Capítulo 6 – A Guilda e a Loja de Armas
De manhã, me arrumo, desço pro refeitório, e a Elsie e a Lindsey já estavam acordadas, comendo. Quando me sento também, a Mika-san traz a minha refeição. No café da manhã tem pão com ovo e presunto, sopa de legumes e salada de tomate. Gostoso já de manhã.
Terminada a refeição, nós três vamos logo à guilda. Ela fica perto do centro da cidade e tinha um movimento razoável.
O térreo da guilda é um restaurante, com um clima mais animado do que eu esperava. Na minha cabeça tinha imaginado um bar de brigões, mas, pelo visto, era preocupação à toa. Quando vou ao balcão, a moça da recepção me abre um sorriso simpático.
— Ã, eu queria fazer o registro na guilda.
— Sim, pois não. Contando com vocês aí também, são três pessoas?
— Sim, três.
— É a primeira vez que os três se registram numa guilda? Nesse caso, deixem que eu explico rapidinho como funciona.
— Por favor.
Basicamente, eles apresentam o trabalho de quem faz o pedido e cobram uma comissão de intermediação. Isso é a guilda.
Os trabalhos são divididos em rangues conforme a dificuldade, então quem é de rangue inferior não pode aceitar trabalho de rangue superior. Porém, se metade dos acompanhantes tiver alcançado o rangue superior, dá pra aceitar um trabalho mais alto mesmo com alguém de rangue mais baixo no grupo.
Completando o pedido, você recebe a recompensa; mas, se falhar, pode incidir uma multa por quebra de contrato. Hum, melhor escolher os trabalhos com cuidado.
Além disso, se você falhar algumas vezes e for considerado mal-intencionado, há também a penalidade de ter o registro na guilda cancelado. Quando isso acontece, parece que nenhuma guilda de cidade nenhuma te registra de novo.
Fora isso, me explicaram um monte de coisa: passar cinco anos sem aceitar nenhum pedido faz o registro caducar; não dá pra aceitar vários pedidos ao mesmo tempo; em pedido de extermínio, caçar fora da região indicada na ordem de serviço invalida tudo; em via de regra a guilda não se mete em brigas pessoais entre aventureiros — mas, se julgarem que aquilo prejudica a guilda, aí é outra história.
— Com isto encerro a explicação. Se tiverem dúvidas, perguntem aos atendentes sempre que precisarem.
— Entendi.
— Então preencham os dados necessários nestes formulários.
A moça da recepção nos entregou três formulários, mas eu não fazia a menor ideia do que estava escrito. Avisei que não sabia ler nem escrever e pedi pra Lindsey preencher por mim. Hum… não saber ler e escrever é mesmo um inconveniente.
A moça pegou os formulários, passou um cartão todo preto por cima deles e murmurou umas palavras que pareciam um encantamento. Depois nos estendeu um pequeno alfinete e pediu que cada um deixasse o próprio sangue impregnar o cartão.
Obedecendo, furo o dedo com o alfinete e, ao tocar o cartão com ele, letras brancas vão surgindo aos poucos… mas, de novo, não entendo nada do que está escrito…
— Este cartão da guilda tem uma magia que, se alguém além do dono o tocar, ele fica cinza em poucos segundos. É pra evitar falsificação. E, caso o percam, comuniquem a guilda o quanto antes. Custa um valor, mas emitimos uma segunda via.
A moça pega o meu cartão na mão e, depois de um tempo, o cartão antes preto vira cinza. Quando eu toco de novo, num instante ele volta a ficar preto. Que mecanismo incrível. Como será que funciona?
— Com isto o registro está concluído. Os pedidos de trabalho ficam afixados naquele mural; confiram lá e façam a solicitação na recepção de pedidos.
Nós três ficamos diante do mural onde os pedidos estão pendurados. Nossos cartões da guilda são pretos, o que indica iniciante. Conforme o rangue sobe, a cor do cartão muda, mas, por enquanto, só dá pra aceitar os pedidos pretos, de iniciante.
Elsie e Lindsey pareciam ler um a um, ponderando, pensativas. Quanto a mim……
— Encrenca… Preciso resolver de vez essa história de ler e escrever…
Se eu não entendo o conteúdo dos trabalhos, não dá nem pra começar. À noite vou usar o tempo pra estudar leitura e escrita.
— Ó, ó, que tal este aqui, Lindsey? A recompensa é boazinha e, pra começar, parece bom, não acha?
— …É. Acho que não é ruim. E você, Touya-san, o que acha?
— …Desculpa. Não faço ideia do que está escrito.
O dedo da Elsie, que apontava animada o cartaz no mural, se dobra sem força. Eita.
— …Então… extermínio de feras na floresta a leste. Cinco feras chamadas lobo-de-um-chifre. Não são tão fortes… então acho que a gente dá conta… Ah, a recompensa é dezoito moedas de cobre.
Pra mim, que não sei ler, a Lindsey leu o pedido meio hesitante. Dezoito de cobre… divididas por três, dá seis pra cada. O equivalente a três diárias da pousada. Nada mal.
— Então vamos nessa?
— Okay. Vou lá na recepção fazer a solicitação.
Elsie arranca o cartaz do pedido e vai solicitar na recepção. Lobo-de-um-chifre, é? Pelo nome, deve ser um lobo com um chifre na cabeça. Fico um pouco inseguro se vou conseguir derrotar um.
