Capítulo 5 – Gêmeas e o Fim do Dia
Entrando no beco e avançando pela viela estreita, no fim dela quatro pessoas — homens e mulheres — discutiam.
De um lado, dois homens; do outro, duas garotas. Os dois homens tinham cara de poucos amigos, e as duas garotas eram bonitinhas.
As duas aparentavam ter a minha idade, ou talvez menos. Mas… aquelas duas são muito parecidas… ou melhor, idênticas. Será que são gêmeas? Fora a diferença no olhar e no cabelo — uma de corte curto, a outra comprido. A cor é a mesma prateada nas duas.
Na parte de cima, ambas vestiam quase a mesma coisa: um casaco predominantemente preto sobre uma blusa branca. Já embaixo havia uma diferença: a de cabelo comprido usava culote com meias três-quartos pretas; a de cabelo curto, uma saia evasê com meia-calça preta. Dava pra perceber bem a diferença de temperamento — uma enérgica, a outra recatada.
— Não foi isso que combinamos! O pagamento era uma moeda de ouro!
A de cabelo comprido ergueu a voz contra os homens. Eles, em resposta, exibiam um sorrisinho de deboche. Um deles segurava algo parecido com um chifre de veado, feito de um vidro reluzente.
— Que história é essa? É verdade que eu disse que comprava este chifre de veado de cristal por uma moeda de ouro. Só que isso era se não tivesse defeito. Olha, tem um arranhão bem aqui, viu? Por isso o valor é esse. Toma, fica com uma moeda de prata.
Uma moeda de prata tilinta e rola até os pés das garotas.
— Um arranhão minúsculo desses não conta como defeito! Vocês desde o começo…!
A de cabelo comprido encara os homens com um olhar de raiva. Atrás dela, escondida, a de cabelo curto mordia o lábio, também indignada.
— …Chega. Não quero o dinheiro. Devolve o chifre.

A de cabelo comprido dá um passo à frente, decidida. Nos dois punhos cerrados, ela trazia umas manoplas grandes, meio desproporcionais.
— Opa, isso não vai rolar. Agora isto aqui é nosso. Não tenho a menor intenção de entregar pra vo…
— Desculpa interromper. Posso dar uma palavrinha?
Quando falei do nada, todos os olhares se voltaram pra mim. As garotas ficaram confusas, mas os homens logo me lançaram um olhar hostil.
— Ã? Quem é você? Quer alguma coisa com a gente?
— Ah, não. Quem eu procuro é aquela ali.
— Hã? Eu?
Ignorando o homem que me encarava em tom de ameaça, falo com a garota de cabelo comprido atrás dele.
— Será que você não me venderia o seu chifre por uma moeda de ouro?
Ela ficou um tempo me ouvindo de boca aberta, mas logo pareceu entender e respondeu à minha proposta com um sorriso.
— Vendo!
— Ei, vocês, que conversa é essa?! Isto aqui já é noss…
No instante em que o homem ergueu o chifre de cristal acima da cabeça, com um estrondo ele se espatifou em mil pedaços. A pedra que atirei acertou em cheio.
— Qu…?! O que você fez?!
— Como aquilo já era meu, faço o que eu quiser com ele. Ah, e vou pagar direitinho.
— Desgraçado!
Um dos homens saca uma faca do bolso e parte pra cima de mim. Vendo aquilo, me esquivo com folga. Por algum motivo, eu tinha certeza desde o início de que conseguiria desviar. Eu consigo enxergar. Os movimentos do oponente, a trajetória da faca.
Deve ser o efeito do reforço de capacidades físicas que Deus me deu. Abaixo o corpo e varro a perna do homem. Ele cai de costas e, sem perder tempo, cravo um soco no tronco dele.
— Ghá…!
O homem desmaia ali mesmo.
Quando me viro, o outro homem já lutava com a garota de cabelo comprido. Ele girava um machado de mão, mas, barrado pelas manoplas dela, não conseguia acertar o golpe decisivo. Logo ela avança como um relâmpago e seu direto de direita estoura na cara dele. O homem revira os olhos e tomba de uma vez. Impressionante.
Se a parada se resolvia assim tão fácil, talvez nem precisasse ter quebrado o chifre de cristal… Pensei que o melhor era acabar com o motivo da briga, mas… Acabei me arrependendo da minha própria burrice de querer me exibir um pouco na frente das garotas — mas, enfim, fazer o quê. Tiro uma moeda de ouro da carteira e entrego à garota de cabelo comprido.
