Capítulo 87 – Inauguração e o Café Cor-de-Rosa
Inesperadamente, o café de leitura "Tsukuyomi", recém-inaugurado, fez sucesso. Como o sistema em si é uma novidade, muita gente veio só pra ter o que contar, mas, pela comodidade do lugar, foi um atrás do outro acabando ficando mais do que pretendia.
Por causa disso, três dias depois a gente acabou criando também a modalidade passe livre de um dia. Nela, pagando um valor fixo, dá pra entrar e sair à vontade o dia inteiro. Sai um pouco mais caro, mas, comparado a passar o dia todo na modalidade comum, fica bem mais em conta.
As cadeiras e os quartos privativos começaram a faltar, então liberei o jardim e deixei a pessoa ler também nos bancos compridos de lá. Só que essa modalidade é toda self-service, e só pra leitura. Em dia de chuva, fica indisponível, infelizmente.
Mais do que tudo, o que pegou de surpresa foi a proporção de homens e mulheres entre os clientes. Como eu tinha em mente a imagem do "manga café", achei que viriam mais homens, mas era disparado mais mulher. Quase 80% eram mulheres. Provavelmente, imagino, foi o fato de os livros do acervo serem especializados em histórias que gerou esse quadro.
Homem, em matéria de livro, parece precisar de coisa prática — livro de estudo, enciclopédia, grimório, manual de esgrima e tal — e não se interessa muito por histórias. Mesmo assim, há homens que vêm ler histórias de cavaleiros, de aventureiros, crônicas de guerra.
Depois que percebi que era mais mulher, fui pondo nas estantes coisas novas que tendessem a agradar o público feminino. E, no meio disso, na hora em que pus o tipo de livro que a Lindsey tinha comprado, o número de clientes mulheres disparou de vez. Como tinha muita gente querendo ler aquilo, copiei alguns exemplares, a ponto de haver várias cópias do mesmo livro lado a lado. Que tipo de livro era, isso eu não posso dizer com a minha própria boca. No mínimo, dos homens que gostam de ler aquilo eu prefiro manter uma certa distância. Sinto risco à integridade física.
Bom, enfim, foi um sucesso estrondoso e o faturamento veio de sobra. Deu pra pagar direitinho, com folga, o salário das sete, então elas deixaram a casa e cada uma achou sua própria pousada. A Rebecca-san e o Logan-san já tinham saído havia tempo, e o Will saiu na mesma época que a Wendy. Na mesma pousada, claro. Não no mesmo quarto, mas. E ainda por cima a Wendy divide o quarto com a Silvie-san. Força aí, rapaz.
— Pois bem, depois de um tempão, vou dar uma passada na guilda fazer o meu ofício de verdade.
Também quero testar o smartphone, que recebeu [Program] novo, e a magia sem atributo [Gravity]. O resto do pessoal tinha compromisso; só a Yumina estava livre. Como o rank da carteira de guilda dela é o único azul, ela quer logo subir pro vermelho, igual ao nosso.
— Então vamos os dois?
— Sim. Um encontro de caçada!
Não, esse tipo de encontro sanguinário eu até dispensava…
A caminho da guilda com ela, ela me agarrou pelo braço, mas como atrapalhava o passo, pedi pra ficar só de mãos dadas. O que, convenhamos, também dá um certo embaraço.
Quando chegamos à guilda, como sempre os aventureiros estavam ali na muvuca. Quando a gente ia se dirigir ao mural de pedidos, um homenzarrão se plantou na nossa frente. Calça preta e, sobre a pele nua, um colete de listras de tigre. Na cintura, um grande machado de dois gumes; e, sei lá se por moda, no pescoço um monte de correntes tilintando. Na cabeça, nenhum fio de cabelo, e no rosto um sorrisinho de deboche.
— Ei, pirralho, que que tu tá fazendo aqui trazendo outro pirralho? Aqui não é parquinho de criança, não.
Cara que eu nunca vi. Algum sujeito que chegou na capital faz pouco? Um cara de gosto tão duvidoso a gente, vendo uma vez, não esquece.
Olhando bem, entre os aventureiros em volta também tem uns dando risadinha. Mas aquela risadinha não é dirigida a mim, não. É dirigida a esse cara aqui na minha frente.
Pois bem, o que faço.
— Tá me ouvindo, moleque?! Antes que tu apanhe feio, gugya?!
A mão dele se esticou em direção à Yumina, então atirei sem hesitar. Quer dizer, balada de paralisia, claro. Ainda assim deve ter doído como um soco no estômago. Como ele continua consciente, mostro a minha carteira de guilda bem diante do rosto dele.
— Quem julga pela aparência apanha feio, viu.
Arrasto o sujeito, que arregalou os olhos ao ver a carteira de rank vermelho, e o ponho pra fora da guilda. Experimentei deixar o peso do homem mais leve com [Gravity] — que prático, isso. Carreguei numa boa.
Quando volto pra dentro, os caras que davam risadinha há pouco caíram na gargalhada. Era isso mesmo que eles esperavam quando ficaram com aquele sorrisinho, é.
— Atracar com o "Matador de Dragões", essa foi de coragem!
— Alguém avisa o cara, vai! Todo mundo ficou de bico calado!
— Bobão! Aí não tinha graça nenhuma!
