Capítulo 135
Naquela noite, fomos ao vilarejo da pobreza encontrar o vovô Will.
Por causa do Duke-sama, gastei bastante energia, mas estava bem mais disposta do que ontem.
— Ei, Alicia.
A voz ainda um pouco infantil do Jill ressoou na floresta escura e silenciosa.
— O quê?
— Você já conheceu a mãe do Duke?
— Não.
Balancei a cabeça de leve.
— A Okaa-sama do Duke-sama já faleceu.
— Ah, é assim.
— Já vi ela uma vez, num quadro. Parecia uma pessoa muito forte. A cor da pele do Duke-sama veio da mãe dele.
— Forte?
— Sim… A Okaa-sama do Duke-sama não era deste país.
— Como assim…
— Chegamos.
Interrompi a pergunta do Jill de propósito e disse isso.
Eu só vi o quadro uma vez, antes de recuperar as memórias da vida passada, então eu mesma não tenho certeza de nada.
Por isso, não posso falar sobre isso de forma descuidada.
— Será que o vovô está bem?
— Claro que está.
Disse isso e adentrei a névoa.
— Hã!?
Foi o Jill quem exclamou. Eu fiquei tão surpresa que nem consegui falar.
Aquele clima pesado e sombrio de antes tinha desaparecido. E quase não havia mais gente caída no chão.
Como assim? O que será que aconteceu, afinal?
O céu continuava coberto de nuvens como sempre, mas o clima do vilarejo estava mais claro do que o normal.
— O que está acontecendo?
— Não sei.
Ficamos parados ali, atônitos.
— Alicia! Jill!
Ouvimos ao longe a voz cheia de energia da Rebecca.
Será que foi a Rebecca quem reergueu este vilarejo? Cumprindo direitinho o papel de salvadora.
Mas será que a Rebecca sozinha conseguiria chegar até aqui? Por mais compreensiva que seja, sem conhecimento… só existe uma pessoa em quem eu consigo pensar.
— O vovô.
Ao meu lado, Jill disse isso, os olhos arregalados, olhando pro homem que caminhava ao lado da Rebecca. Eu também voltei os olhos pra ele.
…Não acredito.
— Quem?
Murmurei isso, olhando pra ele.
Só de andar, ele já emanava uma dignidade tremenda. Fui esmagada pela presença dele. Fiquei incapaz de dar nem um passo dali. Meu corpo inteiro se arrepiou, e estremeci. Que presença imponente.
O ar estava mais tenso do que numa audiência com o rei. No instante em que ele apareceu, o próprio ar mudou.
Minha coluna se endireitou naturalmente. Isso sim é o que se chama de tensão de verdade.
— Alicia, Jill.
Ele disse isso sorrindo. Só a voz era reconhecível. Uma voz gentil e calorosa.
Sendo a mesma pessoa, como o clima ao redor pode mudar tanto assim?
O cabelo branco, antes um pouco desgrenhado, agora estava penteado pra trás e fixado, deixando o rosto bem visível.
No olho esquerdo dele, estava o já familiar olho dourado. E no direito, um tapa-olho preto da mesma cor do meu.
Estando no mesmo estado que eu, por que o clima ao redor dele é tão diferente assim… As roupas também estavam mais bonitas que o normal.
Ele parou bem na nossa frente.
Sem perceber, dobrei os joelhos naturalmente. Fiz isso sem nem me dar conta.
Ajoelhar-se diante de alguém talvez seja a última coisa que uma vilã faria.
Mas… meu corpo se moveu por conta própria.
Recebi educação suficiente como nobre. Nobres têm um olhar mais apurado que pessoas comuns.
Por isso, consigo perceber por instinto, na maior parte das vezes, quem está acima de mim ou quem eu não teria como enfrentar.
De fato, o Duke-sama e a Liz-san talvez sejam pessoas que eu não conseguiria enfrentar, mas ele é excepcionalmente diferente até disso.
Cada célula do meu corpo estava dizendo que eu não teria a menor chance contra ele.
Como será que ele conseguiu esconder essa presença até agora…
— Ali?
A voz surpresa do Jill veio de cima.
— Levante o rosto, Alicia.
Ele se abaixou pra ficar no mesmo nível dos meus olhos e disse isso com uma voz serena.