— Aqui, uma moeda de ouro.
— …Pode mesmo? Pra gente ajuda muito, mas…
— Quem quebrou tudo fui eu, sem dúvida. Pode pegar, não tem problema.
— Então… aceito, sem cerimônia.
Dito isso, a de cabelo comprido recebeu a moeda com a mão enluvada pela manopla.
— Obrigada por nos ajudar. Eu sou Elsie Shilueska. Esta é minha irmã gêmea mais nova, Lindsey Shilueska.
— …Muito obrigada.
A de cabelo curto, atrás, fez uma reverência rápida e sorriu de leve.

Então eram gêmeas mesmo. A de cabelo comprido é a Elsie, a de cabelo curto, a Lindsey. Tá, decorei. Embora só dê pra diferenciar pelo cabelo e pela roupa.
— Eu sou Mochizuki Touya. Ah, Touya é o nome.
— Nossa. O nome e o sobrenome são invertidos. Você é de Ishen?
— Ah… é, mais ou menos.
Diante da mesma reação da Mika-san da pousada, respondo do mesmo jeito. Aff, que país é essa tal Ishen, afinal. Fiquei curioso, poxa.
— Saquei. Então você também acabou de chegar nesta cidade, Touya.
Comenta Elsie, bebendo um suco de frutas. "Nesta cidade" — ou melhor, "neste mundo" seria mais correto.
Depois daquilo, voltamos pra pousada "Lua de Prata". Como elas também procuravam onde se hospedar, eu as trouxe junto. Por eu ter aparecido com novos hóspedes, a Mika-san estava radiante. Uma pessoa fácil de ler.
Acabamos combinando de jantar os três juntos. Conversando sobre um monte de coisas, terminamos o jantar da Mika-san e agora tomamos um chá de sobremesa.
— A gente também veio aqui entregar o chifre de veado de cristal por encomenda daqueles caras. Que cilada. Eu até desconfiei que tinha algo estranho, sabe.
— …Por isso eu fui contra, falei pra desistir… Mas a maninha não me escuta…
A mais nova, Lindsey, encara a irmã Elsie como quem repreende. Uma irmã mais velha meio descontrolada e uma mais nova ajuizada, pelo visto. A Elsie parece do tipo destemido; a Lindsey, do tipo um tanto tímido.
— Por que vocês aceitaram a encomenda daqueles caras?
Pergunto às duas o que estava me intrigando. Fechar negócio com uns sujeitos tão suspeitos não me parece boa ideia.
— Por um contatinho, sabe. A gente já tinha derrotado um veado de cristal antes e ficado com o chifre; aí surgiu alguém querendo comprar e a gente achou que dava certo. Mas que nada. Realmente, se a gente não pega encomenda de um lugar sério, tipo a guilda, acaba se metendo em encrenca.
Suspirando, Elsie baixa os olhos.
— Que tal a gente aproveitar e se registrar na guilda, Lindsey?
— Acho melhor… Segurança em primeiro lugar. Vamos amanhã mesmo fazer o registro.
Guilda. Se não me engano, em jogos e tal, é tipo uma agência de empregos que arruma trabalho pra você? Tem vários pedidos, e, cumprindo eles, você ganha dinheiro. Hmm.
— Se não for incômodo, posso ir com vocês amanhã? Eu também quero me registrar na guilda.
— Pode. Então a gente vai junto.
— Sim… Vamos juntos.
As duas concordaram de bom grado. Se eu me registrar nessa tal guilda e conseguir trabalho, ganho algum dinheiro. Talvez assim eu crie uma base pra viver neste mundo.
Naquele dia me despedi das duas e voltei pro meu quarto. Enfim o dia acaba. Aconteceu cada coisa…
Cheguei a outro mundo, vendi minhas roupas, me hospedei numa pousada, ajudei umas garotas e arrumei briga. Que dia foi esse.
Por ora, vou anotar no smartphone os acontecimentos de hoje, à guisa de diário. De quebra, dou uma passada nos sites de notícias e leio um monte de coisa de lá. Ô, os Gigantes ganharam. Quê, aquela banda vai acabar… que pena.
Num ponto conveniente, desligo o aparelho e me enfio na cama. Amanhã é ir à guilda e me registrar. Como será aquele lugar… Pensando nessas coisas, o sono logo me venceu. Zzz.