…Ué?
— Droga… Esqueci uma coisa importante…
— …O que foi?
Lindsey, intrigada, pergunta ao me ver parado feito bobo.
— Eu… ainda não tenho arma.
Tinha esquecido.
Pedido de extermínio sem arma, desarmado, não tem conversa. E foi assim que, ao sair da guilda, fomos rumo à loja de armas.
Caminhando pela rua em direção ao norte, surge a placa com o logotipo — uma espada e um escudo, fácil de entender, como sempre. E, como sempre, o nome da loja embaixo eu não consigo ler.
Quando abro a porta da entrada, um sininho preso nela toca, tlim-tlim. Como que reagindo ao som, lá do fundo da loja surge, sem pressa, um homem de meia-idade, grandalhão e barbudo. Enorme. Parece um urso.
— Bem-vindo. Procurando o quê?
Pelo visto, o tio urso era o dono. Mas que tamanho. Não deve ter menos de dois metros. Tem um corpo de lutador de luta livre.
— Quero comprar uma arma que sirva pra ele. Posso dar uma olhada na loja?
— Fiquem à vontade. Podem pegar pra experimentar.
O urso respondeu às palavras da Elsie com um sorriso simpático. Bom urso… digo, boa pessoa. Será que gosta de mel?
Olhando ao redor, há armas expostas por todo canto. Variedade enorme: de espadas a lanças, arcos, machados, chicotes, as armas mais diversas enfileiradas, ocupando cada espaço.
— Touya, você tem alguma arma com que se dá bem?
— Hmm… nenhuma em especial… No máximo, me ensinaram um pouquinho de espada.
Respondo à pergunta da Elsie pensando um pouco. Bom, foram as aulas de kendô da escola. E nem foi um aprendizado de verdade — mais um prolongamento de brincadeira de espadinha; sou praticamente leigo.
— …Então acho que espada é mesmo a melhor… No seu caso, Touya-san, sinto que combina mais um estilo de aumentar o número de golpes pela velocidade do que de impor pela força… então uma espada de uma mão, talvez.
Lindsey aponta a seção com espadas que se usam com uma das mãos. Pego uma que estava ali, ainda na bainha, e seguro o cabo com uma mão. Leve. Até poderia ser um pouco mais pesada.
De repente, uma espada pendurada na parede chamou minha atenção. Não, mais do que espada… aquilo é uma katana. Uma lâmina fina e curva, com uma guarda redonda de belo trabalho. O cabo enrolado com um cordão em fita e a bainha lacada de preto. Olhando bem, há partes um pouco diferentes da katana japonesa que eu conheço, mas dá pra chamar de katana sem problema.
— …O que foi?
— Ah, essa é uma espada de Ishen. Ficou interessado na espada da sua terra natal, né?
Enquanto eu fitava a katana, encantado, Lindsey e Elsie me chamaram. Então é isso, esta é uma espada de Ishen. Quer dizer, não é a minha terra natal, mas. Pelo visto, Ishen tem muita coisa em comum com o Japão. Fiquei ainda mais curioso, essa tal Ishen.
Pego a katana pendurada na parede e a desembainho devagar. Um lindo desenho na têmpera brilha, prende meu olhar. A lâmina é mais grossa do que eu pensava, e a katana em si é pesada. Ainda assim, pra eu brandir, é um peso sem problema nenhum.
— Quanto custa esta aqui?
À minha voz, o urso lá no fundo espicha o pescoço.
— Ah, essa aí? Duas moedas de ouro. Mas é difícil de dominar, viu. Não é um produto que eu recomende pra iniciante.
— Duas de ouro?! Não é caro?
— Quase nunca entra no estoque, e tem pouca gente que sabe usar. Vale isso mesmo.
Elsie faz bico, insatisfeita, mas o urso deixa passar numa boa. Provavelmente é o preço justo. Eu mesmo reconhecia que valia aquilo.
— Fico com esta. Duas moedas de ouro, então.
Guardo a katana na bainha, tiro duas moedas de ouro da carteira e ponho no balcão.
— Obrigado pela preferência. E quanto a armadura, como fica?
— Por ora vou deixar pra lá. Quando juntar uma grana, volto pra comprar.
— Tá certo. Então fatura bastante com essa katana aí.
Dito isso, o urso deu uma gargalhada e tanto.
A minha compra terminou aí, mas a Elsie comprou umas grevas (a armadura que cobre da canela até o peito do pé) e a Lindsey, uma varinha de prata. O estilo de combate delas, pelo visto, é: Elsie no ataque corpo a corpo na linha de frente, Lindsey com magia na retaguarda.
Saindo da loja de armas, seguimos pra loja de ferramentas. No caminho, fiquei meio curioso e confiro no mapa a tal loja de armas de agora há pouco.
"Armas Urso-Oito".
…O senso pra dar nome desta cidade é meio estranho.
Na loja de ferramentas, comprei uma bolsinha e um cantil, comida portátil, uma caixa de ferramentas com anzol e linha, tesoura, faca, fósforos e outras coisas úteis num kit, ervas medicinais, erva-antídoto e tal. Como a Elsie e companhia já tinham, só eu fiz compras aqui.
Pronto, tudo a postos. Agora sim, rumo à floresta a leste exterminar os lobos-de-um-chifre!