó!", soa um bipe eletrônico característico, uma barra semitransparente aparece na tela e, aos poucos, vai virando uma barra verde. Quando, enfim, a barra fica 100% verde, a tela do smartphone começa a brilhar.
— O-o que é isso, o que é isso?!
Quando a luz se acalma, eis que, em cima da tela, havia uma pessoa de uns 15 centímetros, de pé.
Meio semitransparente, com toda a cara de "sou uma imagem", mas o meu smartphone não devia ter função de projetar imagem em três dimensões.
A pessoa-imagem de uns 15 centímetros era uma mulher de uns vinte anos, de jaleco, óculos redondos e algo como um cigarro na boca. Cabelo comprido e desgrenhado, com cara de loiro desperdiçado. A blusa e a saia por baixo do jaleco também estavam vestidas de qualquer jeito, o que reforçava o desleixo.
— É a doutora Regina Babylon.
— Esta mulher é…?
O rosto da doutora, que estava com ar lânguido, de repente se ergue na minha direção e abre um sorriso de canto. Hã?
— Olá, olá, prazer em conhecê-lo. Eu sou a Regina Babylon. Antes de tudo, deixa eu agradecer por ficar com o "Jardim Suspenso" e com a Francesca. Obrigada, "Mochizuki Touya".
— …Hã?
Como assim? Por que uma pessoa de quase 5.000 anos atrás sabe o meu nome?!
Pensando bem, por que esse conector é do mesmo tipo do meu smartphone? Como se ela soubesse desde o começo…
— Eu entendo. A sua dúvida é mais que justa. É natural querer saber. Afinal, você é "esse tipo de pessoa".
"Esse tipo de pessoa"… Será que ela sabe até que eu não sou deste mundo?! Quem diabos é essa doutora…?!
— Que tal eu responder à sua dúvida. Olhe com atenção.
Dizendo isso, a doutora levantou a própria saia. Uma calcinha preta com renda salta aos meus olhos.
— É a minha favorita.
— Quero lá saber!!
Sem querer, acabei batendo o smartphone em cima do edredom. Que "esse tipo de pessoa" que nada! Não me transforma em "esse tipo de pessoa" sem minha permissão! Não foi a sua calcinha que me deu dúvida nem deu vontade de saber, oras!
— Hahaha. Brincadeira, brincadeira. Só uma brincadeirinha. Não leve a mal.
A imagem da doutora ri, marota, em cima do edredom. E, nesse meio-tempo, ficava levantando a saia, "lá, lá", tentando me exibir a calcinha. Essa doutora, é doida mesmo!