"Tem razão", e todos caíram na risada. Francamente…
Bom, na real, ser abordado daquele jeito não é a primeira vez também. No meu caso, como a aparência não é das mais ameaçadoras (vergonhoso de dizer), gente desse tipo me atraca direto. E, toda vez, acabo tendo que dar uma surra.
Bom, deixa pra lá. Enfim, vou até o mural e fico olhando os pedidos afixados. Desta vez somos só dois, então o mais seguro é evitar caçadas de grande número.
Pego, entre os pedidos vermelhos, uma encomenda de caçada.
— "Bloody Crab"? Caranguejo?
— Uma besta mágica: um caranguejo vermelho gigante. Tem quatro pinças grandes e como marca registrada uma carapaça duríssima. A carapaça vende como material pra armadura, e a carne também vende a preço alto, parece.
Veja só. Que negócio apetitoso, e olha que é caranguejo. Por ora, vamos pegar este. O alvo é um só, e o destino também não fica longe daquela mina onde derrotei o Golem de Mithril antes, então é fácil ir.
Destaco o pedido e levo até a moça do balcão. A Yumina é rank azul, mas, como eu sou rank vermelho, não tem problema. Se entrasse mais uma pessoa de rank inferior, aí o lado dos inferiores ficaria em maioria, e não dava pra aceitar.
— Ééé… o senhor Mochizuki é o dono do café de leitura "Tsukuyomi", não é?
A moça do balcão, que registrou meu pedido, puxou conversa meio tímida.
— Ah, sou sim…
— Então, ééé! Tem uma série dos livros do Reino Sacro de Refreese chamada "A Ordem dos Cavaleiros da Rosa". Tem previsão de chegar no acervo?
A moça, com as bochechas coradas, avançou meio exaltada. Pelo visto quer muito ler esse livro.
— Hmm, esse livro tá concluído?
— Sim! Devem ser 15 volumes no total, já encerrado!
Se está concluído, dá pra comprar. Se não for entrando coisa nova de vez em quando, o pessoal enjoa. Posso comprar na volta da caçada.
— Então eu providencio. Deixo nas estantes amanhã.
— Tão rápido?! Aah! Tô empolgadíssima! Amanhã eu folgo, então vou poder curtir o dia inteiro!
Despedidos pela moça, que pulava de alegria, saímos da guilda. A Yumina, calada ao meu lado o tempo todo, ficava me lançando olhares de relance.
— Ééé… Touya-san. Você sabe que tipo de história é "A Ordem dos Cavaleiros da Rosa"?
— Não, não sei. Você sabe?
— Sei, mais ou menos. É a história da ordem de cavaleiros de um certo país: o atrito entre a "Ordem dos Cavaleiros da Rosa", só de homens, e a "Guarda dos Lírios", só de mulheres, e, contra esse pano de fundo, uma série que retrata os romances dentro da ordem de cavaleiros…
…Pera aí. "Dentro da ordem"? Hã? Mas é uma ordem só de homens…
Recebendo meu olhar, a Yumina desvia os olhos devagarinho. Ué, é esse tipo de coisa?
— …Eu já prometi, então não dá pra não comprar, né…
— Pois é… Bom, no máximo você vai levar uns olhares meio estranhos do atendente da livraria, e só…
Ugh. Também não dá pra mandar a Yumina comprar no meu lugar.
— …Mas, hein… como é que você conhecia um livro desses?
— Aah, não, é o seguinte, pra não dar margem a mal-entendido eu já vou avisando: eu não tenho esse tipo de gosto, viu. Nunca nem li um livro desse gênero, de verdade!
Será? Lanço um olhar desconfiado pra menininha. Tem o exemplo da Lindsey, então; será que ela não foi influenciada do mesmo jeito? Não que seja errado, veja bem. Gosto é gosto, cada um tem o seu. Não vou me meter nisso.
— …Na verdade, eu conheço a pessoa que escreveu essa obra. É por isso que eu conhecia a obra também… Como é uma pessoa famosa, não dá pra publicar com o nome real, então usa um pseudônimo.
— Hã, quem? Alguém que eu também conheço?
— Não, o Touya-san provavelmente não conhece. …Não pode contar pra ninguém, viu? A senhorita Liliel Reem Refreese… a primeira princesa do Reino Sacro de Refreese.
…………………Hã?
Pera, pera, pera, pera, peraí. Uma princesa de um país tá escrevendo esse… esse tipo de livro?
— O Reino Sacro de Refreese e o Reino de Belfast têm, desde antigamente, convivência entre as famílias reais, de casa em casa… Então eu conheço bem a Lili-neesama desde pequena. Bom, ela foi ficando com "esse tipo de gosto" sem ninguém perceber e, no fim, passou a escrever ela mesma…
Que dor de cabeça… Vou procurar não chegar perto de Refreese. Se eu der o azar de topar com ela e virar tema ou modelo de alguma coisa, é desgraça. Aliás, eu ainda preciso ir comprar o livro! Argh.
Bom, não é que uma princesa vá estar numa livraria de cidade, então deve dar tudo certo.
Mesmo assim, tanto aquela moça do balcão quanto os clientes do café… será que, por acaso, eu não trouxe uma cultura desnecessária pra este país…? Não vou acabar com meu nome na história, vou?
Enfim, primeiro vamos caçar o Bloody Crab. Levei a Yumina e me teletransportei com [Gate].